Revista Philomatica

domingo, 13 de outubro de 2019

Irmã Dulce e os mitos fabricados


Um dos parâmetros da caridade de Irmã Dulce é a internet. Hoje, quando a vida é devassada e submetida aos comentários e julgamentos de uma tresloucada multidão de internautas, a maioria obtusa, manter certa unanimidade e uma biografia respeitável é algo no mínimo sagrado - e só por isso Irmã Dulce já pode ser canonizada.
Ontem, li que a quase santa baiana, lá do além, anda a fazer milagres. E que milagres são esses?, pergunta-me o leitor curioso. Ora, cristão crédulo, não lestes o anúncio de que o presidente não comparecerá à canonização de Dulce? Dulcinha, frágil, porém porreta, já fez valer o dito bíblico de que se resistir ao diabo, ele fugirá de ti, de vós, de nós. Ô Glória!
O fato é que em um país ético e moralmente pobre de homens e mulheres inspiradores, alguns gatos pingados que fazem o que se espera que todos façam, ganham relevância e voilà, tornam-se heróis pátrios ou recebem as graças de anjos e arcanjos, sobem aos céus e descem santos cá pra essa terra cheia de maldades, pecados e corrupção. Não por outra razão Deus está conosco até o pescoço e religiosos organizados em lobbys ditam as regras de uma República em que pastores travestidos de lobos devoradores não só roubam os sonhos do povo, mas também seu intelecto; dividindo assim, anjos e demônios, as almas a seu bel prazer.
Alguns demônios – sim, porque os demônios são vários, assim como os santos – não precisam ser tentados à exaustão, afinal, acreditam desde sempre que comandam todos os reinos da terra e são adorados por todos os seus súditos. Lendas à parte, o fato é que às vezes anjos são expulsos do paraíso e jogados terra abaixo. Rolados pelas encostas, aqui ganham legiões de adoradores, tripudiam dos honestos, tomam a vil forma humana, tornam-se vereadores, deputados, senadores e até mesmo presidentes. Há demônios desviantes que se autodenominam juízes, promotores e que em razão dos privilégios ostentados, perpetuam-se materializando seções do inferno sobre a terra, esquecendo-se das profundezas, das grutas e das masmorras que alimentaram o gótico romântico.
Mas não crucifiquemos Dulce, afinal, a baiana não é culpada da fragilidade das instituições e da dispersão dos devotos, ainda que estes, heréticos, lembrem-se da fé só em momentos limites da existência. O fato é que Dulce vem no rastro da Santa de Manto Azul, achada às margens do Paraíba, e que só no início da República, na tentativa de tranquilizar as almas, o poder central decide torná-la Rainha e Padroeira do país, concedendo-lhe diversos títulos eclesiásticos e civis.
Antes dela, porém, veio Tiradentes, cuja indumentária foi aos poucos transformada pelos interesses do poder a ponto de se assemelhar ao próprio Cristo, e, Aleijadinho, o fazedor de anjos barrocos, o nosso Quasímodo, personagem criada bem ao costume do Romantismo e que, segundo seu biógrafo, Rodrigo Ferreira Bretas, teria sofrido de uma doença desconhecida (algo não comprovado), “provavelmente sífilis ou lepra, que o fizera perder os dedos, os dentes, curvar o corpo, não conseguir andar a não ser de joelhos e mutilar-se, numa tentativa dramática de que a dor nos membros diminuísse” e que só não virou santo como Padim Ciço, porque Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, devia ser um mineiro de bem e também porque em Minas não havia cangaço, nem um Lampião, com o qual o escultor pudesse tramar os seus ardis.
O fato é que a Igreja, necessitada de santos, ainda que os devotos já os tenham em demasia, precisa atualizar seu repertório, afinal, que emoções Santos como Hipátia de Alexandria, Platão e Sócrates inspirariam no devoto do século XXI, época em que a miséria espiritual se mede pelo estômago e não pelo intelecto?
Por fim, Irmã Dulce, louvável Irmã Dulce, que se preocupava com os humildes e miseráveis vai tomar um banho de loja de historiadores, museólogos, professores e semiólogos (a maioria, ateísta!), ciosos em construir uma indumentária cuja simbologia responderá aos desejos e à ignorância do povo e, de quebra, atenderá, mais uma vez, aos interesses dos poderosos e da canalha política (o Congresso vai pagar a viagem de sete senadores a Roma, em mais uma gastança turística bancada pelo erário), que deveria – e não fez – o que fez Irmã Dulce.
Assim, leitor, reserve alguns caraminguás para comprar mais um oratório e mais uma santa. Esta agora, observe, deverá ter especificações precisas (se não as tiver, não hesite em abrir um chamado no Procom ou no Reclame Aqui). Em sua imagem canônica oficial, Irmã Dulce deve vir assim: vestida com seu tradicional hábito azul e branco (vestes de quem integra a Congregação de Nossa senhora da Conceição), trazer um terço de Maria, de quem era devota, e “carregar no colo uma criança negra, sem roupas, descalça e desnutrida que, de acordo com uma possível leitura iconográfica da peça, representa o menino Jesus”.
A embalagem e todo o mais fica por conta da imaginação e da fé do devoto. Ah, atente para o preço, que deve ser módico!
 

