Revista Philomatica

Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A ignorância e a depuração do gosto

Treslendo a biografia de Machado de Assis escrita por R. Magalhães Júnior, observei as referências do autor às crônicas machadianas. As alusões, no caso, eram as cantoras de ópera que empolgavam o público carioca na segunda metade do século XIX. Um contumaz leitor do Bruxo do Cosme Velho, sem dúvida há de se lembrar da Candiani, que arrebatava almas e corpos e fizera com que os cavalos de seu carro fossem substituídos por rapazes saídos de um fã clube entusiasta. Depois, vieram a Stoltz, a Charton, a Lagrange, a Casolini, a La Grua... Todas passaram pela pena de Machado.
Portanto, não há razão para que eu não fale de nossas atuais celebridades, ainda que sob os auspícios da canção: descendo a ladeira. Ora, o assunto me veio ao espírito depois de ler a publicação de um amigo. Nela, havia uma lista dos cantores que costumávamos ouvir nas décadas oitenta e noventa e o que se costuma ouvir hoje. Come de praxe, o mais interessante nesse tipo de comparação é a opinião dos internautas, em geral, marcada por profunda obtusidade. E, nesse caso, não foi diferente. Abstive-me de qualquer comentário, haja vista tratar-se de uma página pessoal e não conhecer o autor do comentário que me leva a essa rápida reflexão.
Pois bem, em consonância à polarização e ao vitimismo atual, um jovem tascou a seguinte pérola: “Isso só mostra que a arte acima de tudo não tem a necessidade de ser bela, mas de servir como voz além de entreter. Incomoda tanto assim aos privilegiados que os marginalizados ganhem voz? As vanguardas, ainda que movimentos elitistas, não ensinaram nada para a literatura? Triste quem pensa pequeno...”.
Ora, à medida que os anos avançam o respeito à juventude é algo que não se pode ignorar. Contudo, respeitar não implica qualquer deferência à sobeja atrofia intelectual de nossos dias, em que o atraso cultural é uma doença quase que universal. Não sei se o jovem em questão, cujos neurônios padecem certo estiolamento próprio da idade, estaria disposto a me entender, mas vamos lá: primeiro, ele afirma que “a arte não tem a necessidade de ser bela”. Não tiro sua razão, mas peço que se atenha às sábias palavras de filósofos como Sri Ram, por exemplo, para quem a evolução nada mais é que a depuração do gosto. E vou mais longe, meu caro efebo:  a arte é um caminho de conhecimento à procura do Belo, do imutável, e a música que você defende está fadada às lixeiras das gravadoras, preservando-se, muito raramente, na cabeça de pessoas habituadas à leitura de cartilhas ideológicas cujo conselho é a repetição e têm como impedimento maior, a reflexão, o questionamento.
Nem toda expressão cultural pode ser chamada de arte, mancebo! A arte, já afirmava Schopenhauer, é “a exposição de ideias”, “o modo de consideração das coisas independente do princípio da razão”. Que ideias veiculam a música que você diz representar os excluídos, que voz concedem elas aos marginalizados? O relativo direito ao contorcionismo enquanto se afirma ser uma vadia todo dia? Arte é algo que toca a universalidade humana, revela-se como inspiração e dá ao homem a experiência subjetiva de reconciliar-se com a natureza e a liberdade, afirmava Kant.
A liberdade da qual fala Kant não é definitivamente o direito à lascívia pura e simplesmente. E, já que reclama o fato de as vanguardas não terem ensinado nada à literatura, aconselho-o a ler Sade. Em Justine ou Os Infortúnios da virtude, Sade não só faz uma apologia ao crime, como explora de forma exponencial a crueldade e as liberdades do corpo como do espírito e, se não me falha a memória, lá, caro mancebo, Sade dedica três ou quatro páginas às vantagens de se dar o cu. Como vê, a literatura foi além das vanguardas afeitas aos grafites, às quais provavelmente se refere.
Nota-se em sua fala total desconhecimento do que se passou há apenas uma década! Falta de leitura, suponho! Os privilegiados que condena por gostarem de Zé Ramalho, Gal Costa, Milton Nascimento, Renato Teixeira, Legião Urbana, Caetano, se não sabe, meu caro jovem, lotavam estádios nas décadas de oitenta e noventa; eram jovem sonhadores, assim como você. Eram filhos de operários e, detalhe, a grande maioria sequer pode frequentar uma universidade, pois heroicamente tinha que defender seu bocado de pão. Nem por isso se faziam de vítimas, mas lutavam, assim como os que vieram logo depois lutaram pelas “diretas já”.
Ah!, então não havia privilegiados?! Sim, havia! Muitos, inclusive, marcharam as trilhas da política e tornaram-se mais privilegiados ainda; hoje, perfazem as fileiras de nossa elite política, partidária de foros privilegiados, direitos muitos, mas quase nenhum dever!
É evidente que não são esses os privilegiados que alfineta. Em seu relativizado discurso, nota-se que lê a cartilha de forma um tanto estúpida e não se dá conta de que a mesma elite que defende, acreditando tratar-se de representantes dos marginalizados é aquela que escolhe suas músicas. E mais: Platão, na República, alertava para a qualidade da música que os governantes davam às pessoas, sem falar, é claro, em Plutarco, que já afirmava que música ruim e canções grosseiras engendram licenciosidade.
Por fim, meu jovem: não maldiga a literatura, leia Sade e ouça boa música.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Ruínas, crônicas e lembranças


