Revista Philomatica

quinta-feira, 21 de março de 2019

Golden shower, borboleta paraguaia, boquete, coprografia e as taras da família brasileira


O assunto mais comentado da semana foi a prática da golden shower. A tara, que pensei fosse prática restrita à alcova de alguns casais, revelou-se pública, comum; performática no Carnaval, mostrou-se ato político. E não sou eu quem está dizendo; puxei a ideia de uma atriz novata que sobressaiu-se ao anonimato pelas mijadas na calçada da beata Dona Maria. De minha parte, não critico ninguém, afinal, cada um cuida do seu toba. No mais, sempre achei que o fiofó deve ser free na alcova, nos becos, nas ruas e nas boîtes; menos nos meretrícios, porque lá trabalha gente de bem que precisa faturar alguns caraminguás.  
Li algumas notícias na internet e descobri que só eu não pratico a tal da golden shower; todo mundo já sabia – mas ninguém fez -, afinal, por que confessar, não é mesmo? Onde enfiaríamos nossa hipocrisia? No toba? Ah, na-na-ni-na-não!
Está me achando vulgar, leitor? Não me julgue! Só estou tentando acompanhar os novos tempos. Sim, foi com essas palavras que um amigo me recriminou, dizendo que não sei acompanhar os novos tempos, que sou conservador, fascista, preconceituoso etc, e tudo, achei, só porque não faço golden shower.
Decidido a largar o conservadorismo, levar uma vida mais fácil e agitada, mostrar que sou de esquerda, tornar-me vagamente intelectual, descolado, sensível e solidário, fui atrás do que gosta a família brasileira quando se trata de sexo. Confesso, não me surpreendi, como também confesso não ter estômago para algumas práticas. A Tribuna de Minas[1], traz a experiência de uma senhora com a coprofagia e o Estado de São Paulo[2] (Caderno Mais) trouxe uma lista de distúrbios (distúrbio não! – penso que erraram, trata-se, de fato, de uma lista de manias gozosas, afinal, sou deslocolado!), muitos dos quais, podem ser perfeitamente praticados no Carnaval, pois são, de fato, atos políticos.
Transcrevo da lista do Estadão para você leitor. E vamos lá, à prática!
Pequeno Dicionário das Parafilias - comentado:
Anaclitismo: adulto que se excita com práticas da infância, tais como usar chupeta ou mamadeiras (Muito bobinho, infantil, não configura ato político.);
Apotemnofilia: excitação com a ideia de sofrer amputações (Bastante cristão, lembra-me autoflagelação e, do jeito que a coisa anda, logo será oficializada pela bancada evangélica.);
Automisofilia: excitação advinda de sentir-se sujo (Praticada por muitos moradores de rua, configura-se ato político quando praticada por pequenos burgueses. Alguns amigos uspianos afirmam que sim, dá tesão.);
Cleptofilia: excitação que vem da prática de roubos (Dependendo da situação, se o comerciante entrar no clima, rola uma boquete para pagamento da mercadoria e o resto será puro prazer; com direito a bukkake, configura-se ato político, sobretudo em dias de Carnaval.);
Claustrofilia: excitação pelo confinado em compartimento pequeno (Não vi graça, mas é uma saída quando não se tem lugares adequados e espaços, onde dá pra ficar de pernas pra cima.);
Coprofagia: excitação pela ingestão de fezes (Não quero nem pensar, sou conservador! Mas sei que é ato político.);
Dacrilagnia: excitação ao observar a parceira chorar (Bobinho, bobinho, para frouxas.);
Fobofilia: excitação pelo medo ou ódio (Coisa de psicótico.);
Frotismo: obtenção de intenso prazer sexual ao esfregar-se em outra pessoa, sem o seu consentimento (Dada a etimologia da palavra, pensei que fosse alguma prática inventada pelo Alexandre Frota, mas vi que é muito comum. Não é ato político; pode sim, caracterizar assédio em ônibus e metrô.);
Geronosexualidade: quando o objeto de excitação tem 30 anos a mais que a pessoa (Meu Deus, que decadência! Tudo tem sua hora!);
Ginemnese: homem que se excita ao vestir-se de mulher (Ah! Linda, mesmo?);
Hemotigolagnia: excitação com absorventes femininos (Só se não for operado; pode ser nojento, principalmente se o absorvente tiver sido usado, mas ouvi dizer que há quem goste.);
Hipoxifilia: excitação por meio de asfixia (Adolescentes, velhos e deputados americanos praticam!);
Iconolagnia: por meio do contato tátil com estátua de obras de arte (Minhas sinceras desculpas a Da Vinci e Michelangelo.);
Mucofagia: excitação com a ingestão da própria mucosa nasal (Que nojo!);
Odaxelagnia: excitação por mordidas (Para mim é raiva – a doença.);
Sitofilia: excitação com comida (Isso é o pecado da gula, antigo.);
Tafofilia: refere-se a quem fica excitado ao ser sepultado vivo (Loucura, não imagino.);
Telefonicofilia: com conversas telefônicas eróticas (Ah! Verdade? Essa todo mundo faz, não configura traição e nem ato político.);
Tesauromania: excitação ao colecionar roupas íntimas de pessoas do sexo oposto (Ah! Mesmo? Só colecionar? Wando (o cantor) sofria disso?!);
Timofilia: excitação sexual com a riqueza (Queria tanto ter... quem não tem?);
Tlipsosis: excitação por beliscar outras pessoas (Ah! Vá cagar! Não vi graça alguma!);
Urofilia: excitação associada ao ato de receber jato urinário do parceiro e, em alguns casos, engolir a urina, prática chamada de chuva dourada – golden shower (Está na moda, mijemo-nos todos; é ato político!);
Vampirismo: desejo por cadáveres (Leiam Drácula, de Bram Stoker, dá mais tesão.);
Zelofilia: excitação sexual associada ao ciúme (Deve ser comum no Brasil, haja vista a quantidade de feminicídios.);
Zoofilia: excitação sexual com animais (Abominável. Respeito os animais e se souber de alguém que a pratica, pago para cortar o bilau.).
E a borboleta paraguaia? Ah, vá, nunca fez?