sábado, 12 de outubro de 2019

Lula, o papagaio holandês, Greta, Malala e os nossos maniqueísmos quotidianos


O homem, capaz de feitos impensáveis, transformou o mundo ao longo da história, mas, parece-me, na sua essência permanece o mesmo; não admite, por exemplo, que dentro do seu coração branco e tão puro reside o mal. A um homem multiforme, fragmentado, senhor de desejos múltiplos, bondade e alguma vilania, prefere o ser raso, plano e imutável. Para isso, em casos extremos, ao deparar-se com pares que se mostram como de fato são, a ciência criou o Transtorno Dissociativo de Identidade, na tentativa de explicar como um pode ser tantos. Nesses casos, é claro, mal se fala da dissimulação quotidiana.
Mas o leitor deve estar se perguntando o porquê de todo esse intróito, não é? Bem, no fundo, não queria perder o carro das ideias, que passa rápido, e, se eu deixar para a semana que vem o que se fala agora, é provável que Lula já esteja discursando da sacada de sua cobertura (não a do Triplex!), o passarinho tenha voado, Greta apareça serena e dócil e Malaia, bem, não consigo ver Malaia com aqueles olhos crispados de raiva que Greta carrega, prova de que também sou maniqueísta e vejo em tudo um embate entre o bem e o mal, ainda que procure me afastar o mais que posso de todos os antipodismos e de todas as paralelas (estas, só porque me lembrei de Belchior).
Esta foi mais uma daquelas semanas espetaculosas que certamente renderia algumas páginas a Guy Debord e, é claro, a imprensa tem se deliciado com imagens, caras, bocas, cartas etc etc. Na política, longe de tomar partidos, dou razão à minha avó, para quem todos são “farinha do mesmo saco”. Mas, convenhamos, há momentos em que a situação em si é irônica, prosaica, e a mim não cabe outra coisa além de rir de uns e de outros – e de mim! Divirto-me ao ver as pessoas comporem antinomias e depois pares, iguaizinhos aqueles vasos que uma tia sexagenária insiste em manter alinhados sobre o aparador da sala; ainda que um deles já exiba a borda toda trincada, resultado da pátina do tempo, para ela o vaso é perfeito, sem máculas.
Veja, caro leitor, no mundo do espetáculo Lula não exibe nódoas e, impoluto, revela uma dignidade e elevação de caráter incomparável. Lula é o bem, e as pessoas lutam pelo bem, razão, acredito, da criação do movimento Lula Livre e de celebridades e intelectuais exibirem o polegar e o indicador, refutando o canônico paz e amor dos meus tempos de adolescência.
Não, leitor obtuso, não seja maniqueísta, não estou a condená-lo; procuro ver com olhar de míope, apertando os olhos à procura das fissuras onde se escondem as supostas verdades, ainda que relativas, até mesmo porque o maniqueísmo mostra só a superfície e raras as vezes chega ao fruto dentro da casca. Assim se produzem os espetáculos; da coxia, pouco se sabe.
Querelas jurídicas à parte, o fato é que agora Lula se recusa a sair da prisão. Ao fazê-lo, torna-se um herói diverso daquele que estamos acostumados, qual seja, inventivo e destemido, pleno de ações heroicas, de modo que vejo Dumas obrigado a repensar boa parte de sua narrativa. Lula prefere o embate no STF, casa carregada de todas as suspeições, cujas figuras sombrias que nela habitam, atravessados o portão, a antessala do mal e o Aqueronte, não encontrariam dificuldade alguma em se acomodar em qualquer dos círculos do Inferno de Dante.
A ironia da situação é que na briga de gato e rato, Lula e a Lava Jato, haverá o esvaziamento do Lula Livre. Mas isso não é nada! O risível da situação é contrapor o embate de Lula ao caso do passarinho levado à prisão em Utrecht, na Holanda. O pássaro, como Lula, não sabia de nada! Foi enclausurado só porque, durante um assalto, pousava no ombro do criminoso que, segundo o próprio pássaro, nunca o vira antes e não sabia sequer seu nome, só estava ali por uma infelicidade, como poderia ter pousado em um arbusto qualquer. “Não analiso a espécie de árvore ou arbusto antes de pousar em seus galhos.”, piou o pássaro aos policiais. A polícia holandesa, incorruptível, que desconhece até mesmo a palavra propina, não de u mole e levou o pássaro em cana; não houve, dizem, piados que convencessem os policiais. Na delegacia, como acontece com Lula, o pássaro tem recebido a atenção da imprensa e tem sido muito bem tratado pelos policiais, de modo que não poderá, em um futuro próximo pleitear indenizações do Estado – espera-se.
Sobre Greta Thunberg pouco sei: de uma família de atores (li isto!), assumiu o protagonismo do espetáculo das últimas duas semanas. Ao falar na ONU, exibiu uns olhos crispados de ódio, rosto tenso e, da boca, as palavras de ordem saiam como tiros de metralhadora. É louvável a sua preocupação com o meio ambiente, mas afirmar que teve a infância roubada é algo que, penso, não deverá sustentar por muito tempo, já que a retórica se altera de acordo com os interesses; à medida em que for ampliando seus contatos na política é certo que afinará o seu discurso. 
Malala, esta sim, penso, teve uma infância roubada, obrigada a fugir dos preconceitos tribais e do fundamentalismo islâmico. Comparar as duas, tornou-se mais um ato maniqueísta nas redes sociais: a Greta, creditam certa maledicência, por acreditarem ser ela títere de poderes obscuros em luta por seus próprios interesses; já Malala, colocada frente à raiva discursiva de Greta, seu rancor e sua agressividade, é vista como alguém que apresenta um semblante nobre, sereno e humilde, mas que consegue se impor. Para os críticos, tudo isto faz parte de um maniqueísmo maior e injetado de preconceitos, pois Malala representaria o feminismo aceitável.
Isto posto, à espera de que Lula resolva sair da gaiola e os internautas maniqueístas decidam entre Greta (saudosa Garbo!) e Malala, aguardo o voo livre do pássaro, que também não sabia de nada!




sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Emília não é a mais esperta!


Houve um tempo em que as crianças dançavam menos funk e liam mais livros.  Muitas dessas crianças começavam seu percurso de leitor com as obras de Monteiro Lobato nas mãos. O Sítio do Picapau Amarelo, lugar mágico e encantado, era onde todas as crianças queriam estar. Lobato, dentre tantas coisas, tinha como matéria-prima o sonho e ali no sítio, Emília, a boneca mais esperta de todas, Visconde de Sabugosa, Pedrinho, Narizinho, Zé Barnabé, Cuca, o Saci, Tia Anastácia, Dona Benta e outras personagens faziam a imaginação dos jovens leitores girar a mil. Nada era empecilho para a fantasia: quando se interpunha alguma dificuldade, estava lá o pó de pirlimpimpim (que os puristas do politicamente correto querem banir porque, uma vez recuperados, não suportam nada que os faça lembrar das carreirinhas da juventude).
Mas Emília deixou de ser a boneca mais esperta de todas, perdeu para Pedro Bandeira que, tão logo ouviu o tilintar do martelo a declarar a obra de Lobato domínio público, entreviu a oportunidade de ganhar uns caraminguás e engordar ainda mais a burra com a criatividade alheia.
Não vou tratar aqui do mau-caratismo revisionista, que apaga a memória em proveito de ideologias (até mesmo porque já falei disso antes nesta coluna), mas do oportunismo de Pedro Bandeira, mosqueteiro do bom-mocismo, que, ao suprimir algumas frases (e personagem) de Lobato, tascou seu nome na capa de Narizinho a menina mais querida do Brasil (título criado por Bandeira ao estropiar Casamento de Narizinho, Reinações de Narizinho, Narizinho arrebitado etc) e se apropriou da inventividade, inteligência e talento de Lobato sob a alegação de “limpar” a obra de lobatiana, constituindo-se em mais um caso em que o sub-reptício interesse pelo vil metal faz da luta por uma causa metonímia para o uso descarado do plágio. Trocando em miúdos, no quesito esperteza Bandeira passou a perna na Emília.
Ouvi dizer que Pedro Bandeira é fã assumido de Lobato. Não acredito! Se é fã, por que desossar, desfolhar, encurtar, suprimir, destruir a obra do autor? Para atender e se ajustar à bandeira da militância e com isso ganhar um dinheiro a mais? A questão do racismo pode e deve ser discutida e refletida a partir da obra e não suprimindo trechos! Isso é mau-caratismo! Há um blogueiro que, referindo-se às interferências de Bandeira, afirmou que este deu uma “arejada” na obra, driblando o racismo. Famelizar e desmontar a obra de Lobato, suprimir Pedrinho da narrativa sob a alegação de que se trata de uma personagem fraca e, de quebra, sustentar que “todas e cada uma das personagens lobatianas são apenas coadjuvantes e ou figurantes dessa maravilhosa e apaixonante menininha” [Narizinho], ora, convenhamos, escritor algum precisa de um fã como este, melhor são os inimigos que, lendo-o mal, lançam mão de práticas intolerantes e medievais para pleitear a queima de seus livros.
Antes que conclua: o que dizer depois de Bandeira afirmar que Narizinho é, ao lado de Capitu, a grande personagem da Literatura Brasileira? Sem querer fazer o que Bandeira fez com Pedrinho, penso que Narizinho seja uma importante personagem, mas não se compara a Capitu, de modo que o comentário, parece-me, senão um mau conhecimento da Literatura Brasileira, algum problema com a qualidade do pó de pirlimpimpim.
Por fim, finalizo com as palavra de Bradbury em seu posfácio “Coda”, a Fahreinheit 451, quando o autor comenta as ablações efetuadas em contos de Twain, Irving, Poe, Maupassant e Bierce: “cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio. Cada editor estúpido que se considera fonte de toda a literatura insossa, como um mingau sem gosto, lustra sua guilhotina e mira a nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro ou escrever mais que uma rima de jardim de infância.”
Por isso, em tempos de bandeiras, menos Bandeira e mais Lobato!


