Revista Philomatica

Mostrando postagens com marcador José Mindlin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Mindlin. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de março de 2010

Je ne fay rien sans gayeté

Aqui estou eu a bater na mesma tecla. Quem conhece Mindlin, ao ler o título - pimba!, já matou a charada. Hoje não falo dele, mas da Brasiliana, a jóia que aprimorou ao longo dos anos, pacientemente. Me permitam bater nessa mesma tecla porque, longe de parecer repetitiva e enfadonha, ela rende muito. A empatia que temos por alguém, às vezes é obscura e não sabemos muito bem explicar o porquê. O fato é que vem, assim, do nada. Há casos, porém, em que as causas da empatia, a exemplo do que dizia Mindlin sobre os livros, é uma atração multiforme. Para um amante de livros, por exemplo, a coisa funciona da mesma maneira, ou seja, se o fulano também gosta de livros, isso já é razão suficiente para olhá-lo por outro viés, mesmo que você goste do azul e ele do amarelo, o que importa é que ambos apreciam os livros. O livro exerce uma sedução que vai muito além da leitura, embora seja este o ponto de partida. Compra-se livros também pelo prazer de tê-los à mão, pelo interesse em ter à disposição uma obra reconhecidamente de qualidade ou pela satisfação de possuir toda a obra de um autor de quem se gosta, e por aí vai. Mindlin, o fez por todas essas razões e também pelo gosto peculiar de poder garimpar uma primeira edição ou algo raro. É sabido que se deixava seduzir pelo livro enquanto objeto - objeto de arte, pois analisava e prezava as ilustrações, o papel, a qualidade do projeto gráfico, a encardenação etc. Tudo isso fez com que Mindlin formasse a Brasiliana, uma biblioteca enorme cujo nome dispensa explicações. Hoje, a Brasiliana passa por processo de digitalização e está à disposição de qualquer internauta, basta clicar http://www.brasiliana.usp.br/ . É um prazer navegar pelas páginas de livros raros e antigos. Ali é possível encontrar preciosidades e também livros anotados e ou autografados de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Machado de Assis. Um deleite!
Pensando nos livros, resolvi pequisar na rede o que pensam os internautas sobre bibliotecas. Descobri que nas instituições privadas, para atender os requisitos do MEC, não é incomum a compra de livros “por metro”. Li também que, em geral, vale a ideia de que excelentes bibliotecas contribuem para que o ensino superior consiga atingir excelência em investigação e docência. Esse é provavelmente o pensamento de alguém envolvido com livros e, talvez, universidades e escolas. Descobri ainda o que pensam os mais jovens (uma minoria, espero!): “Boa parte das bibliotecas são espaços onde sobram poeira, desorganização do acervo e servidores desestimulados". Estão errados? Certamente não. Basta visitar algumas das bibliotecas públicas. Digo isso porque me lembro das visistas que fiz à Biblioteca Kennedy, em Santo Amaro - experiência desanimadora. (E a Mário de Andrade, que vive eterna reforma?)
Porém, há internautas que afirmam ser a presença ubíqua do livro importante para sedimentar o hábito da leitura, algo em que acredito piamente. Só nos tornamos íntimos daquilo que podemos ver, tocar ou que está à nossa volta. O mundo moderno é ágil. O apelo audiovisual é quase irresistível, porém tudo é visto e experimentado muito ligeiramente, não se aprofunda. Uma vez morta a curiosidade, um outro clique, um segundo fugaz e, no momento seguinte a informação anterior já está na lixeira, não repousa no cérebro. A leitura, esta, requer um ritual próprio, exige concentração. Ainda que, às vezes, dispense o ambiente, é preciso se deixar cativar, tal qual aquela história do príncipe e a raposa. Exige tempo e o amanhã jamais será igual depois de uma centena de páginas lidas, viajadas, vividas e aprecidas.
Mas, divagações à parte, voltemos à Brasiliana. Ali, em meio a exemplares luxuriantes, há um espaço para comentários, que vêm de todas as partes do país. Um, em especial me chamou a atenção: "Sinto-me orgulhoso de ser brasileiro a cada vez que ouço falar de Mindlin. Esteja em paz". Parece clichê, mas acho que não, foi verdadeiro. Mindlin foi um herói para poucos, para privilegiados e interessados. Sobreviverá, ao contrário de tantos outros heróis momentâneos e midiáticos. Afinal, em vida, mirava-se em Montaigne e como ele afirmava: "Je ne fay rien sans gayeté". E faz o que gosta, perdura!


