
Impossível não me lembrar de Stendhal e de Machado de Assis. É só ler o prólogo de Memórias póstumas de Brás Cubas. Lá, Machado relembra Stendhal por ter este confessado haver escrito um de seus livros para cem leitores. Machado, por outro lado, arrisca um público leitor de talvez cinco. Nota-se a angústia que perdura na alma do autor logo após vencida a barreira da página em branco (o mesmo dá-se com Hilda). Como o fio da trama percorre e liga Hilda a Machado, que por seu lado já havia enredado Stendhal? Fácil. Em literatura, existe um mecanismo chamado intertextualidade; embora carregado de diferentes sentidos e utilizado à exaustão até se tornar uma ideia ambígua do discurso literário, apresenta a vantagem de reagrupar manifestações de textos literári
os e verificar suas ligações e dependências recíprocas, de maneira a sinalizar a presença de um texto em outro texto. Metaforicamente definido por diálogo, trama, tecido, biblioteca, etc., essa manifestação, ao mesmo tempo em que concorre para a tessitura de um novo texto, marcando assim, a construção de sua própria originalidade, se inscreve na genealogia de entrelaçamentos e filiações que ao longo da história permitiu a literatura nutrir-se de si mesma, de sua história.
Enxertos que se mostram no texto referência, citação, alusão, pastiche, paródia, são práticas intertextuais comumente inscritas no repertório da prática literária, cujos traços se agrupam em torno da ideia de memória, a lembrança nostálgica referenciada que leva a literatura a sua própria retomada e com isso se articula, na transposição, com um novo sistema significante, o que resulta em sistema operatório que denuncia a co-presença entre dois ou mais textos. Com isso, tem-se uma trama cujos nós são feitos ora por Stendhal, ora por Machado, ora por Hilst, todos, temerosos da indiferença do público.

Enxertos que se mostram no texto referência, citação, alusão, pastiche, paródia, são práticas intertextuais comumente inscritas no repertório da prática literária, cujos traços se agrupam em torno da ideia de memória, a lembrança nostálgica referenciada que leva a literatura a sua própria retomada e com isso se articula, na transposição, com um novo sistema significante, o que resulta em sistema operatório que denuncia a co-presença entre dois ou mais textos. Com isso, tem-se uma trama cujos nós são feitos ora por Stendhal, ora por Machado, ora por Hilst, todos, temerosos da indiferença do público.
Hilda Hilst, acredito, ainda não é conhecida do grande público, permanece ao alcance de algumas categorias marginais de leitores - professores, amantes e estudantes de literatura. A escritora é comparada a Guimarães Rosa e considerada pela crítica especializada como uma das mais importantes vozes da língua portuguesa do século XX. Nascida em Jaú, iniciou na literatura em São Paulo, quando publicou o livro de poemas Presságio (Editora Revista dos Tribunais, São Paulo, 1950). Em 1965 mudou-se para Campinas, onde construiu a Casa do Sol, em terras da fazenda de sua mãe. Ali, Hilda dedica-se exclusivamente a trabalho literário, produzindo mais de 80% de sua obra. Dona de uma linguagem inovadora, escreveu poesia, teatro e ficção e ganhou os principais prêmios literários em todos os gêneros. A Casa do Sol, residência da escritora até sua morte, em 2004, hoje abriga o Instituto Hilda Hilst.
Título: * P.S. - Se você não compreendeu teu corpo nem meu texto, rent a pig. - Cascos & carícias: crônicas reunidas, 1998. - Hilda Hilst.
Conheço pouco da obra de Hilda Hilst, sei mais de algumas histórias ou mitos relativos a sua vida. Muito bom este artigo e a forma como explicou a questão da intertextualidade. As fotos são muito bonitas!!
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