Foto: Divulgação. Saló ou os 120 dias de Sodoma, filme de Pier Paolo Pasolini


[1] https://tribunademinas.com.br/blogs/sexo-no-diva/10-04-2018/um-curioso-e-medonho-caso-de-coprofagia-humana.html
[2] https://emais.estadao.com.br/noticias/geral,parafilia-quando-o-prazer-se-torna-problema,20070219p9457

quarta-feira, 6 de março de 2019

Março Mulher


Estamos em março, mês dedicado às mulheres. É provável que no dia oito, escolhido para homenageá-las, você, leitora, receba uns parabéns daquele seu chefe misógino e machista. A contragosto, é possível que ele seja capaz de alguma gentileza e, de quebra, distribua rosas para as mulheres com as quais divide, por certa imposição, o espaço.
As mulheres vivem dias difíceis; o salário menor, considerando-se o desrespeito como ser humano e MULHER, é algo de pequena monta. Relatos sobre agressões físicas e verbais pululam na imprensa. O recente episódio da paisagista espancada por longas quatro horas na Barra, Rio de Janeiro, revela a escalada da violência. Ainda no Rio, no Leblon, uma tentativa de estupro só não chegou a termo porque a mulher foi socorrida por frequentadores do bar. O curioso, neste caso, foram as intimidações[1] que a família do agressor impuseram à vítima, mostra de que até mesmo a violência é seletiva. Se o estuprador é alguém que não conheço, aponto o dedo, grito, xingo, esperneio e comento; se é da minha família, procuro entender suas razões, atenuo o fato, crio mentiras. Esse é o universo em que as mulheres, assediadas ou não, vivem, um universo em que a culpada é sempre a vítima.
O porquê disso é assunto para especialistas de fato; o que posso afirmar é que a violência contra a mulher é uma senhora idosa – plagiando certa figura política. Tome-se, por exemplo o caso de Hipátia de Alexandria. Hipátia foi a primeira mulher da história exterminada por ter sido uma cientista. Conhecer um pouco de sua vida (os dados não são muitos) é compreender um pouco do declínio de Alexandria.
Hipátia nasceu por volta do ano de 370 e era filha de Téon de Alexandria, homem conhecido como “o mais sábio dos filósofos” e membro importante do Museu de Alexandria. Téon escreveu tratados sobre astronomia, geometria e música; renomado erudito, comentou as Tabelas de Ptolomeu, divulgou os Elementos de Euclides para seus alunos de Bizâncio - que os utilizariam por décadas –, foi autor de textos sobre a iniciação dos órficos e de poemas como os que lhe foram atribuídos pela Anthologia graeca, que evocam o caos do cosmos e a obra do próprio Ptolomeu.
Hipátia foi sua colaboradora obstinada e rapidamente ultrapassou-o em tudo, dominando completamente a matemática de seu tempo, além de versar sobre filosofia, astronomia, religião, oratória, retórica, poesia, artes etc. Hipátia escreveu textos densos como os Comentários sobre a aritmética de Diofanto e os Comentários sobre os cônicos de Apolônio de Perga e outros.
Hipátia foi também uma professora dedicada; dava cursos a grupos de iniciados e seu neoplatonismo obedecia a seu amor pela doutrina geométrica. Influenciada por Platão e Plotino, escolheu a via esotérica e teve a sorte de encontrar um público atento e interessado. Conta-se que as pessoas disputavam a oportunidade de assistir a seus cursos e que os altos funcionários de Alexandria iam até ela em busca de conselhos, caso de Orestes, o prefeito da cidade, o que despertou a inveja da homarada conservadora e religiosa de plantão.
Na primavera de 415, uma turba de monges devotos, liderados por um certo Pedro, discípulo do venerável Cirilo, bispo de Alexandria, sequestrou Hipátia e acusou-a de bruxaria. No momento de sua prisão, ela estava em uma conferência, defendeu-se, gritou, mas ninguém ousou ajudá-la. O medo abateu-se sobre o público petrificado e os monges a levaram até a igreja do Cesareum. Lá, à vista de todos, começaram a espancá-la brutalmente, arrancaram seus olhos e sua língua. Depois de morta, levaram seu corpo a um lugar chamado Cinaron e o esquartejaram, extraindo os órgãos e os ossos; por fim, queimaram o resto em uma fogueira.
Orestes, o prefeito da cidade, ordenou uma investigação sobre a morte de Hipátia e nomeou um certo Edésio como responsável; este, honestíssimo, não demorou a receber uns caraminguás de Cirilo para esquecer tudo e seguir em frente. Orestes, por sua vez, teve que deixar a cidade, de modo que o assassinato de Hipátia continuou impune.
De minha parte, desejo a todas as Hipátias mais amor – se é que é possível em meio a tanta selvageria!


Imagem: Afresco Pompeia, Donna con tavolette cerate e stilo (consideratta ‘Saffo’)


[1] https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/26/ela-sofreu-tentativa-de-estupro-em-bar-no-rj-lutei-mas-fiquei-sem-forca.htm

sexta-feira, 1 de março de 2019

As “modernidadi”


Hoje, encontrei d. Maria no supermercado. Nossa amizade já conta mais de um ano. Nos conhecemos na fila do caixa em um daqueles dias em que você troca de fila várias vezes à procura de uma que flui mais rápido. Na pressa, tem-se a impressão de que a fila ao lado tornou-se mais curta e, zás, você muda de fila, mas, por alguma razão você vai ficando para trás, a fila que antes andava, de repente, para! Nesse dia, uma cliente teve problema com seu cartão, de modo que d. Maria e eu tivemos que aguardar por um bom tempo; resolvido o problema do cartão, acabou o papel da máquina registradora, d. Maria e eu continuamos a esperar, agora, já resignados, esquecemos as filas e começamos a papear.
__ Não entendo essas “modernidadi”, dizia d. Maria. Antes era tudo mais fácil, anotava-se na caderneta e, uma vez ao mês, com o dinheiro na mão, íamos ao empório e quitávamos tudo. Sem frescuras, arremata d. Maria. Hoje, com todas essas “modernidadi”, o tempo que dizem valer ouro vai todo para o ralo!
Concordei com d. Maria, buscamos exemplos e situações várias até que a moça do caixa disse “o próximo”.
Hoje, como disse, encontrei-me com d. Maria. Entabulamos uma prosa e d. Maria disse-me que não resistiu, capitulou, rendeu-se ao whatsapp depois que ganhou um celular da filha.
“Menino, é uma delícia!”, me divirto! “Minha filha diz para eu ter cuidado, que também dão golpes pelo whats, mas eu sou esperta, ó!” (d. Maria está chic, já faz reduções e capricha na pronúncia). Depois, viramos maldizer o governo, a reforma da previdência, e d. Maria disse só não estar mais preocupada porque já se aposentou, mas, mesmo assim, afirma, “me divirto”. “Você viu que o presidente, dizem né, foi eleito pelo whats, o ministro agora, caiu pelo whats, e o do turismo, tenho certeza, vai cair pelo whats. Sei não, quem ganha pelo whtas, pode muito bem perder pelo whats. Hoje a candidata laranja já divulgou as conversas do assessor do ministro. Tudo pelo whats, meu filho! Já viu frigideira porreta como essa? Ah, esse whats... podia deixar as pessoas menos estúpidas, não podia não?”
À espera do cliente à minha frente, que já colocara suas mercadorias no balcão, viro-me para d. Maria e pergunto um “como”. Ela, reflexiva, continua: “Não é história de comadre, não. É sério. É tudo muito bom, mas acho que as pessoas têm se tornado estúpidas. Sabe, houve um tempo em que muita gente acreditava ser verdade aquilo que estava escrito nos jornais. A palavra escrita tinha poder, menino. Ninguém desacreditava daquilo! É claro, houve também um tempo em que não se precisava assinar nada. Dava-se a palavra, entende? Empenhava-se a palavra. A palavra era sinônimo do caráter da pessoa. A palavra mostra quem você é, menino, só essa moçada é que não percebeu.”
Em meio à reflexão de d. Maria, esta levanta os braços e exclama: “Não acredito! De novo, não!” De costas para o caixa, pergunto com um olhar o que acontecera. “O cartão, menino, o cartão”, responde d. Maria. Volto-me para o caixa e mais uma vez vejo um cliente com problemas. O cartão, enfim, prolonga minha prosa com d. Maria.
“Como dizia”, continua ela, “A palavra era o bem mais precioso de uma pessoa. Era importante manter o que foi dito. Os mais velhos diziam que honravam sua palavra, não importava o grau de responsabilidade daquilo que haviam assumido. Ter palavra é ter honra. Ainda acredito nisso”, constata para si mesma.
Falante, continua d. Maria: “Hoje, com essas “modernidadi”, as pessoas esqueceram-se da palavra. Mesmo estando escrito, lendo aquilo, dizem que foram mal interpretadas, que cortaram pedaços, editaram né, não é assim que falam?” Pois é, no fim das contas ninguém tem palavra, todo mundo cai fora na hora do vamos ver!”
Chega a minha vez de passar no caixa. Despeço-me de d. Maria. A caminho de casa, penso no seu modo de falar, na sua sapiência. D. Maria queria dizer que a palavra é uma espécie de corpo dos nossos pensamentos, é nossa verdadeira carne.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Abre-Campo, Minas Gerais: “Eu sou do jurídico, por quê?”


