Revista Philomatica

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Intrusa

Afirmar que o mundo sempre foi regido pela batuta masculina nada mais é que constatar o óbvio. E isso não se explica pela constituição física e/ou a inteligência do homem, como insiste em bradar muito machista de plantão. Arrisco dizer que a submissão da mulher tem origem na sua própria força. Não, não estou atribuindo a ela a culpa da sua subjugação, como tem sido comum em nossos dias, em casos em que se condena a vítima e não o estuprador!
Afirmo que o homem age covardemente todas as vezes em que assedia física e moralmente a mulher, valendo-se do poder tradicionalmente conferido a ele - sim, é tradição, até mesmo mulheres dizem que homens não choram - para sujeitar o sexo oposto. E por duas razões: medo e bestialidade; medo, porque por mais que se esforce não consegue entender o intelecto feminino, diverso, plural, criativo, perseverante, vigoroso e forte; bestial, porque rude se esquece de que a delicadeza e a inteligência são superiores à força e ao poder perverso.
Bem, todo esse preâmbulo do óbvio só para dizer que apesar da maladroite regência masculina, ópera e o libreto são escritos por elas, que há muito solaparam a base do pedestal do macho. E não fizeram isso de modo sorrateiro, mas armadas de cortesia, civilidade e singeleza, ainda que hora ou outra tenham sido tomadas por intrusas. Afinal, que faria o homem ao ver seu universo desbravado por essas bravas gentes delicadas fazendo tudo o que ele fazia - e melhor?!
Vejam Júlia Lopes de Almeida! Nascida no Rio de Janeiro, viveu parte da infância na minha querida Campinas; ali, começa a escrever na Gazeta de Campinas, apesar de a literatura “não ser visto como uma atividade própria das mulheres” (com aspas, porque é assim que dizem seus biógrafos). Também confessa a João do Rio que a essa época fazia versos às escondidas.
Bem, o fato é que Júlia vem à luz e já em 1919 é eleita presidente honorária da Legião da Mulher Brasileira. Mais tarde, integra o grupo de escritores e intelectuais que planeja a criação da Academia Brasileira de Letras. Contudo, embora seu nome fizesse parte da lista dos 40 imortais que fundariam a entidade, foi excluído posteriormente, porque os fundadores optaram por uma academia exclusivamente masculina. E Machado consentiu!!!
Mas falemos de A Intrusa, romance de Júlia Lopes de Almeida, que me foi apresentado por uma amiga, leitora contumaz. Publicado em 1905 nas páginas do Jornal do Commercio, em capítulos, como ditava a regra de todo bom folhetim, vira volume três anos depois. Ainda que parte da crítica afirme que a obra de Lopes de Almeida é marcada pela influência do realismo e do naturalismo francês, tratando-se d’A Intrusa, não me parece este um comentário de todo justo.
A Intrusa, obra escrita já sub judice do realismo, tem uma estrutura narrativa característica do Romantismo. Lopes de Almeida segue a velha fórmula do folhetim à la Dumas, de modo que o leitor vê-se diante de um sobejar de diálogos. O juramento romântico - vide Atala, de Chateaubriand -, déclancheur de toda a trama, também está lá, assim como os ardis da antagonista, de fato, a intrusa. Mas vamos ao enredo.
A Intrusa conta a história de Argemiro, advogado bem sucedido no Rio de Janeiro oitocentista, mais precisamente à época da Belle Époque, quando a capital, um arremedo de Paris, acreditava-se no auge da cultura cosmopolita. Viúvo, jovem e atraente, é cobiçado pelas mulheres; contudo, do casamento anterior com a filha dos Barões de Cerro Alegre, resultou a intratável e mimada filha Glória.
Em meio à má educação da filha - educada pela sogra, a baronesa de Cerro Alegre - e um escravo ludibriador, Argemiro decide contratar uma governanta, e o faz via anúncio de jornal. Ao fazê-lo Argemiro não só recebe críticas do amigos Caldas e Assunção, mas sobretudo da sogra ciumenta.
Argemiro, ainda empenhado em seu juramento, impõe a Alice Galba, única candidata a responder ao anúncio, à condição de jamais se encontrarem, de modo que quando Argemiro adentrava a casa, Alice se escondia. A situação perdura gerando conflitos, sobretudo com a sogra, cujo intrometimento confere a ela o protagonismo e a alcunha de intrusa, muito embora na obra o adjetivo seja atribuído a Alice Galba. Ocorre que a onipresença de Alice Galba invade a casa e o espírito de Argemiro, que tem seu quotidiano inteiramente alterado. O final! Aquele que todo leitor semântico deseja; felizes para sempre!
A presença de Alice reproduz ipsis litteris o papel da mulher não tão bela, mas recatada e do lar - fazendo uso, aqui, do jargão repetido à exaustão nos últimos dias. Isto posto, em A Intrusa não é evidente a escritora de verve feminista como quer boa parte da crítica; e só o digo porque há aqueles que a culpam de “reforçar a dualidade contraditória com que a tradição estigmatizou a mulher”, confirmando a ideologia dominante.
Antes de concluir, peço ao leitor semiótico que leia o início do capítulo XII: uma pérola que reproduz o embate entre romancista e personagem, algo à la Sterne e no rastro de Machado.
Por fim, dada a projeção de Júlia Lopes de Almeida em seu tempo, não é justo que lhe seja reservada perene coadjuvação. Que ganhe o merecido protagonismo!



Imagem: Almeida Júnior, Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, 1891.
Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Opinião talhada na pedra


___ Acho qui num é bem assim. Eu já disse, o senhor divia pensá a respeito i quem sabe, mudá de opinião... Isso ia facilitá por demais.
___ Num mudo não. Aqui, tenho minhas ‘opiniães’; sei que elas tão certa. Num mudo não!

