Revista Philomatica

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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Patrulhamento cultural e ideológico

Eu venho de lá onde a amizade era leve e sorridente. Eu venho de lá onde os amigos costumavam praticar rituais estranhos e exóticos, tais como se encontrar só para se ver e, de quebra, compartilhar dores e amores; às vezes, porque eram humanos, brigavam e se odiavam, mas logo se abraçavam. Eu venho de um tempo em que as pessoas preferiam acreditar que eram responsáveis por si mesmas e os desentendimentos eram momentâneos; depois das verdades ditas (ou ao menos achávamos que eram verdades, as nossas verdades) e das desculpas aceitas, abraçávamo-nos e cantávamos Andanças. Sim, porque se hoje a saudade é imensa, só o é porque não conseguimos medir tanta areia andada, tanto verso, tanto sonho, tantas luas, festas e serestas... Éramos profanos.
Quer saber? Foi ótimo ter vivido intensamente os anos 80. Pouco importa se foi a “Década Perdida” para os economistas e burocratas, afinal, quem liga pra eles? O fato é que olhando para trás vemos uma década inovadora, plena de tendências culturais e modismos que hoje, convenhamos, seriam rejeitados pelo bom mocismo das patrulhas que regulam o politicamente correto e até mesmo o que você gosta porque acha que gosta e o que você não gosta, mas nem sabe porque não gosta.
A moda New Age, quem não se lembra? Alguém sabe o que é sair para o trabalho usando camiseta verde-limão, calça laranja e tênis vermelhos? A cidade era um festival de cores. Na TV, as manhãs eram animadas pela Rainha dos Baixinhos, Xuxa, em trajes minúsculos, quase nua - e não aparecia sequer uma mãe tresloucada, escoltada pelo Conselho Tutelar, gritando aos ventos e acusando a loira de atiçar a libido dos baixinhos. Aos sábados, Chacrinha cantava Maria Sapatão, sapatão, sapatão,/ De dia é Maria, à noite é João e Olha a cabeleira do Zézé/ Será que ele é/ Será que ele é..
Os anos 80 trouxe o Asdrúbal trouxe o trombone, a Legião Urbana, Cazuza, o Movimento das Diretas Já, Titãs, Paralamas do Sucesso, o primeiro Rock in Rio, o punk, o soul à brasileira, a TV Pirata, Armação Ilimitada, Marina, Gal cantando Vaca Profana... Eita saudosismo!
E hoje, o que sobrou? É certo que o respeito à diversidade é inalienável, mas tudo tem ficado tão chato, mas tão chato que se você ousar afirmar em público que não gosta de jiló é provável que a patrulha em defesa do jiló venha para cima com tudo!
Não deu outra, Lulu Santos aventurou-se a elogiar uma cantora e ao fazê-lo, disse: “Você emagreceu, ficou mais bonita.” Pronto! Tornou-se alvo dos internautas irados (todos certinhos). Lembrei-me dos anos 80 porque foi mais ou menos a essa época que a expressão cunhada pouco antes pelo cineasta Cacá Diegues ganhou as ruas. Foram tempos de patrulhamento inócuo, em que apareceram bizarrices como a passeata contra as guitarras - essa, de 1967 -, que reuniu artistas ciosos em zelar pela pureza da MPB. Hoje, mal podiam imaginar, a MPB jaz deitada eternamente em berço esplêndido, isso se você leitor for magnânimo, caso contrário, pode-se afirmar que ela nem existe mais, sufocada que foi pelo pagode, o funk e todos esses ruídos que incomodam seus ouvidos e o seu sono.