Querido leitor,
Você já ouviu falar em Abre-Campo, cidadezinha da Zona da Mata mineira? Não sei quais os rastros de suas andanças, mas eu nunca ouvira cristão mencionar o povoado; e olha que minha mãe costumava dizer que nasci com rodinhas nos pés...
Não creio que Abre-Campo seja daqueles vilarejos desprezíveis, afinal, considero-me boa gente, meio Tomé, gosto de ver pra crer, e não saio por aí repetindo impropérios a torto e a direito, principalmente sobre um arraial aparentemente simpático entre os morros de Minas. Mas o fato é que a Wikipedia, que aceita tudo, pouca informação traz sobre a aldeota além de uma entrada sobre seus “abre-campenses notórios”. Vá lá: o primeiro deles é um tal de Eduardo Costa, cujo nome não é Eduardo Costa; os outros são os cantores que compõem a dupla Victor & Leo, que não nasceram em Abre-Campo; por fim, mencionam José Henrique Lisboa Rosa, este sim um abre-campense, político jurássico e sem expressão, falecido em 2013. Deputado estadual por cinco legislaturas, alguém sabe me dizer quem foi Lisboa Rosa? Nem eu! O fato é que as referências notórias de Abre-Campo não ajudam: político, não preciso comentar; o cantor Eduardo Costa, já mostrou filho da terra, ou seja, em outra vezes já mostrou seu desprezo pela vida animal.
Pois bem, sejamos claros, essa coisa de ser e não ser, parece-me algo fake, não é mesmo? E foi exatamente essa a palavrinha usada como desculpa pela Sra. Flaviana, que se apresentou ao telefone como responsável pelo departamento jurídico da Prefeitura de Abre-Campo, fazendo uso, digamos, da famosa carteirada; já ouviram o célebre “você sabe com quem está falando”?
Explico-me: esta semana Abre-Campo emergiu do anonimato e veio à luz nas redes sociais por algo nada louvável: mais um caso de maltrato aos animais. ONGs e grupos de proteção animal compartilharam à exaustão uma cena em que um caminhão da Prefeitura recolhe cães que, amarrados por correntes, são retirados de seus donos (há um vídeo em que uma Sra. chora ao ser separada de seu animal de estimação). A notícia se espalha, a revolta se amplifica, os comentários de repulsa à administração abre-campense tornam-se exponenciais e Abre-Campo não diz nada!
Curioso, liguei para a Prefeitura do povoado. Apresentei-me como responsável por uma coluna semanal em um site de notícias de São Paulo e disse estar interessado em ouvir a posição dos responsáveis sobre o fato. Fui transferido para a Sra. Flaviana, que se disse do “jurídico”. Para um bom entendedor, meia palavra basta! Quem não lê a invulgar “carteirada” há muito entranhada em nossa cultura, asqueroso bordão usado por cidadãos vulgares que se outorgam representatividade do repositório das leis e, de forma vertical, tentam intimidar e relativizar o oponente? “Olha, sou advogado, sou filho de advogado, sou juiz, abro processo, você sabe com quem está falando?”
E nessa toada, ao perguntar a Sra. Flaviana, do jurídico (“Eu sou a Flaviana, do jurídico, quem está falando?”, disse-me ela.), sobre as cenas que circulam nas redes sociais, a moça representante da dura lex sed lex, disse-me tratar-se tudo de fake news e que, se quisesse, eu poderia tomar as providências necessárias. Ao replicar afirmando que só gostaria de ouvir a posição da Prefeitura sobre o maltrato aos animais, a Sra. Flaviana foi eficiente, bateu o telefone na minha cara, como diz o vulgacho.
O respeito pela vida parece-me não ser o forte de Abre-Campo, tampouco a educação. A Sra. Flaviana, soube depois, é secretária do departamento jurídico, mas julgou-se juíza e, arrogante, fez o que todo político e muitos servidores fazem: consideram-se intocáveis, superiores, jamais admitem qualquer questionamento. Tentei mais uma vez falar com a Sra. Flaviana, do jurídico, e o que ouvi? “Ela acaba de entrar em uma reunião com o prefeito.”
Até mesmo a desculpa criada para justificar a ineficiência e o despreparo da moça do jurídico traz algo de despótico e impositivo que, traduzida, reflete o vácuo que existe entre o poder público e os cidadãos, afinal, quantos cidadãos se reúnem com o “prefeito”? O fato é que uma vez empossada a mediocridade ganha azo e não hesita em tornar-se autoritária, perpetuando o “você sabe com quem está falando?”.
Enquanto animais são mortos e maltratados, o que sobra às pessoas de bem além de uma postura refratária a qualquer humanidade como a da Sra. Flaviana que, ao atender o telefone, dispara: “Eu sou do jurídico, por quê?”