O diálogo acima, ouvi-o na fila de um caixa eletrônico. Adiantei-me para próximo da máquina, efetuei alguns pagamentos e, quando voltei-me, as duas personagens já haviam desaparecido na multidão. Ficaram as duas falas a me incomodar e ressoar no espírito.
Há muito consideram louvável mudar de opinião; não a dos outros, por meio da astúcia, como dizia Maquiavel, mas a sua própria. Perdoe-me, leitor, enredar dois monstros da literatura em um só parágrafo pode parecer pedante, mas não posso deixar de pensar em Fernando Pessoa que disse um dia que “convicções profundas só as têm as criaturas superficiais”. Questão de sinapses...
Nada contra a coerência, em absoluto, mas sentar-se sobre uma opinião, buscando ser coerente consigo próprio, é demonstrar um atavismo despropositado, algo como se as opiniões, uma vez internalizadas, adquirissem características biológicas. Ora, até mesmo a ciência vive de um desdizer constante; à medida que novas experiências são postas à prova, conclusões anteriores ou são reelaboradas ou banidas de vez. Portanto, por que não mudar de opinião, olhar para outras paisagens, respirar outros ares, pintar-se de outras cores?
Mas não, alguns insistem em gravar suas opiniões na pedra como se fossem testemunhos dignos de serem preservados; quando não ressuscitam provérbios já há muito esquecidos, na tentativa de enobrecer textos e contextos por si só irrelevantes. As estripulias recentes da canalha política trouxeram à luz o célebre verba volant, scripta manent (as palavras voam, os escritos permanecem), que parece ter sido dito por Caio Tito, no senado Romano.
Hoje, em dias de intolerância e opiniões renhidas, talvez o maior estorvo para um bom diálogo seja o pensamento tribal. Tratando-se de questões religiosas, políticas ou raciais, partidários dos diferentes grupos rejeitam em definitivo pessoas que pertençam a uma outra comunidade que não partilha das mesmas ideias. Falar ou dirigir-se a essas pessoas constitui-se então uma tarefa desafiadora. 
Os exemplos transbordam no senso comum: na matriz, há pouco mais de uma década, tivemos Uma verdade inconveniente, documentário de Al Gore, que tratava da crise global climática. A eloquência e a lógica irretocável de Al Gore não foram suficientes, embora tenham impactado muitos, a persuadir outros tantos. Explico-me: Al Gore era/ou é um político, ser que, por sua natureza, está fadado a/ou deve ser visto com reserva e muita desconfiança.
No mais, Al Gore gravitava em um país cindido por duas ideologias políticas. Nesses casos - aliás, vemos isso agora em nosso país -, a militância e os instintos partidários erguem barreiras intransponíveis contra as ideias e a propaganda do lado oposto. Ainda que a causa de Al Gore fosse legítima, ela foi relativizada por uma grande parcela da população americana. A prova de que, às vezes, as ideias são talhadas na pedra, é que a questão climática, ainda hoje, está na ordem do dia.
Aqui nos trópicos tivemos o caso Haddad, prefeito de São Paulo. Haddad colocou-se como objetivo implantar quilômetros de ciclovia na capital paulista. Mesmo que muitos desses quilômetros tenham sido desbravados em ruas sem qualquer condição de abrigar ciclovias ou estas, quando executadas, trouxessem de arrasto alguns bueiros em desnível, postes no meio do caminho e um ou outro buraco, muito foi feito e a ideia era - e é - ótima. A ideia de Haddad é uma mão na roda na qualidade de vida da poluída capital. No entanto, muita gente foi contra a ideia do prefeito em razão de ele pertence à parte contrária da canaille política (a partir de agora, leitor, toda vez que eu grafar canaille, trata-se de abjetos políticos).
Vê-se, com isso, o prejuízo causado pela impossibilidade - ou pela falta de vontade - de se colocar no lugar do outro, quiçá, mudar de opinião. Vivemos dias em que, apesar da disseminação do conhecimento, as pessoas mostram completo despreparo ou pura indisposição a ouvir. Resultado? A comunicação não acontece em razão de as opiniões terem sido talhadas na pedra, algo que nos rincões dizem de alguém “teimoso feito uma mula” ou ainda, um “cabeça dura”. 


 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sábado, 12 de agosto de 2017

A arte de ler

Você sabe ler? A obviedade da resposta, leitor, beira o ridículo, uma vez que você acaba de chegar ao fim do primeiro parágrafo. Porém, desconfie de si mesmo e dos outros, pois no âmbito da leitura nem tudo é o que parece. Os significantes - para uns e outros, vocábulos inócuos -, malgrado a compreensão da significação, não atestam capacidade de leitura. Deixemos os termos linguísticos de lado e vamos às historietas, pois elas sim revelam-se instrumentos de compreensão.
Há cerca de um milhão de anos, quando Prometeu roubou o fogo dos deuses e o deu aos homens, os hominídeos começaram a controlá-lo, provocando novo estímulo aos vínculos sociais. O calor e a luz produzidos pelo fogo uniam as pessoas ao cair da noite. Especialistas afirmam (sempre os especialistas) que dessas reuniões em volta do fogo surgiu uma nova interação social: a narração de histórias.
Esqueçamos as fogueiras e avancemos no tempo: lembro-me de uma manhã em que na casa dos meus pais, após o café, continuávamos à mesa falando amenidades. Em dado momento, tornei-me objeto da conversa. Por conseguinte, meus estudos vieram à baila; falei-lhes sobre meus planos. Um tio, não entendendo minha obsessão por livros e leituras, perguntou-me sem malícia: “Mas você já não sabe ler?”
Para meu tio, havia os que sabiam e os que não sabiam ler. Não lhe ocorria a existência de diferentes níveis de compreensão. Para ele, ao sair da escola já se sabia ler. Tudo bastante simples. Ingênuo, reproduziu algo que até mesmo muitos dos que lidam com a palavra amiúdam: o vício de subestimar as dificuldades que a leitura nos impõe, qual seja, a arte de entender o que foi lido.
De certo modo, leitor, esse texto brota em resposta ao anterior, no qual tratei de uma imprensa ávida à busca de leitores, forjando notícias à revelia sem qualquer comprometimento com a verdade. Para isso, vali-me de um título também sensacionalista em que, propositadamente, matei a Rainha da Inglaterra.
Dito isto, falo da arte da leitura. É preocupante como alguns leitores interpretam os textos sem ao menos os terem lido. Para alguns só o título basta, e é aí que tudo se complica. O título pode trazer em si uma ironia, uma crítica - quando não uma oposição -, cujo entendimento só se perfaz ao longo do texto; a ânsia da expressão, da opinião como grito preso na garganta, impede a total compreensão, donde a comum ocorrência de comentários periféricos ao texto que se distanciam da lógica e/ou tópos nele tratado.
Leitura requer paciência - talvez por isso vá na contramão da velocidade das ‘curtidas’ e ‘compartilhamentos’. É certo que um dos efeitos da leitura é a surpresa: a surpresa de defrontar ideias que não as suas, a surpresa de visualizar seus próprios subterfúgios, suas próprias manias e clichês, a surpresa de provocar indagações, de notar seus próprios recursos como leitor - muitas vezes imensos e inexplorados. Gostamos de contar novidades, mas...
Contudo, também é certo que muitos leitores chegam ao texto com suas opiniões talhadas na pedra, seu lugar demarcado no mundo, quiçá, fazendo da vida algo “cruel para si mesmo” - valendo-me de um dito de Artaud em contexto díspar. Não se pede aqui que o leitor concorde totalmente com o que foi dito num texto, uma vez que textos são espaços de provocação, questionamentos e discussões. Porém, ler e passar ao largo do texto pressupõe um estagnar-se, criar clichês, decair. Muitas vezes, as consequências do que chamo ‘falsa leitura’ emergem em forma de comentários; nestes, o leitor distante da lógica do texto revela certa obtusidade, valendo-se muitas vezes de termos agressivos na defesa de seu ponto de vista.
Ainda no âmbito das interpretações, muitos leitores rebelam-se, outros ignoram as linhas, adivinham as entrelinhas, indignam-se com o que acham que o autor ‘julgou’ dizer - e não com o que ele disse et ita in. Não é condenável tecer ilações sobre o autor ou sobre as causas do que se está dizendo. Contudo, nada disso pode ser indiferente ao texto e à sua lógica.
Em suma, leitor algum é obrigado a concordar com o texto que tem diante dos olhos, mas a lógica impõe (im)possibilidades de discordância. Para discordar ou destruir argumentos são necessários argumentos outros e alguma reflexão; e é justamente aí, nessa intersecção entre leitura e escrita, que as dificuldades avolumam-se face à maioria dos leitores, uma vez que a lógica do ensaio e/ou do texto exige que só se possa discordar nos seus próprios termos, ou seja, dentro do contexto ali exposto. Daí muitos optarem pelo comentário curto e grosso à la twitter.
Ler vai além da simples decodificação dos significantes, do conhecimento de seus significados. Ler implica deter-se sobre a lógica do texto, abrir-se à novas ideias seja para rebatê-las, seja para concordar com elas. Ler pressupõe presença de espírito. Por fim, ler exige também uma nesga de bom humor.