Foto: Rede Globo, série infantil.



terça-feira, 24 de setembro de 2019

Patrulhamento cultural e ideológico

Eu venho de lá onde a amizade era leve e sorridente. Eu venho de lá onde os amigos costumavam praticar rituais estranhos e exóticos, tais como se encontrar só para se ver e, de quebra, compartilhar dores e amores; às vezes, porque eram humanos, brigavam e se odiavam, mas logo se abraçavam. Eu venho de um tempo em que as pessoas preferiam acreditar que eram responsáveis por si mesmas e os desentendimentos eram momentâneos; depois das verdades ditas (ou ao menos achávamos que eram verdades, as nossas verdades) e das desculpas aceitas, abraçávamo-nos e cantávamos Andanças. Sim, porque se hoje a saudade é imensa, só o é porque não conseguimos medir tanta areia andada, tanto verso, tanto sonho, tantas luas, festas e serestas... Éramos profanos.
Quer saber? Foi ótimo ter vivido intensamente os anos 80. Pouco importa se foi a “Década Perdida” para os economistas e burocratas, afinal, quem liga pra eles? O fato é que olhando para trás vemos uma década inovadora, plena de tendências culturais e modismos que hoje, convenhamos, seriam rejeitados pelo bom mocismo das patrulhas que regulam o politicamente correto e até mesmo o que você gosta porque acha que gosta e o que você não gosta, mas nem sabe porque não gosta.
A moda New Age, quem não se lembra? Alguém sabe o que é sair para o trabalho usando camiseta verde-limão, calça laranja e tênis vermelhos? A cidade era um festival de cores. Na TV, as manhãs eram animadas pela Rainha dos Baixinhos, Xuxa, em trajes minúsculos, quase nua - e não aparecia sequer uma mãe tresloucada, escoltada pelo Conselho Tutelar, gritando aos ventos e acusando a loira de atiçar a libido dos baixinhos. Aos sábados, Chacrinha cantava Maria Sapatão, sapatão, sapatão,/ De dia é Maria, à noite é João e Olha a cabeleira do Zézé/ Será que ele é/ Será que ele é..
Os anos 80 trouxe o Asdrúbal trouxe o trombone, a Legião Urbana, Cazuza, o Movimento das Diretas Já, Titãs, Paralamas do Sucesso, o primeiro Rock in Rio, o punk, o soul à brasileira, a TV Pirata, Armação Ilimitada, Marina, Gal cantando Vaca Profana... Eita saudosismo!
E hoje, o que sobrou? É certo que o respeito à diversidade é inalienável, mas tudo tem ficado tão chato, mas tão chato que se você ousar afirmar em público que não gosta de jiló é provável que a patrulha em defesa do jiló venha para cima com tudo!
Não deu outra, Lulu Santos aventurou-se a elogiar uma cantora e ao fazê-lo, disse: “Você emagreceu, ficou mais bonita.” Pronto! Tornou-se alvo dos internautas irados (todos certinhos). Lembrei-me dos anos 80 porque foi mais ou menos a essa época que a expressão cunhada pouco antes pelo cineasta Cacá Diegues ganhou as ruas. Foram tempos de patrulhamento inócuo, em que apareceram bizarrices como a passeata contra as guitarras - essa, de 1967 -, que reuniu artistas ciosos em zelar pela pureza da MPB. Hoje, mal podiam imaginar, a MPB jaz deitada eternamente em berço esplêndido, isso se você leitor for magnânimo, caso contrário, pode-se afirmar que ela nem existe mais, sufocada que foi pelo pagode, o funk e todos esses ruídos que incomodam seus ouvidos e o seu sono.
Os tempos são pendulares, mas, curiosamente, tratando-se do patrulhamento,  vivemos situação semelhante aos anos 60 e 70, quando toda arte que não fosse engajada era proscrita, gerando certa polaridade em que o radicalismo emburrecedor inviabilizava o diálogo e dava azo às patrulhas ideológicas; hoje, infelizmente, a arte parece ter sido espezinhada dos dois lados e é a política que define que lado da luta escolher. No meio do tiroteio, aí daquele que tentar criar um atalho entre os dois lados... Hoje, até mesmo a amizade tem sido ferida pelo patrulhamento. Quem não conhece amigos que deixaram de se falar pós eleições 2018?  No âmbito social, dá-se a mesma coisa com as investidas contra as opiniões divergentes, algo nocivo que secciona as minorias, porque para muitos que se arvoram defensores das minorias há minorias e minorias, e algumas minorias são mais minorias que outras minorias.
Lembrei-me agora do Festival de Cinema Pernambucano, em que cineastas retaliação às apresentações de documentários considerados por eles como ligados a valores tradicionais e à esquerda tucana dos anos 1990. À época, uma das signatárias do texto emitido pelos cineastas, Cíntia Domit Bittar, colocou em xeque a legitimidade da seleção, criticou a curadoria e afirmou: “Não censuramos filme nenhum de estar no festival, nem incitamos boicote. Apenas retiramos nossos filmes”. (Não mesmo?!) Em seguida à decisão, a direção do festival decidiu suspender o evento. E como o patrulhamento - e a censura – vira e mexe despertam a memória, lembrei-me de Cacá Diegues, que em 1978 teve seu filme Chuvas de Verão recebido com frieza pelos críticos – o que já havia acontecido com Xica da Silva, seu filme anterior. Após o banho de água fria, Diegues, em entrevista à jornalista Póla Vartuck, publicada no jornal O Estado de São Paulo, denunciou as patrulhas ideológicas, que seriam integradas por jornalistas ligados ao PCB e que não teriam objetivo outro que detratar produtos culturais não alinhados ao politicamente correto defendido por esses grupos formadores de opinião.
A polêmica que se seguiu à entrevista de Diegues resultou em um livro, Patrulhas Ideológicas, de Carlos Alberto M. Pereira e Heloisa Buarque de Hollanda, publicado pela Editora Brasiliense. No livro, Diegues, em nova entrevista, define o modus operandi das patrulhas: “O que existe é um sistema de pressão, abstrato, um sistema de cobrança. É uma tentativa de codificar toda manifestação cultural brasileira. Tudo o que escapa a esta codificação será necessariamente patrulhado.”

