
Achei dados sobre A Descoberta do Mundo, primeiro trabalho de crônicas de Clarice, na verdade, seu cahier de voyage ao longo da vida: paixões, histórias, entrevistas, filmes, enfim, tudo o que participou de alguma forma de sua existência. São 468 títulos de crônicas publicadas aos sábados no Jornal do Brasil — certos dias agrupam várias delas, pequenas — entre 1967 e 1973 e, curiosamente, muitas delas poderiam ser republicadas hoje sem que ninguém percebesse a passagem dos anos. Algumas reflexões são atuais e atemporais. O livro é dividido em dias, como se fosse um diário, mas sempre entre realidade e ficção. Esta última, no entanto, revela com fidelidade as incertezas que cercavam sua enigmática personalidade. A vida cotidiana e os acontecimentos no Brasil daquela época permeiam a narrativa. Em meio aos devaneios permanentes que foram marca pessoal da autora, surgem importantes nomes da cultura brasileira e latino-americana.
Clarice foi uma dessas escritoras singulares. Há pouco mais de meio século, os ditos países desenvolvidos, os centrais, sob uma modernidade em expansão, cuja indústria e descoberta tecnológicas atingiam níveis nunca anteriormente vistos, já experimentavam o cansaço de sua narrativa e de sua linguagem, truncadas, carentes de ideias e de força, enfim, padecendo com a ausência de jogos teóricos e narrativos que pudessem, talvez, levá-los mais além. O sangue novo viria então da América Latina, onde a literatura trazia um sopro maior. Entretanto, enquanto países como México e Colômbia respiravam novos ares, o Brasil, permanecia deitado em berço esplêndido, ou seja, mostrava-se impermeável a tudo o que não vinha de si mesmo e vivia em completa autofagia.
Até meados do século 20, o grande nome da literatura brasileira continuava sendo Machado de Assis, ainda nosso grande autor, o que inaugurou o romance psicológico em terras tupiniquins, através de uma narrativa incomum em que as dores da alma, pensamentos e sentimentos são contados de maneira inesperada. Pode-se afirmar, porém, que Clarice Lispector é filha direta e legítima de Machado de Assis e dona de obra misteriosa e ímpar. Li, meses atrás que o influente The New York Review of Books rendeu tributo a Clarice com um ensaio extenso de Lorrie Moore, a jovem deusa do minimalismo. O magnetismo de Clarice, segundo Moore, deve-se em parte aos franceses, sobretudo quando, nas universidades francesas, houve o apogeu dos estudos sobre a mulher. Hélène Cixous, que reuniu parte dos estudos sobre a obra da autora, recorda que, na França, a extraordinária abstração da prosa de Lispector fez com que a vissem como uma filósofa. Quando ela assistiu a um encontro de teóricos sobre sua obra, abandonou a sala na metade da homenagem, dizendo que não entendia uma só palavra do jargão. O fato é que Clarice, com sua escritura, rompia com todas as convenções da arte de narrar e arrancava de cada palavra um tremor secreto, enigmático.
Lembrei-me de Hilda Hilst. Talvez porque, assim como Clarice, que não suportou a tal conferência dos franceses, Hilda, certa vez abandonou o teatro em dia de estreia, exatamente quando um de seus textos era encenado. Segundo o ator que me contou a história, Hilda achou tudo muito chato. Não suportou a ideia de ver o que via em cena e saiu dizendo que não era nada daquilo. Pobre garota dos livros, infelizmente diz ser chato aquilo que desconhece e sequer vai descobrir que Clarice é muito mais que aquilo que levava nos braços.
Clarice é muito mais que ela mesma, vc tem razão, ela retrata o externo para mostrar o interno, o mais secreto de nós mesmos.
ResponderExcluirClarice e os animais. Novidade.
Gostei
Parabéns.
Xiko