O céu exibe uma lua cheia e brilhante cujo ápice da visibilidade será daqui a dois dias. Contudo, não se dá o mesmo com as notícias, pois à medida que o tempo avança, a impressão que se tem é que elas tornam-se cada vez mais obscuras. Tem sido difícil desvendar as entrelinhas, descobrir o que está por trás, enfim, os interesses de uns e de outros ou de todos em conluio.
Parece-me que temos lido as mesmas notícias há dias, tal a assiduidade com que o modus operandi da canaille é desvendado nas páginas dos jornais, sempre de modo seletivo, é claro, e em consonância com os próprios interesses da imprensa. Mas vá lá, deixemos a política torva e sanhuda de lado!
Roma, que é feita de escultura e arquitetura, à sombra de grandes árvores imensas (se não me falha a memória, foi exatamente assim que Rubem Braga a descreveu), surpreendeu mais uma vez, a despeito dos arqueólogos alemães, ingleses, americanos e de tantos outros ciosos de uma boa pilhagem. Explico-me: hoje li em um site italiano dedicado à história romana, que as escavações na tomba del gladiatore ainda continuam a fascinar.
De pronto, foi-me impossível não traçar sinapses intertextuais, uma vez que acabara de ler o Manifesto Antropófago (ou Antropofágico) de Oswald de Andrade; ali, Oswald tasca que nesse paiz da cobra grande “nunca tivemos grammaticas, nem colecções de velhos vegetaes. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental”.
Nessa toada, no encontro de culturas dissimétricas, a antropofagia surge como um conceito que atribui papel ativo à cultura ‘subjugada’. Aliás, não era outra a vontade do Bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis se ressente do pays féerique proferido por Sarah Bernhardt, ignorando aspectos da cultura brasileira. Mas, como disse Oswald décadas depois, “nunca soubemos o que era urbano”, e aí, permita-me o leitor um pequeno retoque: “nunca soubemos o que eram ruínas”.
Hoje, achamos hora ou outra um vidrinho aqui, um caquinho de vaso acolá. No XIX, o máximo que fazíamos era tentar exumar uma ou outra ossada, tal aquela há muito sepultada no Castelo e creditada a Estácio de Sá, que Machado comenta em uma de suas crônicas. Machado desconfiava dos tais ossos e, ironicamente, resgata uma historieta em que coloca Méry em Roma a presenciar dois sujeitos cavando os flancos da Cidade Eterna.
Animados por dois lords ingleses, os trabalhadores exumaram fragmentos de uma estátua que aparentava nada mais nada menos que mil anos de idade. Apaixonado por antiguidade e ruínas como Chateaubriand, Méry não se contém e humildemente pede aos ingleses para ajudá-los a transportar as preciosidades. Mais à noite, em uma reunião, Méry descobre que os fragmentos achados haviam sido preparados na véspera para parecerem que datavam de longe. Eis as ilusões do espírito deixando-se iludir pelas ruínas, que, embora falsas, impressionavam e exibiam volumes e massas.
Mas não parece ser esse o caso da tomba del gladiatore: descoberta em 2008 ao longo da Via Flaminia, na periferia de Roma, a sete metros de profundidade, sob vias férreas e em escavações preliminares para a construção de edifícios, surgiu da noite dos tempos não só a tumba, mas também o traçado de uma antiga via romana e um monumento incrivelmente preservado. Descobriu-se que pedaços do mausoléu traziam o nome de uma personagem célebre da história romana, o general Marcus Nonius Macrinus, do exército de Marco Aurélio e desaparecido em 161 d.C.
Como alguns anos antes Ridley Scott havia realizado Gladiator, não demorou muito para que a imprensa ligasse o fictício Massimo Decimo Meridio a Marcus Macrimus; daí por diante, o general romano tornou-se gladiador e seu mausoléu a tumba do gladiador, de modo que a história, mais uma vez, curvou-se à ficção.
Em 2010, veio à luz a estátua da esposa do Gladiador e, como sempre acontece na história de Roma, quanto mais se cava, mas surpresas emergem da terra. O sítio arqueológico em que jaz o mausoléu do Gladiador, dada a sua riqueza, já foi apelidado de “Fórum Romano em miniatura”. As escavações prosseguem, infelizmente visível aos olhos de alguns poucos privilegiados, de modo que Chateaubriand seria impedido de meditar sobre tais ruínas.
Como não sou Chateaubriand nem nada, cá com os meus botões, conto os dias para novamente vislumbrar a ruinaria da Città Eterna.