Patrulhados ou não, parece-me, Chacrinha e Xuxa saíram ilesos. Já Lulu, ovacionado dia desses por assumir seu amor, ontem, distraído, foi tomado pela sinceridade e deu no que deu.


Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/patrulhamento-cultural-e-ideologico/

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Vamos beijar Crivella


Ontem, recebi uma mensagem supostamente extraída do Twitter de Marcelo Crivella (claro, mais uma fake news elaborada pelos internautas, porém, deliciosa), em que o tosco, comenta: “A culpa dos jovens estarem virando gays é desses homens sarados e gostosos.” Ri, como muita gente riu, mas, pensando bem, o escárnio traz um fundo de verdade: alguém eleito para administrar uma cidade, por sinal, falida, e não o faz, mas passa a maior parte do seu tempo tentando regular o fiofó do cidadão, parece-me um daqueles casos em que o populacho pede ao indivíduo que saia do armário.
Ao ler sobre a lambança de Crivella, lembrei-me da canção e pensei: por que não beijar Crivella, ridicularizar a ordem, apostar na orgia, no bacanal, na carne vicejante, no carnaval, comê-lo pela frente e pelo verso, comê-lo cru?
Não bastasse Brasília, notória exportadora de lambanças, Crivella também foi notícia no exterior, expondo novamente, é claro, o país ao ridículo. E tudo por causa de um beijo entre homens em uma história em quadrinhos. Crivella, furiosa, em um gesto democrático, subiu nas tamancas, bateu o cabelão, chamou seus bofes e decidiu proibir a venda de Vingadores: a cruzada infantil, obra à venda na Bienal do Rio. Antes que continue, nem é preciso dizer que o tiro saiu pela culatra: a visibilidade dada ao livro foi imensa, a procura enorme, enfim, um merchandising que certamente a editora não teria cacife para bancar; hoje, por exemplo, só o download do livro na rede não sai por menos R$ 250,00.
A polêmica, inesperada, agitou a Bienal do Livro do Rio: funcionários da prefeitura circulando pelos corredores da Bienal, os holofotes da imprensa, jornalistas, fotógrafos, a militância, enfim, a espetacularização da mediocridade. O prefeito, conhecido por sua homofobia, que já descreveu em um livro - sim, infelizmente livros tornam-se objeto de obscurantismo - a homossexualidade como um “terrível mal”, ordenou aos organizadores que cobrissem cada exemplar com um plástico preto e um aviso - algo como aquelas embalagens de veneno, cujas tarjas e a imagem de uma caveira, alertam o comprador de que o conteúdo é mortal. Diante da recusa, o que fez o prefeito? Mandou a polícia apreender todos os exemplares à venda.
Crivella, ao lançar mão da censura, sob a falácia de defender a Moral, a Religião e o Estado, afirmou que visava proteger os menores. O vereador Alexandre Isquierdo, por sua vez, lançou mão de sua conta no Instagram para acusar a Marvel de “propagar o homossexualismo para as crianças”. Ambos, prefeito e vereador partilham a visão de que a decisão de censurar e recolher os quadrinhos na Bienal tinha apenas um objetivo: cumprir uma lei e defender a família!
E, como nesses shows midiáticos sempre há uma raposa à espreita, à espera das uvas que pendem dos cachos em meio à confusão, não deu outra: o youtuber Felipe Neto que, dizem, é seguido por mais de 34 milhões de assinantes (U. Eco e Carpeaux é que tinham razão... - de quebra, brindo-os com Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”), comprou 14.000 livros com conteúdo relacionado às comunidades LGBT e os distribuiu gratuitamente na Bienal, todos embrulhados em plástico preto.
Contudo, não se engane: caso não esteja entre os 34 milhões de seguidores e procure por vídeos de Neto no Youtube, é provável que tenha lá seus anseios de bater com a cabeça na primeira quina que encontre pelo caminho. A militância do moço é extemporânea, como aqueles furúnculos que aparecem do nada, bem perto do joelho. Mas está valendo! Só pelo fato de escolher como alvo figuras sombrias do cenário político e expor suas estupidezes.
Crivella atacou a liberdade de expressão, mas, parece-me, isto é algo que os governos atuais não têm ideia do que seja. Mariana Zahar, vice-presidente da SNEL, indignou-se com Crivella e afirmou que “desde a ditadura a gente não vive o que estamos vivendo agora [...] a censura é com a literatura, com os livros”, reiterando que a Bienal é um símbolo da diversidade.
Até mesmo a Folha de São Paulo - que agora tenta assumir ares de esquerda, mas na França, por exemplo, foi chamada de centrista - publicou a imagem do beijo interdito, na tentativa de alertar as pessoas para os perigos da censura.
Feito isto, começou a guerrinha jurídica – diga-se, nada imparcial, em razão dos asseclas que povoam o mundo polarizado da política e do judiciário. No sábado, dia 6, alguns dias após o início da controvérsia, um tribunal decidiu a favor de Crivella, afirmando que a revista em quadrinhos destinada a jovens leitores não deveria abordar questões relacionadas à sexualidade sem aviso prévio. Nada mais compreensível, afinal, o sexo dos velhos é o poder. Também, questão de gravidade. Vale ressaltar que a decisão foi anulada pelo STF. O juiz que decidiu a favor da não proibição, mais sujo que pau de galinheiro, resolveu usar seus dois neurônios, de modo que você leitor já pode adquirir o livro, o gibi, seja lá o que for.
Em tempo: ao perguntar a um amigo sua opinião sobre o livro, ouvi: “bobinho, muito bobinho”, de maneira que achei ter havido uma tempestade em copo d’água.
Por fim, lembrei-me de um beijoqueiro que tomava de assalto as celebridades, isso há uma ou duas décadas... Como protesto, lanço a hashtag #vamosbeijarcrivella.





Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/vamos-beijar-crivella/

sábado, 7 de setembro de 2019

As bruxas do SUS, ou as benzedeiras agentes de saúde pública


Às vezes, lembro-me dos meus tempos de menino. As lembranças, fluxos de memória involuntária, brotam do nada e o nada, é claro, não é nada parecido com a Madeleine do Proust, que descobri tardiamente. Às minhas reminiscências, juntam-se muitos capítulos de histórias ouvidas na infância que se tornaram referências e sustentação, fazendo de mim o que sou hoje. E hoje, adulto, felizmente sou traído pelo tempo que me lembra a todo o instante da sua passagem por meio de uma bobeira ou outra que alguém diz, um aroma, uma música... e quando vejo lá estou de novo vivenciando meus verdes anos. A meninice aflora e a nostalgia invade, por vezes, até mesmo as horas mortas, roubando-me o sono; então, faço-me menino, imaginando a delícia dos dias em que a preocupação da manhã seguinte era juntar os amigos e escolher os jogos e as brincadeiras daquele dia que, findo, parecia sempre ter sido o mais longo dos dias - até mesmo que os meus dias de hoje.

