Revista Philomatica

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Miriam Leitão e a intolerância




Pesquisando periódicos oitocentistas e do início do novecentos, deparei-me com uma carta publicada no Correio da Tarde maranhense de 26/8/1911. A correspondência a qual me refiro, afirma o jornal, era uma promessa aos leitores sobre “factos de Portugal”. Eis um pequeno entrecho:

Frederico o Grande, que foi alguém na história da humanidade e que manejava a pena e a espada com igual destreza, enviava em 1725 a Voltaire, o amigo íntimo com quem durante anos trocou uma correspondência que ficou célebre pelo saber profundo, pela agudeza do espírito e pela sutileza filosófica, uma carta em que se destacam essas palavras: “Felicito-vos pela excelente opinião que formais dos homens. Para mim, que em virtude da minha situação, conheço bastante esta espécie de dois pés e sem penas, afirmo que nem vós nem todos os filósofos do mundo corrigirão o gênero humano da superstição... Creio, no entanto, que a voz da razão, à força de se insurgir contra o fanatismo, poderá tornar a raça futura mais tolerante do que a do nosso tempo: e já isso será lucrar muito.”
O rei Frederico teve a admirável intuição de algumas verdades, que depois de sua morte floriram e se verificaram. Nos juízos que acabo de reproduzir, porém, ou falhou ou os formulou com muitos séculos de antecipação, antes que eles possam ser reconhecido como exatos. Com efeito, cento e quarenta e seis anos volvidos sobre a sua epístola a Voltaire, é fácil observar que a rez pensante do nosso tempo é tão intolerante ainda como o foi nos dias em que Frederico o Grande reinava. Reside nela o mesmo orgulho, a mesma vaidade, a mesma ânsia do domínio, a mesma vontade do triunfo sobre o seu semelhante: - e ativamente pretende impor a sua opinião à opinião dos outros e fazer prevalecer as suas ideias sobre as ideias alheias.

O articulista escreveu tais palavras em 1911, referindo-se a um contexto de 1725. E hoje, o que temos? Algum avanço na esfera das ideias? Avanços no respeito à diversidade e à opinião contrária? Parece-me que não! Quando um país inteiro pensa de um só modo, isto é algo bastante perigoso. Obrigar cidadãos a pensarem do mesmo modo, na historiografia moderna, tem um nome: ditadura, fascismo, nazismo etc. Etc porque nesses nossos dias em que a modernidade é líquida e a razão já não oferece qualquer garantia de compreensão do mundo, uma vez que, muitas vezes, comprometida com os jogos do poder, insurge-se como agente de repressão, o que dizer do episódio envolvendo a jornalista Miriam Leitão?
Miriam Leitão, ainda que tenha militado no PCdoB, penso, não come ou comeu criancinhas. Gostem ou não os apoiadores do presidente, os quais, destacaram-se publicamente no cenário nacional por clamarem por democracia, Miriam Leitão tem direito à sua opinião. No caso, é claro, ela não é apoiadora do atual presidente, assim como não era dos anteriores, um dos quais mencionava o nome da jornalista nos palanques, aventando a sua desaprovação à política econômica que praticava. Miriam foi achincalhada em um voo pelos asseclas do tal presidente, que a chamavam de direitista e neoliberal. Quem viu o vídeo constatou tratar-se de uma situação aterradora, beirando a fronteira da agressão física. Não por outra razão, a Profa. Maria Sylvia afirmava que a “ideologia emburrece”.
Na bola da vez, com a alternância das forças políticas, Miriam Leitão novamente sofre ataques, mas agora não foi insultada pela massa cuja ideologia aliena, mas pelo próprio presidente. E tudo isso por quê? Segundo nosso articulista, por causa da “vaidade, [d]a mesma ânsia do domínio, [d]a mesma vontade do triunfo sobre o seu semelhante”. Por isso, e só por isso, Miriam Leitão pode – e deve – ser aviltada, afinal, ainda que as forças e os jogos de poder tenham se alternado, a máxima continua a mesma: “a ideologia emburrece”, o que faz com que as pessoas não enxerguem muito além dos umbrais de suas portas, protegidas em sua zona de conforto. Talvez por isso, os comentários animosos e violentos direcionados à jornalista por apoiadores do presidente.
Voltaire, o interlocutor de Frederico o Grande e paladino da tolerância, perguntava: “O que é a tolerância? É o apanágio da humanidade. Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices, tal é a primeira lei da natureza.”
Dito isto, parece-me que sua eminência, o presidente, esqueceu-se inclusive do aforismo que encoraja os crédulos a jogar a primeira pedra caso jamais tenham pecado. Trocando em miúdos, sejamos mais humildes, respeitemo-nos, afinal, homens demais já decepcionaram Voltaire e fizeram com que Frederico o Grande incorresse em erro. 


Imagem: Tolérance, por Boussoussa.
Publicado anteriormente em https://www.z1portal.com.br/miriam-leitao-e-a-intolerancia/

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Sísifo: revolte-se e mereça a vida!


 “É porque há revolta que a vida de Sísifo merece ser vivida,
a razão por si só não lhe permite dar sentido ao absurdo do mundo.”
Albert Camus