 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/


terça-feira, 4 de julho de 2017

Baudelaire e as "quenga"

Vá lá, caro leitor, o título é para dar uma aclimatada, torná-lo mais tupiniquim. Ler notícias sobre Brasília e não fazer remissão a um prostíbulo qualquer, convenhamos, beira à ingenuidade. E não falo de cabaré com letreiro em francês, refiro-me àquele puteiro de beira de estrada em que as meretrizes jamais provaram de um champanhe francês pago com o erário. Acredite, até mesmo nesse buraco ética e respeito imperam! E não aponte o dedo ao enunciador, tratando-o conservador e fascista! Ele, ainda que retoricamente, prega a liberdade do corpo, a delícia e a luxúria da orgia e os encantos do serralho! Só não vai da ideia ao fato por pura falta de contexto!
Mas deixemos de lado a casa da mãe Joana - que você financia - e adentremos as antinomias; sim, porque as ‘meninas’ na literatura e na poesia tornam-se santas, sacrossantas! Falemos de Baudelaire e de sua obra Le Spleen de Paris, que veio à luz em 1869.
Até certo ponto, pode-se afirmar que Le Spleen de Paris é um ‘tratado’ sobre a prostituição, o que inscreve Baudelaire em uma tradição literária, cujo mais insigne representante é Rétif de la Bretonne, com suas Nuits de Paris. As páginas de Spleen estão repletas de figuras femininas, solícitas como Mademoiselle Lancet, “levemente maquiada, com os cabelos flutuando ao vento”, e que convidam o narrador a segui-la até seus aposentos para, depois, envolvê-lo em seus braços; ou ainda como a ‘pequena amante’ com toda a sua licenciosidade, e que faz parte das personagens femininas de ‘Portraits de maîtresses”, que compõem uma coletânea de poemas em prosa, cujas alusões ao corpo, à nudez, à sensualidade, às roupas apertadas e aos pedidos de dinheiro - que evidenciam que a mulher exerce a profissão de prostituta -, parecem traçar um panorama do exercício da profissão.
Contudo, se a palavra “prostituta” não é explícita, sobram sinônimos como “lorette” (a meninas que, em Paris, ‘batiam calçada’ ao lado da igreja Notre-Dame-de-Lorette), “criatura” e outros; todos sem qualquer conotação violenta, pois, se a mulher não é poupada por Baudelaire, a mulher de vida fácil nunca é menos irritante que a esposa legítima.
Em Spleen de Paris, a prostituta faz parte de um sistema composto de clientes “veteranos da alegria” - aqueles que conheceram (no sentido bíblico, assim como Abraão conheceu Sara) dezenas de filles de joie - e os cafetões ou mantenedores. A provocação vem nas entrelinhas: o marido que exibe a mulher arredia e misantropa em uma feira é algo diferente de um cafetão?
Sem afirmar que a prostituta é a norma do padrão feminino, nota-se em Spleen que muitas são as mulheres que exercem a prostituição ou situam-se numa fronteira, cuja representação exclui o julgamento, a obscenidade e a miséria. Esta prostituição não é condenável.
O universo de Spleen de Paris é a prostituição. Mesmo o “filantropo” com seu élan em direção ao outro é suspeito. Aspirando ser um homem da multidão, ironicamente torna-se um pretendente do gênero humano, tal o Don Juan, de Molière. O peso das relações humanas é insustentável e inevitavelmente leva a compromissos, compelindo-nos à prostituição social. Nessa toada, o vermos o mundo, perdemo-nos a nós mesmos e a nossa dignidade e corremos o risco de nos tornamos o “último dos homens”, pois nos diluímos nos “vapores corruptíveis do mundo”.
Desse modo, a prostituição engendra um risco ontológico grave em que vislumbramos - sempre - a promessa de uma punição. Se a prostituição ameaça sempre, é ainda mais presente quando existe entre os homens relações falsas, dissimuladas e distorcidas. Tome-se, por exemplo, o poema “La femme sauvage et la petite maîtresse”, que mostra o inferno que pode tornar-se a união de um homem com uma mulher exasperante e irritante. Em poemas como este, a convivência é regada a certa dose de sadismo.
Por fim, para Baudelaire, o homem sempre pode cair na prostituição, uma vez que está habituado ao desejo de agradar; temeroso de ser tratado com indiferença, ignorado, prende-se a relações espúrias e falsas, ou ainda, a amizades animadas por mera compaixão. O perigo ronda todos os homens e ameaça sobretudo o artista.
Mas falamos de poesia; no puteiro da canaille, ética e suscetibilidades não existem, pois, destituídos de qualquer código criminal, em que bandidos respeitam bandidos, em Brasília, só há comparsas indignos até mesmo dos puteiros de beira de estrada.


Foto: Filme “Apollonide, souvenirs de la maison close”; dirigido por Bertrand Bonello (França, 2011). 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os vacilões e a scriptum frons