Nota: Ex Libris de Mindlin: Je ne fay rien sans gayeté (Eu não faço nada sem alegria).

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Nem só de livros vive o homem

Ao narrar a tentação de Cristo, no deserto, Mateus retoma o Mestre naquela fala que já foi tão versejada ao longo da circulação das ideias literárias: "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus". Hoje retomo Antonio Candido ao falar de José Mindlin: "Nem só de livros vive o homem", isso porque José Mindlin, bibliófilo inigualável, sempre ao contar suas aventuras para conseguir um exemplar raro, tinha uma história que vinha de arrasto. Tive a oportunidade de ver, há cerca de dois anos, esse dois mestres, juntos, em conferência na Universidade de São Paulo. Lá, Mindlin contou como conhecera Guimarães Rosa, em Paris. Lá também, relembrou a saga para conseguir a primeira edição de O Guarany, de José de Alencar. Mindlin, em seu livro Uma vida entre livros, Reencontros com o tempo, conta como começou a juntar livros e o fez não só por notar sua importância do ponto de vista físico, mas também pelo histórico, ou seja, a qualidade do exemplar, a importância da primeira edição, sua raridade e sua beleza. José Mindlin morreu hoje, aos 95 anos. Uma perda irreparável. Era leitor refinado. Dizia: "Desconfio dos livros de sucesso, e desses, em geral, só vou ler os que tiveram um tempo de decantação. Se os próprios escritores, especialmente os principiantes, pusessem o livro na gaveta, depois de escrito, por um ou dois anos, e depois disso vissem se o texto resistiu a uma releitura - é provável que a massa imensa de livros que se publicam no mundo se reduzisse substancialmente". Tinha afinidade por Montaigne, Proust e Guimarães Rosa. Dizia também que o coração batia mais forte quando, depois de anos de procura, encontrava um livro raro. Colecionou livros a vida inteira. O resultado? Uma das mais importantes bibliotecas privadas do país, que começou a formar aos 13 anos e, em 2006, doou os cerca de 45 mil volumes, entre coleções e folhetos, para a Brasiliana USP, no campus da universidade, em São Paulo. Não teve tempo de ver a biblioteca concluída. Foi-se Mindlin, mas ficaram seus livros e suas histórias. Em Uma vida entre livros, conta as aventuras para comprar O Guarany, primeira edição, de 1857. Tudo começa em 1960, no Rio, quando um grego oferece o exemplar por mil doláres. Nenhum colecionador se interessou em comprá-lo. Mindlin, quando soube, já não mais conseguiu falar com o tal grego, que tinha ido embora. Ficou por quase dez anos atrás do grego até que, um dia, o exemplar aparece no catálogo de um leilão na Inglaterra. Mindlin manda um telegrama para um amigo livreiro, pedindo que efetuasse a compra. Ansioso, pergunta ao amigo quanto ele achava que custaria o livro: "Umas vinte libras", responde o outro. No dia do leilão, Mindlin, que estava em Nova York, telefona ao livreiro para saber da compra. "Ah, não comprei, porque tinha falado a você em vinte libras, de modo que, quando chegou a sessenta, parei, pensando que você poderia ficar aborrecido." - "Bem, aborrecido estou agora", retruca Mindlin. Em 1977, em Paris, num leilão de livros raros, lá estava novamente o grego, que ora pediu muito mais pelo livro do que havia pedido há anos atrás, no Rio. De posse do livro, o bibliófilo volta para o Rio com o exemplar "no colo". Na ponte aérea Rio-São Paulo, ainda no avião, abre a pasta e constata que o livro não estava mais lá! Acredita que adormeceu, deixando o livro cair no vôo Paris-Rio. Ao chegar em casa, disse à Guita, sua mulher: "Sabe o que comprei em Paris? O Guarany", "Não diga!". "É, mas já perdi." Felizmente, Mindlin deixara suas informações na Air France que, três dias depois, lhe informou que o livro tinha fora achado - tinha ido para Buenos Aires, destino final do vôo. Vale a pena a leitura das aventuras bibliófilas de Mindlin. Mindlin partiu mas ficaram seus livros e suas histórias, afinal, nem só de pão vive o homem, mas também de bons livros e boas histórias.

Nota: Uma vida entre livros, Reencontros com o tempo, José Mindlin, EDUSP; Companhia das Letras, 1997.