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A privatização da água


É provável que a geração funk ou “nem-nem”, como querem alguns, jamais tenha imaginado que seus pais, em um dia quente como os que tivemos recentemente, paravam em um bar qualquer e pediam um copo d’água. O balconista pegava então um copo americano, daqueles produzidos pela Nadir Figueiredo, colocava-o debaixo da torneira e oferecia ao sedento. Não se cobrava nada! Matada a sede, dizia-se obrigado.
Hoje, a água tem grife e vem em garrafas plásticas que, usadas, são descartadas e emporcalham todo o planeta. Se você leitor for um bom observador, há de notar que a água oriunda de fontes paulistas, mineiras etc, traz hoje nomes como Coca-Cola, Nestlé e de outras multinacionais. A Coca-Cola, que envenena seu organismo com aquele líquido maravilhoso para desentupir canos de pia e desenferrujar chaves de fenda, está de olho no Aquífero Guarani.
Não vou entrar no mérito da selvageria capitalista, mas que ela existe, ah, existe. E isso não ocorre só com a água. O chocolate que você come para mandar sua ansiedade às favas é produzido por um punhado de empresas que não só destroem o meio ambiente, mas escravizam crianças em países como a Costa do Marfim e Gana.
A Nestlé, que produz papinhas de neném e aquelas propagandas de leite em pó com famílias felizes como as de margarina (outra droga que lhe enfiam goela abaixo), no mercado da água, estima-se que sozinha lucra 26 bilhões com a venda de água mineral.
Ai vem a pergunta: a água é um direito humano ou deve ser propriedade de um grande negócio, diga-se, especializado em rapinagem?
A Nestlé tem a resposta na ponta da língua. O manda chuva da empresa, Peter Brabeck, gravou um vídeo há tempos em que era bastante duro com os movimentos e pessoas que defendem o consumo de alimentos orgânicos, o equilíbrio do homem e da natureza e o direito de uma pessoa ter acesso à água.  Com a palavra Brabeck: “A água é, naturalmente, o recurso básico mais importante do mundo hoje. A questão é se devemos privatizar o suprimento normal de água para a população. Existem duas opiniões diferentes sobre isso. A primeira opinião, que eu acho extrema, é representada por ONGs, que dizem que a água é um direito público. Isso significa que, como ser humano, você deve ter acesso à água. É uma solução extrema. E a outra opinião diz que a água é um alimento como outro qualquer. E como qualquer produto alimentício, ele deve estar no mercado. Pessoalmente, acho melhor dar a qualquer alimento um valor de mercado...”
Nessa lógica rapace, talvez o ar deva ser propriedade de grandes empresas. Há pouco rimos às desbragadas com o episódio do “estocamento de vento”, mas nos esquecemos de considerar a voracidade dos grandes conglomerados.
Em sua investida contra o movimento orgânico, o capataz da Nestlé afirmou que depois de 15 anos comendo alimentos geneticamente modificados, até agora não foi relatado sequer um caso de doença entre os americanos por comê-los. Não mesmo?! Na sanha pelo vil metal, Brabeck continua: “Hoje as pessoas acreditam que tudo o que vem da natureza é bom. Isso representa uma enorme mudança porque até recentemente nós sempre aprendemos que a natureza pode ser implacável. O homem está agora em condições de fornecer um equilíbrio à natureza. Mas, apesar disso, julgamos que tudo o que vem da natureza é bom.”
A declaração é perturbadora, mas a ganância explica. Tome-se a Vale como exemplo, as tragédias de Mariana e Brumadinho: a vida e os rios foram mortos, mas garantiu-se o lucro.
Finalizar como? A meu ver, de duas maneiras: de um lado, concluindo que o Sr. Peter Brabeck é um ser radioativo, perigoso; de outro, boicotando as marcas que ele representa. Acho que já é um bom começo. E, para resistir, lembremo-nos da fala do cacique de Seattle, que mencionei semana passada:
“Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência do meu povo.”
Temos muito o que aprender: a começar pela perda de nossa arrogância.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Brumadinho: tragédia e teatro


Há exatos sete dias Brumadinho começou a viver sua semana mais trágica com o rompimento da barragem da Mina do Feijão. Isso não é novidade para ninguém, afinal, o povo se indignou e se indigna – mas só o povo. Centenas de pessoas mortas e desaparecidas. Não só a vida humana se perdeu na lama, mas também a vida animal. Dos animais que sobreviveram presos à terra molhada, pastosa e envenenada, poderíamos dizer que tiveram melhor sorte, porém, tudo foi momentâneo, a mão humana amiga interveio e ceifou-lhes a vida com alguns balaços disparados por fuzis da polícia, dando fim a sua já breve existência. Na mata atlântica, nos rios, o estragos é incomensurável. Eis a tragédia!
Agora o teatro: a tragédia acima, escrita pela corrupção e inépcia do poder público, a ganância do poder privado, e a indiferença das agências fiscalizadoras e do poder judiciário, hoje serve de pasto para grupelhos levantarem suas bandeiras e se apropriarem da dor e do sofrimento de estratos da população, usados como manobra na vergonhosa guerrinha político-ideológica.
Hoje, um site de notícias trouxe a seguinte manchete: “‘Homem branco fez terra vomitar’, diz líder de aldeia em Brumadinho”. Ao ler, transportei-me para aqueles filmes do velho oeste, tamanha a naturalidade expressa pela reportagem. Talvez, por isso, misturei sioux com tupinambá e ouvi um “mim não quer colar/ índio quer apito”. A dita reportagem diz que a aldeia indígena Naô Xohã estabeleceu-se às margens do Rio Paraopeba há pouco menos de dois anos. Questiono as profundidades das raízes que os cinquenta membros das etnias pataxó e pataxó hã-hã-hãe criaram nas terras recém ocupadas, que sequer são em Brumadinho, mas em São Joaquim de Bicas.
Se a reportagem pretendia mostrar a tragédia dos pataxós, o pouco ali escrito não chega a drama, é um arremedo de nada, mostra-se um teatro montado ao gosto do jornalista, que tem como coadjuvante a esposa do Hayô (o líder do grupo, que já descaracterizado, não se vê como cacique), a sra. Célia Angohoró. Sem qualquer ironia, ouço o sonoro Angohoró e processo o irresistível borogodó, algo que a ativista (assim a nomeia o jornalista) deve ter e mostrar, afinal, nessas ocasiões, para convencer, “líder” e “ativista” surgem paramentados para sessões fotográficas.
Mas a culpa não é do índio, o índio é a vítima. O índio precisa de respeito, não “jornalistas” que o façam objeto de suas causas e reportagens, esta, aliás, bastante infausta. Por isso, em defesa do índio e, quiçá, da conscientização do homem branco, ainda perdura como documento insigne a carta do cacique de Seattle, escrita em 1859 e endereçada ao presidente dos Estados Unidos, Francis Pearce, cuja frase “O que ocorrer com a terra recaíra sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.”