A grosso modo, o humanismo é uma filosofia moral que, valendo-se de uma escala de importância, coloca o homem no centro do mundo, qual seja, versa sobre o humano, suas posturas éticas, suas aspirações e capacidades, atribuindo, sempre que pode, alguma importância à dignidade humana, sem, contudo, perder de vista a racionalidade.
Eis aí um rótulo: humanista! Filosófico, traz em si um método que, aceito em parte por uns e rechaçado por outros, deu origem a várias outras vertentes. E, uma vez que de rótulos entendemos em demasia, deveríamos todos ser íntimos do humanismo, e a tal ponto que não nos obrigássemos a um mínimo esforço que fosse para exercê-lo. Inspirar e ser humanista; expirar e ser humanista, contagiando outros tantos de tanta utopia - desculpem-me o rasgo irônico!
Ainda assim, presumo, o borogodó de todo humanista tem um não sei quê de alteridade – não avento qualquer definição para esta última porque suponho que o mais obtuso dos leitores constitui-se a partir do outro. Fosse esta uma prática, falar em respeito e tolerância cairiam em desuso pelo uso.
Mas, vá lá, vivemos de e para os rótulos! De miséria e mediocridade constitui-se o barro humano. A mediocridade, que na alma humana navega em águas profundas, dá mostras quotidianas. Fosse eu um desses especialistas – expertises, nomeiam-se alguns -, armar-me-ia de uma meia dúzias de rótulos para criticar outros tantos rótulos.
O porquê de toda esse palavrório, leitor vacilão? Não leu, não viu, não compartilhou, não comentou a testa do adolescente homem adulto que, pego no flagra, saiu rotulado?
Você, leitor especialista em comportamento humano, entendedor de suas relações, ás em generalizações teóricas com inferências sociológicas, não me aponte o dedo!
Não avalizo a frase grafada no crânio do adolescente, entre as sobrancelhas e o couro cabeludo; não, em absoluto! Mas também não avalizo sua inocência, assim como a de seus carrascos! Penso, ao contrário, na ladeira em que descemos todos; desde a canaille que desliza pela rampa dos palácios em Brasília até o poviléu que se movimenta por trilhas, ruas e becos das periferias, todos irmanados na possibilidade de se apossarem de um botão, matar um mandarim, amealhar uma fortuna sem qualquer esforço e livrar a si mesmos de qualquer culpa, a despeito da consciência.
Seríamos todos partículas de um povo ética e moralmente fraco? A corja de Brasília não me representa, dizem todos. Subiram a rampa prometendo ética, por isso é que os elegemos. Mas somos assim tão ingênuos? Acreditamos ainda em duendes e na fadinha do dente? Ora, a literatura nos ensina muita coisa: a vida, qual o romance, é um espelho, cujos reflexos faz com que vejamos a nós mesmos, e iluminemos hora ou outra os porões de nossa consciência. Por isso, leitor, aqueles que obram o poder e obram no poder, só o fazem por sua causa!
Como a memória precisa de chão, e às vezes é tratada como uma planta aérea, investem-se os especialistas de sabedoria facebookiana e perpetuam a disseminação de rótulos. Na tentativa de apontar o dedo para uns e outros, a fronte do adolescente foi reproduzida à exaustão com dizeres diversos, acusando o leitor virtual por seus pecadilhos sem, contudo, se darem conta de que ao fazê-lo expunham ainda mais o adolescente ao ridículo e à execração pública.
Esqueceram-se os especialistas da teoria do benefício. Será preciso avivar sua memória, obtuso leitor, achegar alguma terra às suas raízes? Pois é isso o que se vê! Certos de uma suposta anuência do leitor virtual, decidiram criticá-la e, ao fazê-lo, divulgaram a foto do rapaz incontáveis vezes acreditando praticar algum benefício. Há muito, Cubas explicou a natureza do benefício e seus efeitos. Acreditando fazer uma boa ação, julgam-se os especialistas superiores, esquecem-se dos próprios pecadilhos, cuja consciência acumula em seus porões nacos de perversidade, transgressão, maldade, erros, heresias, luxúria, vícios transgressões e, quiçá, crimes.
Ora, acenda ao menos uma lamparina nas trevas dos porões de sua consciência, caro leitor; tire primeiro o argueiro de seus próprios olhos, recolha o indicador, exclua as fotos do adolescente de sua página virtual, dê azo ao livre arbítrio e, se especialista, imploro: meta defronte à sua consciência um espelho e deixe o adolescente e seus carrascos responderem por seus atos!



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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Flânerie na Rue Lepic

Manhã fria, céu cinza, embora já estivéssemos no começo de junho, com o verão à porta. Saímos logo depois do café. A chuvinha era leve e triste; o destino, Montmartre. Ela, como sempre, remoía clichês e disse estar exultante por conhecer os lilases eternizados por Aznavour. Eu, esforçando-me para parecer simpático, disse que a mim me encantavam os gerânios que pendiam das janelas e se ofereciam aos passantes.
Descemos na gare Anvers só porque ela achava a Rochechouart muito cheia de gente. É próxima uma da outra, disse-me, mas tem menos gente. É bizarro (o adjetivo saia-lhe dos lábios sequenciado, ritmando-se à medida em que via algo que merecesse sua crítica de cientista social – assim fizera ante igrejas, castelos e museus, por terem sido construídos com mão de obra escrava, afirmava), tem-se a impressão de que se está no Oriente ou na África! Não pude deixar de notar o laivo de sinceridade, mas não disse palavra! Prova leitor, de que há muito discurso que só considera o fenômeno. Arremedos de metafísica!
A razão para me acompanhar, dissera, fora o fato de que eu já fizera vários passeios pelo bairro, alguns deles, na companhia de uma francesa, que me mostrara becos e ruelas estranhos à horda de turistas que diariamente afluem para o local.
Entabulamos uma boa conversa, mesmo depois de a minha retina ter espelhado a ambiguidade de seu discurso. Num azo compensatório, destampou a falar de José do Patrocínio, a viagem que ele teria feito a França em 1892, de onde trouxera o primeiro automóvel a vapor que circulara pelo Brasil e cujo barulho espantava os transeuntes.
A historieta do automóvel e outra do dirigível Santa Cruz, uma geringonça de 45 metros e 1200 quilos que jamais levantou voo, ficaram por minha conta. De fato, ela estava por lá para descobrir o que Patrocínio fizera em sua viagem a Paris, curiosidade que, confesso, justifica um bom ano de flânerie – e que se dane a Capes e a pilha de formulários a ser preenchida! Tudo vale a pena se se está em Paris, ainda que seu orientador esteja locado em outro continente. Sobre isso ela preferiu não comentar! Mas, deixemo-la de lado, andemos por Montmartre!
Ainda nos arredores da Basilique du Sacré Coeur, torcemos à direita rumo a Saint-Pierre de Montmartre, onde mostrei-lhe as duas colunas que supostamente teriam pertencido a um templo dedicado ao deus Marte. Disse-me que só entrara ali por minha causa; detestava igrejas, achava-as bizarro!
Dali partimos para a Place du Tertre, encantamo-nos com os pintores de rua, flanamos por becos, lojinhas, o Museu do Chat Noir; arrisquei algumas anedotas quando chegamos ao Lapin Agile, descrevendo peripécias envolvendo boêmios e os salões de arte moderna, o burro de Frédéric, a tela que um pintor italiano jamais pintara... e, de repente, descobri a razão pela qual ela quisera tanto flanar por Montmartre: o café da Amélie Poulain, dissera, onde é o café da Amélie Poulain?
Num rasgo romântico, dissera-me que se encantara com o filme e pôs-se a contar-me sobre o dia em que o assistira, o dvd que comprara, as inúmeras vezes em que o revira, os sentimentos que lhe vinham à tona, certa nostalgia inexplicável... Face a tal disposição emocional, partimos rumo a Rue Lepic.
Juntos, éramos dois seres distantes: eu observava os prédios, as janelas, os gerânios, a rua, as marcas do tempo, as frutas, os peixes expostos nos pequenos comércios, as cerejas que teimavam em sufocar pêssegos e maçãs tal a quantidade com que eram oferecidas.
Descemos a desigual Rue Lepic até chegarmos à esquina do Café des 2 Moulins, com seu toldo vermelho a atrair turistas ansiosos em reviver seu filme preferido. Na calçada, abarrotada de mesas, transeuntes equilibravam-se na pequena faixa por onde ainda se podia andar, todos voltados para o interior do café.
Perguntei a ela se queria tomar um café no interior, afinal, por um lapso de tempo estaríamos e seríamos parte do cenário do filme. Não, respondeu-me! Quero entrar sim, mas só para tirar umas fotos e depois postar; minha amiga vai morrer de inveja!
Entramos e logo um garçom nos abordou. Ela respondeu ao garçom ensaiando um pedido de licença para fotografar o interior do café. De minha parte, olhava o balcão e tentava rememorar cenas e sons que fizeram a graça do célebre acetato. Embora disperso, acompanhei o rápido diálogo:
O garçom: Bonjour Madame, je peux vous aider?
Ela : Oui, faire des fotos seulement!
O garçom: Quel est le mot magique ?
Ela: (perdida, olha para mim).
Eu (absorto): Amélie Poulain.
Diante da bizarrice, o garçom sai gesticulando, sem deixar de mostrar toda a sua impaciência por ter cruzado com dois não clientes paspalhões.
Na rua, ria às desbragadas, por ter confundido a célebre palavra mágica “s’il vous plaît” com “Amélie Poulain”. Ela, que mal tirou uma ou duas fotos do café, saiu achando tudo bizarro.