Em busca do carro das ideias, leio as notícias da semana e agradeço ao universo por ainda termos a literatura. A literatura, diferente dos Evangelhos, não nos pede nada – sequer que amemos uns aos outros -, não nos promete coisa alguma, contenta-se tão somente em alimentar-nos o espírito. Tudo depende de nós. Muitos, porém, nutrem por ela certo asco, sobretudo ignorantes e os poderosos, cuja função não é outra que cercear as liberdades em proveito de interesses.
Troca-se a canalha política no poder e tudo continua igual, até mesmo a ideia de que o livro é arma perigosa. E talvez seja mesmo, afinal, ali a verdade das ideologias é esmiuçada a ponto de o leitor perspicaz subtrair dos discursos a máxima de que todos eles são alienantes. Por essa razão, creio, a presença de Miriam Leitão e Sérgio Abranches foi vetada pela comissão organizadora da 13a Feira do Livro de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina.
Por isso, leitor, se as coisas não estão indo bem hoje, diga a si mesmo que você poderia ter sido Sísifo. Ou pode vir a ser, quem sabe? Do jeito que a banda tem tocado, manadas de gados felizes encurralando junto ao abatedouro os revoltosos... e estes, só assim chamados porque discordam dessa ou daquela cartilha. Ainda assim, afirmo, somos agradecidos e felizes, pois temos a literatura e nos revoltamos.
A revolta, diferente do que muitos afirmam, é maná distribuído feito pão a nós homens perdidos no deserto da ignorância. Portanto, revoltemo-nos. Isso me leva a Sísifo, um Sísifo feliz, tal como disse pela primeira vez o pensador japonês Kuki Shuzo, antes mesmo de o ser por Albert Camus. Mas Sísifo não se deixa imaginar facilmente na alegria. Sísifo, nos poemas de Homero, é o mais inteligente dos homens, é um navegador, um grande comerciante, um homem muito seguro de si mesmo, pois não hesitou em desafiar Zeus, revelando ao deus-rio Azopos, onde se encontrava sua filha Aegina, que Zeus havia raptado porque a desejava.
Por vingança, Zeus pediu a Thanatos que matasse Sísifo, mas Sísifo conseguiu acorrentá-lo, impedindo-o de levá-lo ao inferno. Tudo isso provocou a ira de Zeus, que condenou Sísifo a rolar com suas mãos uma rocha até o topo de uma montanha, de modo que toda vez que estivesse quase alcançando o topo, a pedra rolaria montanha abaixo até o ponto de partida em razão de uma força irresistível, invalidando todo o esforço empreendido
As interpretações variam: para alguns, Sísifo encarna os movimentos perpétuos da natureza, o sol, as marés; para outros, Sísifo personifica a infelicidade do homem, o absurdo da vida. Esta é, em particular, particular a concepção de Albert Camus em seu mito de Sísifo. Mas para Camus, Sísifo também é um lutador, ele não cede ao desespero porque continua a rolar sua pedra, ele escolhe a vida contra e apesar de tudo. Ele se revolta, não se desespera.
É por isso que Sísifo encarna, segundo Camus, a única questão filosófica realmente séria, a do suicídio. Viver, claro, nunca é fácil, escreve Camus, continuamos a fazer os gestos que a existência comanda por muitas razões, a primeira das quais é o hábito. Não há punição mais terrível do que a de um trabalho inútil e absurdo como o de Sísifo, um trabalho absolutamente sem sentido, um trabalho sem fim. O que dá sentido à existência dessa personagem é, em última análise, o modo como ela desafia os deuses, se liga à vida, enfim, o modo como se revolta.
O significado de sua existência é a luta. Esse mito é trágico porque essa personagem está ciente disso, ela sabe muito bem que seu destino enfrenta uma punição irracional (assim como hoje temos enfrentado decisões irracionais!). Por fim, como disse Camus: “Sísifo, proletário dos deuses, impotente e rebelde, conhece toda a extensão de sua miserável condição. É nela que ele pensa durante a descida, e a lucidez que deveria constituir sua tortura, pela mesma ação consome sua vitória. É porque há revolta que a vida de Sísifo merece ser vivida, a razão por si só não lhe permite dar sentido ao absurdo do mundo.”
Por isso, leitor, alegre-se, se você já não é um Sísifo.

Imagem: Sisyphus, por Antonio Zanchi, c. 1660=1665.



segunda-feira, 15 de julho de 2019

Amores difíceis


A prosa de hoje é mais um desabafo, o que não impede o leitor experimentado de associar o título à obra de Italo Calvino – Os Amores difíceis (Gli amori difficili). Mestre da narrativa curta, o conto, do calibre de Tchekhov, Maupassant, Borges, Cortázar e outros, Calvino é daqueles autores cuja estranheza nos assimila de tal modo que, original, deixa de nos ser estranha. Sua escrita, por mais que esperneiem as patrulhas empenhadas em fazer trigo do joio, é canônica, e Os Amores difíceis são uma mostra de narrativas do desencontro, em que “o não encontrar-se não é um simples motivo de desespero, mas elemento essencial da própria relação amorosa”.
Mas a vida real é diferente. Não à toa Balzac, ao escrever seu Père Goriot, pedia ao leitor que creditasse qualquer exagero ou poesia aos infortúnios de Goriot, pois o drama não é nem uma ficção, nem um romance: All is true, disse Balzac. A vida é real, tão real que até mesmo elementos fisgados da ficção, em lances de imaginação tão grotescos quanto as mais extravagantes narrativas, não se equiparam a ela. Tudo é verdade, por isso, a vida real é completo desespero.
Em tempos em que discursos radicais têm-se imposto e o povo (agora cito Chomsky) “não sabe o que está acontecendo, nem mesmo sabe que não sabe”, muitos, que escondem sua hipocrisia e seus preconceitos sob o escudo da religião, por interesse, sim, porque é o interesse que move o mundo, revelam seu jeito próprio de ser, qual seja, a fruta dentro da casca, e, nesses casos, o sabor é amargo e repugnante.
Tome-se, a título de exemplo, essa narrativa que pincei da vida real, ocorrida com um casal de amigos, companheiros de uma jornada de quinze anos. Sim, dois amigos gays. É deles que vou falar e, se você leitor, estiver investido de sua pureza moral e for um desses guardiões da família tradicional, hipócrita (salvo raras exceções) e preconceituosa, interrompa a sua leitura agora e procure a estante de livros mais próxima, ali, apanhe um volume dos Evangélicos e verá que o Mestre, cujas palavras hoje são tão vilipendiadas, defendeu prostitutas, andou ao lado de pobres e leprosos e disse que deveríamos amar-nos uns aos outros. Ah vá lá! Mas isso é o óbvio, pode você contra-argumentar. Não, não é, replico! Caso fosse, não estaríamos vivendo dias tão assustadores quanto os de hoje.
Pois bem, retorno à minha narrativa: L. conheceu D. há quinze anos, respeitaram-se, amaram-se e resolveram que viveriam juntos, compartilhando o respeito, as alegrias e as tristezas. Ocorre que semana passada, D. partiu, expirou durante uma noite de sono tranquilo. A tranquilidade dos justos, de alguém que não roubava, não caluniava, não cometia falsos testemunhos, mas só queria viver, viver a arte, viver a vida.
L., desesperado, sim, para L. não encontrar-se mais com D. tornou-se seu grande desespero logo no café da manhã, quando descobriu que seu companheiro não mais existia. Repito, tomado pelo desespero, L. procurou ajuda. A família de D., ausente por longos quinze anos, apareceu. Apareceu como um raio, algo divino, mas atravessado, movida pelo interesse. L. viu-se obrigado ao desprezo e ao constrangimento, imposto pela família de seu companheiro, ausente até o dia anterior. E não bastasse isso, sofreu também com o descaso, os risinhos e os cochichos dos colegas de trabalho de D., machões, hipócritas e falsos moralistas, daqueles que defendem a família, mas passam suas horas de happy hour relaxando em prostíbulos.
Por que contar a síntese da síntese desse relato? Ora, por duas únicas razões: a primeira é que sob a égide do bom mocismo e da religião, famílias, por interesse, e amigos, por sarcasmo, sabem ser cruéis, perversos, hediondos e impiedosos; a outra, é que aqueles que se respeitam, devem fazer valer seus direitos e não mais se submeterem a esse tipo de violência. O que mais posso dizer quando noto que a humanidade é pura retórica?