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Proteção aos animais

Ontem, assinei mais um abaixo-assinado em defesa dos animais. O documento em questão não só solitava a assinatura, como também trazia uma série de fotos aterradoras mostrando como o homem??? consegue transformar a vidas dos animais em verdadeiro inferno. O maltrato aos judeus, conhecido como holocausto, tornou-se o mais indigno exemplo de como o homem pode tornar-se contra seu semelhante, embora haja gente??? como o tal Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã e cortejado pelo "cara", que insiste em dizer que o morticínio não existiu. Caso Roosevelt não tivesse orientado seus soldados a fotografar e documentar a dimensão da tragédia, é bem possível que hoje tudo não passasse de ficção à maneira dos filmes de guerra hollywoodianos. Já li que na Inglaterra houve uma determinação do governo para não se discutir a ocorrência do holocausto nas escolas afim de não ferir a sensilibidade dos muçulmanos, já que, evidentemente, a questão iraniana e o nome do tal Mahmoud viriam à tona. Até que ponto isto é verídico, não sei, mas se existir lá um fio de verdade, é deplorável tanto quanto negar o holocausto. Isto tudo para falar do lado B do ser humano, diga-se, lado nada humano e que, comparando-se com os animais, leva até o mais obtuso a se questionar: quem são os verdadeiros animais?
Machado, em crônica de 12/4/1896 - A Semana, relata a indenização de 60 contos de réis paga ao proprietário de um cavalo, morto por um dos carros da Companhia Vila Isabel. O cronista conclui: "Não é demais, tratando-se de um animal de fina raça. Conheço pessoas que não valem tanto..." Prova de que, em algum instante, o cronista desconfiou da superioridade humana. Em inúmeras outras crônicas Machado, volta-se aos animais. Vejamos:

Crônica de 15/3/1877 - História de Quinze dias: "... E querem saber por que detesto as touradas? Pensam que é por causa do homem? Ixe! é por causa do boi, unicamente do boi. Eu sou sócio (sentimentalmente falando) de todas as sociedades protetoras dos animais. O primeiro homem que se lembrou de criar uma sociedade protetora dos animais lavrou um grande tento em favor da humanidade; mostrou que este galo sem penas de Platão pode comer os outros galos seus colegas, mas não os quer afligir nem mortificar. Não digo que façamos nesta Corte uma sociedade protetora de animais; seria perder tempo. Em primeiro lugar, porque as ações não dariam dividendo, e ações que não dão dividendo... Em segundo lugar, haveria logo contra a sociedade uma confederação de carroceiros e brigadores de galos. Em último lugar, era ridículo. Pobre iniciador!..." Como se nota, o cronista ainda descrê da criação de uma sociedade protetora dos animais, afinal, o lucro...


Crônica de 13/2/1889 - Bons Dias: "...Fiquei meio jururu, porque o principal motivo que me levara a procurar a dita pessoa, não era aquele, mas outro. Era saber se existia a Sociedade Protetora dos Animais.