Crédito: Aquarela d'Alex Krajewski

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

domingo, 4 de junho de 2017

Morre a Rainha Elizabeth II, do Reino Unido

Londres já não é mais a mesma. Nesta manhã, a comoção tomou conta dos ingleses ao saberem que Elizabeth II falecera no Royal London Hospital. À espera de um primeiro boletim médico que esclareça a morte da monarca, jornalistas do mundo todo se concentram defronte ao hospital. Contudo, comenta-se que a rainha teria vindo a óbito após ter comido um priániki de chocolate, que lhe fora oferecido por Alexandr Yakovenko, embaixador russo em Londres. Fontes não oficiais informam sobre intensa movimentação na Scotland Yard; a Royal Air Force, segundo jornalistas do The Guardian, movimenta-se em direção ao Kensington Palace Gardens, sede da embaixada russa. Moscou, até agora, é de um silêncio sepulcral.

Haja vista esta coluna tratar da semana em curso - e dada a relevância do assunto -, desculpo-me desde já, caro leitor, por interrompê-lo, mas, sinto-me obrigado a perambular entre os foliões antes de voltar à fria Londres.
Antes que soubesse da morte Rainha, à espera do carro das ideias, corri os olhos pelas diferentes notícias. O que vi confirma a lógica de que padecemos todos de alguma coerência. Foliões travestidos de mulher agridem casal gay em beijo caloroso na orla de Florianópolis; militantes da causa animal desfilam enfeitados com penas de pavão (a escola campeã de São Paulo gastou meio milhão de reais só em penas da malfadada ave, afirma a imprensa); apoiadas em carros estacionados nos becos de Ouro Preto, feministas se deixam fotografar em momento de luxúria com rapazes ‘bombados’; outros, que bradam aos quatro cantos o emblema da apropriação cultural, acabam-se no Carnaval, esquecendo-se de que ele nasceu no covil de lobos brancos de olhos claros e com os pés bem fincados nas Lupercálias e nas festas dionisíacas, e così via... De qualquer modo, como o ano só começa agora, desejo-lhe um Feliz Ano Novo!
É provável que você tenha vindo até esta página em razão do título. Felizmente a simpática Rainha continua lá, firme como uma rocha. Para encerrar algumas ideias desenvolvidas em textos anteriores (Fatos, opiniões e pós-verdade e Imprensa folhetinesca), decidi partilhar do mesmo modus operandi da imprensa atual, qual seja, lançar mão de um título sensacionalista a fim de arrastar o pobre leitor até suas páginas.
Depois de quase uma semana em que meus ouvidos foram postos à prova sob intenso bum bum paticumbum prugurundum, didático, comento como jornais e sites de notícia criam notícias falsas à cata de leitores.
Títulos sensacionalistas pululam nas redes sociais e até mesmo nos grandes jornais - a dita imprensa tradicional -, aquela que se coloca a serviço do Brasil, ou vem a cavalo, ou vê o que vê no imperativo, ou nomeia-se carta.
Pois bem leitor, você já deve ter notado que seu texto é incessantemente interrompido por propagandas; para dizer a verdade, elas se intrometem por todos os lados, apertam-no, fazem dele uma coluna estreita em meio a carros, modelos, banners de imobiliárias e lojas, anúncios de cartão de crédito, fotos paradisíacas de agências de viagem, etc. Tudo isso não está lá à toa. A cada vez que você se distrai e clica em um desses atrativos, esquecendo-se do texto, o site hospedeiro lucra um pouquinho. Eis o lema: clique é dinheiro.
Uma vez que a maioria dos leitores não sabe distinguir fato de boato, a mídia e as redes sociais navegam de vento em popa e a verdade, se antes já mostrava ter uma coluna bastante flexível, hoje, é relativizada a ponto de a ambiguidade surgir como pré-requisito, pois é instrumento de fidelização do público. Em geral, embaralha-se verdade e mentira. Desta feita, a militância, a intolerância, o ódio ou mesmo a simples curiosidade, encarregam-se de retroalimentar as notícias divulgadas por meio de infinitos compartilhamentos (espero que você faça o mesmo com meu post).
Para o sites e portais eletrônicos - o mesmo aplica-se à imprensa escrita -, pouco importa o estrago provocado pela notícia. Quando muito o ofendido entra com um processo, o juiz obriga a retirada da notícia e, vez ou outra, à cata do vil metal, um processo por dano moral continua; mas o link já foi disseminado, copiado, colado, gravado na memória de milhões de almas que o reproduzem ad infinitum. O fato é que se lucra com a notícia e quanto maior a audiência, mais se ganha com publicidade.
A maioria dessas notícias são publicadas em sites sensacionalistas registrados fora do país; não se publicam o expediente, endereço ou telefone para contato e sequer os autores dos textos são identificados - primeira pista para que você desconfie da veracidade do que está lendo.
Sob a bitola de “tudo é business, tudo é dinheiro”, a responsabilidade de saber o que é e o que não é fica a cargo do leitor, de modo que, relativizada, a verdade passa a ser uma questão de ponto de vista, uma pós-verdade, cada um acredita no que acha que deve acreditar, ainda que o fato esteja lá, diante dos olhos, e/ou posteriormente apareçam os desmentidos.
Os descalabros na política tem sido uma inesgotável fonte de criação de notícias sensacionalistas e, como não poderia deixar de ser, aparecem os especialistas. Estes, dividem-se ao sabor dos diferentes pontos de vista, uma vez que muitos deles também fazem as vezes de Teseu alimentando o Minotauro das fake news. Alguns clamam por uma regulação global, uma alfabetização midiática; outros proclamam uma autocorreção da mentira à medida que o tempo passa, acreditando que assim tudo se esclarece; outros ainda minimizam o assunto, registrando que ao compartilhar uma notícia falsa, que nos choca ética ou moralmente, nos sentimos, de fato, participativos.
O fato é que em tempos em que governos bradam gastos sensacionalistas com a educação, institutos apontam que apenas 8% dos brasileiros entre 15 e 64 anos de idade são capazes de se expressar por escrito, opinar, argumentar, ler gráficos e tabelas. Daí, vale que para essa maioria, a imagem ou o vídeo que muitas vezes vem acoplado ao texto passa ao largo do que jaz escrito, revelando-se uma crítica inócua.
Uma vez que o objetivo é provocar a desinformação e solapar a credibilidade de notícias pretensamente objetivas, cabe ao leitor agarrar-se àquela que lhe pareça mais fidedigna, já que nada de braçadas em um mar de mentiras. Mas nada disso é novo: há muito, ao escrever Anekdota, Procópio arruinou a reputação do Imperador Justiniano; Maria Antonieta foi outra que passou pelo crivo da imprensa clandestina pré-Revolução, que produzia notícias falsas e sensacionalistas às desbragadas.
Para terminar a prosa, leitor, só molequei no título por brincadeira - e nem precisei fazer como aquele jornal a serviço do Brasil que, para tentar elevar garatujas em paredes à categoria de Basquiat, precisou de um videozinho e fotos de pichação em estilo modern art para falar a mesmíssima coisa que falei aqui. E God Save the Queen.