Os tempos são pendulares, mas, curiosamente, tratando-se do patrulhamento,  vivemos situação semelhante aos anos 60 e 70, quando toda arte que não fosse engajada era proscrita, gerando certa polaridade em que o radicalismo emburrecedor inviabilizava o diálogo e dava azo às patrulhas ideológicas; hoje, infelizmente, a arte parece ter sido espezinhada dos dois lados e é a política que define que lado da luta escolher. No meio do tiroteio, aí daquele que tentar criar um atalho entre os dois lados... Hoje, até mesmo a amizade tem sido ferida pelo patrulhamento. Quem não conhece amigos que deixaram de se falar pós eleições 2018?  No âmbito social, dá-se a mesma coisa com as investidas contra as opiniões divergentes, algo nocivo que secciona as minorias, porque para muitos que se arvoram defensores das minorias há minorias e minorias, e algumas minorias são mais minorias que outras minorias.
Lembrei-me agora do Festival de Cinema Pernambucano, em que cineastas retaliação às apresentações de documentários considerados por eles como ligados a valores tradicionais e à esquerda tucana dos anos 1990. À época, uma das signatárias do texto emitido pelos cineastas, Cíntia Domit Bittar, colocou em xeque a legitimidade da seleção, criticou a curadoria e afirmou: “Não censuramos filme nenhum de estar no festival, nem incitamos boicote. Apenas retiramos nossos filmes”. (Não mesmo?!) Em seguida à decisão, a direção do festival decidiu suspender o evento. E como o patrulhamento - e a censura – vira e mexe despertam a memória, lembrei-me de Cacá Diegues, que em 1978 teve seu filme Chuvas de Verão recebido com frieza pelos críticos – o que já havia acontecido com Xica da Silva, seu filme anterior. Após o banho de água fria, Diegues, em entrevista à jornalista Póla Vartuck, publicada no jornal O Estado de São Paulo, denunciou as patrulhas ideológicas, que seriam integradas por jornalistas ligados ao PCB e que não teriam objetivo outro que detratar produtos culturais não alinhados ao politicamente correto defendido por esses grupos formadores de opinião.
A polêmica que se seguiu à entrevista de Diegues resultou em um livro, Patrulhas Ideológicas, de Carlos Alberto M. Pereira e Heloisa Buarque de Hollanda, publicado pela Editora Brasiliense. No livro, Diegues, em nova entrevista, define o modus operandi das patrulhas: “O que existe é um sistema de pressão, abstrato, um sistema de cobrança. É uma tentativa de codificar toda manifestação cultural brasileira. Tudo o que escapa a esta codificação será necessariamente patrulhado.”