Imagem: Adriano Machado/Reuters


O revisionismo e Monteiro Lobato


Dentro do movimento marxista, utiliza-se o termo "revisionismo" para se referir a ideias, princípios, teorias ou correntes que mudam de modo significativo os fundamentos do marxismo, desafiando algumas de suas teses revolucionárias e/ou desviando-se da ortodoxia marxista-leninista. Em geral, é mais usado por aqueles que veem essas revisões como um ato de abandono ou traição do pensamento marxista. Portanto, o termo "revisionismo" é frequentemente usado de maneira pejorativa.
Pejorativo é o termo. Não por outra razão, tratando-se da Shoah o revisionismo confunde-se com o negacionismo do Holocausto. Intelectuais, historiadores e políticos que pregam o negacionismo, fazem-no de modo perverso, ainda que, ao negar, reafirmem o mal cometido ao longo do segundo Grande Conflito. Tamanha foi a barbárie que Adorno, em um ensaio de 1949 (Crítica à cultura e à sociedade), sentencia: “Escrever um poema após Auschwitz é um ato de barbárie, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tornou impossível escrever poemas.”
Se a poesia tornou-se uma impossibilidade, os cacos sobre os quais devemos escrever estão por aí como testemunho dessa barbárie e não resta senão à arte, em algum momento, ler e “falar” do que restou. Por isso, a memória e o esquecimento caminham lado a lado, um depende do outro, um só existe porque o outro existe e tal qual um palimpsesto, o esquecimento figura-se como superfície para que lembranças e reminiscências se reescrevam.
Dito isso, tomemos Lobato, que frequentou as manchetes durante a semana. Não tratemos do Holocausto, mas da escravidão e seus tentáculos racistas que perduram na sociedade. Pois bem, não é de hoje que tentam execrar Lobato. Em 2011, o CNE (Conselho Nacional de Educação), em um daqueles arroubos politicamente corretos, recomendou que não se distribuísse o livro Caçadas de Pedrinho (1933) por considerar que algumas de suas passagens eram racistas. À época, a histeria foi tamanha que a personagem da Tia Anastácia estava fadada ao esquecimento, seria apagada da obra. Até mesmo o pó de pirlimpimpim seria banido, pois a tropa do politicamente correto, tão parecida com as senhoras da Tradição, Família e Propriedade, afirmava que os alunos leitores poderiam associá-lo à cocaína. No baile funk pode!
Hoje, a tropa saiu novamente ao ataque, haja vista a obra de Lobato ter caído em domínio público, o que significa, status, para muitos “especialistas”, equivalente ao conceito de coisa pública que temos no país, qual seja, é público, é de todos, todo mundo faz o que quer, como quer, quando quer, de modo que já na segunda semana de janeiro, Pedro Bandeira, “exímio conhecedor da obra lobatiana”, decidiu “adaptar” Lobato. (Meu Deus! O que pensa agora Marisa Lajolo?).
Bandeira resolveu higienizar Lobato, limpá-lo com Veja Limpeza Pesada! Eis a explicação de Bandeira (Estadão, 19/1/2019): “Minha adaptação protege o talento de Lobato. Autores geniais como Perrault, Andersen, Dumas ou Shakespeare têm sido adaptados sem parar. No caso de Lobato, quase toda sua linguagem e humor devem ser preservados e foi o que fiz. Mas tenho de mexer um pouquinho em detalhes como os xingamentos da Emília. Na época de Lobato, isso poderia parecer engraçado; hoje, porém, é um absurdo. Sua obra não perderá a qualidade se tirarmos, aqui e ali, xingamentos acachapantes como ‘sua negra beiçuda’.”
Pergunto: Lobato precisa de alguém que o proteja? A meu ver, Bandeira repete a ignorância do CNE, arvorando-se detentor da correção e da verdade, arremedo de paladino das forças de ordem. Ao fazê-lo, Bandeira atropela a liberdade do leitor, manifesta desconfiança na capacidade de educadores, professores e leitores interpretarem o texto de forma correta e se posicionarem criticamente face à obra. Isso porque o leitor pode ser tudo, menos ingênuo; em geral, ao chegar ao texto, ele já vem imbuído de compreensões várias, alguma criticidade e experiências de vida, hoje resultado das discussões amplamente divulgadas pela impressa e por ONGs ao tratar das questões raciais. E as crianças? Ora, eis aí uma tarefa para educadores!
Por fim, nesses tempos em que o revisionismo bate à porta, logo será a vez de Machado de Assis. Como a escravidão não existiu, o Bruxo de Cosme Velho jamais escreveu o entrecho de Memórias póstumas de Brás Cubas, em que o menino Brás montou e fez de cavalo Prudêncio, o menino escravo (afora inúmeros outros exemplos em suas obras). A meu ver, racismo é exercício para a memória, discute-se às claras e não dilapidando obras, jogando-as no Lete. Aliás, estas deveriam ser usadas como material para refletir a questão.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Sindicatos e seus líderes de “olho junto e mal caráter”


Somos um povo de “olho junto e mal caráter”. A expressão, pincei-a do seriado Toma lá dá cá, exibido já há algum tempo, e usada pela personagem de Miguel Falabella. A cordialidade do brasileiro? Buarque de Hollanda enganou-se completamente, não notou que a suposta gentileza e manifestações de afeto do brasileiro são puramente interesseiras. Somos um povo mal caráter: botamos a boca no trombone, esguelamos a torto e a direito quando surrupiam nossos direitos, mas, espertalhões, na próxima esquina, se vemos uma oportunidade de nos darmos bem, por menor que esta seja, como diz o vulgacho, não deixamos passar batido.
Quantas vezes você leitor não ouviu este ou aquele dizer que se fosse político também se daria bem? Pois é assim que a coisa funciona, sobretudo quando se tem a certeza da impunidade. Não temos caráter. Ética? Desconhecemos o que seja.
Vou falar de um assunto do qual não entendo patavinas: sindicalismo e sindicalistas. E só falo a partir de algumas reminiscências e uma notícia publicada esta semana. As primeiras, vá lá, quem não se lembra do movimento grevista que estoura em São Bernardo do Campo em 1978 e se espalha pelo interior, chegando a Campinas? Pois então, nas eleições que ocorreriam naquele ano para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos, a chapa 2, de oposição, embora derrotada, cresceu face à situação, encabeçada por Cid Ferreira, um desses sindicalistas jurássicos, que acabaram na política e, nela, cercados de capangas, reinou como os antigos coronéis.
Era moleque, mas lembro-me de ter ouvido dizer que todos aqueles que participaram da greve naquele ano, e faziam parte da oposição, ao término do processo que escolheria o “novo” diretor do sindicato, foram demitidos. A aliança entre o patronato e o diretor do sindicato, Cid Ferreira, ficou clara. Dizia-se, à época, que as famosas ‘listas negras’ para demissão eram elaboradas com a ajuda do próprio diretor do sindicato. As negociações avançaram e no ano seguinte, em Campinas, os metalúrgicos insatisfeitos com o acordo assinado com os patrões, em uma assembleia confusa no Ginásio do Guarani, rasgaram suas carteirinhas na presença de Cid Ferreira, o jurássico presidente do sindicato que, arremedo de ditador, não permitiu que qualquer outra pessoa falasse ao microfone. Enfim, um dos nossos medíocres Madurozinhos da época.
De Cid Ferreira não guardo boa lembrança. Ouvi estas histórias ainda adolescente e este senhor de olho junto e mal caráter, a mim, nunca se redimiu. Não sei se vive ainda, mas, seus colegas sindicalistas, irmanados no exercício de manipular a massa de trabalhadores, obter vantagens junto aos patrões, reduzir aqueles à condição de mendicância, obtendo para eles sempre os menores aumentos, continuaram seus estratagemas, não mudaram nada!
Após os anos 80, os sindicalistas tornaram-se uma casta associada ao poder; a moeda de troca no conluio com os poderosos da indústria e da política é o operário. Este, crente de que os atravessadores, em algum momento, levarão ao patrão as suas reivindicações era, até há pouco, obrigado ao pagamento da tal da contribuição sindical e assistencial. Dado os milhões de trabalhadores e a quantidade de sindicatos, fica fácil a conta: acumulam milhões e vivem como marajás. Seguindo a lógica meteorologista, prometem dissídios que enchem os olhos do trabalhador, mas, pós negociações, o vento muda e o que o operário vê são migalhas. Os atravessadores, julgam-se ainda no direito de dizer que vale transporte, vale refeição etc só existem em razão de suas intervenções. A rentabilidade do negócio explica a absurda quantidade de sindicatos no país. Veja-se, a título de exemplo: na Argentina existem 91 sindicatos, no Reino Unido 168, nos Estados Unidos 190 e no Brasil nada menos que 17.289!
Pois bem, após a reforma trabalhista de novembro de 2017, que tornou a contribuição não obrigatória, o caixa dos sindicatos entrou em colapso. Os defensores dos trabalhadores que, de microfones em punhos nos palanques, gritavam às desbragadas contra a exploração dos trabalhadores, mudaram o discurso. Agora, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e o SindPD (Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados e tecnologia da Informação do Estado de São Paulo) estão condicionando o pagamento de benefícios ao pagamento da contribuição. Isto não é ser mal caráter, não é ter o ‘olho junto’?
Não vou entrar no mérito da questão porque não sou especialista, mas para os sindicalistas, alguns trabalhadores são mais trabalhadores que os outros, são mais explorados que os outros – desde que paguem a taxa! Do lado de cá, o operário que quiser ser mais igual terá de contribuir para a burra dos sindicatos. O que vejo é a verdade vindo à tona: os sindicalistas, que sempre se associaram ao pior da política, agem como aqueles brasileiros que disse acima, não podem deixar passar batido, ainda que fazendo uso de uma lógica rasa e oportunista, a oportunidade de se dar bem, enfim, por meio de uma manobra de intimidação junto ao trabalhador.
O curioso é que a natureza do sindicalismo é ser de oposição, mas no frigir dos ovos, sindicalistas não gostam que se oponham a eles, de modo que o trabalhador que não quiser se deixar obrigar ao pagamento da contribuição deverá ser punido - punido por ser oposição. Que os sindicatos inventem novas formas de representação, que convençam os trabalhadores, que produzam resultados e deixem de usar as sinapses para a corrupção, o crime e a associação vergonhosa com o patronato e a política. Que sejam, de fato, oposição, mas que não se oponham aos trabalhadores!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Incrível descoberta brasileira: a Terra é quadrada!


