Revista Philomatica

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

As joias da Guiné


La fantasia è un posto dove ci piove dentro. (A fantasia é um lugar em que se chove dentro.) O dito de Italo Calvino, como tantos outros, na maioria das vezes não vale por si, mas por aquilo que traz nas entrelinhas. Justaposto à ficção, no entanto, já na superfície evidencia a riqueza de expressão e a opulência de ideias que orbitam o mundo ficcional. Falemos, por exemplo, de autores reconhecidamente férteis: Alexandre Dumas, que não fica muito atrás de Balzac, exibe criatividade admirável. Seu romance, O Colar da Rainha, publicado em folhetim entre os anos de 1849 e 1850, e livremente inspirado no Affaire du collier de la reine, escândalo que frequentou o cenário político e judiciário da corte de Luís XVI na década de 1780, parece-me, dada a crônica da semana, história atual e nada ficcional.
E, como a literatura fala da literatura, é bem provável que Raul Pompéia tenha se inspirado em Dumas ao escrever As Jóias da Coroa, historieta que narra as aventuras do malandro Manuel Paiva que tenta roubar as joias pertencentes ao Duque de Bragança. Mas deixemos isto de lado! Adentremos ao real imediato: a não ser algumas pequenas coincidências, as joias e a malsucedida trapalhada, a malograda viagem do vice presidente da Guiné Equatorial ao Brasil, mostrou-se um fiasco e alimentou a crônica da semana, concorrendo com a ficção.
A Guiné Equatorial é um daqueles países da África que, criado à canetada pelas potências europeias, desenha-se como um retângulo incomodado em um de seus lados pelo Atlântico. O ponto extremo da região de Bata, no Litoral, assemelha-se a um nariz adunco e, considerando-se a fábula de Pinóquio, remete às lorotas contadas por Teodoro Obiang Mang, o vice-presidente e sua comitiva.
Explico-me ao leitor que não acompanhou as peripécias deste honrado senhor: Obiang Mang e sua comitiva de mais dez pessoas desembarcou no aeroporto de Viracopos, em Campinas, trazendo duas malas que continham nada mais nada menos que US$ 16 milhões em dólares e joias não declarados à Receita Federal. A saída para explicar tal fortuna foi a alegação de ter vindo ao país para uma consulta médica. Os incautos – e neste período eleitoral os temos em demasia – acreditaram que tal monta destinava-se ao pagamento do médico e exames.
Outros, porém – e dentre eles, este que vos fala -, desconfiaram da figura sombria do vice-presidente e de seus propósitos no Brasil. Obiang Mang, filho do ditador da Guiné Equatorial, responde a processo na França, país que o condenou a três anos de prisão por ter acumulado uma fortuna considerável, segundo os franceses, construída de modo fraudulento.
Obiang Mang, que briga judicialmente com os franceses para escapar do xilindró, talvez tenha se dado conta da seriedade jurídica dos europeus e resolveu ciscar em outros terreiros. Em 2015, juntou-se ao tráfico e resolveu financiar o carnaval carioca, em especial a Beijar Flor, escola de samba que homenageou seu país.
Também é sabido que governos recentes do Brasil sorriram às desbragadas para África, sob a alegação multiculturalista e anti-imperialista. Ideologias à parte, sinto o cheiro podre da corrupção que irmana brasileiros e africanos. Afora isto, leitor, vale refletir sobre as condições de vida do cidadão da Guiné Equatorial, que vive com menos de um dólar por dia, em miséria extrema.
A desconfiança, contudo, não deve se ater a Guiné. Há uma questão que a grande imprensa eximiu-se de fazer: em período eleitoral, a quem se destinavam as joias da Guiné? Financiariam quem, uma vez que ninguém conseguiu seguir o rastro do tão eficiente médico que submeteria o ditador a tratamento? Quais eram seus contatos no Brasil? A polícia, se quiser, descobre tudo, mas é preciso vontade e, convenhamos, tudo também depende das forças em ação, dos interesses, de modo que la corruzione è anche un posto dove ci piove dentro.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Notícias falsas: o que move a imprensa






Os jornalistas, e sobretudo os cronistas, são os maiores mágicos do meu conhecimento. Iludem o público de maneira singular e impingem-lhes, pelo valor de uma assinatura, a mesma novidade que recebem grátis das mãos do respeitável público.”





A epígrafe, leitor, subtraí-a de Machado de Assis, cronista por excelência, que frequentou a redação dos jornais por mais de quarenta anos. Nela, Machado refere-se à cata de notícias a que todo jornalista, quotidianamente, empenha-se na tentativa de produzir seu grande furo de reportagem. Mas dela também podemos subtrair algo menos romântico - digo romântico porque me vem ao espírito o grande escritor perambulando pela Rua do Ouvidor em conversas com homens do poder, escritores e toda a gente de sua época, a colher notícias para, depois, republicá-las, recheadas de imaginação e pitadas de filosofia, induzindo o leitor àquilo que degustara aos escrevinhá-las, qual seja, a dúvida, ao provar da fruta dentro da casca. Esta, é preciso que se diga, vinha polida com um verniz literário que, mesmo hoje, ido mais de um século, ainda nos dá água na boca.
Bebido o leite romântico, o que sobra é ácido e também amargo. A facilidade com que jornalísticas (e jornais), a serviços de ideologias e incorporações, ludibriam todos os dias leitores desavisados, têm feito da leitura de jornais uma tarefa árdua e cansativa, ato que exige até mesmo do leitor mais experimentado um exercício ad eternum de análise do discurso. Isto, é claro, não deve ser deixado de lado – nunca, mas, tem sido difícil lidar com a malandragem, vá lá, intelectual.
O curioso é que a imprensa, que produz notícias falsas diariamente, induzindo e cooptando leitores aqui e ali, semeia reflexões sobre o assunto. O Estadão publicou recentemente um artigo em que afirma estar os usuários da rede mais treinados a identificar notícias falsas. Não nego, assim como não nego que a imprensa tem-se esmerado em burilar seus textos à procura de uma tournure em que o gato é vendido por lebre com ressaibos de alta reflexão.
Ocorre que o dito artigo sustenta o argumento de que a atenção do leitor para elementos como o otimismo, promessas grandiosas, falta de referências, erros ortográficos etc, tem sido algo eficaz na identificação de uma notícia falsa, provocando sua desconfiança. Vá lá, isto conta, mas é muito pouco! Bons falseadores de notícias como a Globo, a Folha de São Paulo, a UOL e inúmeros outros órgãos da imprensa tradicional fazem isso diariamente e recheiam seus textos com referências, otimismo – e/ou pessimismo, uma vez que tudo depende do lado em que a banca toca. Os erros ortográficos, bem, estes deixaram de ser gralhas há muito tempo, tornaram-se multiculturais, arroz de festa!
A título de exemplo, sugiro que vejam um vídeo publicado no youtube em que um Sr, chamado Luciano Ayan, durante uma entrevista, mostra ao jornalista como a empresa que ele representa produz notícias falsas. A ironia, no caso, reside no fato de que o jornalista produzia uma matéria sobre as fake news.
Voltemos à reportagem do Estadão que destaca o fato de o leitor e/ou usuário de aplicativos recusar-se a compartilhar uma notícia que desconfia seja falsa. Ora, o grande jornal atem-se a toda essa farelagem ora simplória ora maldosa que é repassada via whatsapp, quando o grosso da maledicência é produzida pela imprensa (da qual faz parte) que recebe verbas governamentais, milita por interesses próprios, elege deputados, senadores e presidentes, enfim, que manipula e aliena!
Discute-se ainda que a disseminação de notícias falsas depende mais da sociedade que de instrumentos jurídicos ou ações de repressão. Isto é um fato, j’suis d’accord, mas, vejam, não falo daquele blogueiro que disse o que todo mundo sabe sobre certo candidato à presidência e que, sob a batuta da lei, penalizado, terá seus canais de comunicação retirados da rede, resultado de uma ação na qual candidato, advogado e juiz corroboram o dito de que fazemos parte de uma sociedade essencialmente hipócrita, já que preferimos a mentira à acidez da verdade.
Falo sim dos estratagemas e armadilhas usados pela grande imprensa, soturna e sorrateira, que, em conluio com o poder, induz as pessoas a consumirem e a acreditarem em algo que visa aos seus próprios interesses, ao imobilismo da sociedade e sustenta um sistema em que a maioria dos cidadãos são mantidos reféns de condições miseráveis intelectual e economicamente, tudo em proveito de uma casta de políticos, juristas e poderosos que se julga superior aos demais. Dessa corja toda, a mais nociva talvez seja a imprensa que “ilude o público de maneira singular”!