Patrulhados ou não, parece-me, Chacrinha e Xuxa saíram ilesos. Já Lulu, ovacionado dia desses por assumir seu amor, ontem, distraído, foi tomado pela sinceridade e deu no que deu.


Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/patrulhamento-cultural-e-ideologico/

quinta-feira, 11 de abril de 2019

O que é cultura?


Agnès Varda e Nana Caymmi, mulheres e artistas geniais, o que têm em comum? Pouco, é claro, considerando-se que desenvolveram suas obras em esferas diferentes das artes e a quilômetros de distância uma da outra. O fato é que ao longo da semana ambas foram notícia; ambas, ressalto, têm em comum algo que as iguala, são pilares de uma memória que desaparece sob nossos olhos.
Nana, em deliciosa entrevista dada a Folha, conta um pouco de suas aventuras, dispara sua espingarda de dois canos, acerta Gil, Caetano e Chico, chamando-os todos de “chupadores de pau de Lula” e, de quebra, acerta também Belo, o pagodeiro cujo nome é mesmo Pires Vieira. (O porquê de ele ter adotado a alcunha de “Belo” é algo que me atormenta de um jeito, meu Deus; o nome não se ajusta à figura...). Vá lá, de Belo, Nana Caymmi lamenta o fato de as netas ouvirem o tal cantor, lastimando nas entrelinhas uma cultura popular que desaparece, que se esvai, acantonada pela indústria, a cultura de massa que emburrece a massa, fazendo-a a cada dia mais bovina, gado que sequer passará nos projetos do futuro.
Pois é, estamos todos no caminhão desgovernado que desce a ladeira: eu, você, Lindo, quer dizer, Belo, Nana e o blogueiro Chico Barney, que alfinetou Nana, conclamando-a a respeitar o pagodeiro. Barney, o blogueiro, não contente em tratar Belo como um “grande vulto da música brasileira”, detentor de uma “obra poderosa”, comparou-o a Dorival Caymmi. O que dizer ao blogueiro? “Menos, rapaz, menos, para tudo há limites!”
Por outro lado, Nana ombreia Agnès porque – como disse - também é parte de uma memória que se acaba, uma cultura que não mais se encaixa no reducionismo do pensamento cultural contemporâneo, ambas são resquícios de uma cultura que justapõe a tensão entre fazer e ser feito, algo que compreende racionalismo e espontaneidade e de certo modo intervém positivamente na cognição do indivíduo.
Agnès Varda morreu na quinta-feira. Agnès Varda foi uma das pioneiras da revolução cinematográfica francesa dos anos de 1960, cineasta de Cléo de 5 à 7 e Sans toit ni loi. “Eu deveria parar de falar de mim mesma, e aqui estou eu, tenho que me preparar para me despedir", disse Agnès Varda, há um mês no Berlinale, ao anunciar sua aposentadoria artística. Hoje suas palavras ressoam como profecia.
Internacionalmente conhecida, Varda foi uma das raras mulheres cineastas da Nouvelle Vague e construiu uma obra original, pioneira, na fronteira entre o documentário e a ficção e que resultou em trabalhos como Cléo de 5 à 7 (1962), Sans toit ni loi (1985), Les Glaneurs et la Glaneuse (2000), Les Plages d’Agnès (2009) e Visages, villages (2017). Seu último trabalho foi o documentário Varda par Agnès, apresentado no último Festival de Berlin.
Mas quem se importa com Varda? Quem se importa se Nana Caymmi canta Tito Mardi e na sequência vai gravar Tom Jobim, quem se importa? Quem foi Tito Mardi? Quem foi Tom Jobim? A cultura não quer saber. Quem foi Agnès Varda? Quem viu alguma sequência de Sans toit ni loi, filme que deu o Leão de Veneza à cineasta, em 1985?
Varda, Mardi, Jobim e Nana? Quem foi essa troupe esquecida da memória? Pouco importa; o que importa (a notícia mais lida) é a festa da Anitta. Qual é a ideia de cultura? Nós trópicos, Eagleton, é isso: cultura é arrastar o traseiro do asfalto! Mas quem se importa?

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A UOL e o nosso lixo de todo dia!