2019 parece mesmo ter vindo com tudo! O ano mal começou e nossos filósofos descobriram feito inédito: não só a Terra é quadrada como também a Lua! Esta última, ainda que a vejamos em forma esférica - afirmam filósofos da estirpe de Olavo de Carvalho -, tudo não passa de ilusão de ótica, ou seja, somos enganados por nossos próprios olhos em razão dos diferentes matizes da luz que incidem nas nossas retinas. Estas, como resultado da imensa onda de otimismo que embala o novo ano ao sul do Equador, já são vistas de outra forma: planas, assumiram ângulos geométricos e perderam a esfericidade, especialmente depois da tão considerável descoberta que mencionei acima. A razão, afirmam muitos dos 57.796.986 de brasileiros que corroboram tal ideia, é que só não notamos antes o quadratífero da Terra, da Lua e da retina, por causa dos espelhos, até hoje produzidos a partir de teorias ultrapassadas, sustentadas por uma cultura baseada em monstruosas falsificações histórico-científicas.
A ciência precisa ser revista desde a sua base. Não é possível que cientistas de países periféricos como Israel, Europa e Estados Unidos não tenham se dado conta de que a “época da modernidade científica está encerrada”! Felizmente, o Altíssimo olhou para nosso torrão piramidal (isto sou eu que estou dizendo, conspurcado por algum agnosticismo que, quiçá, convertido, dele logo me livrarei) e nos iluminou em sete dias, assim como criou todas as criaturas e coisas. É provável, afirmam muitos dos signatários das novas ideias, que ainda este ano tenhamos nosso primeiro Nobel. Outros vão mais além e, esperançosos, arriscam que a honraria será destinada a uma brasileira que, vestida de rosa, haverá de brandir o prêmio diante dos monarcas na Academia Sueca! Será o início de uma nova era, uma revolução na ciência e nas sociedades que adotarem o sistema brasileiro dos cientogiosos. Sim leitor, com a graça divina haveremos de introduzir tal neologismo não só no Houaiss e no Aurélio - porque isto é, convenhamos, fichinha, algo que com uma Medida Provisória está feito -, mas principalmente no Larousse, Le Robert, Oxford, Devoto/Oli, Zingarelli...e por aí vai.
Hoje tudo está mais claro. Só não notamos nossa excepcionalidade porque, como papagaios, ficamos a repetir uma mentalidade racionalista-cientificista cuja origem está na Renascença, no cartesianismo, em Francis Bacon, mas logo esta mentalidade estará morta, uma vez que todo o esforço para mantê-la de pé, afirma o cientogioso O. de Carvalho, só foi possível à custa de uma fraude epidêmica por parte de cientistas e estudiosos.
Não por outra razão, devemos deixar de papaguear expoentes de países periféricos como Newton, Darwin, Einstein, e olhar para os pastos e as goiabeiras, de onde vem nossa tradição. É de lá que vem Damares, prenome arcádico, de origem grega, cujo significado é ‘vaca, novilha’ e que ora designa a grande dama que corrobora as teorias do grande mestre O. de Carvalho, mentor dos novos tempos. Damares, em mais um vídeo divulgado hoje, explica as razões pelas quais a igreja evangélica, seita na qual é pastora, perdeu espaço na história: “Nós perdemos o espaço na ciência quando nós deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas, quando nós não questionamos, quando nós não fomos ocupar a ciência.” E, completou a ministra: “A igreja evangélica deixou a ciência para lá. Vamos deixar a ciência sozinha, caminhando sozinha. E aí, os cientistas tomaram conta dessa área e nós nos afastamos.”
2019 veio com tudo! Felizmente vamos reescrever a história! Onde já se viu cientistas ocuparem-se de ciência!? No outro front, o ministro da marinha acaba de revelar que o Brasil lutou ao lado dos Estados Unidos nas três Guerras Mundiais. Vejam, leitores, os racionalistas cientificistas sonegaram-nos até mesmo relatos de um dos três grandes conflitos. Quantas narrativas, quantos dramas, quantos romances proibidos, quantas separações, quanto sangue, quantas tragédias inspiradoras para a literatura e a pintura não nos surripiaram! É bem provável que não nos tenham tornado pública a Terceira Guerra Mundial para camuflarem algum invento que deu errado, algum gás, sei lá, algo que tenha se espalhado pelo ar e seja a razão de tantos meninos apreciarem o rosa e tantas meninas o azul. Deus! Tende piedade de todos nós! Ilumine-nos mais e mais, a cada dia, nos próximos sete e em mais sete dias, setenta vezes sete! Permita que o mundo veja a mesma luz que ora nos ilumina, esclarecei a todos ó Senhor! Amém!