#amigos


Há dias, lembro-me de haver divagado sobre a solidão. Creio haver dito algo sobre como a solidão tem sido levada à condição de abandono. Malgrado deste meu ponto de vista, à busca do carro das ideias, deparei-me com as ideias de Zygmunt Bauman sobre a questão, que não são muito mais animadoras. Bauman, dentre outras observações, comenta em um vídeo disponível na rede (prova de que nesse mar de lixo, pode-se, com alguma perseverança garimpar uma ou outra pérola) a solidão em nossos dias.
Bauman ataca sobretudo a liquidez das amizades em nosso mundo contemporâneo. Estas, mensuradas nas redes sociais por um ícone cujas imagens estilizadas de homenzinhos sob um círculo vermelho anunciam novos e incógnitos amigos, são despossuídas de afeto e humanidade e, lidas matematicamente, não passam de números que, somados ou diminuídos, traduzem a sociabilidade do sujeito.
Isto posto, o sociólogo discute a definição de amigo em nossos dias. O que é ter um amigo? Ao fazê-lo, responde a questão comparativamente, colocando-se como sujeito cujos anos avançados lhe conferem alguma credibilidade, ainda que, ontem, tenha ouvido algo de um professor que desmerece o que acabo de dizer. Para este meu colega, a democracia derruba a barreira do tempo e da experiência, contudo, ao proferir sua máxima, começou justamente por ressaltar seus anos na instituição! Ao fazê-lo, o que ouvi foram só ruídos, nada além de esquisitices.
Mas, revenons à nos moutons: Bauman, que não é bobo nem nada e, acredito, nada panfletário como aquele meu colega do parágrafo anterior, evidencia justamente o fator etário para entabular seu argumento, de modo que afirma: “Um viciado em Facebook me confessou, não confessou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz 'amigo' e eu digo 'amigo', não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes”.
Assim, ligo os meus pontos a partir do nó central da trama - os amigos: de um lado, um ser solitário, no centro, milhares de “amigos” - hoje mesurados pela letra K (khilioi) -, e, no outro extremo, o mesmo ser solitário, que exclui ou adiciona amigos que desconhece, acumulando ou descartando-os ao sabor do humor e ou das opiniões.
Digo opiniões porque as amizades virtuais não são compatíveis com a pluralidade de pontos de vista, de modo que amigos, para a maioria, é aquela classe de pessoas que pensa exatamente como eu penso. Nessa lógica, criamos bolhas nas quais nos sentimos confortáveis e seguros. Ao menor sinal de um desacordo de pontos de vistas, o clique certeiro apaga comentários, perfil e tudo o mais que a tecnologia permite; quando não, o desafeto é conspurcado face aos ‘verdadeiros amigos’; sim, verdadeiros porque pensam como eu penso.
O que há de perigoso nessa adição e subtração voraz de cliques é que em nossas sociedades contemporâneas, as pessoas descartam relações, amor, companheirismo e, acreditem, amizades! Conectamos e desconectamos pessoas como fazemos tão logo encerramos uma compra ou consultamos uma informação na rede. Amigos virtuais não têm rosto. Sabe aquela história de que o corpo fala? Pois então, dos amigos virtuais desconhecemos o olhar, o gesto, o semblante que conforta, transmite calor, amor, compreensão, enfim, amizade, mas também impaciência, desacordo, repulsa e – por que não? - raiva. Amigos discordam, mostram caminhos, indicam-nos desvios, discordam!
Já, os amigos virtuais, estes não são muito afeitos ao diálogo, afinal, nas redes sociais é muito fácil evitar a controvérsia, algo que aparentemente indica suposta condescendência, contudo a desinteligência é tão salutar quanto a amizade, uma vez que nos afasta do eco de nossas próprias vozes, de nossas zonas de conforto, dos nossos reflexos, de modo que continua valendo o velho adágio de que mais vale um pássaro na mão que dois voando. Por isso, ainda que você tenha alguns poucos amigos, poucos mesmo e em quantidade que talvez não consiga fazer uso de todos os dedos da mão para contá-los, ainda assim, isto é preferível a contá-los em khilioi e jamais poder contar com eles.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Você se arrepende de quê?


A justiça e a honestidade pairam sobre a Terra. Ao menos, sobre nosso torrão tupiniquim, haja vista a proximidade das eleições. Índices sociais e educacionais são edulcorados e se o gringo daqui se aproximar há de crer que somos uma Finlândia perdida nos trópicos. Vá lá: deixemos a canalha de lado. O que me vem ao espírito enquanto deito estas garatujas sobre a folha – que, de fato, não é folha, mas tornou-se hábito isto dizer do espaço em branco sobre a tela -, foi-me suscitado por um pequeno texto, bastante pessoal, de um amigo. Nele, meu amigo discorre sobre uma questão que lhe fora feita: se ele se arrependera de algo na vida. Para este meu amigo, o arrependimento foi ter ignorado uma luz que vira aos 20 anos, quando lera a regra de São Bento – Ora et Labora.
Meu amigo acredita que ao ignorar tal chamado perdeu a oportunidade de, no silêncio e no anonimato, galgar certa espiritualidade que, para além de algum estudo, lhe permitisse o exercício da contemplação silenciosa por meio da qual pudesse adentrar o mistério e o sentido das coisas (palavras dele, que transcrevo de modo parafrástico). O desejo arrependido de meu amigo implica o abandono das vaidades mundanas, sejam elas pessoais ou profissionais. Algo que não só a filosofia nos ajudaria entender, mas sobretudo a religião. Ainda que esta última tenha sido vilipendiada em demasia em nossos dias, que leitor não faria uma meia volta até os célebres versos do Eclesiastes, nos quais o pregador discorre sobre as vaidades: “Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?”
O mundo moderno nos aponta uma felicidade medida através da hierarquia (nas universidades os títulos são sintomáticos medidores da fogueira das vaidades) e do ruído. A contemplação silenciosa sonhada por meu amigo figura-se algo medieval, típica de claustros e monastérios, se comparada a este nosso mundo ruidoso, em que os discursos são analisados em exaustão, estripados em suas palavras, em se fala muito e pensa-se pouco, muito pouco.
Em nossos dias a solidão tem sido levada à condição de abandono, por isso renegada. A sociedade cria artimanhas para subtrair as almas dos eremitérios pessoais e espirituais: o casamento e a procriação tem sido sinônimo de convivência, mas também de convivialidade, de modo que desde pequenos somos condicionados não só a raciocínios especiosos e vazios, mas sobretudo a vivermos sobre o crivo de poderes repressivos e disciplinados. Explico-me: a convivência, o estar junto, por mais salutar que seja, não é algo unilateral, haja vista que até mesmo o escudo de Aquiles, que Homero descreve um dos lados com maestria, do outro, certamente havia rústicas enarmas para que o guerreiro pudesse sustentá-lo. E é de se crer que as enarmas pressionassem seus dedos.
Conviver nada mais é que a constatação de que somos dois, uma vez que diante do outro nossa consciência nos olha de fora e nos avalia o tempo todo, de modo que nos constituímos enquanto ser em presença física e em virtualidade - por mais que essa palavra pareça deslocada. Assim, a solidão é a condição sine qua non de – e para – a existência do homem no mundo, jamais um abandono. É na solidão que podemos – e somos – nós mesmos! É na solidão que podemos nos expandir, crescer! Na solidão não temos os a vigilância de outros sobre nós, portanto, deixamos de sofrer com o poder repressivo e, isto sim, é salutar! Também não partilhamos do poder disciplinar, aquele em que nós mesmos nos punimos, às vezes, na tentativa de sermos aceitos e de compartilharmos de igual para igual da convivência.
Por fim, a solidão que nos leva ao autoconhecimento, à descoberta de nós mesmos, de modo a podermos suportar o outro sem, talvez, sufocá-lo, ou nos deixarmos sufocar neste mundo de prosas e versos em demasia!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A marca humana