sexta-feira, 5 de julho de 2019

Memórias de um editor


Lembro-me de Umberto Eco ter dito em um de seus livros que, às vezes, não somos nós que escolhemos os livros, mas são eles que nos escolhem. Olhamos suas capas, apanhamo-los das estantes, manuseamos, cheiramos (sim, bibliófilos cheiram livros como glutões se deixam levar por aromas e memórias gastronômicas) e, por fim, levamos para casa livros cuja leitura é incerta, mas, quando acontece é descoberta, aventura, encanto e conversão.
Há cerca de um mês, em uma livraria de Sampa, à procura de uns livros que não encontrei, fiz o que fazem os viciados em livros e, como Calvino, abri caminho “através da densa barreira dos Livros Que Nunca Li, das mesas e prateleiras, olhei-os de esguelha tentando intimidá-los, mesmo sabendo que não devia deixar-me impressionar, pois estavam distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura é Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos”... Por fim, ao atravessar em meio às falanges e falanges de livros, um pequeno volume, frágil, pequeno, porém robusto de conteúdo, lançou-me um olhar cândido. É preciso que diga ao leitor que estava de joelhos e o olhar do livrinho, cândido, porém imponente, trouxe-me algo do frescor das ideias potentes, assegurando-me da força das palavras ali escritas. Capitulei. Trouxe comigo Memórias de um editor, de Kurt Wolff, editado pela Âyiné, de Belo Horizonte.
A obra editada pela Âyiné me foi uma dessas verdadeiras descobertas: o primor da edição faz dela uma preciosidade; a capa de Julia Geiser é daquelas que se justapõem ao relato, complementa-o, torna-o memorável. E por falar em memória, as Memórias de Kurt Wolff são circunscritas à sua empreitada como editor, ainda que temperadas aqui e lá por preciosismos e esquisitices dos autores com os quais trabalhou.
O livro de Wolff é sobre autores e livros e só por isso vale transcrever um fragmento tornado público pelo editor de sua obra em 1965:

A ideia que o leigo tem do editor e de como ele trabalha é surpreendentemente primitiva: ele lê o manuscrito ou dá para alguém de sua confiança ler (há sempre enorme quantidade de manuscritos à espera) e manda para a gráfica as obras que agradaram a ele ou a seus colegas. Para o livro ficar bonito e com aspecto agradável, ele capricha na encadernação e contrata um ilustrador para desenvolver a capa. Se o livro terá sucesso ou não, é pura obra do acaso.
A realidade, porém, é outra. É difícil explicar quão complexa é essa profissão e como há uma série de elementos que devem funcionar coordenadamente para se ter um conceito real, legítimo e positivo de editoração. Como vira e mexe, nessa profissão, o irracional se sobrepõe ao plano racionalmente desenvolvido, jogam-se todas as previsões no lixo. Vive-se em uma situação permanente de incertezas e surpresas; uma fonte interminável de alegrias e decepções.

De fato, Memórias joga com essa sua afirmação. Editor de Franz Kafka, Heinrich Mann, Max Brod, Gustav Meyrink, Karl Kraus e tantos outros, Wolff tenta elucidar a complexidade da profissão. O primeiro capítulo “Livros e aventuras” procura responder ao leitor como ele, Wolff, tornou-se editor, além de responder a questões sobre como os manuscritos chegam à editora, os critérios empregados na escolha do que se publica ou ainda, como se dá o encontro entre autor e editor. Ao elencar muitos dos autores que publicou na fase inicial de sua editora, Wolff explica “a odiosa pecha de editor do expressionismo” que lhe fora atribuída.
O segundo capítulo, intitulado “‘Afanar’ ou como autores e editores se distanciam” traz ao leitor um panorama sobre as relações entre ambos, editor e autor, e também entre editor e editor, à vista dos deslocamentos dos autores de uma editora a outra. Wolff trata do assunto com refinada diplomacia, assegurando seu “desejo de manter a inviolabilidade da liberdade de decisão do autor”, embora confesse que é sempre frustrante para um editor ter um de seus autores “afanados” por outro editor, sobretudo se o autor “afanado” é, digamos, rentável.
O terceiro capítulo é dedicado à aventura de publicar. Destaca-se nesse capítulo o périplo para publicar Avant et Après, de Gauguin, à época (1913) um pintor ainda não tão cortejado pelos museus. Wolff conta suas tratativas com os herdeiros e como, quarenta anos depois, teria notícia do manuscrito em Nova York. Vale ressaltar ainda que nesse capítulo Wolff confessa certo “arrependimento” por não ter publicado um dos livros de James Joyce, antes que o escritor escrevesse Ulisses, fato que me fez lembrar de Gide, que se negara a publicar Proust, quando editor da Nouvelle Revue Française (NRF).
Na segunda parte do livro Wolff traz um capítulo dedicado aos autores Carl Sternheim Franz Kafka e Karl Krauss. Não é preciso dizer que o ponto alto desse capítulo é o aclamado Kafka. Wolff relata como fora apresentado a ele por Max Brod, quando estes, em uma viagem de férias, passaram por Leipzig. Segundo Wolff, Kafka mostrou-se “calado, acanhado, tênue, vulnerável, intimidado como um colegial diante do examinador, convencido da impossibilidade de satisfazer as expectativas oriundas dos elogios do empresário”, no caso, papel atribuído a Max Brod, que o levara até Wolff. Este, ao despedir-se de Kafka naquela tarde de junho de 1912, diz ter ouvido algo do escritor que jamais ouvira de outro autor, nem antes, nem depois dele: “Agradeceria o senhor ainda mais pelo retorno do manuscrito do que pela publicação.”
Os anexos trazem alguns momentos particulares da vida de Kurt Wolff, as dificuldades com a editora em razão da inflação galopante, os frequentes deslocamentos pela França e Itália em razão da guerra, até sua imigração aos Estados Unidos, onde se fixaria e fundaria a editora Pantheon Books que, a exemplo da editora Kurt Wolff seria um empreendimento bem sucedido. Wolff desapareceria em 21 de outubro de 1963, a caminho de um encontro com o Grupo 47 (grupo de autores e críticos alemães empenhados em revitalizar a literatura alemã no pós-guerra), mas, como os autores que publicou, está aí, vivo e presente, nos contando histórias e histórias sobre livros, autores e editores.