Às vezes, em busca do carro das ideias, obrigo-me a navegar por mares diversos e, a exemplo do que tem ocorrido no Caribe, encontro em sites de notícia verdadeiras ilhas de lixo. As águas são profundas e as inteligências parecem obnubiladas. Como os excrementos humanos, o lixo traz odor repugnante, mas nem por isso o homem tem se afastado dele, ainda que esteja habituado a aromas que enlevam os sentidos.
Não bastassem os famosos lixões físicos, agora os virtuais têm ganhado relevância. Alguns sites de notícia e jornais, em razão da longa sobrevida perderam seu objetivo primeiro. Hoje, embora finjam afrontar o sistema, tornaram-se conservadoras ilhas de lixo. No máximo, ousam nas manchetes acreditando que isto lhes confere alguma crítica.
Não é mistério a parcialidade da imprensa, assim como não é segredo que seu motor é o capital, ainda que venda ideias socialistas. Tudo é movido a dinheiro e depende do dinheiro. A UOL, por exemplo, não é boazinha com gays, travestis, transexuais, Jojo Todynho, Pablo Vittar e companhia. Ela só o é por dinheiro. Qualquer fake new fabricada e/ou republicada por ela acirrando a animosidade de internautas e incitando-os à polêmica, ela só a publica porque isso reverte no vil metal. É curioso ver seu diretor de conteúdo, em seminário no Senado, afirmar que se deve punir plataformas como Facebook e Twitter “pelo bolso”, pois ganham dinheiro com isso.[1] Isto se assemelha a um seminário contra a corrupção em que os principais palestrantes são Cunha, Aécio, Temer, Lula e companhia. Ouço o tilintar das moedas e vejo Liza Minnelli, em Cabaret, a chacoalhar as mãos e os ombros a cantar Money, money, money...
Esse vender a alma ao assessor do diabo é algo rasteiro, nadar a ver com o trato de Fausto, sedento por conhecimentos e outros prazeres mundanos. Fausto, se prejudicou alguém, foi a si mesmo. A UOL, não! O Universo online da Folha é muito pior: prejudica os leitores, emburrece e embrutece-os a conta gotas, tal remédio prescrito a longo prazo.
A seletividade da UOL é escrota. Tome-se, por exemplo, o caso não muito recente de assédio que envolveu o ator José Mayer. Pois bem, as reportagens sobre a história eram frequentes; ainda que não houvesse nada de novo a ser dito, trocava-se a manchete e induzia-se o leitor à releitura, de modo a não fazê-lo esquecer que se deveria punir o ator, fosse como fosse. O que interessava a UOL era o veredicto. É óbvio que o ator deveria acertar suas contas com a justiça, mas a UOL tomou as rédeas do judiciário e decretou sentença.
Agora, estabeleçamos as comparações: a UOL reproduz diariamente, em forma de diário, o dia-a-dia dos integrantes em um reality show dos mais vulgares, embora muitos façam dele seu jantar.
Confinados em uma casa, homens e mulheres dão azo às suas mesquinharias e desejos, esquecendo de que estão frente às câmeras. Incitados por diretores em busca de audiência, passam ao largo de qualquer discrição e fundam o pé na lascívia, embalada, não raro, com o nome de cultura, e sempre transformada em dividendos.
Pois bem, na maison do atual lupanar confinou-se uma família: pai, mãe, filha e sobrinho. O pai, cheio de amor filial, colocou-se a beijar a filha diante das câmeras. Não bastassem os beijos voluptuosos, internautas compartilharam cenas em que o pai sarrava a filha na cama e tocava suas partes íntimas. Assédio? A Globo não viu nada! A UOL, guardiã das mulheres ultrajadas? Também nada viu!
Ora, ao comparar a cena ao feito de José Mayer, qual a diferença? A meu ver, nenhuma, razão pela qual argumento a existência de vínculos promíscuos entre o canal odiado pela esquerda e a folha que se diz repositório das ideias oposicionistas. A teoria conspiratória, no caso, é que sob a máscara ambas cabalam para a afirmação de um sistema de alienação da massa.
Não à toa, usam comumente a estratégia da distração, suprimindo do público a reflexão aprofundada do que é essencial, distraindo-o constantemente para que se afugente dos problemas sociais que quotidianamente subvertem sua vida. Em troca, enchem sua cabeça com lixo e mais lixo.
No mais, nas vezes em que se dirigem ao público, tratam-no como criança, usam de um discurso rasteiro, simplório e dotado de certa infantilidade como se ele, o público, fosse incapaz de emitir qualquer posicionamento crítico e por isso, só por isso, dependesse deles, os supremos jornalistas, para o mínimo entendimento.
O resultado disso é que as televisões, jornais e sites, no moldes em que se encontram, acreditam na imbecilidade do espectador. Em consonância com o sistema – porque também lucram com isso -, mantêm o público na ignorância. É por essa razão que em sites como a UOL não se discute a qualidade da educação, por exemplo. Ali, a educação só vem à tona quando surge um caso de violência em sala de aula, seja professor agredido por aluno, seja aluno tratado em desconformidade à ideologia de bolso que o site patrocina no momento.
Assim, sites como a UOL, encarregam-se do café da manhã do “cidadão”, pois dispõem de tecnologias que possibilitam conhecer seu gosto - às vezes, conhecem-no melhor que ele mesmo. Isso porque, a contas gotas, ao longo de décadas o têm tratado como estúpido, servindo-o lixo como se fosse ambrosia. Fazendo-o acreditar na intolerância e na liberdade, manipulam-no diariamente de acordo com seus próprios interesses, a ponto de o público só se indignar quando a UOL quer; reprisando, desse modo, o reality, e fazendo de uma horda de internautas desavisados, seus brothers.  