“A releitura é quase sempre fatal para a maioria absoluta da narrativa ficcional brasileira.” O dito de Alfredo Mesquita, se levado à risca, é um convite ao abandono da releitura e, quiçá, da leitura. Principalmente hoje, quando o grosso das narrativas vem até nós por meio de spoilers, sejam estes garatujas fabricadas nas cozinhas “literárias”, sejam amigos leitores, de modo que a fábula perde um pouco do seu encantamento, pois já foi, digamos, conspurcada por opiniões outras. Estas, às vezes, nos abrem caminhos ao conhecimento, outras vezes, porém, nos embotam as sinapses, fazendo com que o desânimo se apodere de nosso espírito, o que resulta no abandono do livro. A crítica ou o entusiasmo alheio comprometem nossa leitura. Não generalizo, leitor: e se trago essa reflexão é no intuito de induzi-lo à abstração, a fim de que desconsidere muitos comentários, sobretudo aqueles ancorados nas circunstâncias, resultado das polêmicas fluídas que atribulam as mentes nesses dias tecnológicos.
Mas nem toda releitura é perda de tempo. Há textos que se preservam no tempo e, revelados, trazem-nos a sensação de descoberta, sentimo-nos arqueólogos de ideias. A releitura cumpre a função da flanela suave que desliza sobre a capa incunábulo afastando o pó acumulado ao longo dos anos. A releitura também une pontos de reflexões, atualiza as ideias, desvela a sensibilidade do texto, ressuscita mundos da entrelinhas, enfim, produz uma fermentação que estabelece diálogos entre autores e obras e, por que não, leitores?
Em tom confessional, revelo, foi o que me aconteceu esta semana. Ao reler um texto Antonio Candido, “O Portador”, em que o crítico reflete sobre a obra de Nietzsche, foi me impossível não estabelecer conexões em as ideias do filósofo e a obra de Philip Roth, que acabara de ler. Nietzsche afirma que “o homem é um ente que deve ser ultrapassado”. Ora, o extrato do texto nietzschiano, extirpado de seu contexto, e em mãos erradas, pode induzir o leitor a um atalho que compromete o raciocínio, levando-o a sustentar ideias obscuras. Contudo, o filósofo propõe ao homem que abandone e ultrapasse o ser de conjuntura, que somos em determinado momento, para, à frente, buscarmos estados mais eficazes e completos de humanização.
Ora, para isso Nietzsche sugere alguma dureza e a abolição da autocomplacência, qual seja, ser franco, honesto e direto consigo e com os outros. Ultrapassar as ideias ligadas às conjunturas emerge como repudio às filosofias e ideologias que cuidam mais da natureza do espírito e que soa, às vezes, meio autoajuda, para debruçar-se sobre o caráter, a ética, aspectos da atividade humana total.
Philip Roth, em A marca humana, relata a história de Coleman Silk, professor de letras clássicas que, após ter empregado uma palavra de duplo sentido, vê-se obrigado a pedir exoneração da universidade onde leciona, acusado de racismo ao referir-se a dois alunos que jamais compareceram às aulas. De forma cursiva, Roth trata-se das circunstâncias e conjunturas que movem os interesses dos diferentes professores da faculdade, lugar em que indivíduos supostamente portadores de conhecimento, vigor moral e intelectual, conspiram para a derrocada de Silk, em uma mostra de como a compreensão das pessoas, sob qualquer situação, é, no mínimo das vezes, ligeiramente equivocada.
Roth mostra que em meio ao ruído que acompanha as conjunturas que movem os interesses, a única opção talvez seja o silêncio. Este, face a confusão do mundo, emerge como antídoto para que sobrevivamos com um mínimo de sofrimento. Ao deslindar os embates de Silk face às atitudes nada ética de seus colegas de profissão, Roth tece uma narrativa cuja trama almeja – e consegue – dar conta de uma atividade humana total, em que o homem ultrapassa o homem, ainda que sedimentada nas questões de circunstâncias. Isso porque delas extrai a essência que dá liga às sensibilidades humanas sem o desprezo pelas ideias, não raro, encimadas pela razão.
Talvez por isso, Silk, o professor, depois de recuperar um departamento outrora fadado ao ostracismo, revela todo o seu ceticismo com o meio universitário, lugar marcado pela esterilidade intelectual. É claro, leitor, ao replicar isto, tomo o partido de Silk (e não conto seu segredo para não ser também um estraga-prazer), mas também vejo as circunstâncias, pois, não se pode negar que hoje há uma maioria que não coaduna discurso e ação. Para essa maioria, a marca humana é a hipocrisia, regada a um processo de sentimentalização de pessoas e situações, que lhe dá azo a rotular este ou aquele cultural e pejorativamente porque não compartilha de suas ideias e cabalas, adotando, de forma reptícia, sob o manto multicultural, uma postura de superioridade que, nas faculdades de letras, sobretudo, depõe contra a literatura.



quarta-feira, 25 de julho de 2018

A guerra necessária



Não faço mais qualquer referência à fala de Eco, meu padre santo, que em um de seus momentos de iluminação - e face a tamanha obviedade -, afirmou que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. O genial de Eco é a escolha das palavras, afinal legioni refere-se tanto a demônios quanto a soldados, e, diante do patrulhamento que campeia no campo aberto e minado das redes sociais, é mesmo possível que as legiões sejam compostas de tudo, exceto de anjos.
Mas não generalizemos! Há pérolas! É certo que na maioria das vezes, mesmo que as intenções sejam as melhores, elas parecem ir de encontro aos preceitos do Mestre e acabam mesmo é na cocheira dos porcos. Mas, se formos atentos e pacientes, em meio a toda essa farofada que nos é servida, alimentamo-nos de iguarias. Dias atrás, assisti entrechos de uma entrevista com a física e pensadora Vandana Shiva. Refletindo sobre suas palavras, sinto uma brisa e, por segundos, vejo desvanecer as fronteiras do meu ceticismo.
Hoje, diz-nos Shiva, nosso maior desafio é lutar contra a estupidez. Para isso, a pensadora oferece-nos uma série de exemplos, dentre os quais, alguns sobre a destruição dos sistemas aquífero, alimentício e climático. Ao fazê-lo, argumenta que os poderosos (e seus cientistas) partem da ideia de que acabada a água e a comida encontraremos um substituto. A pergunta que ela coloca, “há substitutos para as verdadeiras coisas que fazem com que a vida funcione?” soa instigante e desafiadora a certo cientificismo que insiste no substituto. É fato que a comida industrial que ingerimos tem feito muito mal à nossa saúde. Casos são reiteradamente discutidos na imprensa, ainda que sob o filtro do poder da indústria, mas as migalhas que chegam a nós surgem como pérolas de advertência. Talvez por isso um eco de memória me traga aquele americano que dizia ser melhor descascar que desembalar. O fato é que Shiva é de uma lucidez escassa nos dias de hoje, por isso, rara.
A estupidez é profunda; todo o esforço para extirpar do solo a planta, quando muito, resulta em um punhado de folhas que preenche as mãos, é superficial. O orvalho da manhã, a regar o solo, refresca as raízes e evidencia o absurdo da vida à medida que os novos brotos surgem verdejantes.   
A semana foi fértil: na Indonésia, aldeões mataram perto de 300 crocodilos para vingar a morte de um morador, que acreditavam ter sido morto por um dos répteis. Vale lembrar que no país os crocodilos fazem parte das espécies protegidas por lei. O grau de estupidez que regeu os aldeões - espécie sapiens, acredita-se - fica a critério do leitor decidir.
Em ponto pequeno, Hierophant, página das redes sociais, contribuiu com sua dose de estupidez. A remissão do nome a uma pessoa que interpreta mistérios esotéricos, vá lá, justifica-se, haja vista a página ter publicado artigo no qual relaciona a hora em que se acorda durante a noite com a situação do estado físico e emocional da pessoa. E afirma: trata-se de medicina chinesa. Acreditei. Afinal, a China é tão distante e só mesmo com um botão é que podemos matar um mandarim e herdar toda a sua fortuna sem que tenhamos qualquer implicação jurídica. Não acreditas, leitor? Balzac, Rousseau, Monier, Chateaubriand, Machado e outros estão aí e não me deixam mentir.
Mas, convenhamos: a estupidez maior veio com a vitória da França sobre a Croácia. Como todos os jogadores integrantes da seleção francesa são negros, exceto o goleiro - o que não deixa de ser sintomático -, o ulular dos que perderam foi tonitruante. Por todo o planeta, afirmou-se o óbvio ululante, inferindo certo racismo, dado o franco grau de seletividade. Explico-me: tratando-se de um imigrante africano pobre, o origem bleue normalmente lhe é renegada, porém os francos, ao vê-lo tornar-se vitorioso, outorgam-lhe o status de um français de souche (francês da gema).
Os franceses, é claro, multiculturalistas, afirmam ser os comentários racistas; para isso lançam mão de todo o arsenal teórico que entope mentes e bibliotecas e dizem se orgulhar de sua nação multicultural, ignorando o paradoxo que, por tradição, não explica o porquê de embora seu tataravô, bisavô, avô e pai terem nascido ao lado da cabana de Astérix, você ainda ser sempre un français d’origine brésilienne – isto, é claro, se seu tataravô um dia abandonou o calor das tropicais florestas tupiniquins para sentir os ares gelados da Bretanha. E voilà, de estupidez entupimo-nos todos, nos trópicos e nos meridianos - e quotidianamente.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Onde nascem os fracos