Imagem: capa do livro publicado pela Editora Âyiné.
Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/memoria-de-um-editor/

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Escrever e morrer


Em 1967, Roland Barthes escreve A Morte do Autor, texto seminal para os estudos literários. Nele, ao comentar a novela Sarrasine, de Balzac, o crítico afirma que a escrita é um neutro, um compósito, um oblíquo para onde foge o sujeito, o preto-e-branco onde perde-se toda a identidade, começando precisamente pelo corpo que a escreve.
Ora, fato contado, produz-se um descompasso e a voz perde sua origem, morre o autor e a escrita começa. Em proveito da escrita, restitui-se então o lugar ao leitor, esse escriptor que reescreverá livros e livros à sua maneira, preenchendo as entrelinhas.
É claro que há críticos - Bloom, por exemplo – que acham isso tudo uma tolice. A despeito da teoria, o império do Autor, essa personagem moderna, segundo Barthes, ainda é muito poderoso. Não importa aqui se as sociedades modernas o tenham produzido em proveito de interesses outros, o que importa é que o Autor acreditou desde sempre que o produto de sua criatividade, ainda que espalhado pelos quatro cantos, é coisa sua, só sua. Surrupiar vira plágio, alterar, só com seu consentimento, e, ainda assim, às vezes, as relações azedam entre autores e os artistas que resolvem balançar o berço da criança cuja paternidade não fora sua.
Tomemos alguns exemplos: conta-me S. L., que fora amiga de Hilda Hilst, que, juntas, em uma noite fria resolveram ir ao teatro Centro de Convivência, em Campinas, assistir a montagem de A Morte do Patriarca. Casa lotada, atores e diretor exultantes, afinal, Hilda estava na plateia. Mal esperavam o final do espetáculo para ouvirem a opinião da escritora e quem sabe dividir algum dedo de prosa em algum dos bares do Cambuí. Ocorre que nem mesmo haviam transcorridos vinte minutos do início do o espetáculo, Hilda toma S.L. pelo braço e, decidida, diz: “Vamos, agora.” Hilda saiu do teatro e a plateia que sabia de sua presença ali voltou as costas para o palco. Atores e diretores... prefiro não comentar. O que soube por S.L. é que ela, Hilda, odiara tudo. “Não foi isso o que escrevi”, concluiu. Porém, Hilda sobreviveu.
Marguerite Duras, por sua vez, antes mesmo de se tornar cineasta tivera algumas de suas obras adaptadas: René Clément realizou Un barrage contre le Pacifique, que Duras considerou “a mais inacreditável traição”; o mesmo ocorreria com Moderato Cantabile, adaptado por Peter Brook, que a autora, descontente, disse ter querido fazer sua própria versão. Já com O Amante (1984), adaptado por Jean-Jacques Annaud em 1991, e cuja estreia deu-se em 1992, Duras não gostou nem um pouco, afirmando que a adaptação ideal do romance seria sua leitura feita por ela mesma. Duras, assim como Hilda, também sobreviveu.
Boris Vian, prolífero autor francês que escreveu nada mais nada menos que 10 romances, uns 60 contos, 3 coletâneas de poesia, 3 volumes de crítica e crônicas de jazz, 10 peças de teatro, 6 libretos de ópera, 30 roteiros, cartas, panfletos, manifestos e traduções, também teve lá seus problemas com os adaptadores. Em 1946, Vian havia escrito J’irai cracher sur vos tombes, cujos direitos de adaptação haviam disso comprados pela sociedade SIPRO.
O próprio Vian se encarregara de adaptar seu romance para o cinema; ao entregar sua adaptação aos produtores recebeu um “não compreendemos bem o que o você quis dizer [...] fomos obrigados a contatar um novo adaptador para este trabalho”.
Na manhã de 23 de junho de 1959, J’irai cracher sur vos tombes, filme inspirado em seu romance é projetado no cinema Le Marbeuf, perto da Champs-Élysées. Vian, que já havia discutido com os produtores, dissera estar convencido de que a adaptação não era seu estilo e que expressaria publicamente seu desagrado e, por fim, que não queria seu nome associado ao filme. Apesar de suas hesitações, Boris fora convencido por amigos a ir à projeção. Logo nos créditos do início, quando apareceram as palavras “inspirado no romance de Vernon Sullivan (pseudônimo de Vian), traduzido do americano por Boris Vian”, este se levanta e grita “Ah, não...”.
Diferente de Hilst e Duras, Vian não suporta o ultraje e morre de uma fibrilação ventricular, aos 39 anos, antes mesmo de chegar ao hospital Laennec. 