[1] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/12/12/fake-news-nao-e-erro-e-proposital-diz-diretor-de-conteudo-do-uol.htm

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A ignorância e a depuração do gosto

Treslendo a biografia de Machado de Assis escrita por R. Magalhães Júnior, observei as referências do autor às crônicas machadianas. As alusões, no caso, eram as cantoras de ópera que empolgavam o público carioca na segunda metade do século XIX. Um contumaz leitor do Bruxo do Cosme Velho, sem dúvida há de se lembrar da Candiani, que arrebatava almas e corpos e fizera com que os cavalos de seu carro fossem substituídos por rapazes saídos de um fã clube entusiasta. Depois, vieram a Stoltz, a Charton, a Lagrange, a Casolini, a La Grua... Todas passaram pela pena de Machado.
Portanto, não há razão para que eu não fale de nossas atuais celebridades, ainda que sob os auspícios da canção: descendo a ladeira. Ora, o assunto me veio ao espírito depois de ler a publicação de um amigo. Nela, havia uma lista dos cantores que costumávamos ouvir nas décadas oitenta e noventa e o que se costuma ouvir hoje. Come de praxe, o mais interessante nesse tipo de comparação é a opinião dos internautas, em geral, marcada por profunda obtusidade. E, nesse caso, não foi diferente. Abstive-me de qualquer comentário, haja vista tratar-se de uma página pessoal e não conhecer o autor do comentário que me leva a essa rápida reflexão.
Pois bem, em consonância à polarização e ao vitimismo atual, um jovem tascou a seguinte pérola: “Isso só mostra que a arte acima de tudo não tem a necessidade de ser bela, mas de servir como voz além de entreter. Incomoda tanto assim aos privilegiados que os marginalizados ganhem voz? As vanguardas, ainda que movimentos elitistas, não ensinaram nada para a literatura? Triste quem pensa pequeno...”.
Ora, à medida que os anos avançam o respeito à juventude é algo que não se pode ignorar. Contudo, respeitar não implica qualquer deferência à sobeja atrofia intelectual de nossos dias, em que o atraso cultural é uma doença quase que universal. Não sei se o jovem em questão, cujos neurônios padecem certo estiolamento próprio da idade, estaria disposto a me entender, mas vamos lá: primeiro, ele afirma que “a arte não tem a necessidade de ser bela”. Não tiro sua razão, mas peço que se atenha às sábias palavras de filósofos como Sri Ram, por exemplo, para quem a evolução nada mais é que a depuração do gosto. E vou mais longe, meu caro efebo:  a arte é um caminho de conhecimento à procura do Belo, do imutável, e a música que você defende está fadada às lixeiras das gravadoras, preservando-se, muito raramente, na cabeça de pessoas habituadas à leitura de cartilhas ideológicas cujo conselho é a repetição e têm como impedimento maior, a reflexão, o questionamento.
Nem toda expressão cultural pode ser chamada de arte, mancebo! A arte, já afirmava Schopenhauer, é “a exposição de ideias”, “o modo de consideração das coisas independente do princípio da razão”. Que ideias veiculam a música que você diz representar os excluídos, que voz concedem elas aos marginalizados? O relativo direito ao contorcionismo enquanto se afirma ser uma vadia todo dia? Arte é algo que toca a universalidade humana, revela-se como inspiração e dá ao homem a experiência subjetiva de reconciliar-se com a natureza e a liberdade, afirmava Kant.
A liberdade da qual fala Kant não é definitivamente o direito à lascívia pura e simplesmente. E, já que reclama o fato de as vanguardas não terem ensinado nada à literatura, aconselho-o a ler Sade. Em Justine ou Os Infortúnios da virtude, Sade não só faz uma apologia ao crime, como explora de forma exponencial a crueldade e as liberdades do corpo como do espírito e, se não me falha a memória, lá, caro mancebo, Sade dedica três ou quatro páginas às vantagens de se dar o cu. Como vê, a literatura foi além das vanguardas afeitas aos grafites, às quais provavelmente se refere.
Nota-se em sua fala total desconhecimento do que se passou há apenas uma década! Falta de leitura, suponho! Os privilegiados que condena por gostarem de Zé Ramalho, Gal Costa, Milton Nascimento, Renato Teixeira, Legião Urbana, Caetano, se não sabe, meu caro jovem, lotavam estádios nas décadas de oitenta e noventa; eram jovem sonhadores, assim como você. Eram filhos de operários e, detalhe, a grande maioria sequer pode frequentar uma universidade, pois heroicamente tinha que defender seu bocado de pão. Nem por isso se faziam de vítimas, mas lutavam, assim como os que vieram logo depois lutaram pelas “diretas já”.
Ah!, então não havia privilegiados?! Sim, havia! Muitos, inclusive, marcharam as trilhas da política e tornaram-se mais privilegiados ainda; hoje, perfazem as fileiras de nossa elite política, partidária de foros privilegiados, direitos muitos, mas quase nenhum dever!
É evidente que não são esses os privilegiados que alfineta. Em seu relativizado discurso, nota-se que lê a cartilha de forma um tanto estúpida e não se dá conta de que a mesma elite que defende, acreditando tratar-se de representantes dos marginalizados é aquela que escolhe suas músicas. E mais: Platão, na República, alertava para a qualidade da música que os governantes davam às pessoas, sem falar, é claro, em Plutarco, que já afirmava que música ruim e canções grosseiras engendram licenciosidade.
Por fim, meu jovem: não maldiga a literatura, leia Sade e ouça boa música.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Carmen e o revisionismo: matem D. José!

