Revista Philomatica

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pequena prosa sobre o cu: o meu, o seu e o do Zé Celso


Pois é leitor, parece que a semana foi mesmo dedicada ao orifício! Ao menos, espero, a partir de agora há de se grafar o monossílabo sem o dito acento. Sim, porque embora o acento traga lá certo erotismo, cu, a palavra, não tem acento. Talvez, depois que divulgaram o vídeo de um rapaz que, do nada, grita a plenos pulmões na fila do Burger King “eu quero dar o cu” e de Zé Celso ter declamado Rimbaud para o, como é mesmo? Feriado? – ah, sim -, o Holiday, na Câmara Municipal de São Paulo, terminemos a semana menos hipócritas.
Afinal, quem na vida já não viu alguém com o cu falido? Quem já não trabalhou para esse maldito governo até o cu fazer bico? Quem, depois de uma escorregadela, não caiu de cu? Qual o cristão que assustado ao extremo e tomado pelo medo, por um segundo não sentiu o cu cair da bunda? E não me venham dizer que nunca se referiram a um glutão dizendo que ele encheu o cu disso ou daquilo. O pavor, quando nos bate à porta, deixa-nos com o cu na mão; o que fazer? A situação é tamanha que há almas que não têm no cu um periquito que roa, tal a miséria. Por outro lado, há aqueles que nasceram com o cu para lua, pois, dentre outras coisas, quase nunca moram lá no cu do Judas. Mas você pode estar se perguntando o que tem a ver o cu com as calças; ora, em geral, aqueles cujo cu miram a lua, pouco fazem, sempre tiram o cu da reta e cabe ao pobre miserável tirar o cu da seringa, isto quando não vê o cu ao pé das calças. No fundo, no fundo, Zé Celso é quem tem razão: “Vamos todos tomar no cu”, de um jeito ou de outro. E veja, leitor, abstive-me de usar o verbo “dar”; “tomar” fica por conta do Zé Celso.
O genial na conversa do Zé Celso com o vereador Feriado, foi o dramaturgo cantar os versos de Rimbaud. De quebra, além de matar com o pau aqueles que põem acento no cu, trouxe à imprensa fétida o sublime poeta francês. Zé Celso, a meu ver, só pecou porque não conseguiu conter a emoção e vergastou o vereador Feriado com a frase: “A sua visão do mundo é o fascismo, o nazismo, uma coisa inclusive racista”. Digo isso porque essa história de chamar de fascista, nazista e racista é igual a mandar alguém tomar no cu: as pessoas gostam, não é mais um xingamento. Talvez tenha sido há algum tempo, mas, hoje, tempos em que um enfia o dedo no cu do outro em público, vá lá, convenhamos, já virou história de carochinha. Aliás, ocorre-me agora a versão de Chapeuzinho Vermelho em que o lobo dá uma dedada no cu da vó!
Dito isto, caros leitores, fiquem com Rimbaud (só para não transcrever os deliciosos poemas de Pietro Aretino):

SONETO DO OLHO DO CU

Obscuro e franzido como um cravo roxo,
Humilde ele respira escondido na espuma,
Úmido ainda do amor que pelas curvas suaves
Dos glúteos brancos desce à orla de sua auréola.

Uns filamentos, como lágrimas de leite,
Choraram, ao vento inclemente que os expulsa,
Passando por calhaus de uma argila vermelha,
Para escorrer, por fim, ao longo das encostas.

Muita vez minha boca uniu-se a essa ventosa;
Sem poder ter o coito material, minha alma
Fez dele um lacrimário, um ninho de soluços.

Ele é tonta azeitona, a flauta carinhosa,
Tudo por onde desce a divina pralina,
Canãa feminino que eclode na umidade.

___________
Justificando o título: opinião, dizem, é como cu, cada uma tem a sua, portanto, do meu cu cuido eu, e você leitor, espero que faça o mesmo.