Terminadas as brincadeiras, banho tomado, barriga aquecida com a comida caseira preparada por minha mãe, nas noites agradáveis de primavera e verão, cercava-me de amigos e primos e, juntos, íamos sedentos à sobremesa que não era sorvete nem nada (não tínhamos uma geladeira), mas sim as historietas contadas pelos adultos que recontavam histórias ouvidas há muito ou rememoram suas próprias infâncias, sempre tomados pela saudade de aventuras perdidas na poeira do tempo. Sentávamos todos sob a lua e as estrelas (onde morava não tinha energia elétrica) e ficávamos atentos àquelas narrativas dos tempos de antanho: ouvíamos de tudo, a única regra válida era a de que uma história puxa a outra, e assim, atentos, passávamos horas embevecidos por relatos de pessoas cujas lembranças reduziam-se a nomes. Às vezes, um tio trazia à roda um Sr. Isidoro, que morava no “córgo” (córrego) da Anta... Identificados a personagem e o lugar, a história fluía. Não raro, eram histórias recheadas de elementos fantásticos: uivos não identificados que emergiam das matas, rodamoinhos, ventos inesperados, luzes intensas que apareciam do nada, chuviscos repentinos em noites quentes e secas, vozes assustadoras, imagens diáfanas (quase sempre mulheres, mas havia homens também) que se interpunham nos caminhos. Os caminhos eram sempre em meio às matas, trilhas de difícil acesso; até mesmo porque todos moravam, como dizia minha mãe, nos ermos, em lugares recém desmatados, isto em uma época em que desmatar e matar animais era a regra diária e ninguém se importava com isso. O vizinho do meu Tio João, que matara uma onça no sítio, era visto com respeito pelos outros moradores.

Ah, nessas histórias também era frequente uma personagem que, para nós meninos, à época, era terrível até mesmo imaginar que andasse pelas matas, o diabo. Sim, ele mesmo, o tinhoso, o capiroto, o pé-de-bode, o sete-peles, o renegado, e por aí vai. Ao ouvir seu nome em meio a uma narrativa, levados pelo medo, contorcíamo-nos todos, aproximávamo-nos uns dos outros imaginando que ele pudesse saltar do escuro e consumir-nos todos, meninos e adultos. Desconfio até hoje de que um vizinho azeitava suas histórias só para nos ver amedrontados. Mas isso é outra história; o fato é que ficávamos aterrorizados, porém, dominados por essas narrativas e à espera de seus desenlaces.

Ah, havia histórias fantásticas, como a do “Boi falô”, que data do tempo dos escravos, antiga... Tudo se passou em uma Sexta-feira Santa, quando o administrador da Fazenda Santa Genebra, ali perto de Campinas, pediu a um escravo por nome Toninho, que fosse até o estábulo pegar um boi para realizar seu trabalho do dia. Ali chegando, o escravo se deparou com o boi deitado no chão, tranquilo. Ao tentar pegá-lo à força, o animal, para espanto do homem, disse-lhe: “Hoje não é dia de trabalhar, é dia do Senhor!”. Aterrorizado, o escravo saiu o mais depressa possível dali e foi ao encontro do administrador; este, ao lhe perguntar sobre o boi, ouviu apenas: “O boi falô!”. Hoje, em Barão Geraldo, depois de a história correr de boca em boca, ser requentada e acrescida de pontos e mais pontos, às vésperas da Páscoa, moradores e visitantes se reúnem para comemorar e saborear uma tradicional macarronada em homenagem à lenda do “boi falô”. O porquê da macarronada fica por conta dos pontos, afinal quem conta um conto...

Ah, também havia histórias de bruxas e curandeiras. Estas, parece-me, deixaram os rincões, os lugares ermos, as matas e mudaram-se para os centros urbanos. Há festivais de bruxas, nos quais meninas e mulheres se travestem de bruxas – sempre, é claro, trajando figurinos à la Disney, com uma ou outra customização – e encenam danças em voltas de caldeirões, entoando canções um tanto esdrúxulas, tomando-se por seres especiais que povoam o universo apesar dos ridículos mortais que infestam a Terra mãe. As curandeiras, por sua vez, proliferaram-se por duas razões: o metafisicismo que desde tempos imemoriais conduziu as crenças humanas e a ausência da ciência, digo, um serviço de saúde justo e subvencionado pelo poder público, direito de todo cidadão. Junte-se as duas alternativas e voilà, as curandeiras tornaram-se agora agentes da saúde pública.

Ontem, ao acessar as redes sociais, o que leio? Leio que em algumas cidades do país há algum tempo benzedeiras, rezadeiras, curandeiras e costureiras de rendiduras (dores musculares) foram reconhecidas como agentes de saúde pública. Na prática, é o Estado reconhecendo aquele chazinho e aquela suave surra de ervas em substituição à saúde pública; trocando em miúdos: médicos, hospitais e postos de saúde.

Ao entrar na onda de ONGs que congregam benzedeiras, como a MASA (Movimento Aprendizes da Sabedoria), que cadastrou 161 em Triunfo (PR) e 133 em Rebouças (também PR), o poder público tira seu corpo fora e, para isso, conta com a ignorância de um povo acostumado ao falso conforto da mediocridade. Esta, como dizia Carpeaux, entre os homens é tão profunda quanto o oceano. A representante de uma das OGNs afirma que a iniciativa ajuda a combater o preconceito – e de quebra, é claro, rende alguns caraminguás às ONGs (algo que ela não disse, mas digo eu).

Ora, convenhamos, não se trata de preconceito, mas de pura obtusidade. Ao dispensar uma visita ao médico, o paciente pode, em muitos casos, retardar um tratamento, algo que lhe será fatal mais tarde – e nunca ouvi falar de uma benzedeira que tivesse ressuscitado um morto! No mais, não acredito que alguém que padeça com um câncer, ao levar umas chicotadas de arruda, saia de lá saltitante e curado. Respeito a fé, mas curandeira não substitui médico. Ao ler comentários efusivos com a volta da ancestralidade (que duvido, conheçam) e com hipotético despertar que está acontecendo, lembro-me do povo que tem se recusado a tomar vacinas e penso que até para a ignorância há limites. Digo isso aos meus botões e eles, no silêncio de suas casinhas, parecem concordar. Saravá!



Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/as-bruxas-do-sus-ou-as-benzedeiras-agentes-de-saude-publica/

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A internacionalização da Amazônia


Ô semaninha agitada essa! Com o fogo ardendo a floresta, a fumaça tornou-se estratosférica e tóxica. Não bastassem o monóxido de carbono e outros compostos químicos prejudiciais à saúde, a polarização gerada pelos incêndios acrescentou à fumaça alguma bílis, rancor, desinformação, muita falta de educação e boa dose de colonialismo. Sim, os interesses sempre falam alto nessas situações e o representante do país da liberté, égalité e fraternité, saudoso dos tempos em que o colonizador transferia sábios en mission para as incultas colônias, botou as garrinhas de fora.
Por outro lado, na réplica, um representante tupiniquim desinformado, inexperiente e obtuso, que alimentou o fogo e a fumaça com sua costumeira grosseria. Deu no que deu. O assunto foi o mais discutido, o mais escrito e o mais comentado pela turba que povoa o espaço das redes sociais. Enfim, não preciso retomar a opinião de Umberto Eco sobre a capacidade cognitiva da fauna que o habita...
Em meio a toda essa balbúrdia, alguns desencavaram um texto de Cristovam Buarque, insigne representante da política torva e sanhuda, mas também professor e engenheiro. Lúcido cidadão, parece-me. Buarque, que estava em uma universidade americana, ao ser perguntado sobre a internacionalização da Amazônia por um aluno que dissera querer ouvir a resposta não de um brasileiro, mas de um Humanista, respondeu:

“
De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Defendo a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!”
Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/a-internacionalizacao-da-amazonia/

sábado, 24 de agosto de 2019

Gênesis1 – A criação do céu e da terra e de tudo o que há na Amazônia


1. No princípio criou Deus os céus e a terra. [...]
11. E disse Deus: “Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela sobre a terra.” E assim foi.
12. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom.


No Gênesis, primeiro livro do Pentateuco, a narrativa bíblica não só é pautada pela repetição, como também é marcada pelo predomínio do lendário, afinal, como explicar a astúcia da serpente enredando Eva em uma prosa científica, prometendo-lhe o conhecimento? Serpente e Eva punidas, sobrou-nos o pecado original e as tentativas ad eternum de arrependimento, até que Darwin batesse o pé e os criacionistas os tambores.
Ainda que os criacionistas glorifiquem as maravilhas divinas, como a criação dos céus e da terra e tudo o que nela existe, parece-me, não respeitam Deus e sequer a sua obra. Mas isso não é de hoje. Para os homens dos séculos XVII e XVIII, a maior prova da existência divina era a natureza; toda a natureza, afirmavam, estava cheia de traços que ajudavam a conceber as coisas celestes e as verdades mais sublimes. Contudo, vieram os racionalistas e os materialistas, solapando a rocha sobre a qual assentavam as ideias metafísicas. Deus no que deus! O cientificismo, acreditando resolver todos os problemas das sociedades por meio do progresso e da industrialização, ignorou as maravilhas concebidas pelo Altíssimo. Deu no que deu! Com o tempo a própria ciência se deu conta de que a natureza era a fonte de muitas de suas realizações; feito isso, voltou-se para as ervas, seus frutos e suas sementes.
Enquanto os europeus, depois de passarem por duas guerras, verem o fim do comunismo e terem enfrentado atribulações de percurso, decidiram que era a hora de pintar de verde o seu território, nós, brasileiros, a passos céleres resolvemos colorir tudo de cinza e preto – como ocorreu esta semana na cidade de São Paulo, quando o dia virou noite em razão do corredor de fumaça oriundo das queimadas na Amazônia.
A floresta é a última das preocupações das forças políticas que se enfrentam e polarizam as opiniões no cenário político atual. A destruição das matas é explicada por ambas as forças, cada uma apresentando suas razões e ignorando a tragédia que ora vemos, sem que nenhuma delas tenha implementado qualquer ação para impedir o fim da flora e da fauna da Amazônia. Os interesses são diversos e ambas as forças lucram de uma ou outra forma. O descaso é tamanho a ponto de os moradores-desmatadores da cidade de Novo Progresso, no sul do Pará, terem instituído o “Dia do Fogo” (10 de agosto), cujo objetivo não é outro que o de queimar propositadamente a floresta, sob o silêncio abençoado do governo federal, que sustenta um discurso abjeto sobre a questão.
Não à toa, países como a Alemanha e a Noruega, que contribuem com milhares de euros para a preservação da floresta, ao se recusarem a continuar a abrir a burra para os brasileiros, têm sido achincalhados pelo presidente e seus asseclas. Nesses nossos dias de relativização da imprensa escrita, em que tudo é pautado pelo visual, é comum recebermos imagens com frasezinhas curtas incitando o ódio contra ambientalistas, além de afirmarem que os europeus só estão atrás das riquezas minerais que jazem sob a camada verde criada pelo Altíssimo.
Não sou ingênuo: o interesse existe, assim como existe a cobiça desenfreada das mãos nacionais e cristãs, cujos ouvidos eriçam ao tilintar do vil metal.
O resultado é que em razão da polarização das forças políticas, a massa, que pouco e mal lê, deixa-se levar por discursos construídos pelos salvadores da pátria de ontem e de hoje, e passa a viver em bolhas (também líquidas?), construindo grupos que se juntam a fim de analisar e refletir sobre situações específicas, porém, a prerrogativa para a admissão nesses círculos é a uniformidade das ideias. Tem-se então a igualdade de pensamentos, as pessoas falam como se estivessem frente a um espelho, que, refratário, lhes devolve a mesmíssima coisa, e todo mundo fica feliz.
A circulação - e a evolução - das ideias exige contrapontos, reticências, desacordos, mas, porém, contudo, todavia... Nesta semana a imprensa divulgou comparação de pontos de vista de duas figuras do cenário político nacional a respeito do desmatamento na Amazônia. Os comentários, no site em que foi publicada, dão conta do que eu disse acima e mostra a intolerância construída entre pares que dizem e ouvem sempre um pouco mais do mesmo.
A despeito das variantes que envolvem o cotejo de opiniões publicado na imprensa, parece-me que no momento ninguém está interessado na diversidade dos discursos, na alteridade, na divergência de opiniões e no que pode advir disso. Encastelam-se em suas opiniões e sustentam as primícias do “eu e eles” e da “verdade absoluta”, nas quais o “eu” sempre prevalece, esquecendo-se de que o que move o homem são os interesses - e política é política. Não por outra razão Adorno nos advertiu um dia para desconfiarmos das ideologias, tenham elas o matiz que tiverem.
Abaixo, reproduzo os pontos de vista mencionados acima só para provocar, só para furar a sua bolha, caro leitor:

Lula: “Fico pensando que a Amazônia é que nem aqueles litros de água benta que tem na igreja: todo mundo acha que pode meter o dedo. Nós não podemos permitir que as pessoas tentem ditar as regras do que a gente tem que fazer na Amazônia.”

Bolsonaro: “Eu queria até mandar recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares pra Amazônia. Pega essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá está precisando muito mais do que aqui.”



sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O padre Fábio de Melo e a ciranda das vaidades


Roda, roda, roda
Pé, pé, pé
Roda, roda, roda,

Caranguejo peixe é


O padre, cuja retórica era arrimo para uma multidão de internautas desesperançados, resolveu tirar a trave dos olhos de seus fiéis seguidores, mostrar-lhes que a verdade liberta, e não deu outra, rodou! Na fogueira das vaidades, a hipocrisia que habita as almas girou, girou e padre rodou, rodou. Condenado sumariamente por um aluvião de hipócritas, não teve como fincar o pé, desistiu! Abandonou o Twitter. É possível que a roda viva, nas voltas que o mundo dá, o traga de volta, mas, no momento, para o padre, tudo estancou de repente.