Afinal, prestes a ir ver o cometa, tornei atrás e fiz a pergunta. Respondeu-me que sim, que a Sociedade Protetora dos Animais existia, mas que tinha eu com isso? Expliquei-lhe que era para mim uma das sociedades mais simpáticas. Logo que ela se organizou, fiquei contente, dizendo comigo que, se Inglaterra e outros países possuíam sovidades tais por que não a teríamos nós? Prova de sentimentos finos, justos, elevados; o homem estende a caridade aos brutos...

Parece que ia falando bem, porque a pessoa não gostou, e interrompeu-me, bradando que tinha pressa; mas eu ainda emiti várias frases asseadas, e citei alguns trechos literários, para mostrar que também sabia cavalgar livros. Afinal, confiei-lhe o motivo da pergunta; era para saber se, havendo na Câmara Municipal nada menos de três projetos ou planos para a extinção dos cães, a Sociedade Protetora tinha opinado sobre algum deles, ou sobre todos.

A pessoa não sabia, nem quis meter a sua alma no Inferno asseverando fatos que ignorava. Saberia eu o que se passava em Quebec? Respondi que não. Pois era a mesma coisa. A sociedade e Quebec eram idênticas para os fins da minha curiosidade. Podia ser que os três projetos já a sociedade houvesse examinado quatro ou mesmo nenhum; mas, como sabê-lo?

Conversamos ainda um pouco. Fiz-lhe notar que os burros, principalmente os das carroças e bondes, declaram a quem os quer ouvir, que ninguém os protege, a não ser o pau (nas carroças) e as rédeas (nos bondes). Respondeu-me que o burro não era propriamente um animal, mas a imagem quadrúpede do homem. A prova é que, se encontramos a amizade no cão, o orgulho no cavalo, etc., só no burro achamos filosofia. Não pude conter-me e soltei uma risada. Antes soltasse um espirro! A pessoa veio para mim, com os punhos fechados, e quase me mata. Quando voltei a mim, perguntei humildemente:
__ Bem; se a Sociedade Protetora dos Animais não protege o cão nem o burro, o que é que protege?
__ Então não há outros animais? A girafa não é animal? A girafa, o elefante, o hipopótamo, o camelo, o crocodilo, a águia. O próprio cavalo de Tróia, apesar de ser feito de madeira, como levava gente na barriga, podemos considerá-lo bicho. A Sociedade não há de fazer tudo ao mesmo tempo. Por ora o hipopótamo, depois virá o cão.
__ Mas é que o ...

__ Homem, vá ver o cometa; morro do Nheco, à esquerda."


Aqui o cronista trabalha com as incoerências: ao passo que já existe uma Sociedade Protetora dos animais, na Câmara Municipal correm outros três projetos para a extinção dos cães. Em outras crônicas o cronista trata ainda do emprego os animais como vítimas de estudos que, segundo ele, em nada os beneficiam, mas tão somente o próprio homem. O apreço de Machado pelos animais não se resumia às paginas literárias. Conta Lúcia Miguel Pereira, autora de Machado de Assis: estudo crítico e biográfico, que certa ocasião, Machado e Carolina, que haviam se afeiçoado exageradamente a uma cachorrinha chamada Graziela - uma homenagem a heroína de Lamartine, passaram por um susto, pois o animal desaparecera. Machado movimentou-se ao extremo até que a cachorrinha da raça tenerife fosse encontrada.



Contudo, Muitas são as vozes em favor deles, os animais:



Os animais, como o homem, demonstram sentir prazer, dor, felicidade e sofrimento. – Charles Darwin

Eu dei a minha beleza e a minha juventude aos homens. Agora dou a minha sabedoria e a minha experiência aos animais. – Brigitte Bardot

O cão é a virtude que, impelida de tomar forma humana, fez-se animal. – Victor Hugo

O destino dos animais é muito mais importante para mim do que o medo de parecer ridículo. – Émile Zola

Ao estudar as características e a índole dos animais, encontrei um resultado humilhante para mim. – Mark Twain

Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais. – Alexandre Herculano

O homem tem feito na terra um inferno para os animais. – Arthur Schopenhauer

Não te envergonhes se, às vezes, os animais estejam mais próximos de ti do que as pessoas. Eles também são teus irmãos. – São Francisco de Assis