Foto: Cena de J’irai cracher sur vos tombes, filme de Michel Gast, 1959.
Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/escrever-e-morrer/

Prosa para bibliófilos


Há alguns anos, lembro-me de ter ouvido de uma professora que o mercado dos livros e autores funciona como ações de empresas nas bolsas de valores. Ainda segundo ela, aquele que investisse em Victor Hugo certamente faria proveito de bons rendimentos. Falávamos, é claro, da literatura francesa. No Brasil, encabeçando o peloton de tête acho difícil não apostar em Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Drummond e outros, seguidos, é claro, por uma multidão que a poeira do tempo se encarregara de apagar, nos quais, é evidente, não apostaria meus parcos caraminguás, até mesmo porque muitos dos talentos recentes têm sido listados entre grandes nomes da literatura em razão da onda multiculturalista, que nos tem empurrado goela abaixo muita mosca em meio à sopa.
Por isso, interessou-me uma reportagem publicada este mês no Le Monde sobre a ascensão da bibliofilia. A jornalista Roxana Azimi traça um perfil das ações do bibliófilo, que, discreto e silencioso, tem aquecido o mercado de raridades, inflacionando os leilões de livros antigos, enquanto o setor editorial sofreu queda – na França e no Brasil – no ano de 2018.
O mercado é restrito e negócios na área demandam dispender boas somas de dinheiro. Druout, um portal de leilões, afirma que não se passa uma semana sem que realizem a venda de um exemplar raro e procurado por bibliófilos. A Sotheby's, líder neste mercado de leilões, ofereceu em 18 de junho uma cópia da Histoire naturelle de Buffon, acompanhada de algumas obras ilustradas modernas. Sua rival, a Christie's oferecerá de 3 a 5 de julho, a formidável biblioteca de Paul Destribats, falecido em 2017.
A bibliofilia é um campo tão vasto que os colecionadores padecem de embarras de richesse, qual seja, o excesso de oferta de obras de excelente qualidade. “Paul Destribats era apaixonado pela vanguarda do século XX, até a obsessão sem dúvida; Pierre Leroy, do Grupo Lagardère, vendeu sua biblioteca surreal em 2002 e seus livros de Baudelaire e Proust, em 2007; hoje, afirma Adrien Legendre, da Christie, ele está preocupado com Camus e Sade. Alguns colecionam incunábulos [obras datadas de antes de 1500], outros impressões góticas do século XVI, e, às vezes, dentro dessas especialidades, ainda pode-se reduzir o campo de coleta selecionando um país, uma impressora, um ilustrador.”
A literatura francesa, também por embarras de richesse é parte do que se oferece aos leões. Os melhores nos quais apostar? Hugo, Rimbaud, Baudelaire, Flaubert e Proust, “autores universais que, modernos em sua época, ainda são hoje”, afirma Benoît Puttemans, especialista da Sotheby's. “Para estes escritores, quase toda edição original é procurada e é difícil não vender uma cópia das Flores do mal, de Baudelaire, se for corretamente apreciado”, diz Adrien Legendre.
Tomemos o caso de Proust. A Sotheby's vendeu em 2013, por 650.000 euros, uma das cinco cópias em papel japonês de Du côté de chez Swann, enriquecida por uma correspondência para o escritor Lucien Daudet. Em 2018, este volume, comprado entretanto por Pierre Bergé, foi vendido por quase 1,5 milhões de euros. “Por outro lado, diz Benoît Puttemans, o mercado de autores clássicos como Gide e Giraudoux, para não falar de Anatole France, que era uma das estrelas de vendas do início do século XX, não é o que era”. Autores que aparecem em programas escolares como Lamartine, ou regularmente no teatro, como Claudel, não são populares nos leilões.
Difícil, no entanto, desenhar generalidades. Com o mesmo autor, os preços podem variar completamente. As primeiras obras de Gide são, portanto, mais procuradas do que as posteriores, cujo oferta é mais abundante. Se a Sotheby's vendeu em 2015 por 11.250 euros uma cópia do Poésies de André Walter, oferecido por Gide a Mallarmé, outros tantas edições originais da mesma obra mal chegam a 100 euros, prova de que a dedicatória tem seu preço.
Embora os colecionadores tenham seu próprio hobby, todos correm atrás do mesmo melro, a Bíblia de Gutenberg, o primeiro livro impresso. “As cópias são tão raras que uma única página pode valer dezenas de milhares de euros”, observa Benoît Puttemans. Outro Graal? Um manuscrito de Molière que ninguém encontrou até hoje, ou uma antiga edição de Shakespeare. A edição de 1623 das obras do dramaturgo inglês atingiu 2,8 milhões de libras esterlinas (cerca de 3,2 milhões de euros) em 2006 na Sotheby's.
Você não precisa ser um milionário para comprar livros raros. A chamada literatura “popular” é cheia de oportunidades. Desde sua entrada na “Biblioteca da Pléiade”, Georges Simenon excedeu largamente a categoria de romances de estação, mas seus preços permanecem modestos, entre 150 e 500 euros para uma edição original numerada, menos para uma edição original recém publicada. “Mas pode ir até 5 mil euros se essas edições forem enriquecidas por correspondências ou por raridades, como a edição americana de Maigret”, diz Benoît Puttemans.
Nas livrarias, os livros de Michel Houellebecq em papel especial são tomados de assalto. Por enquanto, essas cópias raramente aparecem em leilão. Uma edição original em papel especial de La Carte et le Territoire, publicado em 2010, foi leiloado 4,802 euros no Artcurial em 2018. “Um livro, cuja publicação não excedeu 200 cópias é mais fácil de se tornar raro, com um capa singular, uma dedicação ou uma gravura que um livro publicado com 5.000 ou 10.000 exemplares”, observa Adrien Legendre.
Uma regra que se contradiz se observarmos alguns sucessos anglo-saxões como Harry Potter. Uma edição original do primeiro volume da saga de J.K. Rowling atingiu 162 500 dólares (145 350 euros) em 2018, na Christie's. Por sua vez, a Sotheby's vendeu uma cópia de The Tales of Beedle the Bard, anotada e ilustrada por JK Rowling, por 1,9 milhões de libras esterlinas (cerca de 2,2 milhões de euros) em 2007. Em termos de livros não há regras. Outra cópia, que pertenceu ao editor da autora, não excedeu 368.750 libras (cerca de 420.000 euros) em 2016.
No Brasil, os bibliófilos fazem parte de um grupo reduzido e os livros, não raro, são objeto de buscas até mesmo no exterior, a exemplo da primeira edição de O Guarani, de José de Alencar, que levou José Mindlin a algum desespero quando o esqueceu em avião de Air France.