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A exaustão das palavras

O fenômeno, em si, talvez não tenha nada de novo. Ocorre, porém, que à medida em que as redes sociais adensam os vínculos - ou as rupturas -, ele ressurge flagrante e invade o espírito. No espaço do texto, além de preencher o branco da página, palavras e discursos reiteradamente ditos, carregam-se de diferentes sentidos e utilizados à exaustão tornam-se ambíguos, perdem a significação e ganham certo vazio cuja sonoridade produz eco tão frívolo quanto a fonte.  
A mocinha que diz que sua filosofia não é carregar na maquiagem ou o amor dito às desbragadas nas redes sociais são exemplos de como as palavras ‘filosofia’ e ‘amor’ foram vandalizadas pelo uso. Fala-se muito e demais, diz-se pouco ou quase nada.
Não bastassem as palavras, nesse nosso tempo em que abundam celebridades, intelectuais e filósofos - hoje, pops e habitués de programas de variedades na TV -, as personalidades também se pautam pela mediocridade. O mérito, tal o carvalho frondoso, foi abatido pela obstinação da lâmina contra o caule; degenerado, tornou-se constitutivo opressivo e de menosprezo.
Vilipendiado pelo discurso multicultural, o mérito, por sua presença, contribui para a relativização do respeito, e quiçá, da competência; esta, tal como a flor do cacto, deve brotar de caules duros e espinhosos, em solo desértico e pedregoso, caso contrário, não se deve respeitá-la. Outras flores, malgrado o encanto, a delicadeza e a frescura, dado o discurso atual, são impiedosamente condenadas por supostamente terem se nutrido da umidade da campina em que nasceram. Ninguém quer saber do esforço empenhado por suas raízes, persistentes na procura do húmus que jaz na profundeza. Assim, cantada em verso e prosa, pulula a mediocridade!
No nada desse mundo sem Deus, em que o século ainda jovem só faz perpetuar o niilismo dos anteriores, tentamos a todo custo preencher o vazio. Para isso, buscamos alguma segurança material e algum conforto moral substituindo as certezas antigas, na maioria das vezes, por discursos antigos travestidos do novo, mas um novo feito de palavras exauridas! Ensaiamos novas tournures de frases cujo conteúdo quase nunca alça voo, arremetemos sempre! Esgotadas, as palavras sequer incomodam os ouvidos do sistema.
A verdade, como dizia Schopenhauer, não é uma garota que pula no pescoço de quem não a deseja, de modo que nos encantamos com o velho como se estivéssemos diante de algo genuíno e novo. Engodo às polarizações, os discursos nos desviam daquilo que realmente importa. E, no mais das vezes, fazemos ouvidos moucos, alienamo-nos face às ideologias e à verborragia das palavras cansadas.
Os fatos, por mais díspares que possam parecer, são ganchos para que os filósofos das redes sociais expressem os mais variados sistemas, todos, sem exceção, alheios ao mundo (ainda que se esforcem em mostrar-se interessados) e à evidência, mas focados unicamente na política à qual são subservientes, fazendo dela seu critério decisivo para julgar o que é bom, o que é ruim, o que é notável, ou o contrário! Os que não leem a mesma cartilha e ejaculam o mesmo discurso, as mesmas palavras velhas e cansadas, merecem a indiferença.
Neste cenário, é comum a mediocridade frequentar todos os bares, todas as esquinas, todos os becos, de modo que pode ser comprada e transmitida pela rede da qual o cidadão faz parte. Nas universidades, como em qualquer outro lugar, a amável mediocridade trabalha incessantemente, subserviente a interesses gerais ou pessoais, fazendo com que o saber seja prostituído e desprezado, tornando-se, não raro, simples favor.
Nesse mundo sombrio, uma palavra nova e robusta equivale a um ponto de luz projetado em meio à escuridão, capaz de emocionar, alegrar e nos consolar nesse deserto que é a vida! Mas sempre é preciso algum cuidado: ainda que as palavras curem os males, há sempre aquelas que matam!


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sexta-feira, 26 de maio de 2017