“Onde nascem os fortes”, título de um folhetim em cartaz, revela-se sintomático se confrontarmos a ficção à realidade. Questões de verossimilhança à parte - até mesmo porque sequer conheço o enredo do tal folhetim, portanto, qualquer coisa que venha a dizer seria pura especulação -, atenho-me ao título, que sugere um grupo de homens e mulheres perseverantes, resistentes às intempéries, cuja têmpera vigorosa vai de encontro às vicissitudes da vida.
Vá lá, por isso que a ficção é inebriante: quem não se lembra se Robinson Crusoé, que bateu os pés contra os pais, que o queriam advogado, para lançar-se ao mar em esplêndida aventura? Quem não se lembra de Julien Sorel, de aparência frágil, traços irregulares e nariz aquilino, que enfrenta toda sorte de pressões impostas pela sociedade e, malgrado sua origem modesta, revela-se ambicioso e sedutor, ultrapassando as mais diferentes dificuldades?
É possível que em um momento ou outro de suas narrativas, Defoe e Stendhal tenham transferido características de seus contemporâneos às suas personagens. Não quero dizer com isso que nos séculos XVIII e XIX não tenha havido seres bastante suscetíveis e fracos. Mas, convenhamos, eram outros tempos, aliás tempos em que as dificuldades se interpunham com muito mais frequência, não importa quais fossem as iniciativas a que se propunha o homem.
Mas, como disse, isso é ficção. Não por outra razão escritores usam de artimanhas para criar seus heróis, eternizando-os por meio da escrita, ao passo que toda uma raça de mortais, que vive no anonimato, não se esforça por deixar um vestígio, uma trilha, uma marca. Falo dos jovens de nossos tempos.
Vivemos época de muito falatório em que os discursos mais apreciados por essa geração de fracos são aqueles que reverberam a vitimização. Alguns educadores creditam o início do chororô atual a uma geração de pais que quiseram poupar seus filhos das agruras que, no passado, viram-se obrigados a vivenciar. A palavra “não” sofreu rápido interdito. Jovens, e muitos adultos de nossos dias, foram poupados de todo o sofrimento e de toda a frustração. Exímios e hábeis em determinadas atividades, são absolutamente desprovidos de crítica, deixam-se ser manipulados e sequer dão conta de que estão sendo alienados a cada instante em que repetem exaustivamente a cartilha deste ou daquele. O emocional desses jovens é frágil, não têm resistência alguma, sentem-se vítimas do sistema, dos pais, dos professores e de quem porventura lhes disser um sonoro “não”.
Se a criação dessa geração de fracos começou no recôndito do lar – que clichê! -, hoje ela tem continuidade nas escolas e universidades. Os estudantes – refiro-me quase sempre aos estudantes de humanas, com os quais tenho contato -, são politicamente atuantes, militantes, conhecem direitos das mais diversas naturezas, de todas as classes que compõem a comédia humana e versam sobre leis – nas redes sociais mostram-se juristas especializados em constituição, criminalística etc e etc. Professam uma erudição funkeira que urge contra aqueles que ousam desdizer suas afirmações categóricas, ao mesmo tempo em que defendem a liberdade de expressão, para, no fim, valer a máxima de que só aceitam que o outro diga o que querem ouvir, caso contrário, a tão propalada alteridade será constituída pela execução sumária daquele que contradiz o que tomaram por dogma. E, é claro, há sites e blogs especializados em entorpecer os fracos.
Como dizia, essa geração de jovens experts em tudo, mostra-se fraca e coloca-se como VÍTIMA quando deve cumprir com suas obrigações. Peça a um estudante para ler quatro, cinco livros, no semestre e o que se há de ouvir é choro e ranger de dentes. O primeiro a ser posto contra a parede é o professor, depois reclamam para outros professores e coordenadores. Muitos professores, sabendo que podem cair em desgraça, edulcoram a pílula, ou seja, reduzem a carga de leitura, escolhem os livros mais palatáveis, etc.  Da esterilidade intelectual partem para a sentimentalização. E, é claro, sempre encontram uma Delphine Roux pela frente a lhes oferecer o ombro e a incensar a vitimização.
Evidente que não generalizo, mas assusta o aumento de vítimas sem que ao lado imperem seus opressores; estes, para essa geração de fracos, são exponenciais e institucionalizados, de modo que hoje é comum ouvir professores universitários, por exemplo, creditar o baixo desempenho de alunos à opressão imposta pelo sistema.
Por fim, o que me surpreende é esses jovens não se responsabilizarem por seus atos, características dessa geração, afora a preguiça e o marasmo em enfrentar as vicissitudes da vida, transpor barreiras do quotidiano, de modo que os fracos – e aqui vou plagiar o modo de ser desses jovens, ou seja, culpabilizar alguém – nascem como resultado dessa sociedade que abomina os fortes. Talvez porque o lugar destes seja na ficção. É uma pena que não leiam! A leitura inspira!