O padre Fábio de Melo, aventurou-se emitir sua opinião a respeito das beneméritas saidinhas com as quais são premiados pela justiça brasileira os filicidas e parricidas. Como é senso comum que nem sempre a justiça se ocupa da justiça, acredito que o padre tenha se sentido à vontade ao se expressar via Twitter e deu no que deu. Internautas moralmente corretos, éticos, virtuosos, honestos e escrupulosos apontaram o dedo para o padre, condenando-o por sua falta de cristandade, afinal, se Jesus perdoou um ladrão segundos antes de seu último suspiro, por que o padre faria diferente? Com mil raios! O padre não é filho de Deus? Por que não perdoar um pai que espancou e depois atirou a filha de cinco anos do sexto andar do prédio em que morava? A menina, claro, índole difícil, não devia ser alguém com quem fosse fácil conviver, e o pai, pobre pai, tomado pela pressão do dia a dia, certamente agiu em legítima defesa. O resto, bem, o resto foi tudo intriga e armação da promotoria, razão pela qual continua, injustamente encarcerado.

Vale lembrar que do episódio até nossos dias rodaram-se apenas 11 anos, mas a memória, fraca, fez com que a turba se esquecesse de que, à época, tentara ela mesma fazer “justiça” com suas próprias mãos, ignorando os preceitos que agora cobra do padre.  Este, por sua vez, afirmou: “Este lugar [a internet, o Twitter] deixou de ser saudável pra mim”; isto, depois de expor sua opinião e ter sido chamado de ‘justiceiro, canalha, desinformado, desonesto’ e otras cositas impublicáveis.

O padre, conhecido por suas tiradas bem humoradas não se deu conta de que muitos dos seus sete milhões de seguidores, obtusos, só enxergam aquilo que querem enxergar. É perda de tempo mostrar, provar, argumentar... Parte desses fiéis - ignorou o padre - só é ética se tiver a certeza de que uma câmera paira sobre suas cabeças como um onipresente anjo alado, caso contrário, subtrai, surripia, rouba e trai, mostrando-se moralmente correta e altruísta.

Ora, é sabido que as redes sociais é o espaço do fingido, do hipócrita, do mentiroso, do desleal, do enganoso, do errado, do ilegal, do falso, do fraudulento, do pérfido, do traiçoeiro, do fariseu, enfim, é por esta fogueira de vaidades que o padre se deixou levar ao imaginar uma Ágora a sua conta do Twitter, lugar em que pudesse dialogar com as diferenças e estabelecer alguma dialética com certa natureza de seguidores que só povoa as redes sociais porque divide as características que mencionei acima. Estes, hipócritas, travestem-se de juízes dignos e impolutos, pessoas moralmente íntegras, e, irrepreensíveis, “enfiam suas violas no saco” ou “enrolaram o rabo e sentam em cima” - como dizia minha sagrada nonna - sempre que algo é do seu interesse. 
O padre, não se dando conta disso, reuniu-se com improváveis, achou que tudo fosse uma brincadeira de meninos, esquecendo de que mesmo a cantiga, serve-nos de aviso, afinal, caranguejo só é peixe na enchente da maré. Trocando em miúdos, só quando você fala aquilo que ele quer ouvir.




sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Toni Morrison: livre e insurgente


Toni Morrison partiu esta semana. Ao ler sobre sua morte, uma vez mais lembrei-me de Angela Davis, professora, ativista e insurgente contra o estado de coisas e o sistema que nos sufoca. Mas a semana foi de Toni Morrison, professora, rebelde, livre, pensadora, ativista, radical em suas análises e observações, isto é, alguém que afirmava o que quer que seja sem o uso de meias palavras - sempre do agrado de gregos e troianos -, alguém que afirmava ser a morte o significado da vida e a linguagem, por podermos fazê-la, a medida de nossas vidas. Enfim, alguém que dizia ser o “romance o lugar da liberdade”. Como não amar Toni Morrison? Como não fruir da literatura de Toni Morrison?
Aos avessos ao cânone, Morrison, queiram ou não, há de se tornar canônica; seu percurso deixou traços na pátina das ideias literárias, o que é indício de repouso no Panteão dos imortais. Agraciada com o Pulitzer de 1988, foi a primeira mulher afro-americana a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, por Beloved, um mergulho no universo negro dos Estados Unidos no século XIX.
Toni Morrison morreu na noite de segunda-feira sem que víssemos seu sentimento de revolta se esvanecer por um só momento. Nem o sucesso internacional nem o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, nem os vários doutorados honoris causa e outras distinções alteraram suas paixões e sua altivez, ainda que, depois de ver um afro-americano na presidência dos Estados Unidos, testemunhasse o retorno do racismo desinibido com a eleição de Donald Trump.
Neta de ex-escravos, ela sabia de onde veio e nunca teve medo de chocar. Em outubro de 1998, por exemplo, chamou Bill Clinton de “o primeiro presidente negro dos Estados Unidos”. “Ele tem todas as características dos cidadãos negros: veio de um lar monoparental, origem modesta, infância na classe trabalhadora, um grande conhecimento do saxofone e um amor pela junk-food digno de um rapaz do Arkansas”, disse ela. Recentemente, em 2015, quando promovia em Londres seu livro God Help the Child, ao comentar os vários abusos policiais que haviam acabado de acontecer nos Estados Unidos, disse ao The Telegraph: “Eu quero ver um policial atirar em um adolescente branco e indefeso. Eu quero ver um homem branco encarcerado por estuprar uma mulher negra. Só então, se você me perguntar: “Acabamos com as distinções raciais?”, eu responderei a você sim.”
Chloe Ardelia Wofford nasceu em 1931; ao converter-se ao catolicismo adotou o nome de Anthony, que seus amigos abreviaram paraToni. Seu avô era um fervoroso leitor da Bíblia e com ele logo aprendeu a ler e a escrever. Bolsista, Chloe Anthony Wofford (Morrison vem de seu casamento com Harold Morrison, em 1958) foi uma estudante brilhante, defendeu uma dissertação sobre o suicídio em Faulkner e Virginia Woolf e iniciou uma carreira docente. Em 1973, publicou pela Random House uma antologia de escritores negros, The Black Book.
Entre os anos 1989 a 2006, lecionou literatura na Universidade de Princeton (New Jersey), havia muito proibida para negros. Em 1989, ela já era uma escritora reconhecida, porém, tudo começou no ano de 1970, quando publicou o primeiro de seus onze romances, The Bluest Eye, que não teve sucesso e é apreciado com reservas pela comunidade negra. Na obra, uma menina de 11 anos, Pecola Breedlove, sonha em ter olhos azuis e acaba cega, louca e persuadida a ter um aspecto de cor cobalto, graças à operação de um charlatão negro.
Além de seus romances, vale ressaltar ensaios como Playing in the dark, extraído de suas conferências na Harvard, no qual pode-se observar a natureza radical de suas análises e suas observações: “Eu falo da construção da brancura em literatura. Como a literatura se torna ‘nacional’, como Melville ou Twain tiveram a ideia do branco que eles eram, imaginando o negro: sua linguagem, estranha, diferente, quase estrangeira; o modo de associar os negros a certos traços: a violência, a sexualidade, a raiva ou, se for um bom negro, o servilismo, o amor. O que não tem nada a ver com a realidade, mas é a maneira como os brancos imaginam os negros. Por exemplo, eu estudo Benito Cereno, de Melville, em que o homem branco não consegue imaginar que o negro possa fazer algo inteligente. Em Hemingway (em Ter e não ter, O Jardim do Éden), Saul Bellow, Flannery O'Connor, Willa Cather, Carson McCullers, Faulkner ... eles contemplam corpos negros para refletir sobre si mesmos, sobre sua própria moralidade, sua própria violência, sua própria capacidade de amar, ter medo etc.” 
E Morrison não reflete só sobre os preconceitos que constroem o tecido social, mas também sobre a escrita. Em 1998, referindo-se a Jazz, publicado em 1992, afirmou depois de ter sido acusada de “não respeitar o que fundamenta todo o romance, a unicidade da voz narrativa”: “Hoje, ser moderno é um crime!”, “Sem falar daqueles que me colam a etiqueta de “realismo mágico”, evocando alguma proximidade com Garcia Márquez, o que não faz sentido. ‘Realismo Mágico’ é o que dizemos quando não sabemos o que dizer, para ‘literatura não branca’”.
Por fim, leitores, espero que essas garatujas lhes deixem algo do espírito da Sra. Morrison, que gostaria, lessem um dia.