A farsa da liberdade de expressão

Monica Iozzi, novata na arte da interpretação, seja por seus trabalhos como atriz, seja pela destreza exibida nas vezes em que, arremedo de jornalista, meteu-se a comentarista e repórter de programas B, há muito frequenta o noticiário das celebridades.
Monica sentiu-se tão à vontade com as perguntas diretas que lançava às subcelebridades que ao referir-se ao ignaro e peripatético ministro Gilmar Mendes em sua conta do Instagram, tratou-o como devia ser tratado: um cidadão como qualquer outro que, não se sabe bem o porquê, deu asas à liberdade ao médico monstro. Nós cidadãos não entendemos, Monica não entendeu e deu no que deu. Monica foi punida por fazer um comentário, aliás, nada que qualquer uma das cidadãs abusadas pelo tal médico não tivesse engasgado na garganta.
Gilmar Mendes também não entendeu o comentário da Monica, e, achando-se acima da lei, por um momento esqueceu-se de seu lado histriônico e exibicionista, valeu-se do poder do cargo, disse ter se sentido moralmente ofendido (o que não questiono) e colocou a maquineta da república em andamento no intuito de penalizar Monica, aumentando ainda mais seus caraminguás, juntando estes àqueles de Furnas. Monica pagou caro por seu engano, qual seja, acreditar que vivemos em uma democracia em que há a tão sonora liberdade de expressão. Não há, Monica!
Há pouco li sobre uma esportista que retrucou comentários de um apresentador. Segundo o bom moço, quem não pensa exatamente como ele, bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé, valendo-me aqui de um verso da célebre canção. Ocorre que o samba do rapaz deixa a gente mole e quando se canta nem todo mundo bole; é samba de uma nota só, que exclui toda e qualquer pluralidade de ideias. Não é música, não se combinam sons e ritmos, não há sequer organização de tempo, não há polifonia. Tudo ali é do jeito dele, uma ladainha cuja invocação tem sempre o mesmo santo e faz uso da mesma reza.
Esses moços, pobres moços... deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno à procura luz! E Ave Lupicínio! Este sim, santo, poeta e músico!
O fato é que a ideologia emburrece até mesmo as mentes que se acreditam pensantes. Hoje, em tempos bicudos em que a polaridade atinge seu ápice, dividindo o país em duas bandas, as ideias andam bem embaralhadas. O povo se deixa levar e as instituições aproveitam de certo vácuo para impor suas estripulias.
Se nas redes sociais uns execram outros, em que pautar o caráter e a moralidade (não a cristã, falo daquela característica de um observador, um analista, enfim, um moralista) já parece um lugar comum reflexivo, quando instituições como a Procuradoria Geral da República infringe as leis, isto é realmente algo com que o cidadão deve se preocupar.
Leitor, veja você que nesta semana a Procuradoria deixou vazar uma conversa do jornalista Reinaldo Azevedo com uma de suas fontes, no caso, a irmã do senador presidenciável afastado por corrupção. Ocorre que senador e jornalista são declaradamente de direita (considere, leitor, que posicionamentos políticos como esquerda e direita são relativos no Brasil, país em que a canaille se agrupa para surrupiar o erário).
Dito isto, não é preciso dizer que o lado oponente vibrou com a divulgação das gravações da dita conversa, ainda que a mesma Procuradoria afirmasse que nada ali houvesse que constrangesse jornalista e fonte. O fato é que ao fazê-lo, o oponente esqueceu-se de que a sonora liberdade de expressão foi ferida na alma.
Afora os comentários comumente irascíveis e repudiáveis do jornalista, que defendia a Lava Jato enquanto seus oponentes políticos eram investigados, e, agora que suas fontes passam pelo mesmo processo, coloca-se radicalmente contra a investigação, o que está em jogo é a liberdade de expressão e, de arrasto, a pluralidade das ideias.
O que os oponentes de Azevedo não se deram conta é que o Estado começou a interceptar conversas particulares, no caso, para punir um jornalista por suas posições, seus pontos de vista. Vale lembrar que Azevedo já fez duras críticas aos procuradores, à Procuradoria.
O que não se pode é ignorar ataques à privacidade, sobretudo em questões que envolvem pluralidade de ideias, desacordo de visões de mundo. Festejar isto é muito pior; é esquecer-se de que ao fazê-lo, tornamos impossível ataques similares àqueles que expressam nossos pontos de vista.
Por fim, em tempos em que arremedos de comentaristas e filósofos abundam nas redes sociais, cada um mais certo de sua verdade que qualquer outro, vale recordar Luciano de Samosata, que coloca tais filósofos como parte de uma “raça preguiçosa, rixenta, vaidosa, irascível, gulosa, desmiolada e orgulhosa”, por isso, nada melhor a fazer que sacar um espelho qualquer, olhar-se por um bom tempo e refletir um pouco sobre o que nele vemos.


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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Imprensa folhetinesca

Inventado pelo jornal - e para o jornal - o que no início chamava-se feuilleton-roman, tornou-se folhetim e, em muitos casos, a razão de existência do próprio jornal. Essa nova forma de literatura, cujos capítulos seriados eram publicados no rodapé da primeira página dos jornais, brotou de uma simples necessidade jornalística: aumentar o público leitor. Ponson du Terrail, Eugène Sue e Alexandre Dumas, por exemplo, garantiram a fidelidade de milhares de assinantes e, de quebra, a venda de zilhões de edições.
Assim como esses pães de liquidificador, que dispensam aquele trabalho de mergulhar a bolinha de massa crua em um copo d’água, esperar que ela flutue para, só então, levá-los ao forno, o folhetim tem uma receita simples. Eis os ingredientes: tome uma mocinha infeliz e perseguida, coloque-a no caminho de um tirano brutal e sanguinário, faça-a tornar-se amiga de um pajem sensível e virtuoso e, de quebra, dê um jeito para que ela revele seus segredos mais íntimos a um confidente dissimulado e pérfido.
Personagens delineados, tome da pena, misture todos rapidamente e produza sete, oito, dez, vinte folhetins e sirva-os quente! Porém, como bem esclarece Reybaud, é preciso ter a máxima atenção ao corte, porque é isso que define o bom folhetinista. É preciso que um episódio esteja amarrado ao outro, que desperte o desejo, a curiosidade, a impaciência de ler a continuação.
Esta curiosidade, claro, é o que vai determinar o grau de erotização do texto. Explico-me: depende de o autor manipular com destreza a estética do desejo e do obstáculo, de modo que o leitor, seduzido pela narrativa, fique preso pela periodicidade e à espera daquilo que o autor escolheu não dizer.
Sendo essa uma das habilidades requeridas ao autor do folhetim, tratando-se da imprensa, cuja notícias são apresentadas por meio de títulos chamativos - quando não falsos -, também à procura do maior número de leitores e à moda de fait-divers, o que vemos não é algo diverso, muito pelo contrário: seletiva e nada imparcial, escolhe fatos e situações, mistura-os a outros contextos, apimenta-se o enredo, destaca-se uma frase qualquer tornando-a dúbia, junta-se ao texto uma imagem também ambígua, acrescenta-se um gráfico, distorce e/ou relativiza-se os dados da célebre estatística de modo a confundir o leitor e voilà - eis a receita da imprensa folhetinesca. Sob alcunhas de Folha, Gazeta, Diário, Estado, Correio disso ou daquilo, e nomes sonoros como colunistas, articulistas, especialistas, jornalistas, etc, diariamente o leitor dá de cara com muito Aqui Agora e Datena impressos.
Tratando-se da política, não raro me pergunto quais pudores levam essa imprensa do espetáculo a dividir o noticiário político do policial, cujas imbricações nem mesmo leigos e ingênuos ignoram. Hipócrita, a imprensa não é afeita à imparcialidades. Parti pris? Não creio. A resposta talvez esteja no vil metal, que jorra para dentro da burra via anúncios de instituições públicas e, de forma indireta, por meio de partidos-quadrilhas devidamente registrados no Superior Tribunal Eleitoral.
E tudo isso é algo genuinamente brasileiro? Não, infelizmente não, caro leitor. Países como a França já passaram pelo que passamos hoje, embora, aparentemente, tenham conseguido expurgar a parte espúria e infecta. Extinguir a imprensa? Não, melhor tê-la a nos contentarmos com um sistema sozinho e soberano a nos dizer o que e qual é a verdade.
O que incomoda é a imprensa e a política comerem do mesmo prato, às vezes, fazendo uso até do mesmo garfo. Isso faz com que as bactérias transferiram de uma boca a outra, confundindo o pobre do leitor, obrigando-o a uma vigilância cansativa.
Não bastasse isso, é comum os jornais apresentarem as notícias sob viés literário: a ação se desloca de protagonistas a coadjuvantes à medida que os interesses mudam; quando não, a canaille surge dissimulada e bandidos-políticos viram celebridades. Até mesmo as críticas ao cascateamento da infração em todos os níveis de poder, esfera em que o crime tornou-se um de seus constitutivos maiores, é relativizada visando poupar uns e outros.  
Abaixo, reproduzo um extrato de Bel Ami, de Guy de Maupassant. O folhetim, de 1885, conta a ascensão social de Georges Duroy, homem ambicioso, sedutor e sem escrúpulos, que chega ao topo da pirâmide social parisiense graças às suas amantes e seu conluio entre finanças, política e imprensa. Neste trecho, Duroy, ao passear pelo Bois de Boulogne, reconhece os homens e mulheres mais influentes de sua época, demonstra conhecer seus segredos, a história de suas vidas e de suas fortunas. Cabe a você leitor fazer as atualizações: os nomes, escolha-os a seu critério; o local e a situação, relembre algumas das últimas aparições em que políticos e empresários vestiram-se uniformes de estatais, inauguraram projetos e exibiram-se para uma imprensa que, na manhã seguinte, publicou o show com ares de grandes realizações.