Gritos patrióticos


Panis et circenses! Beatitudo est communis! Assim terminei minha crônica da semana passada. Como estamos a pleno vapor na Copa do Mundo, um dos parâmetros que uso para medir a alegria e a satisfação popular são os gritos histéricos que ouço durante os jogos. Não condeno o futebol, mas também não é algo com o qual perco meu tempo. Sim, leitor, a vida escorre pelos vãos dos dedos e 90 minutos, duas, três vezes por semana, ao final, enferrujam o espírito, entorpecem o cérebro, atrapalham as sinapses.
Hoje, enquanto leio Roth, ouço gritos histéricos de senhoras e marmanjos. Mais cedo, senti-me um estranho em meu país, uma vez que vestia cinza; escolha involuntária, pois nem mesmo me lembrara da canalha, cujas quadrilhas orquestram-se em todos os poderes e esferas da República. Há um trio no STF que é imbatível! Exportamos tanta coisa: os dribles, as jogadas capciosas, a alegria, o samba! Não demora e exportaremos uma máfia diferente, legalista, amparada na constituição e no cabedal de leis que, agregado a ela, só vale para o povo miserável que, vestido de verde e amarelo, se embriaga com jogadas milionárias e grita satisfeito com as migalhas que caem da mesa da canalha e seus asseclas. Estes, por sua vez, povoam e sugam as tetas da República - de hospitais a universidades. 
Não que o povo não mereça algum circo, vá lá, ninguém é de ferro! Também, convenhamos, não é necessária tanta amofinação e agastamento no dia a dia! Contudo, nos tempos em que vivemos, a despeito de tanta informação que jorra da internet e da tão propalada democratização do conhecimento, o que se vê é a inteligência perdendo de 7 a 1. Quando digo isto, refiro-me sempre aos textos que leio, na maioria das vezes, territórios inóspitos a qualquer raciocínio. Por outro lado, há times cujo objetivo é provar que democratizar o saber é relativizá-lo, donde infiro certa arrogância dessa gente, já que isto pressupõe alguma ascendência sobre o outro.
Assim, grupos de pesquisa constituem-se para estudar, por exemplo - exemplinho bobo este, o caldo é muiiito mais grosso -, o preconceito linguístico na universidade, onde os ‘pobrema’ são expostos, cada um apresenta seu relato vitimista e todos se irmanam na tentativa de tornar o amanhã melhor na universidade, lugar em que supostamente as pessoas frequentariam justamente no intuito de adquirir um saber variegado e que, por isso, só por isso, enfrentariam desafios para irem além daquilo que já dominam. Hoje, não só a carne é fraca, como os espíritos, sobretudo, perderam a rigidez!
Não por outra razão, caso, você leitor, ainda acredite no clichê de que nas universidades só encontrará pessoas cultas, engano o seu! Claro, há exceções, mas em geral é isto. As faculdades de letras, por exemplo, tem-se tornado espaços áridos e inóspitos para a literatura. Creia-me. A narrativa, a fábula, a ficção, têm sido vilipendias e vergastadas por todos os lados. A erotização do corpo, os preconceitos, os rótulos e seus estudos, a configuração geográfica da produção literária, tudo isso e muito mais tem sido o parâmetro para a negação de determinadas obras e autores, a eleição de obras pretensamente literárias e a produção de estudos também pretensamente críticos.
Vá lá, em tempos em que o livro e a leitura têm-se tornado algo abjeto, como redimir e/ou manter espíritos embotados? Não sabe? A canalha sabe, ainda que boa parte dela não tenha lido sequer um soneto, a sabedoria trapaceira tem sido digna de títulos honoris causa. Mas, só a canalha? Evidente que não. Como disse uma senhora expertise da causa, a corrupção é uma velha senhora, por isso é muito conveniente um povo vestindo cores fortes, feliz, risonho e cordial, amante do populismo, inebriado com suas vitórias futebolísticas efêmeras e a dar mostras de que a sobremesa é deliciosa. Enquanto isso... a canalha janta o copioso prato principal. Panis et circenses! Beatitudo est communis! Hurra!!!

segunda-feira, 25 de junho de 2018

A ... rósea e a ridícula defesa do grito machista


“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” A assertiva, de autoria anônima e escrita entre os anos de 90-110 d.C., dá início ao Evangelho de São João. Como todo texto canônico, cujas origens remontam à noite dos tempos, a obra está envolta em polêmicas: tome-se, por exemplo, sua tradução, feito que instituiu uma querela secular entre os exegetas; de um lado, os que preferem “o Verbo era Deus”, de outro, os que optam por “o Verbo era Divino”. Afora os desencontros de opinião, é fato que o versículo bíblico perfilha a ideia da palavra consubstanciada ao discurso, tornando-se instrumento de expressão de uma ideia. 
Palavras e mais palavras que se organizam e tornam-se discursos – e personagens. Ora, não por outra razão Sartre afirmava que as mais vívidas e ilustres personagens literárias não passam de um punhado de palavras organizadas, letras arbitrárias jogadas sobre o papel, marcas semânticas ora relembradas ad infinitum para prejuízo do autor, ora fadadas ao esquecimento.
Isto posto, quem não se lembra de Esopo, escravo do nobre Xantós a ponderar sobre a língua como o melhor e o pior dos pratos. Ao fazê-lo, Esopo afasta do órgão mucoso sua fisiologia e transforma-o em dado semântico, metafórico. Afinal, afirma Esopo, “é graças à língua que dizemos o nosso amor”, mas também é essa mesma “língua que mente, que esconde, que tergiversa, que blasfema, que insulta, que se acovarda, que mendiga, que impreca, que bajula, que destrói, que calunia, que vende, que seduz e que corrompe”.
Ora, ao longo da semana vimos o poder da língua, ainda que a cidadã russa não conhecesse um ‘a’ do nosso idioma. Um bando de trogloditas acercaram-se da mulher e, aos gritos, mostraram como a língua pode insultar e blasfemar. E mais, por meio do insulto e da blasfêmia a língua deu mostras do índice de caráter e da estupidez daqueles que, insensatos, resolvem fazer uso dela, só dela, sem se darem conta de que ela está consubstanciada ao discurso e às ideias, como queria o Evangelista.
A prova de que Esopo continua moderno e escrevendo melhor que nunca é o fato de a língua continuar a se acovardar, mendigar e esconder. Explico-me: os brutamontes que divulgaram o vídeo ofendendo a cidadã russa, descobertos e expostos à língua ferina da opinião pública, acovardaram-se, quiseram ser vistos como meninos que não davam conta da ordem da travessura que cometiam e passaram a mendigar alguma compreensão.
O caráter escamoteador da língua veio, curiosamente, por meio de muitas mulheres que resolveram defender a estupidez. Em uma das reportagens publicadas no site do jornal a serviço dele mesmo – e do Brasil, algumas disseram não acreditar no porquê de as pessoas se indignaram com a cafajestagem; uma delas, incrédula, dizia: “Gente, que hipocrisia! Quem nunca ouviu o MC...” Claro! Cada um no seu quadrado! Para quem vai ao baile funk sem calcinha e dá o cu de cabeça pra baixo – como diz a “canção”, isso não é nada!
Mas a Copa da Rússia tem sido pródiga em intolerância. Acabo de ler sobre um torcedor israelense perseguido por torcedores muçulmanos da Tunísia e do Marrocos. É claro que nesse último acontecimento a UOL tentou de todos os modos justificar a perseguição, afinal, para o portal UOL, a tolerância é seletiva. Israel não se classificou para a Copa do Mundo, insiste o jornalista que não assinou a matéria, então, por que raio é que ele estava lá? Dito isto, fica subentendido que o israelense mereceu as ofensas proferidas pelos africanos.
E, para concluir, o portal dignamente tem se enfiado goela abaixo a homofobia de Putin não só porque a “Copa é importante”, mas porque isto lhe rende muiiitos caraminguás. Panis et circenses! Beatitudo est communis!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pequena prosa sobre o cu: o meu, o seu e o do Zé Celso