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Lições da África


Aos olhos dos países ricos europeus, Estados Unidos e Canadá, a África, a despeito de todos os beneméritos discursos dos líderes ocidentais, continua sendo vista com descaso, lugar fugidio de tribos e povos incultos, selvagens, pouco afeitos à inventividade coletiva e ao talento individual; a este, quando valorizado, atribui-se algum destaque em razão de seu caráter exótico. Não que os europeus não tenham visto - e vejam - a nós, brasileiros, da mesma forma. Ocorre que nós, quer queiram ou não, do alto de nosso espírito de colonizado, arrogantes, reputamo-nos colonizadores e sempre olhamos para a África a partir do olhar europeu, nunca fomos lá fuçar e tentar entender a África a partir de seus filhos.
Prova disso são as centenas de dissertações e teses defendidas nas universidades públicas brasileiras, cujo teor são as relações culturais, as literaturas africanas e as literaturas pós-colonialistas; seus autores, na maioria das vezes, não se deslocam para Angola, Moçambique, Cabo Verde etc., mas sim, vão a Lisboa, Coimbra, Paris... - é sempre mais prazeroso estudar os povos africanos à margem do Sena. Desse modo, em parte perpetuamos a ideia de uma África atrasada, longínqua e inacessível. Não generalizo, é claro, mas parte do que tenho visto hoje são produções pautadas por certo equívoco, resultado de pouca leitura e super valorizando as questões raciais como parâmetro para a criatividade, o talento, a aptidão e a capacidade. Dito isto, penso em qual seria a cor da literatura ou das literaturas. É claro que as literaturas refletem seus meios e a manufatura de um autor africano ou descendente terá traços e marcas próprias do seu espaço, das suas histórias e de seus traumas, enfim, da saga do povo africano. Mas é preciso reconhecer, é isso é polêmico, que muitos que se arvoram por esses estudos o fazem superficialmente, uma vez que os olhares - como disse - foram intermediados.
Mas deixemos os estudos literários de lado e tomemos o bonde das notícias. Vejam como o pensamento na Etiópia está a anos luz à frente do brasileiro: aqui, o governo defende abertamente o desmatamento das florestas e o sucateamento dos parques nacionais, empenhando-se em uma política retrógada que, se revertida, demorará décadas, oxalá século, para que a natureza e fauna se refaçam – o que não acredito, dada a ânsia de saúva que nos tomou a todos. Explico-me: nós, brasileiros, (generalizo, embora deva respeitar uns poucos que navegam contra a maré, pois é fato que a maioria ainda não se deu conta de que é um hospedeiro consumindo seu organismo - o planeta – de tão forma avassaladora cujo fim não é outro senão a morte de ambos) ainda não sabemos conviver com outras formas de vida, derriçamos tudo, flora, fauna, enfim, praticamos a política da terra arrasada.
Lá, na Etiópia, o governo adquiriu nova consciência em relação ao meio-ambiente, o que faz com que nos envergonhemos das notícias por nós produzidas nos últimos anos. Lá, na Etiópia, o governo está empenhado no reflorestamento do país. Estranho, não!? É possível que as boas ideias tenham aparecido lentamente, mas como nunca é tarde, a Etiópia propôs-se a plantar 4 bilhões de árvores para preservar seus recursos naturais e combater as mudanças climáticas. Também é possível que os etíopes tenham se dado conta disso às custas de muito sofrimento: quem não se lembra da Carestia de 1983-1985, na Etiópia? Essa fome em massa que exterminou 400.000 etíopes e impulsionou o concerto Liv-Aid, elevando a fome a status internacional e garantindo algum recurso aos etíopes. À época, se alguns acharam a ideia maravilhosa, outros discordaram, haja vista o acadêmico Alex de Waal ter afirmado que “a ajuda humanitária prolongou a fome, e com ela, o sofrimento humano”, talvez porque, ele próprio, jamais tenha sentido o estômago preso às costas.
Mas hoje os etíopes estão enxergando para além dos umbrais de suas portas. Na segunda-feira passada, segundo notícias da agência AFP, o governo dispensou os funcionários e organizou um esforço coletivo junto aos cidadãos para que pudessem plantar árvores, motivando assim o restante do país a fazer o mesmo. [Interrompa sua leitura, caro leitor, e compare as ações dos etíopes aos discursos e o não fazer nada dos brasileiros. Quanto aos europeus, estes são sensíveis à causa, mas plantam pouco ou coisa nenhuma!]
Feito isso, continue.
Depois de o governo etíope ter afirmado que cerca de 350 milhões de mudas de árvores foram plantadas, o porta-voz do primeiro ministro Abiy Ahmed afirmou: “Demonstramos a capacidade de as pessoas se unirem coletivamente.” De quebra, ressaltou que a campanha cujo objetivo é reflorestar áreas desmatadas ao longo das últimas décadas surgiu como uma boa oportunidade de solidarização entre os cidadãos, qual seja, plantar árvores tornou-se instrumento humanitário, algo que talvez seja óbvio para os indígenas, povos que têm por hábito o respeito à natureza e estão aqui por perto, mas tão perto, que os ignorarmos - e os matamos.
Por fim, se para os etíopes o desmatamento tornou-se um problema muito sério, para os brasileiros a consciência de que desmatar é algo nocivo à natureza está longe de se tornar uma questão quotidiana, haja vista o INPE ter anunciado hoje um aumento de 40% no desmatamento da Amazônia. É claro, há gente que desmereça o INPE, afinal...
Para concluir: a África é a mãe de muitas outras lições que o tempo e o espaço não me permitem retomá-las.