Imagem: Los Bibliofilos, de Luis Jiménez y Aranda

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Voltaire: filósofo – e vegetariano avant la lettre (II)


A semana foi das melhores no quesito hipocrisia; nesse domínio, mostramos o quanto somos perversos, esquizofrênicos e amnésicos. Trato, evidentemente, da política torva e sanhuda que encheu o carro das ideias. Mas falemos de Voltaire, cujas reflexões continuam atuais e sempre nos levam a pensar o presente.
Semana passada discorri sobre alguns textos voltairianos e prometi comentar um pouco de seu Dicionário filosófico. No artigo “carne”, o filósofo mostra como Porfírio considerava os “animais como nossos irmãos porque eles são animados (de anima/alma) como nós, têm os mesmos princípios de vida e, assim como nós, têm ideias, sentimento, memória, habilidades” (Hoje, alguns países já concederam aos animais o status de seres sencientes.)
O vegetarianismo de Voltaire afirma-se assim como uma postura filosófica oposta a qualquer atitude antropocêntrica. O filósofo não acredita que a humanidade seja o centro da criação ou o topo da cadeia alimentar - e que os animais estejam abaixo dos seres humanos e apenas “predestinados” a servir de alimento para os homens: “As ovelhas não foram feitas absolutamente para serem cozidas e comidas, visto que muitas nações se abstêm deste horror.”
Em A Filosofia da História (capítulo XVII, “da Índia”), Voltaire defende a doutrina da reencarnação das almas (transmigração) que prevalece entre os índios (ou Hindus), nas terras “em direção ao Ganges”, que, segundo ele, é uma “filosofia da moralidade” que inspira “o horror do assassinato e de toda a violência”. Esta consideração voltairiana também se encontra nas Cartas de Amabed (Segunda Carta de Amabed a Shastadid), onde um jovem hindu de Benares, aluno de missionário jesuíta que quer evangelizá-lo e fazê-lo abjurar a fé seus antepassados, lamenta ver os europeus, colonizando a Índia, cometendo “terríveis crueldades pela pimenta” e matando as galinhas.
Essa postura moral vegetariana é para Voltaire uma oportunidade de relativizar as certezas ocidentais decorrentes do cristianismo, em proveito de uma universalização de referências negando todo o etnocentrismo e todo o antropocentrismo. É também uma oportunidade de louvar os “gentios” e sua filosofia antiga (grega ou indiana) e abertamente zombar dos clérigos cristãos e instituições da igreja - convencidos de sua moral exemplar - que se preocupavam muito com os minuciosos detalhes dogmáticos de suas crenças empenhadas em reconhecer ou condenar (lembrem-se do ódio entre católicos, judeus e protestantes), mas que se recusam a educar as massas à clemência em relação aos animais e eram  (e são), portanto, incapazes de promover o vegetarianismo:

Não vejo moralista entre nós, nenhum de nossos loquazes pregadores, nem mesmo um dos nossos hipócritas, que tenha feito qualquer reflexão sobre este terrível hábito [“alimentar-se continuamente de cadáveres”, segundo Voltaire]. Devemos voltar ao piedoso Porfírio e aos compassivos pitagoricianos para encontrar alguém que nos envergonhe de nossa sangrenta glutonaria, ou devemos viajar até aos brâmanes; porque (...) nem entre os monges, nem no Concílio de Trento, nem em nossas assembleias do clero ou em nossas academias, não se pensou ainda em dar o nome de mal a este abate universal.[1]

Voltaire protestou também contra as práticas de vivissecção de seu tempo (experimentação em animais, generalizando-se como dogma o “animal-máquina”, de Descartes):

Os bárbaros se apoderam do cão, que excede prodigiosamente ao homem em amizade; pregam-no em uma mesa e o dissecam vivo para mostrar suas veias mesentéricas. Você descobre nele todos os mesmos órgãos de sentimento que estão em você. Responda-me, homem máquina: a natureza arranjou todas as fontes de sentimento neste animal para que ele nada sinta? Ele tem nervos para ser impassível? Não suponha essa contradição impertinente na natureza.[2]

Tratando-se do vegetarianismo, nota-se que Voltaire não só foi um homem avant la lattre – antes de seu tempo, como também suas ideias têm se mostrado atuais, despertando o homem moderno à reflexão - ao menos aquele afeito à compaixão e ao respeito.

Imagem: L'Âge d'or, de Lucas Cranach l'Ancien (1530).


[1]  Voltaire, Il faut prendre un parti (Du mal, et en premier lieu de la destruction des bêtes).
[2]  Voltaire, Dictionnaire philosophique, articles "Bêtes", dans Œuvres complètes, Arvensa Editions. Kindle, 74852-74861.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Voltaire, filósofo - e vegetariano avant la lattre


Remissões a Voltaire, em uma imprensa povoada por celebridades vazias de espírito, parecem arcaísmo. De sua obra poética, pode-se afirmar que bem pouca coisa ainda é legível; de sua produção como historiador e cientista não se pode dizer algo muito diferente, haja vista seus escritos terem se tornado datados em razão das vicissitudes que movem as sociedades; sobram, portanto, o polemista, o filósofo e o prosador, enfim, o escritor, cuja verve irônica não só marcou o século XVIII, mas ainda perdura, sendo revisitada a cada vez que a intolerância abre as asas sobre nós. Mas Voltaire é mais, ou melhor, foi mais que isso: Voltaire nutria o mesmo respeito que Da Vinci e Schopenhauer - por exemplo, pelos animais, refletindo sobre suas percepções e sentimentos e praticando o vegetarianismo.
Voltaire recusava-se a ver os seres humanos como superiores, por sua essência, em relação a outras espécies animais; isto corresponde à sua rejeição pelas religiões abraâmicas (de Abrahão - Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, nas quais o animal é frequentemente considerado inferior ao homem) e a doutrina dos “animais-máquinas” presente no Discurso do método, de René Descartes - que ele odiava, e considerava ser uma “vã desculpa  da barbárie”, que permitia ao homem desnudar-se de qualquer sentimento de compaixão pelo sofrimento dos animais.
Voltaire começou a se interessar pelo vegetarianismo e, em sua defesa, por volta dos anos de 1761-1762, como mostrou Renan Larue[1]; diversas leituras ligam o filósofo a uma afirmação pitagoriciana (o termo vegetarianismo não existia à época): o testamento de Jean Meslier, o Émile, de Jean-Jacques Rousseau, o Tratado de Porfírio, sobre a abstinência da carne de animais, bem como numerosas obras sobre o hinduísmo (obras bramânicas que estavam começando a ser traduzidas para o francês e estudadas nos círculos intelectuais europeus).
Em suas cartas, Voltaire declara que “não come mais carne” e “nem peixe”, definindo-se ainda mais pitagoriciano que Philippe de Sainte-Aldegonde, um vegetariano que recebera em Ferney, perto de Genebra.
Para Voltaire, o vegetarianismo nunca foi justificado sob uma lógica ligada à saúde, mas sempre por razões éticas: o vegetarianismo é uma “doutrina humana” e uma “lei admirável pela qual é proibido comer os animais nossos semelhantes”. Tomando como exemplo Isaac Newton, para quem a compaixão pelos animais se revelava uma base sólida para a “verdadeira caridade” em relação aos homens, Voltaire afirmava que não merece ser chamado de filósofo quem não se tem essa “humanidade, virtude que inclui todas as virtudes”.
No Diálogo do galo e do frango, Voltaire faz com que os animais digam que os homens que os comem são “monstros”, “monstros” humanos que também se matam cruelmente: o galo elogia a Índia, onde “os homens têm uma lei sagrada que por milhares de séculos os proibiu de nos comer”, bem como os antigos filósofos europeus:

Os maiores filósofos da antiguidade nunca nos colocaram no espeto. Eles tentaram aprender nossa língua e descobrir nossas propriedades tão superiores às da espécie humana. Nós estávamos seguros como na idade do ouro. Os sábios não matam animais, diz Porfírio; somente bárbaros e padres os matam e os comem.

Em A Princesa da Babilônia, um pássaro afirma que os animais têm “uma alma”, assim como os homens. No Tratado sobre a tolerância (nota do capítulo XII), Voltaire lembra que o consumo de carne animal e o tratamento dos animais como objetos estritos não são práticas universais e que “há uma contradição manifesta em acreditar que Deus deu aos animais todos os órgãos do sentimento, e sustentar que ele não lhes deu nenhum sentimento. Parece-me ainda que nunca se deve ter observado os animais de modo a não distinguir entre eles as diferentes vozes da necessidade, do sofrimento, da alegria, do medo, do amor, da raiva e de todas as afeições”.
Voltaire vai mais longe quando se trata do respeito aos animais, mas o espaço e o tempo são curtos, leitor, por isso, à moda do folhetim, continuo semana que vem com as considerações do filósofo sobre “A Carne”, presentes em seu Dicionário filosófico.


Imagem: Pitágoras defendendo o vegetarianismo, de Pierre Paul Rubens.


[1] LARUE, Renan Larue. Pensées végétariennes, Voltaire, Éditions Mille et une nuits, n°632, 2014; « Le Végétarisme dans l'œuvre de Voltaire (1762-1778)”. Dix-Huitième siècle (2010) n°42, pp. 19-34.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Amor de verdade? O dos animais.


Em busca do carro das ideias corro os olhos pelas notícias da semana e não vejo nada além de balbúrdia. Balbúrdia em Brasília, balbúrdia nas universidades – não sou quem diz, mas um tal de Sr. Weintrauma -, enfim, balbúrdia nas ruas, nos sites de notícias e nas redes sociais. Fazendo as vezes de advogado do diabo: já notaram quanta gente tem passado por Harvard, quantas pesquisas brotaram de departamentos até então obscuros? O que me deixou pasmo não foi nem a pomada cicatrizante a partir de água de coco, mas a descoberta de que o cocô humano tem sido usado em tratamento contra infecções, obesidade e problemas mentais.
Ah vá, quem disse que contive as sinapses? Na hora fiquei achando que Brasília, o STF, leitor, deveria abandonar as lagostas e partir pra merda, afinal, o pessoal por lá anda um pouco além do peso e as faculdades mentais, bem, estas, considerando-se o que se decide por lá... prefiro não comentar, como diria Copélia! A dita refeição, penso, também deveria ser servida à gerência da rádio Jovem Pan, que ora censura o historiador Marco Antonio Villa por criticar o mandatário JB (que não é o whisky e nem o Jornal do Brasil). Deste, dizem, não partiu a ordem de suspensão do historiador e crítico do governo, mas, alguém acredita em notas emitidas por empresas de comunicação, pelo governo e por quem foi pego de calças curtas ou com a boca na botija?
O fato é que em meio a toda essa balbúrdia, resolvi dar um tempo e recolhi-me na leitura de um conto de Clarice Lispector, “A menor mulher do mundo”. Lá pelas tantas, a narradora diz: “Creio que também este conto vem de meu amor pelos bichos; parece-me que sinto os bichos como uma das coisas ainda muito próximas de Deus, material que não inventou a si mesmo, coisa ainda quente do próprio nascimento; e, no entanto, coisa já se pondo imediatamente de pé, e já vivendo toda, e em cada minuto vivendo de uma vez, nunca aos poucos apenas, nunca se poupando, nunca se gastando.”[1]
Volto às notícias e dou de olhos com a história de Capitán, o cão da cidade de Villa Carlos Paz, na Argentina. Capitán era uma dessas criaturas próximas de Deus, que não se reinventou, ainda cheia de um amor supremo, desinteressado e puro, há muito desaparecido de entre os humanos. Capitán pôs-se de pé, viveu de uma vez e cada minuto devotando todo o seu amor a seu dono, ainda que este já não estivesse mais entre os vivos. Capitán, repito, deu mostra de um amor que não é humano, pois este, o humano, é um bicho que reinventou a si próprio, se poupa a cada momento, não se gasta e, do alto de sua arrogância, jamais seria capaz de se entregar tão por inteiro.
Abaixo, transcrevo a história de Capitán, que retirei de um portal dedicado a contar relatos da vida desses seres tão especiais (a notícia também foi publicada no jornal Clarín, dentre outros), tão próximos de Deus, porém, tão maltratados diariamente - assim como a natureza -, por humanos que só veem Deus no invisível.

Morreu o cão que guardou fielmente o túmulo do dono durante dez anos



Capitán é o nome do cão mais conhecido em Villa Carlos Paz, uma província de Cordoba, na Argentina. O animal morreu no mesmo cemitério onde o dono está sepultado, depois de ter passado dez anos a guardar o seu túmulo.