Pois é leitor, parece que a semana foi mesmo dedicada ao orifício! Ao menos, espero, a partir de agora há de se grafar o monossílabo sem o dito acento. Sim, porque embora o acento traga lá certo erotismo, cu, a palavra, não tem acento. Talvez, depois que divulgaram o vídeo de um rapaz que, do nada, grita a plenos pulmões na fila do Burger King “eu quero dar o cu” e de Zé Celso ter declamado Rimbaud para o, como é mesmo? Feriado? – ah, sim -, o Holiday, na Câmara Municipal de São Paulo, terminemos a semana menos hipócritas.
Afinal, quem na vida já não viu alguém com o cu falido? Quem já não trabalhou para esse maldito governo até o cu fazer bico? Quem, depois de uma escorregadela, não caiu de cu? Qual o cristão que assustado ao extremo e tomado pelo medo, por um segundo não sentiu o cu cair da bunda? E não me venham dizer que nunca se referiram a um glutão dizendo que ele encheu o cu disso ou daquilo. O pavor, quando nos bate à porta, deixa-nos com o cu na mão; o que fazer? A situação é tamanha que há almas que não têm no cu um periquito que roa, tal a miséria. Por outro lado, há aqueles que nasceram com o cu para lua, pois, dentre outras coisas, quase nunca moram lá no cu do Judas. Mas você pode estar se perguntando o que tem a ver o cu com as calças; ora, em geral, aqueles cujo cu miram a lua, pouco fazem, sempre tiram o cu da reta e cabe ao pobre miserável tirar o cu da seringa, isto quando não vê o cu ao pé das calças. No fundo, no fundo, Zé Celso é quem tem razão: “Vamos todos tomar no cu”, de um jeito ou de outro. E veja, leitor, abstive-me de usar o verbo “dar”; “tomar” fica por conta do Zé Celso.
O genial na conversa do Zé Celso com o vereador Feriado, foi o dramaturgo cantar os versos de Rimbaud. De quebra, além de matar com o pau aqueles que põem acento no cu, trouxe à imprensa fétida o sublime poeta francês. Zé Celso, a meu ver, só pecou porque não conseguiu conter a emoção e vergastou o vereador Feriado com a frase: “A sua visão do mundo é o fascismo, o nazismo, uma coisa inclusive racista”. Digo isso porque essa história de chamar de fascista, nazista e racista é igual a mandar alguém tomar no cu: as pessoas gostam, não é mais um xingamento. Talvez tenha sido há algum tempo, mas, hoje, tempos em que um enfia o dedo no cu do outro em público, vá lá, convenhamos, já virou história de carochinha. Aliás, ocorre-me agora a versão de Chapeuzinho Vermelho em que o lobo dá uma dedada no cu da vó!
Dito isto, caros leitores, fiquem com Rimbaud (só para não transcrever os deliciosos poemas de Pietro Aretino):

SONETO DO OLHO DO CU

Obscuro e franzido como um cravo roxo,
Humilde ele respira escondido na espuma,
Úmido ainda do amor que pelas curvas suaves
Dos glúteos brancos desce à orla de sua auréola.

Uns filamentos, como lágrimas de leite,
Choraram, ao vento inclemente que os expulsa,
Passando por calhaus de uma argila vermelha,
Para escorrer, por fim, ao longo das encostas.

Muita vez minha boca uniu-se a essa ventosa;
Sem poder ter o coito material, minha alma
Fez dele um lacrimário, um ninho de soluços.

Ele é tonta azeitona, a flauta carinhosa,
Tudo por onde desce a divina pralina,
Canãa feminino que eclode na umidade.

___________
Justificando o título: opinião, dizem, é como cu, cada uma tem a sua, portanto, do meu cu cuido eu, e você leitor, espero que faça o mesmo.



terça-feira, 12 de junho de 2018

Opinião vs Ideia


Afirmar que vivemos dias difíceis, soa algo redundante. Estranhos, diferentes, esquisitos... O adjetivo que porventura possa ser colocado à frente do substantivo “dias”, não faz lá muita diferença. Aliás, adjetivos só servem mesmo para pesar o texto; quando atribuídos às pessoas, ajudam a criar um novo rótulo – rótulos andam tão em moda em nossos dias -, e, com isso, mais uma razão para que a intolerância se materialize.
Não acredito que nossos avós, passados seus verdes anos, não verbalizassem certa desesperança ou decepção com esse mesmíssimo clichê. Nem sempre nos damos conta, mas o fato é que acabamos por reproduzir sistemas ad infinitum, no máximo com roupagem diferente. O esforço para escapar da espiral deve ser quotidiano. Não parece, mas também nos grupos que militam por causas minoritárias é frequente a reprodução de conceitos já gastos pelo tempo, algo que, na maioria das vezes, encarrega-se pela materialização de algum preconceito.
Qualquer tentativa de afirmação, na prática, resvala em duas palavrinhas também já gastas pelo uso: opinião e ideia. Da opinião, os dicionários afirmam em certo ponto que se trata de uma ideia, teoria ou tese. Já, ideia, definem os dicionários como maneira de ver, opinião. É claro, tudo isso corrobora o mundo da vulgarização dos conceitos, que são utilizados exaustivamente pelos falantes. Não que isso esteja errado, ao contrário, pode-se perfeitamente fazer uso desses vocábulos sem qualquer prejuízo à fala.
Ocorre, porém, que no universo das redes sociais, esfera da aversão, da injúria e do ódio, a opinião traveste-se de ideia em seu sentido de origem, qual seja, erudito, cujos rizomas fundam-se na filosofia. A opinião, que na filosofia recebe a alcunha de doxa, na maioria das vezes é uma ideia confusa, alterada, acerca da realidade, razão pela qual há se opor a qualquer conhecimento tido como verdadeiro. E como no universo das redes sociais tudo é subjetivo e está sujeito à dependência de atividade mental do sujeito e de sua própria ausência – sim leitor, ausência, porque compartilhar e opinar como se estivesse usando cabresto - o que impede a visão periférica -, implica em ausentar-se, deixar de idear, portanto, ficar à mercê do grau de intensidade exigido e imposto por aqueles que manobram sub-repticiamente o mundo das opiniões.
Não raro, quando um internauta descobre o mundo das ideias e sua mente passa a se ocupar disso, qual seja, quando ele começa a questionar o sistema de opiniões imposto pela maioria e disseminado pela mídia e religiões ideológicas, é expulso da conversa e tem seu pensamento objetivo relativizado pelo grupo e/ou maioria das ovelhas.
Ora, para Locke, por exemplo, as ideias são essenciais para a compreensão, talvez por isso vivemos esses tempos de intenso falatório, mas poucas ideias. O fato é que as ideias são acessíveis através de alguma inteligência e, parece-me, não só a canalha política encarrega-se de entorpecer os cidadãos, mas estes, por si só, contribuem em grande parte para o emburrecimento e embrutecimento geral, isto ocorre todas as vezes em que opinamos sobre coisas que não vemos e, quando as vemos, afirmamos tratarem-se de coisas diferentes daquilo que temos frente aos nossos olhos. Tudo isso, é claro, em benefício do politicamente correto.
Abro um parênteses: nas vezes em que critico o politicamente correto, critico a hiperbolização do conceito, os excessos que nos tornam cada dia mais hipócritas e mais perversos. Nunca, afirmo, nós, brasileiros, fomos tão bipolares e sofremos tanto com o tal do transtorno dissociativo de identidade.
Ao refletir sobre opinião, ideia e nossa bipolaridade quotidiana, vem-me ao espírito, é claro, Platão. Ora, o filósofo falava em um mundo inteligível, algo que constitui uma Ideia Universal, donde provém a ideia que fazemos de alguma coisa. Essa ideia, por sua vez, é uma projeção do saber. Explico: quando vemos alguma coisa, nossos olhos emitem raios de luz que projetam a imagem dessa mesma coisa, que, por sua vez, passa a existir em nós como um princípio universal, doutrina a que chamamos idealismo.
Ocorreu-me que muito de nossa confusão é por idealizar de modo diferente o que vemos. Aí, dá no que dá: alguém revê uma pessoa depois de um tempo, diz a ela que a acha mais gorda que da última vez em que se viram, e pronto: a polêmica está instalada! Outra pessoa, que também já foi gorda um dia, mas gastou tempo e dinheiro para perder um pouco de suas substâncias untuosas, sai em defesa da primeira, que um dia se olhou no espelho, projetou um saber diferente e idealizou-se bem mais leve e por isso, só por isso, não gostou de ouvir que está mais gorda. Fiz me entender? Pois é, talvez o mesmo tenha acontecido nas redes sociais em relação à polêmica da semana. Por isso, decreto o fim das balanças – e dos espelhos. Ah, e das ideias, afinal, gostamos mesmo é de opinar!