Então foi Natal


Em abril de 1895, à época da Semana Santa, Machado de Assis voltou-se para a ficção e comentou o relato da Paixão de Cristo. Ao olhar para Jerusalém, afirmou: “Há meia dúzia de assuntos que não envelhecem nunca; mas há um só em que se pode ser banal, sem parecê-lo, é a tragédia do Gólgota. Tão divina é ela que a simples repetição é novidade. Essa cousa eterna e sublime não cansa de ser sublime e eterna. Os séculos passam sem esgotá-la, as línguas sem confundi-la, os homens sem corrompê-la.”
Viajando no tempo, voltemo-nos para nossa semana e esbarremos, talvez, em um dos outros cinco assuntos que ignoram o envelhecimento: o nascimento do próprio Cristo. Ainda que muitos tentam negá-lo, a descrença se aprofunde e religiões como o socialismo se sobressaiam, sempre há alguém a dobrar os joelhos e tomá-lo como seu Mestre. Contudo, se a tragédia do Gólgota não é corrompida, o mesmo não se dá com a Natividade, que tem-se tornado um grande evento mercadológico, em cumprimento ao evangelho da religião capitalista.
Se na Antiguidade digladiavam-se judeus e cristãos, na atualidade, a hipocrisia reescreve a narrativa da Natividade e socialistas e/ou comunistas trocam farpas com capitalistas e/ou cristãos. Antes que continue, força é que explique o porquê do socialismo, comunismo e capitalismo serem vistos como religiões modernas. Antes, porém, cabe não esquecer certo maniqueísmo que há séculos persiste na esfera religiosa, esse dualismo entre o bem e o mal que pauta os discursos e a fé. Hoje não é diferente. Socialistas e comunistas irmanam-se do lado oposto ao capitalismo. Ambos proclamam-se bem, creditando ao adversário toda a maldade.
Chamar comunismo, socialismo e capitalismo de religiões pode soar algo constrangedor e desconfortável para muitos, mas ocorre que toda religião cria um sistema de normas e valores humanos cujas bases estão na crença de uma ordem metafísica, sobre-humana. É claro, islamismo, cristianismo, judaísmo, budismo, etc constituem-se a partir de uma ordem sobre-humana, um deus onipotente e criador de todas as coisas; os budistas, diferentes das outras três, não atribuem a mesma importância a deuses, mas, ainda assim, é visto como religião.
Diferente não é o comunismo, que, assim como os budistas, acredita nas leis da natureza. Se para os budistas foi Sidarta Gautama o descobridor de tais leis, para os comunistas foi a tríade Marx, Engels e Lenin, algo como o pai, o filho e o espírito santo – a ordem, leitor, altere-a como quiser. As correspondências vão além: assim como outras religiões, o comunismo tem seu livro sagrado e profético, O Capital, que, curiosamente, assim como a Bíblia para os cristãos, é muito citado e pouco lido por seus fiéis. Não vou me estender e falar dos teólogos adeptos e dos feriados dessas novas religiões porque, afinal, pretendia falar da degenerescência da Natividade. 
Se, na França islamizada, os presépios são banidos para não ferir as susceptibilidades dos muçulmanos, na Itália já há padres afirmando que tudo isso não passa de lorota. Na China, ao contrário, os chineses resolveram tomar gosto pela coisa e comemorar o Natal. As autoridades da cidade de Langfang, província de Hebei, proibiram árvores, meias de Papai Noel, luzinhas e pisca-piscas natalinos. Mas isso faz parte dos casos isolados, resquícios de um comunismo démodé, afinal, a China comunista é pragmática e não é boba por uma simples razão: a festa é ocidental, mas dá lucro. O ‘edital” da prefeitura da cidade é claro em sua ranzinzice: “camelôs que vendam árvores ou doces de Natal devem ser removidos”. O Global Times - o Granma, o Pravda, do partido comunista chinês - diz que não é bem assim, afinal o comunismo chinês é tão flexível quanto a coluna de um político, sobretudo quando brilha o vil metal.
Ano passado, Hengyang, na província de Hunan, emitiu um notificação pedindo que membros do partido comunista chinês “resistam ao festival ocidental” e a Liga da Juventude Comunista da China, publicou nas redes sociais que o “Natal é o dia da vergonha na China” e representa uma invasão por parte do ocidente, algo como comer pelas beiradas. E eles sabem do que estão falando, pois o fazem com maestria, afinal, o país produz nada menos que 80% das luzinhas que fazem as alegrias das crianças americanas. Esses casos isolados causam frisson nos fiéis das religiões modernas, sobretudo os tupiniquins, de posturas ambíguas, que negam a fé, mas lotam os shoppings.
Aliás, é nos shoppings, com sacolas e mais sacolas que se comemora o nascimento do Cristo. Que os tempos tenham mudado, vá lá, mas não custa lembrar da historieta da manjedoura, voltar-se aos pobres, aos humildes... só lembrar, mais nada!


Imagem: Banksy

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Desejo de nomeada e hipocrisia na Bananalândia


Ah, quanta diferença entre o discurso e a prática, entre o ser e o não ser, entre o ser e a fraude, entre o camarão e o molho! Um leitor afinado à literatura machadiana há de ter reparado no desejo de nomeada de algumas de suas personagens. O escritor, é claro, parodiava, ironizava a hipocrisia reinante entre seus confrades e figuras eminentes na sociedade de sua época.
E por falar em eminência, vamos ao rol de títulos que fazem com que os medíocres se debatam e se digladiem entre si: se começarmos pelas universidades, de pronto temos a Vossa Magnificência ou Vossa Excelência, e como vocativos, Magnífico reitor, Excelentíssimo Senhor Reitor (o termo é usado mesmo para aqueles que surrupiam o erário e mantém seus clubes de suivants).
Em pleno século XXI, acreditem leitores, há seres afeitos a toda essa titulação, casca que esconde o podre dentro da fruta. Pois há! E isso não é o pior: há também os pequenos poderes. Assessores, presidentes de comissões, coordenadores e diretores de departamentos e, junto deles, toda uma legião de aduladores e puxa-sacos, ávidos por um naco de poder, uma verbinha aqui e outra acolá. Para isso, caluniam, tergiversam, blasfemam, insultam, imprecam, tumultuam e, claro, bajulam, seduzem e corrompem.
No meio judiciário a coisa é tão enojada quanto. Quem já não leu nos noticiários sobre as estripulias de juízes e ministros do STF/TCU/ETC/ETC, cujas biografias constroem-se em conchavo com o que há de pior na política e na criminalidade? Estes, nomeiam-se Meritíssimo Juiz ou Vossa Excelência e trazem como vocativos Meritíssimo Senhor Juiz ou Excelentíssimo Senhor Juiz. Para os advogados, aduladores por excelência, tais figuras são seres eminentes.
A proeminência, penso, que deveria ser intelectual e moral, na maioria das vezes é parda! Casos recentes como os dos ministros do TCU Aroldo Cedraz e Raimundo Carreiro, não me deixam mentir. Ambos, depois de se declararem impedidos para julgar um processo de superfaturamento, voltaram atrás ao ver que o ex-senador Efraim Morais e o ex-diretor geral Agaciel Maia, hoje deputado distrital em Brasília (os dois, ex-dirigentes do Senado e ligados ao MDB), seriam condenados a devolver ao menos R$ 14 milhões em prejuízos aos cofres públicos. Nada de novo no horizonte: mais um caso em que a canalha se junta e se acoberta.
Hoje não foi diferente, o “eminente ministro Marco Aurélio” (palavras do advogado do Lula), às vésperas do Natal, resolveu presentar a corja com a qual se coaduna. Numa canetada só deferiu uma liminar movida pelo jurássico PCdoB, libertando condenados em tribunais de segunda instância, o que, no frigir dos ovos, significa suspender “a execução de pena cuja decisão a encerrá-la ainda não haja transitado em julgado, bem assim a libertação daqueles que tenham sido presos, ante exame de apelação”.
Não sou douto em leis e direitos, mas, conversando com meus botões, constatamos o óbvio: trata-se de um indulto perpétuo de Natal para a “cumpanheirada” do ministro, a constituição é mentirosa porque sim, alguns estão acima da lei (o ministro, por exemplo, usando da subjetividade e da hermenêutica ao examinar as leis, aplica-as como lhe convém, portanto, está acima de todos e da lei, até mesmo porque não pode ser processado e preso), os tribunais de segunda instância são teatros, não valem de nada, haja vista a caneta do ministro desfazer tudo o que fizeram e, por fim, o povo é palhaço. Ave às eminências!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