Acredito que os cães podem falar, mas para não se envolverem nas mazelas humanas, preferem latir. – Victor Hugo

Chegará o dia em que o homem conhecerá o íntimo de um animal. E, nesse dia, todo o crime contra um animal será um crime contra a humanidade. – Leonardo da Vinci

Os animais foram criados pela mesma mão caridosa de Deus que nos criou... É nosso dever protegê-los e promover o seu bem estar. – Madre Teresa de Calcutá

Só que teve um cão sabe o que é ser amado. – Friedrich Nietzsche

Ninguém se pode queixar da falta de um amigo, podendo ter um cão. – Marquês de Maricá

Maltratar animais é demonstrar covardia e ignorância. – Leon Tolstói

Falai aos animais, em lugar de lhes bater. – Leon Tolstói

Entre a brutalidade para com o animal e a crueldade para com o homem, há uma diferença: a vítima. – Lamartine

Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma. – Pitágoras.
Foto: Pierre, Le chat.


Dados: Machado de Assis: estudo autobiográfico, Lúcia Miguel Pereira, 6a. edição, Belo Horizonte: Itatiaia: Editora da Universidade de São paulo, 1998.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Machado Pop Star!



Depois de haver desabrigado o bichano que dormia profundamente da grande almofada, o garoto, mal se instalara, ouviu os gritos da mãe: ___ Quantas vezes eu já disse que é para estudar no quarto e não na sala? ___ Mas mãe! A mãe, D. Tonica, professora de literatura e mãe de Francisco desde sempre, retrucou: ___ Não tem mais nem menos! Salvo pelo gongo, ou melhor, pela campainha, ele ali continuou, mais se resfetelando na grossa almofada que preocupado com a folha e o lápis que, à sua frente, meio que lhe indagavam pelo toque suave dos dedos. Esquecera completamente a bronca da mãe. Era sempre assim. Quando algum de seus alunos chegava, ela se transformava. Sua meiguice e delicadeza atingiam nível igual ou superior à sua inteligência. Conhecia tudo de literatura brasileira. Aos 10 anos, o pequeno Paco – era assim que o chamavam em homenagem ao avô espanhol, não entendia muito bem porque era tão importante para a aluna de sua mãe, que chegara há pouco, saber das intimidades de Bentinho e Capitu. Afinal, ia ser médica. À menção de Capitu lembrou-se de quando o avô dissera que a vizinha, dona Lucrécia, era mulher dissimulada, Capitu na vida, ouviu mesmo quando suspirou um coitado do seu Ernesto, tão jovem e corno! ___ Não diga isso na frente do menino homem!, dissera a mãe. Em princípio atento às explicações da mãe, aos poucos se sentiu sonolento e viu sua Capitu; loura como dona Lucrécia, seios grandes, olhos azuis... Não via mais nada, deixou-se levar e murmurou: Capitu... ____ Ei! Acorda moleque. Paco! Paco! Você não está me ouvindo? Venha cá, rápido! Vá até a banca de revistas do seu Manoel e me traga uma revista sobre o Machado de Assis. Ele sabe qual é; eu já havia reservado. Num sobressalto o menino ouviu a enxurrada de imperativos e em instantes já estava em direção a banca do seu Manoel, que numa liberdade não concedida sempre lhe beslicava as orelhas e exclamava: mas é a cara do avô, não há o que dizer! ___ O que queres? ___ Vim buscar a revista do Machado que minha mãe reservou. ___ Não separei meu jovem, estou só e com uma porção de coisas a fazer e, ainda por cima, adoentado. Ah! que saudades de quando era assim como tu, um pirralho... Bem, deixa pra lá! Vá lá, procure nos clássicos. ___ Mas minha mãe acabou de dizer que ele é moderno! ___ Ora, pois! Tão jovem e já sabe que para ser clássico há que ser antigo. Mas o que aposto que tua mãe não te disse é que hoje já estamos a ver clássicos modernos. Isto lhe digo já que, para mim, os clássicos são os mais procurados. Já ouviste de tua mãe que, para o momento, nosso maior clássico está para ser o senhor Coelho? ____ Não, esse nunca! ____ Pois vá lá, se Machado é moderno estará entre os clássicos. Minutos depois, Paco, mãos vazias, exclama: Não achei nada, seu Manoel! ____ Ah! Tu não sabes procurar! Não te disse que os clássicos são os mais procurados? Pois então, a revista de Machado está na seção dos populares, que para dar um ar de modernidade chamei de a seção dos pop stars. É fácil, vá lá! Vais encontrar o que mais se procura: Madonna, a mulher Melancia e também o teu Machado. Paco contorna o estreito corredor e dá de cara com a mulher Melancia, pernas em V, bumbum em riste, como a piscar para Machado que, sereno, plácido, olhos perdidos sob o pince-nez, parecia olhar para além da mulata (para Paco ele estava a apreciar) até a Madonna que também de pernas ao ar e em contorcionismo radical, provava a tese do seu Manoel. A mãe quando soube onde Paco encontrara os Cadernos Literários, que estampavam Machado na capa, não se conteve e exclamou: Ah, meu Deus! Ainda bem que ele já se foi. A aluna, kardecista e pró Capitu, disparou: eu penso é na Carolina, dona Tonica, que a essa hora pode até ter se reencarnado!
Créditos: Caricatura por Stegun do Fabricarica - Imagens Google.
Texto originalmente publicado em no Jornal A Lupa, em novembro de 2008.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Quando será?