sexta-feira, 1 de junho de 2018

#somostodoshipocritas


A semana não foi das melhores. Os caminhoneiros conseguiram se fazer ouvir, porém, a dúvida persiste: quais as forças agindo por trás da grande paralização que pleiteia a baixa de combustíveis? Assim como a semana, o tempo e o caráter não têm sido exemplares. Transformamo-nos em uma troupe amadora, moral e eticamente corrompida.
O resultado é evidente: gritamos às desbragadas, tentamos nos fazer ouvir, imploramos por atenção, impomos nossas vontades e desejos aos gritos e, ao fazê-lo, relativizamos o outro, mas, é claro, colocamo-nos acima de qualquer suspeita, mostramo-nos respeitosos e bradamos aos quatro ventos o politicamente correto e a dita alteridade. Esta, vale ressaltar, tem sido estimulada e é objeto de palestras e encontros que enaltecem temas ultramodernos. Haja vista as humanidades, no âmbito universitário, não terem apresentado nada de definitivamente inovador, aparecem os encontros, seminários e colóquios dedicados à pós-sociedade e à pós-humanidade.
Essas determinações, digamos, formuladas por humanos que integram uma sociedade, soam risíveis, quando não hipócritas, pois na falta de conteúdo, buscam abrigo nos rótulos, algo, é obvio, bastante afeito ao gosto multiculturalista.
Rótulos: cisgênero, agênero, gênero fluido, transgênero, trans... Nada contra, mas, face aos tais congressos pós-sociedade e pós-humanidade, toda essa discussão cai por terra, afinal, já não vivemos mais em sociedade e somos sequer humanos. Então, o que somos? Não me veio outra palavra a não ser hipócritas. Sim, leitor, somos todos hipócritas.
A fluidez das ideias aqui surge algo negativo, sobretudo se decidirmos justapô-la à série de hashtags habitualmente disseminadas na rede e, hoje, substitutivas dos livros, objeto cultuado outrora por universitários e ora ignorados.
Parte-se, por exemplo, da noção de multidão – alienada, na maioria das vezes, ora pela direita, ora pela esquerda -, este sujeito ativo que age a partir de singularidades em comuns. Ocorre que essas singularidades, como já dito, são extremamente manipuláveis por interesses outros. Assim como os interesses, as hashtags são múltiplas, tendenciosas e seletivas. Há listas delas na rede, e que aumentam à medida que os expertises se dispõem a opinar. Não que não se deva opinar, pelo contrário, o que discuto é o compartilhamento de opiniões criadas por terceiros e que o internauta, sem mesmo se dar ao trabalho de lê-la, compartilha, engrossando o lodo das ideias. Isso, para não falar dos grupos especializados em criar notícias falsas e opiniões falseadas, pois baseiam-se em invenções.
A seletividade, assim como as opiniões, é tão volátil que acusados do mesmo crime recebem tratamentos diferentes da massa ou povão (termos usados pela direita) e/ou burguesia, classe média (termos usados pela esquerda): um singular exemplo foi a execração de Harvey Weinstein (pelo que li, merecida) por estupro e assédio, e cujas estripulias deram origem às hashtags #metoo e #time’sup nos estados Unidos e, na França repercutiu com a “balancetonporc. No Brasil, no rastro de José Mayer, tivemos a #mexeucomumamexeucomtodas. No entanto, Morgan Freeman, depois de algumas desculpas, vai bem obrigado e já retornou às gravações.
Daniel Araújo “Pax”, ao longo da semana, publicou um vídeo ironizando a hipocrisia das hashtags e a falsa preocupação com os caminhoneiros. A despeito da hashtag #somostodosquasecaminhoneiros, aventada pelo youtuber, acho mesmo que acertou a mão ao cravar a #todoscorruptos como se tivesse descoberto o ovo de Colombo.
Enfim, leitor, assim como no reino das humanidades, nada de novo no pós-humano, só mais uma hashtag dizendo o óbvio! #somostodoscorruptos!

Réquiem Roth


Foi-se Philip Roth e, uma vez o corpo frio, a imprensa encarregou-se de comentários e rever sua biografia. O que sai, evidentemente, não são as ditas pérolas que se dá aos porcos. A inversão é total! Porcos encarregam-se de ilustrar o leitor, oferecendo-lhe resenhas de três linhas e dizendo o porquê de se ler Roth.
É possível que alguma publicação séria dedicada à literatura, algo raro e fadado ao insucesso tal a escassez de leitores, tenha dedicado alguns ótimos parágrafos ao ilustre Roth. Mas, tomando-se a folha a serviço do partido, foda-se o leitor!
De O Complexo de Portnoy, por exemplo, o primeiro romance que trouxe alguma notoriedade a Roth, a profunda análise do jornalista resume-se a dizer que a personagem masturba-se obsessivamente a ponto de usar um fígado cru. O leitor, diante do texto bem construído pergunta-se, evidentemente (mais um!), como Portnoy usava o fígado: envolvia a glândula do pênis com esta outra glândula mais volumosa e, sobre as duas, a mão, metacarpos e dedos em movimento? Ou esfregava ambas as glândulas até que, por fricção, o gozo jorrasse de uma delas imiscuindo-se na outra e produzindo tons róseos, mistura de sangue e sémen? Vá lá, poderia continuar por mais alguns parágrafos respeitando a toada do tal jornalista, mas prefiro poupá-lo, leitor. Um escritor como Roth merecer isto?
Ao menos, diante de tanta derrapagem tupiniquim, seus conterrâneos, aparentemente mais lúcidos ao escreverem, não demonstram fazer uso da erva estragada consumida pelo estagiário que não assinou a matéria. Diz-se que o bumerangue sempre volta à origem: é provável que você, leitor, ao ler estas garatujas, pergunte-se se também não a usei. Pois, afirmo, não consumo outro mato que os vegetais escuros: couve, espinafre, brócolis..., creia-me!
Pois bem, Bloom elevou Roth ao ápice da Literatura Americana, afirmando ser ele seu mais notável representante desde a morte de William Faulkner. “Ele representa o dilema do homem moderno e dos seres humanos de todas as nações. Ele certa vez definiu o homem como um monte de argila com aspirações, penso que não há definição melhor. Uma vez, durante uma palestra que demos a uma plateia furiosa, ele me acalmou dizendo que aquilo era o lema dele. Ele se voltou para mim e disse que estamos aqui para sermos insultados. Era esse o seu humor negro e sua inteligência.”, conta Bloom.
É provável que Bloom tenha dito isso porque a obra de Roth causa aquela estranheza, aquela originalidade que temos dificuldade em assimilar, ou, quem sabe, nos assimila a tal ponto que sequer notamos nela o que há de estranho – e aqui, rendo-me ao estagiário que, a essa hora já deve ter provado da estranha maciez do fígado.
Bloom afirmou ainda que Roth é um dos prováveis autores a entrar para o cânone ocidental. Bem, de certo modo isto é condenar Roth ao esquecimento, ao menos para a tribo multiculturalista. Razões não faltam: Roth é branco, americano e homem! Ingredientes não faltam. Ademais, recorro ao próprio Bloom que identificou nos críticos ao cânone a insistência em afirmar que sempre há uma ideologia envolvida na formação de um cânone, o cânone é um ato ideológico em si. 
Não discordo: afinal, toda literatura tenta, de algum modo, tornar-se cânone e, considerando-se a ideologia multiculturalista, que despreza o valor estético, engendrado pelo eu individual, as interconexões entre artistas e as influências advindas da interpretação, temos o que temos aí, pseudocânones representando tribos e não o homem em sentido lato.
Mas deixemos essa dita cozinha literária para lá. Paul Auster e Blake Baily, seu biógrafo, também sentiram sua partida. Auster, ao lamentar a morte do amigo, comenta: “Eu sabia que ele estava morrendo, eu era amigo dele.”
Eu, ao conhecer parte do mecanismo nas faculdades de letras, vejo a literatura tout court arfando, quase arquejada, justamente por aqueles que se intitulam seus mais eleitos expertises! Ah, o ego – tão literário isso!