É senso comum certo conservadorismo no ar; melhor, certo puritanismo sexual, sobretudo se comparamos o discurso atual de uma parcela da sociedade àquele que estávamos acostumados nas duas últimas décadas. Não digo três décadas porque aí seria avançar demais e há trinta anos, creio, vivíamos ainda a Era Democrática preconizada por Vico. De qualquer modo, não há como negar que nos anos 80, apesar dos pesares, éramos muito menos ‘quadrados’ - não digo ‘careta’ porque a geração ‘Z’, que sequer tem ímpetos de consultar um dicionário, permaneceria na ignorância -, ousávamos mais e se há uma coisa que não éramos, era politicamente corretos. Ríamos, sim, éramos risíveis! E, acredite, é só olhar o modo como nos vestíamos que você, leitor, rirá às desbragadas!
Contudo, duvido que Vico tenha imaginado isto: que a moral vitoriana que marcaria a Nova Era Teocrática viria de movimentos de esquerda, entre os quais, os feministas. A religião, a fé? Ora, isso é passado; hoje somos tão descrentes e o deus que surge em nossos lábios só aparece em momentos de angústia e pedidos de socorro, algo como recorrer a um usurário, um bombeiro ou à polícia!
Certo, nessas horas a memória encarrega-se de misturar lembranças e leituras, e nessa Era do Caos em que vivemos, em que a Escola do Ressentimento teima e sapatear sobre tudo e todos, não há como não se espantar a cada novo amanhecer.
Às vezes, penso que o valor estético está mesmo com seus dias contados e, se permanecer, só será encontrado em textos eruditos, naturalmente refutados pelos Ressentidos. Não à toa, impôs-se em nossos dias a necessidade de revisar tudo, desde a história até as obras de arte, a ficção; mas, contenha-se leitor, não demora e logo pinturas medievais, renascentistas, românticas e outras serão mutiladas em proveito de um discurso que visa satisfazer a intelligentzia da rede acadêmico-jornalística. Por birra, as sinapses não me deixam de trazer ao espírito o jornaleco que se diz a serviço do Brasil!
Mas o que pretendia falar não é fruto de solo tupiniquim, vem lá das Zorópa - como dizia o matuto. Pois bem, Leo Muscato... Quem? O Leo ou o Muscato, como queira. Nunca ouviu falar dele? Ora, não seja por isso! Leo há de ser mundialmente reconhecido por seu talento visionário. Leozinho é diretor da Ópera de Florença, e diretor da Carmen, de Bizet, baseada, por sua vez, na obra de Mérimée.
Leozinho, na falta de uma direção exponencial à obra de Bizet, algo que de fato tirasse o fôlego do espectador face à sublimidade do artístico, decidiu pura e simplesmente mudar o final da obra. O porquê da mudança? Ora, na concepção do mestre Muscato, a obra dos gênios Mérimée e Bizet não condiz com os dias atuais; o público, suscetível ao politicamente correto, definitivamente não é obrigado a aplaudir um feminicídio em cena.