O assunto é belicoso, mas não deveria ser. Por duas razões: primeira, quem afirmar a existência da oposição no atual cenário político está fadado a ledo engano; segunda, ainda hoje acredito piamente no ditado "Si hay gobierno, soy contra!".

Me explico: a ausência da oposição. Ora, a oposição aparece vez ou outra quando um senador qualquer resolve mostrar a cara na imprensa, num franco ato de marketing pessoal (e também porque precisa explicar de alguma forma a fortuna mensal que embolsa por representatividade tão chinfrim). Esbraveja daqui, esbraveja dali, mas no fim das contas, não consegue reunir uns poucos gatos pingados de seu partido - a oposição - que façam valer sua retórica. Isso, encara-se como teoria. Na prática, ah! a prática. A prática seria estar em campo oposto, confrontar, discutir, tergiversar e, sobretudo, mostrar, agir, mudar. Mas, não... Lembram-se dos mensalões? No mensalão do PT houve muita gritaria. Pessoalmente, acho que o dinheiro foi mal divido, daí a intensidade dos rumores. Quanto ao mensalão do PSDB, em Minas, alguns magoados, retrucaram. Mas, convenhamos: e o escândalo do Senado, capitaneado pelo senhor feudal Sarney? Lá, todo mundo calou-se, afinal o telhado sob o qual todos se abrigam é de vidro e, diga-se, frágil. Enfim, apareceu o DEM, que baniu a letrinhas PFL, empunhando a espada da cidadania, da justiça, da ética e deu no que deu, espirrou panetone para todo lado. Primeira razão esclarecida: não há oposição. Vamos à segunda: "Si hay gobierno, soy contra!". Por hora, é o Sr. Lula, uma moeda: lado coroa, uma notável inteligência política; lado cara, uma estreitíssima cultura, enfim, cara apagada.


Você deve estar se perguntado o por quê de tudo isso? Ora, lembram-se de que ontem falei de e-mails? Pois é, acabo de ler um belicoso, porém, cômico e que nos pede um pouquinho mais de paciência. Ei-lo aí:


Quando?


No programa de sábado, na Globo News, a comentarista Cristiana Lobo disse : 'Lula confessou aos amigos que quer ser lembrado pelo seu 2º mandato como um grande estadista, tal como Getúlio Vargas.'


A ideia parece excelente mas, todos nós, queremos saber: Quando será o suicídio?


Em tempo: recebi o e-mail em 29.12.2009, portanto, o comentário deve ter sido em 26.12.2009, mais uma prova de que Machado de Assis estava pleno de razão quando afirmava em suas crônicas que os mortos governam os vivos. É 2009 invadindo 2010, é Getúlio, o Pai dos pobres I, a sedimentar a caminhada do Pai dos pobres II.

Dica: Para saber mais sobre o adágio citado por Machado: verifique crônicas da coluna A Semana, publicadas originalmente do jornal Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro. Veja crônicas de 18.6.1893, 5.11.1893, 11.3.1894 e 7.7.1895, que encontram-se publicadas pela Editora Jackson e Aguilar (Obra Completa).