sábado, 19 de maio de 2018

Homo stupidus stupidus stupidus sapiens


Opinião, cada um tem a sua. Contudo, não importa qual seja ela e o modo como você se expresse, é certo que você será atacado por todos os lados, como se fosse um inimigo. A verdade óbvia de nossos dias, marcados pela polarização e expressada por Joshua Greene em Moral tribes: emotion, reason, and the gap between us and them.
Na obra, Greene, professor de neurociência na Universidade de Harvard, une neurociência, filosofia e psicologia ao tentar mapear nosso cérebro e explorar como as intuições éticas se manifestam no mundo contemporâneo. Greene afirma que os seres humanos têm uma tendência instintiva e automática (embora limitada) para cooperar com outros membros de seu grupo social (eu vs. nós) com base na imagem da Tragédia dos Comuns. Mas, em questões relativas à harmonia entre vários grupos (nós contra eles), intuições automáticas são problemáticas; e Greene chama isso de "tragédia da moralidade do senso comum". A mesma lealdade que permite aos membros de um grupo cooperar em sua comunidade leva à hostilidade entre as comunidades.
Eis uma das razões pela qual temos dificuldade em coexistir na diferença: nos cérebros estão programados para estruturar o mundo entre “nós” vs. “eles”, donde uma sociedade contemporânea polaridade ao extremo em que aqueles que não pensam como nós são – e devem – ser hostilizados, vergastados das mais diferentes maneiras. O resultado é medo, frustração, insegurança e um enorme ceticismo.
Por sua vez, Vittorino Andreolli, psiquiatra e escritor italiano, ao refletir sobre a sociedade contemporânea afirma que “vivemos em uma sociedade dominada por frustrações. A sensação predominante é a de estar em um ambiente no qual a pessoa se sente excluída, a pessoa se sente insegura, a pessoa está com medo. Assim, a frustração se acumula, o que então se torna raiva. E a raiva, sabe o que isso traz? Isso leva ao desejo de quebrar tudo. Nosso tempo não é violento, é destrutivo.”
Veja a curta entrevista que o escritor concede à jornalista Flavia Piccinni, quando do lançamento de seu livro Il silenzio dele pietre na Feira do Livro de Turim, e publicada no jornal La Repubblica em 15/05/2018.
Você falou sobre violência e destrutividade. Qual a diferença?
A violência visa produzir danos aos outros. Alguém é ciumento porque há outro que tirou seu objeto do amor, e se vinga violentamente: ele o mata. Mas, tendo cumprido esse propósito, a violência declina.
E a destrutividade?
Em vez disso, a destrutividade é a tendência a causar dano aos outros, mas também a si mesmo. Eles matam a esposa, filhos e se matam. É um pequeno apocalipse. E é muito comum nas famílias hoje.
Estamos vivendo um tempo destrutivo para a política também?
Há o desejo de fazer guerra, mascarar situações pessoais, fabricar armas, alimentar os arsenais nucleares. Existe ar de guerra e a guerra é destrutividade. Repito: a destrutividade é a característica fundamental do nosso tempo.
Quem são os outros?
Frustração e insegurança. Nós somos a sociedade do medo. Domina a cultura do inimigo.
O que isso envolve?
Isso mata a esperança e a confiança e promove o isolamento.
E então?
Você sabe, houve o período da razão, das Luzes, das grandes ideologias e agora ...
Agora?
Agora temos o período de estupidez.
Por que você diz isso?
Porque governa a irracionalidade! O absurdo domina. Não há senso de ética. Pior do que isso ... E como consequência da estupidez, temos a regressão para o homem da movimentação.
Lembrei-me de que pertencíamos ao homo sapiens sapiens.
Não! Neste momento histórico em que o absurdo domina, somos o homo stupidus stupidus stupidus.
Por que razão?
Todo mundo pensa em si. Ninguém pensa que somos um país. E isso é estupidez. Se alguém hoje não é stupidus nesta sociedade, não pode viver.
Como podemos nos salvar?
Fazendo como protagonista do meu romance, que entra em um mundo lindo onde não há comandantes. Onde não há o homem. A gênese parou no quinto dia, porque o Pai eterno é muito inteligente e em uma parte do mundo ele não fez o homem.
Onde a estupidez se concentra hoje?
No poder. Hoje, o poder é, por definição, estúpido. Eu uso o poder como um verbo: eu posso, então eu faço. E eu faço porque eu posso. O poder é o aspecto mais claro da estupidez.
Você se considera um homem de poder?
Não. Eu escrevi sobre os Ninguéns, aqueles com N maiúsculo, porque nesta sociedade há alguém que não é estúpido, e eles são os Ninguéns. Eu sou um Ninguém porque eu não conto nada.
Mas você conta ...
Sendo ninguém, não tenho que aceitar compromissos. Ninguém é quem está lá, mas é como se não estivesse. Eu amo esta sociedade, feita pelas pessoas bonitas que não contam para nada.
Você não conta, mas há alguém, Gene Gnocchi, que o imita na televisão.
Eu o vi recentemente. Eu considero humor e ironia como defensivos. Eles ajudam as pessoas a sobreviver. Eu amo os loucos, considero a loucura estupenda, humana, e o que sempre procurei foi o homem dividido. E eu sempre o procurei com uma arma, a ironia. Embora eu nunca o tenha conhecido, considero Gene Gnocchi muito bom.
Anos atrás, com Andrea Purgatori no Huffington Post, você fez um diagnóstico para o nosso país até agora histórico. Podemos atualizá-lo?
A Itália só piorou porque nunca foi curada.
E os italianos?
Somos masoquistas felizes: vivemos em constante e sério perigo econômico, mas somos capazes de nos divertir.
E então?
Estamos frustrados. Cheios de raiva. Darwin falou do instinto, mas estamos regredindo para o momento da impulsividade. Olhe ao redor.
Eu o faço todos os dias.
Veja: agora não há ética, mas existem comitês de ética. O ego domina e não nós. Eu quero isso. Eu quero isso, eu quero isso, eu quero isso.
Neste contexto, você acha que o aumento da violência contra as mulheres é significativo?
Antropologicamente, a mulher sempre foi a presa do homem. Salomão, que era a sabedoria do povo, disse: “Mais terrível do que a morte é a mulher, só o homem temente a Deus pode escapar dela, enquanto o pecador está preso a ela, enganado.”
Depois, o que aconteceu?
Então veio Cristo, que respeitava as mulheres. Havia a cultura que meticulosamente dava valor às mulheres, à feminilidade, à sua resistência. Mas se nos precipitamos para o homem pulsional, que dirige, e a mulher volta a ser a presa.
Outro dia, em Cannes, 83 atrizes protestaram silenciosamente contra a indústria cinematográfica e a discriminação de gênero. O que você acha desse movimento global que é o #metoo e das consequências inevitáveis ​​que ele terá no presente?
A mulher ainda precisa de um movimento forte. Ainda me lembro de ter participado da histórica marcha feminina do Central Park até a Broadway. Mas hoje as mulheres não têm que cometer o erro do feminismo nos anos setenta.
O quê?
Excluir os homens. Ter feito isso no passado não permitiu que ele crescesse. O movimento, como disse aquela grande mulher que era Ida Magli, devemos fazer juntos. Caso contrário, o homem permanecerá culturalmente desapegado. Ele continuará sendo um homúnculo.
Como você se sente?
Eu sou um infeliz alegre.
Você pode me explicar melhor?
Hoje falamos apenas de felicidade, mas a felicidade é algo individual. É um sentimento positivo e agradável que pertence ao eu. A alegria pertence a uma condição que nos preocupa: o ego junto com o outro. É transmitido e recebido, mas sempre diz respeito a um grupo. Hoje, apenas os imbecis podem ser felizes.
Por que razão?
Nós pertencemos a uma sociedade que é muito complexa para não considerar a condição dos outros. Como se pode ser feliz se todos os dias vemos pessoas sofrendo?
Eu não sei.
Eu não considero muitas pessoas, mas aquele homem de Nazaré, aquele homem com H maiúsculo, que ensinava alegria. Mas hoje tudo é diferente.
Em que sentido?
Hoje não há mais os senhores da terra, dos edifícios, mas os da humanidade. Avram Noam Chomsky diz isso bem.
Quem são esses mestres?
A economia depende de cerca de 20-25 pessoas. A maioria dos Ninguéns luta para viver, enquanto alguns não sabem viver porque têm muito.
Por exemplo?
Mark Zuckerberg! A próxima vez, olha bem: perdeu 100 bilhões em um dia. E você sabe o que ele disse? “Não é nada para mim.” Veja, eu fico infeliz e um pouco zangado. E é bom.
Por que razão?
Porque enquanto eu me indignar, continuarei a escrever.