É claro, Bloom ressoou-me aos ouvidos! Que é isso?, pergunto. É certo que o estético é uma preocupação individual, não de sociedade, mas por que então Leozinho corrobora essa modernidade equivocada, tendenciosa, e afeita a dilapidar obras de arte para que se ajustem a uma arte supostamente subversiva?
Leozinho não pôde ignorar Carmen, contudo, mesmo considerando-a esplêndida, achou-a conservadora, por isso resolveu adaptá-la aos nossos dias, tornando-se uma espécie coautor; degenerado, claro, mas, colocou-se ali, ao lado de Mérimée e Bizet, constituindo uma tríade!
Isso é preocupante? De certo modo, sim! Preocupante pelo que pode vir a seguir, afinal, há tantas obras, tantos papéis de mulheres protagonistas, que as fazem mentir, sofrer, morrer... O que fará Leozinho e a intelligentzia? Mudará tudo? Oh, meu Deus! O que farão da fala do príncipe, em O Leopardo, de Lampedusa? – “Mudem tudo, mas apenas o suficiente para manter tudo exatamente como está.” (Leozinho não seria tão hipócrita, ou seria!?) Riscá-la-ão em proveito do politicamente correto? Quantas obras, romances, óperas não foram compreendidos em sua época e só por isso tornaram bastiões de grupos, ideias e ideologias! A crítica apoia-se na memória; o esquecimento é danoso, prejudicial à cognição, Leozinho!
Não bastasse isso, na Inglaterra, a BBC britânica decidiu recontar uma vez mais a Guerra de Tróia, a ser divulgada via Netflix. Até aí, nada de original; afinal, a epopeia já ganhou versões e versões no cinema e na TV. Contudo, o papel de Ulisses será interpretado pelo ator David Gyasi. Ora, para quem não sabe, Gyasi é negro.
Ouço o ecoar de seus pensamentos, leitor: “Racista!” Engula seu pré-julgamento leitor! O que coloco em questão, se não se deu conta ainda, é o revisionismo! Mas isso não me impede de perguntar: e se colocassem Brad Pitt a interpretar o papel de Malcolm X, Martin Luther King ou Mandela? Qual não seria a gritaria, não é mesmo? Por que revisar a obra de Homero, na qual a personagem é notadamente descrita por sua cabeleira loura? O contrário, é certo, seria tratado em nossos dias como apropriação cultural, expressão tão vazia de sentido cujo propósito não é outro que deferir discursos superficiais dos caçadores de likes nas redes sociais.
Mas, por que toda essa prosa, perguntas-me, ó digníssimo leitor. Eu mesmo não sei, afinal, os filmes são rapidamente esquecidos e ainda que Brad Pitt venha a interpretar Mandela e Gyasi seja reconhecidamente um Ulisses premiado, logo cairão no anonimato, face a onda avassaladora de informação. Mas e os livros? Ah, os livros, nem Leozinho e nem a BBC poderão alterá-los! Ademais, poucos, bem poucos os leem, sobretudo os clássicos, e se tentarem queimá-los, como em 451 Fahrenheit, arderão intactos e ninguém levantará a voz. Portanto, caminhemos e esqueçamos as polêmicas!