República dos livros


Um pouco de paródia não faz mal a ninguém. Tampouco alguma ironia. O título, portanto, remete à República das Letras, designação que, desde a Renascença, congregava estudiosos que partilhavam traços, escritos, língua, valores e ideais humanistas comuns. Hoje, nesse torrão tupiniquim, chamemo-la de República dos livros. Afinal, afirma o nosso Cointet (ao menos é isso que deduzo a partir de uma série de réplicas destinadas ao sr. Luiz Schwarcz que pululam na internet): “o livro no Brasil vive seus dias mais difíceis”.
Não sou livreiro, mas entendo um pouco de livro, meu objeto de trabalho e razão de muito do que faço; sei das dificuldades ao produzi-lo, as etapas a serem vencidas (revisão, preparação de texto, editoração, produção da capa, impressão, etc) e, sobretudo, os esforços para levá-lo até às mãos do leitor. Não tiro a razão do sr. Schwarcz, mas, refletindo com meus botões, vimos nele um naco de ingenuidade, senão duas presas lupinas.
Vejamos: o sr. Schwarcz, é provável, um dia, talvez na adolescência, leu a obra que Balzac dedicou ao livro, portanto, é de se admirar que tenha perdido as ilusões a ponto de sugerir ao público uma rede de solidariedade em favor das grandes livrarias e editoras e que tenha se esquecido dos pequenos como David Séchard. Sim, porque me parece que o que mais alarmou o sr. Schwarcz foi o pedido de recuperação da Saraiva e da Cultura, duas gigantes do ramo, não as formigas livreiras em cujas costas sustentam caixas feito tartarugas.
Não o culpo por ter se esquecido do drama de Séchard, que padeceu nas garras dos Cointet. É claro, ele não está entre os Séchard de hoje, que carregam caixas de livros de cima para baixo em feiras de livros para lucrar, às vezes, nem 10% e, de quebra, expirar nas mãos gigantes das grandes livrarias e editoras.
Pequenos livreiros, assim como o sr. Schwarcz, “têm no afeto aos livros a razão de viver”, mas o têm à moda antiga, sem os holofotes das grandes negociações. A maioria deles aposta em cada livro publicado muito do suor que escorre dos seus rostos; não à toa leem o que publicam e, tal como Gide, ressentem-se de ver desperdiçada a grande chance por terem ignorado os manuscritos de Proust que porventura lhes caíram às mãos.
A Saraiva e a Cultura, desculpe-me, sr. Schwarcz, talvez não tenham recebido o seu recado para adentrar a rede de solidariedade. Exemplo disso talvez seja a compra do site Estante Virtual pela última; os leitores e habituais clientes da Estante hão de ter notado a recente majoração no preço dos livros – é sabido que a Estante Virtual era uma congregação de sebos do país, hoje, agregada a Cultura tem funcionado como uma Amazon mal ajambrada.
Pequeno livreiro, o sr. Pedro Paulo Graczcki[1], parece-me, exultou com a preocupação de Cointet ao afirmar que “o sr. Luiz Schwarcz, da Cia das Letras, escreveu uma pseudocarta de amor aos livros [...] nos ped[indo] algo que ele nunca teve: solidariedade e defesa de classe”, para, parágrafos depois, concluir: “Quer saber? Bem feito!”
Ao ler as razões do sr. Graczcki, pensei tratar-se de um ressentido, como encontrei alguns, mas este senhor expõe suas dificuldades e vemos nelas a consequência das garras do grande irmão, que mastiga as presas menores sem dó nem piedade. De todo o lacrimejo do sr. Graczcki, ficou-me a dúvida do porquê de as grandes editoras obterem um desconto de 100% de impostos e as pequenas apenas 7,8%. Falta de lobby? Eis aí, se a informação for verdadeira, a deixa para o sr. Schwarcz iniciar de fato uma grande rede de solidariedade. Vale ressaltar que conheço dois pequenos livreiros e ambos não recebem das grandes livrarias há cerca de dois anos.
Por outro lado, há o projeto de lei no 49, de 2015, de autoria de Fátima Bezerra (PT-RN) - senadora que se esqueceu de um dia ter sido professora – que propõe uma espécie de “lei do preço fixo”. A lei do preço fixo, parada no Senado, parece-me, corre agora a passos de serelepe, depois que o lobby dos editores reuniu-se com o Temeroso. Sob escudo eufemístico, Luiz Antônio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro – CBL, diz tratar-se de uma regulamentação de desconto, os mesmos descontos que o sr. Graczcki afirma que a Saraiva e a Cultura utilizam para destruir as pequenas livrarias: “Eu vi muitos colegas mudando de profissão depois de 20, 30, 40 anos de estrada porque os descontos praticados pela Saraiva eram muito superiores ao preço que vocês nos vendiam.”
Ocorre que agora em tempos de vacas magras, os grandes resolveram juntar-se à canalha política para defender seus interesses, afinal, apareceu a Amazon, que não só não atrasa o pagamento aos livreiros, como também lhes oferece antecipação do pagamento e, de quebra, tem um sistema de entrega que os outros parecem desconhecer. A Amazon, agressiva, vende livros, corteja, seduz o leitor a comprá-los, oferece descontos para entrega e/ou isenta o cliente do pagamento do frete na compra de determinado valor, enfim, a empresa faz o que faz com qualidade e não joga o ônus nas costas do leitor. Falta saber se ela trabalha com os pequenos.
Sobre lei a ser implementada com a benção do lobby das grandes editoras e livreiros, Carlos Carrenho, consultor da Publishnews, sustenta que ela não só castiga quem é produtivo e eficiente e consegue ter preços mais baixos, como tornará o preço médio dos livros populares e best-sellers mais caro, de modo que os livros populares subsidiarão os livros intelectuais e voltados para um público de classe média alta.
Como se vê, Carrenho desvela um jeito de raciocinar bem tupiniquim no mercado livreiro. Por fim, enquanto o país não desenvolver políticas públicas para o incentivo à leitura, é o que temos à frente, principalmente se figuras como a senadora Fátima Bezerra (PT-RN) não se curar da amnésia e se lembrar de que um dia foi povo e foi professora.


[1] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/bem-feito-voces-nos-ferram-ha-anos-carta-de-um-pequeno-livreiro-a-luiz-schwarcz/?fbclid=IwAR0ocxNQezeR5I3MCLd8uVBOfyTMYnqHr5cw25i1K0WULkbnRTOi8F5L6tw