“Nunca vi uma coisa assim”, disse Marta Clot, florista do cemitério, ao “20 minutos”, recordando em lágrimas Capitán, que com 16 anos, depois de vários problemas de visão e complicações articulares, morreu.
O cão foi uma prenda de surpresa de Miguel Guzmán ao filho Damián. Um ano depois, em 2006, Miguel morreu e o cão desapareceu de casa, regressando algum tempo depois, permanecendo junto à casa da família.
O animal voltou a desaparecer e a família pensou que tinha morrido ou fora adotado por outras pessoas, até que o encontraram no cemitério, deitado no túmulo de Miguel. “De certeza que veio procurar o dono”, disse a florista.
Tendo em conta que o cão viveu grande parte dos últimos dias no cemitério, várias pessoas pedem para que os restos mortais do animal sejam depositados no cemitério. Para que isso seja possível, será necessária uma autorização especial.[2]


[1] LISPECTOR, Clarice. “A menor mulher do mundo”. In: Laços de Família: contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, pp. 77-86.






sábado, 25 de maio de 2019

A Slow Science Academy e os congressos predatórios nas universidades brasileiras


Na terça-feira desta semana, levantei-me de madrugada e peguei um ônibus para uma viagem de aproximadamente seis horas. Meu destino? Um congresso na capital mineira, Belo Horizonte. Lá chegando, dirigi-me para a sala na qual apresentaria meu trabalho, resultado de meses – para não dizer anos – de leitura, reflexão e escritura. Logo no início dos trabalhos nos informaram (éramos três pesquisadores alocados na sala) que cada um teria no máximo vinte minutos para a apresentação de seu trabalho. O público, em geral exíguo nessas ocasiões, foi informado de que teria dez minutos para perguntas, caso pretendesse fazê-las, porque a sala deveria ser liberada em seguida, sem atrasos na programação, assertiva bastante desmotivadora para qualquer criatura que se atrevesse a fazer uma questão. Não é preciso dizer que o modelo é obsoleto. Alguém se lembra do golpe que políticos, especialmente vereadores, aplicavam – ou aplicam – nas prefeituras, dizendo participar de congressos, para os quais recebiam diárias exorbitantes, mas na verdade saíam a turismo?

Pois bem, no nosso caso, nós pesquisadores, haja vista esse governo desalmado afirmar que nas universidades faz-se muita balbúrdia, não fizemos turismo e não tivemos diárias; alguns, mal recebem algum caraminguá para inteirar o transporte - e devo dizer que pesquisadores cruzam o país para participar de tais congressos, dada a pressão constante que têm sobre as costas para publicar. A publicação, não é preciso dizer, tornou-se o indicador que regula toda a vida acadêmica. Pesquisadores com bolsa produtividade pairam nas alturas e, de lá, lançam seu olhar oblíquo sob seus pares, a despeito de todo o discurso de igualdade.
Não é preciso dizer que, a exemplo dos congressos predatórios e caça-níqueis – sim, caça-níqueis porque a impressão que se tem não é a de que tais congressos fomentem o conhecimento por meio de uma análise conjunta, em que pesquisadores de diferentes lugares compartilhem suas descobertas e reflexões, mas a de que um grupo de pesquisadores-organizadores à caça de menções no Lattes, diga-se, em busca evidente de mostra de produtividade, submetem outros ao pagamento de inscrições para uma reflexão inexistente, para inglês ver – a superprodução de artigos e revistas, no quesito qualidade, tem muito pouco a oferecer.
O produção científica, estima-se, cresce a uma taxa anual de 5% sob a batuta exigente do sistema de avaliação acadêmica. Há casos de professores-pesquisadores que outrora produziram estudos interessantes e hoje, abrigados sob relativa nomeada, publicam artigos e livros bastante medíocres, sem qualquer rigor, às vezes, em um incessante autoplágio, e tudo isso com o objetivo de turbinar seus curricula.
Sei de periódicos nos quais muito do que se publica sequer passa por uma avaliação dos pares. Outro truque muito usado pelo pessoal da academia é o célebre salami slicing, qual seja, produz-se um estudo científico e depois começa-se a fatiá-lo em artigos de dez, doze, quinze páginas. E isto não é comum só nas humanas não, o pessoal que nos olha atravessado, por exemplo, não entendendo porque também nos consideramos cientistas, faz disso prática rotineira. O resultado, não é preciso dizer, é muitas vezes errôneo – e tudo por causa da ânsia da publicação. Tome-se por exemplo os departamentos de literatura, local em que os textos literários sequer são analisados; os clássicos não são mais lidos, faz-se leituras impressionistas de textos pobres (não generalizo, é claro, há muitos autores contemporâneos bastante interessantes) tentando ajustar a causa ao poema - fulana é exaustivamente estudada porque nasceu pobre, fulano porque é gay... e por aí vai.
Como tudo parece ecoar no buraco tupiniquim - os estudos multiculturalistas e pós-colonialistas, por exemplo, apareceram por aqui cerca de três décadas depois de os americanos terem começado a espernear nessa areia movediça -, ninguém ainda fala sobre a Slow Science Academy, iniciativa para desacelerar o ritmo da produção científica que, há quase uma década, começou a ser discutida em Berlim.
Não se trata de barrar o progresso da ciência, o manifesto de Berlim é claro sobre a questão: “Dizemos sim ao fluxo constante de publicações de revistas de revisão por pares e seu impacto, dizemos sim à crescente especialização e diversificação em todas as disciplinas. No entanto, afirmamos que isso não pode ser tudo. A ciência precisa de tempo para pensar. A ciência precisa de tempo para ler e tempo para falhar. A sociedade deve dar aos cientistas o tempo que eles precisam, mas o mais importante, os cientistas devem tomar seu tempo.” Parece-me que ainda não descobrimos a importância de se promover uma pesquisa mais reflexiva e pausada – por isso não culpo os organizadores do congresso supramencionado com suas apresentações the flash. Mas deviam saber!
Por fim, fica uma grande incógnita: em uma época marcada pelo visual, em que plataformas de internet limitam o número de caracteres, alunos universitários são afeitos ao control c control v, a quantidade se sobrepõe à qualidade, como produzir conhecimento sendo que o processo da ciência é lento, constante e metódico?


Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/a-slow-science-academy-e-os-congressos-predatorios-nas-universidades-brasileiras/