Este jogo o divertia muito, como se estivesse constatando, sob as severas aparências, a eterna e profunda infâmia do homem... E pôs-se a procurar os cavaleiros sobre os quais corriam as histórias mais salgadas.
Avistou bastantes homens suspeitos de roubar no jogo, cujos únicos recursos vinham da jogatina.
Outros, muito célebres, que viviam unicamente dos rendimentos de suas esposas; outros, das rendas de suas amantes... Muitos haviam pago suas dívidas - coisa muito honrosa -, sem que no entanto ninguém tivesse adivinhado de onde lhes tinha vindo o dinheiro (mistério muito suspeito). Viu homens de finanças, cuja imensa fortuna tivera origem num roubo e que nem por isso deixavam de ser recebidos por todos, nas mais nobres casas; e viu homens tão respeitados que os pequenos burgueses tiravam o chapéu à sua passagem, mas cujas trapaças descaradas nas grandes empresas do Estado não constituíam mistério para nenhum que conhecesse os avessos do mundo.
E todos tinham um ar altivo, o lábio orgulhoso, o olhar insolente, os de suíças e o de bigode...  (1959: 135)


Quem dera, leitor, a imprensa folhetinesca e imparcial nos apresentasse a canaille política como Georges Duroy a via... O que fazer? Conselho de tio velho em porta de sacristia:  observe e desconfie, ao menos saberá de fato quem é o lobo na história da carochinha reproduzida todos os dias nas páginas do folhetim que entregam à sua porta. 

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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Pop-mortem: Antonio Candido

O existencialismo, corrente da qual fizeram parte Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, defende que o homem constitui sua essência ao longo de sua existência, de maneira que não existe uma essência que o determine. A atitude existencial, algo como um estalo ou um escangalho das sinapses, ao mesmo tempo em que provoca no homem uma sensação de desorientação e certa confusão face à aparente falta de sentido e o absurdo do mundo, determina os sentimentos, as ações e a vivência do indivíduo. A grosso modo, é como se ao longo de nossa existência fossemos colecionando experiências, criando a nós mesmos, de modo que só com a morte atingimos nossa completude. Não à toa, a ênfase do existencialismo está na responsabilidade do homem sobre seu destino e no seu livre arbítrio.
Mas deixemos a nesga de erudição para lá: falemos de Antonio Candido! Ontem completou-se uma semana da morte do grande ensaísta e crítico literário brasileiro. Candido atingiu sua completude; escreveu as últimas páginas de seu livro. Cabe a nós, agora, a leitura de sua obra, a inveja de sua essência.
Até aí, nada demais! Contudo, o curioso mesmo foi tê-lo encontrado em meio aos entretenimentos e fofocas de celebridades em um site de notícias. Talvez um provável descuido; desses que fugiram às exceções e tornaram-se regra na malfadada indústria da informação.
Singular ou não, o fato é que me lembrei de Machado e por fim achei que talvez tudo não passasse de uma predestinação irônica, dessas que hora ou outra acometem seres supostamente alheios às futilidades efêmeras.
Explico-me: há tempos escrevi sobre a indignação póstuma de Machado. Ocorre-me agora que Brás Cubas, figura culta e refinada, porém voluntariosa, não só daria um piparotes em seu criador, mas também usaria de muita ironia ao vê-lo em meio a Madonna e a Mulher Melancia (ambas já recolhidas ao esquecimento) em uma banca de jornal.
Melancia, na capa de uma publicação especializada em estimular carpos, metacarpos e falantes de marmanjos, exibia o derrière e pernas em V invertido. Cubas não faria por menos! É certo que tripudiaria da página leve em que Machado traz de arrasto a Eneida e assola o verso virgiliano de modo a fazer com que virumque ignore a arma, degenerando-se em Vir, no intuito de sugestionar seu pai, que decide apresentá-lo a Virgília (Perdeu-se leitor? Eis pura provocação para que voltes às páginas de Memórias Póstumas!).
Na época, lembro-me que ao contemplar Machado exposto entre os exuberantes seios de Madona e o buzanfã da Mulher Melancia, a válvula de escape ao risível e ao ridículo veio-me de alguns versos de Baby grafados na capa de uma outra revista: lá vem o Brasil descendo a ladeira. À época Baby ainda não era do Brasil e este descia a ladeira na bola, no samba, na sola e ainda não lançava o salto em direção aos nossos sacrossantos traseiros!
Enfim, com Candido deu-se algo parecido: colocaram-no entre uma ‘bbb’ (com minúsculas mesmo!) que reclamara do reclinar de uma poltrona de avião e uma reportagem que versava sobre característica constitutiva do homem: o fingimento; no caso, homens que fingiam orgasmos. Vá lá, é certo que Candido tenha dado algumas remexidas post-mortem.
O fato é que Candido tornou-se pop; em vida, referência, admirado nos meios acadêmico e intelectual, morto, adentrou as revistas de celebridades e ao longo da semana disputou espaço com as fofocas. Contudo, nas redes sociais trouxe algum respiro para o universo facebookiano, lugar-comum de comentários repletos de clichês, preconceitos e uma boa dose de iracúndia.
Enquanto escrevo dou uma olhadela nas últimas notícias: figuras do meio político-policial de Brasília vêm a público afirmar que possíveis delações hão de marcar o fim da República, o que só prova que vivem em um mundo de fantasia, à parte. A lama é tanta que não vejo outra alternativa a não ser recolher-me também em meu mundo. Por fim, plagiando Cícero, se ao lado da biblioteca houver um jardim, nada me faltará! 

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