Revista Philomatica

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

A vovozinha atriz.


Quem não se lembra da vovozinha do conto Chapeuzinho Vermelho de Charles Perrault que, muito doente, aguardava a cesta de petiscos (cá para mim, lá dentro tinha bolo de chocolate!) que lhe seria entrega pela Chapeuzinho? E Dona Benta, do Sítio do Picapau Amarelo de Lobato? Tanto uma quanto a outra - sobretudo Dona Benta, nos traz à memória aquelas vovozinhas meigas, carinhosas e cheias de histórias para contar. Quando se é criança, essas avós são também fantásticas: saem das páginas literárias e invadem nossa meninice. Nelas acreditamos e confiamos. A elas recorremos em busca de abrigo a cada investida de nossas mães. O colo delas sempre foi mais macio e os braços e abraços mais envolventes. Por que essa história de vovós? Pois bem, vejam só. Ainda ontem li uma história mirabolante que veio à tona na imprensa. Nada que você já não tenha visto. Mas, o mais interessante é que entre os envolvidos há uma vovó de 83 anos, uma tal Sra. Maria de Lourdes, residente da Vila Madalena. A matéria em questão foi publicada pela Vejinha e tinha como título Profissionais da esmola. Tratava-se de longa reportagem sobre pessoas que têm endereço fixo e não fazem parte do grupo chamado de miseráveis, mas que por uma razão qualquer decidiram pela mendicância como profissão.

Devo confessar: dos marmanjos, não gostei nem um pouco. Achei-os uns safados! Oportunistas!Mas da vovozinha - ah! achei uma simpatia! Vira atriz, faz cara de coitada, mas tem bom gosto... veja-se: o repórter, abelhudo, deu-se ao trabalho de persegui-la ao supermercado - e deu a lista do que ela comprou:

1. Ração Whiskas para gatos - mais um indício de uma velhinha simpática: têm gatos, os quais devem ser tratados carinhosamente e, convenhamos, mais uma razão para que eu tenha simpatia por ela, já que tenho um apreço demasiado pelos felinos;

2. Azeite Gallo 5oo ml. - veja-se: é alguém que apesar da idade - ou exatamente por isso - insiste em selecionar produtos que ajudam a preservar sua saúde;

3. Chocolate garoto meio amargo - admitam! não é uma velhinha qualquer; afinal, diz-se que velhos, quando muito velhos, voltam a ser crianças. E crianças adoram doces. Ela, porém, prefere o chocolate meio amargo (eu também);

4. Leite Integral Elegê - aqui uma divergência, prefiro semi-desnatado, mas ela precisa de cálcio e daí? Muito provavelmente em sua época de menopausa não havia ainda os tais tratamentos de reposição hormonal...;

5. Queijo prato - nada mais saudável que um queijinho pela manhã;

6. Pão de forma Wickbold - ela me superou!, resisto ao marketing das marcas, compro as marcas do supermercados porque já li que uma vez transposto a embalagem, lá dentro é tudo mais ou menos a mesma coisa;

7. Linguiça Toscana Aurora - pô! só faltava! Implicar com a velhinha por causa da linguiça. Aos 83 anos pode-se dizer que colesterol é doença de jovens.

Safadagens à parte, ao final da reportagem, cheguei à conclusão de que o repórter havia implicado com a pobre velhinha. Precisava mesmo relacionar toda sua lista de compras? Expor, assim, seus hábitos a público tão amplo? Invadir sua privacidade? Pobre velhinha que nem Chapeuzinho tinha para carregar a cestinha!!!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Paulista não gosta de árvores!

O título, acintoso, pode parecer generalizador. Muitos provavelmente dirão amar as árvores, símbolos da onda verde que se espalha e se fortalece entre os mais diferentes estratos da sociedade contemporânea. Afinal, é carro flex, combustível limpo, plantio de árvores para compensar o gás carbônico emitido nas inúmeras atividades diárias, campanha para banir de vez as tais sacolinhas dos supermercados e por aí vai. No entanto, muitas dessas iniciativas ficam ao meio do caminho. Não precisa ir longe, as árvores, o símbolo mais flagrante do verde aos nossos olhos, figuram como um belo exemplo das iniciativas, diga-se, "pra inglês ver". Não quero, evidentemente, dizer que boas inciativas não sejam válidas. Quero, sim, afirmar que há um longo passo entre alardear pela imprensa o plantio de centenas de árvores e depois deixá-las perecer sob as intempéries do tempo.

Por que essa conversa? Porque passei pelas marginais do Tietê e lá, mais uma vez, há um exemplo de iniciativa que ficou pelo caminho. Há cerca de dois centenas de mudas foram plantadas à margem do rio (ou esgoto?). Sofreram com a estiagem e o vento, muitas pereceram. Agora, quando parte delas começam a ficar "mocinhas" foram abruptamente arrancadas. Junto das "árvores meninas" estão padecendo também as adultas. Diz-se que estão sendo replantadas. É esperar para ver. Diz-se que em torno das marginais haverá um cinturão verde. Também é esperar para ver. Por que tanto ceticismo? Já observaram como se dá o plantio de árvores nas cidades? Planta-se nos meses de inverno quando a umidade é baixa e a chuva é escassa. Esquecem que árvores precisam de água para se desenvolver. Gostaria muito de saber de um biólogo ou agronômo, sei lá, qual a lógica que impera nesses casos. O que sei é que meus vasos não sobrevivem sem água. No entanto, a prefeitura aparece, finca as mudas no chão e passam meses até que alguém volte para recolher os arbustos secos. Caso queiram conferir o que digo, passem pela Rua Maria Paula, esquina com a Santo Antônio e vejam os galhos secos que restaram entre os canteiros. Tenho um amigo que tem lá sua opinião: é pura estratégia. Planta-se neste inverno, gasta-se o dinheiro público na compra das mudas (que nesses casos são absurdamente mais caras que o preço de mercado) e, como elas não resistem ao tempo, no inverno próximo repete-se a operação. É dinheiro em caixa ou fora do caixa - depende do viés.

As árvores das marginais beiram a esse raciocínio. Afinal, uma licitação pública da envergadura daquela em que se propõe a aumentar as pistas das marginais, leva tempo; não acredito que seja algo que se idealize e tenha seu início em tão curto espaço de tempo. O cidadão, às vezes, espera décadas por uma escola, um posto médico; daí a comparação. Presumo que há dois anos já havia um projeto para o alargamento das pistas, assim, por que o plantio das árvores? E, ainda, se a intenção é um ar menos poluído, por que não priorizar o transporte público?

Ao ver o abate das árvores não pude deixar de me lembrar de Roger Bastide, arguto professor, sociólogo e antropólogo que, em seu livro Brésil Terre des Contrastes, ao traçar um panorama das capitais Rio e São Paulo, afirma: "Le Pauliste n'aime pas les arbres; il leur préfère les gazons verts, à l'anglaise, ou les massifs de fleurs." (O Paulista não gosta de árvores, ele prefere gramados verdes, à inglesa, ou montes de flores.)

Muito provavelmente Bastide viu uma São Paulo mais verde e mais florida. Se a visse hoje diria: "Le Pauliste déteste les arbres." (O Paulista detesta as árvores).


Dica: BASTIDE, Roger. Brésil Terre des Contrastes. Paris: Librarie Hachette, 1957. (Certamente deve haver tradução para o português, também pode-se encontrar o livro em sebos.)