terça-feira, 12 de junho de 2018

Opinião vs Ideia


Afirmar que vivemos dias difíceis, soa algo redundante. Estranhos, diferentes, esquisitos... O adjetivo que porventura possa ser colocado à frente do substantivo “dias”, não faz lá muita diferença. Aliás, adjetivos só servem mesmo para pesar o texto; quando atribuídos às pessoas, ajudam a criar um novo rótulo – rótulos andam tão em moda em nossos dias -, e, com isso, mais uma razão para que a intolerância se materialize.
Não acredito que nossos avós, passados seus verdes anos, não verbalizassem certa desesperança ou decepção com esse mesmíssimo clichê. Nem sempre nos damos conta, mas o fato é que acabamos por reproduzir sistemas ad infinitum, no máximo com roupagem diferente. O esforço para escapar da espiral deve ser quotidiano. Não parece, mas também nos grupos que militam por causas minoritárias é frequente a reprodução de conceitos já gastos pelo tempo, algo que, na maioria das vezes, encarrega-se pela materialização de algum preconceito.
Qualquer tentativa de afirmação, na prática, resvala em duas palavrinhas também já gastas pelo uso: opinião e ideia. Da opinião, os dicionários afirmam em certo ponto que se trata de uma ideia, teoria ou tese. Já, ideia, definem os dicionários como maneira de ver, opinião. É claro, tudo isso corrobora o mundo da vulgarização dos conceitos, que são utilizados exaustivamente pelos falantes. Não que isso esteja errado, ao contrário, pode-se perfeitamente fazer uso desses vocábulos sem qualquer prejuízo à fala.
Ocorre, porém, que no universo das redes sociais, esfera da aversão, da injúria e do ódio, a opinião traveste-se de ideia em seu sentido de origem, qual seja, erudito, cujos rizomas fundam-se na filosofia. A opinião, que na filosofia recebe a alcunha de doxa, na maioria das vezes é uma ideia confusa, alterada, acerca da realidade, razão pela qual há se opor a qualquer conhecimento tido como verdadeiro. E como no universo das redes sociais tudo é subjetivo e está sujeito à dependência de atividade mental do sujeito e de sua própria ausência – sim leitor, ausência, porque compartilhar e opinar como se estivesse usando cabresto - o que impede a visão periférica -, implica em ausentar-se, deixar de idear, portanto, ficar à mercê do grau de intensidade exigido e imposto por aqueles que manobram sub-repticiamente o mundo das opiniões.
Não raro, quando um internauta descobre o mundo das ideias e sua mente passa a se ocupar disso, qual seja, quando ele começa a questionar o sistema de opiniões imposto pela maioria e disseminado pela mídia e religiões ideológicas, é expulso da conversa e tem seu pensamento objetivo relativizado pelo grupo e/ou maioria das ovelhas.
Ora, para Locke, por exemplo, as ideias são essenciais para a compreensão, talvez por isso vivemos esses tempos de intenso falatório, mas poucas ideias. O fato é que as ideias são acessíveis através de alguma inteligência e, parece-me, não só a canalha política encarrega-se de entorpecer os cidadãos, mas estes, por si só, contribuem em grande parte para o emburrecimento e embrutecimento geral, isto ocorre todas as vezes em que opinamos sobre coisas que não vemos e, quando as vemos, afirmamos tratarem-se de coisas diferentes daquilo que temos frente aos nossos olhos. Tudo isso, é claro, em benefício do politicamente correto.
Abro um parênteses: nas vezes em que critico o politicamente correto, critico a hiperbolização do conceito, os excessos que nos tornam cada dia mais hipócritas e mais perversos. Nunca, afirmo, nós, brasileiros, fomos tão bipolares e sofremos tanto com o tal do transtorno dissociativo de identidade.
Ao refletir sobre opinião, ideia e nossa bipolaridade quotidiana, vem-me ao espírito, é claro, Platão. Ora, o filósofo falava em um mundo inteligível, algo que constitui uma Ideia Universal, donde provém a ideia que fazemos de alguma coisa. Essa ideia, por sua vez, é uma projeção do saber. Explico: quando vemos alguma coisa, nossos olhos emitem raios de luz que projetam a imagem dessa mesma coisa, que, por sua vez, passa a existir em nós como um princípio universal, doutrina a que chamamos idealismo.
Ocorreu-me que muito de nossa confusão é por idealizar de modo diferente o que vemos. Aí, dá no que dá: alguém revê uma pessoa depois de um tempo, diz a ela que a acha mais gorda que da última vez em que se viram, e pronto: a polêmica está instalada! Outra pessoa, que também já foi gorda um dia, mas gastou tempo e dinheiro para perder um pouco de suas substâncias untuosas, sai em defesa da primeira, que um dia se olhou no espelho, projetou um saber diferente e idealizou-se bem mais leve e por isso, só por isso, não gostou de ouvir que está mais gorda. Fiz me entender? Pois é, talvez o mesmo tenha acontecido nas redes sociais em relação à polêmica da semana. Por isso, decreto o fim das balanças – e dos espelhos. Ah, e das ideias, afinal, gostamos mesmo é de opinar!


sexta-feira, 1 de junho de 2018

#somostodoshipocritas


A semana não foi das melhores. Os caminhoneiros conseguiram se fazer ouvir, porém, a dúvida persiste: quais as forças agindo por trás da grande paralização que pleiteia a baixa de combustíveis? Assim como a semana, o tempo e o caráter não têm sido exemplares. Transformamo-nos em uma troupe amadora, moral e eticamente corrompida.
O resultado é evidente: gritamos às desbragadas, tentamos nos fazer ouvir, imploramos por atenção, impomos nossas vontades e desejos aos gritos e, ao fazê-lo, relativizamos o outro, mas, é claro, colocamo-nos acima de qualquer suspeita, mostramo-nos respeitosos e bradamos aos quatro ventos o politicamente correto e a dita alteridade. Esta, vale ressaltar, tem sido estimulada e é objeto de palestras e encontros que enaltecem temas ultramodernos. Haja vista as humanidades, no âmbito universitário, não terem apresentado nada de definitivamente inovador, aparecem os encontros, seminários e colóquios dedicados à pós-sociedade e à pós-humanidade.
Essas determinações, digamos, formuladas por humanos que integram uma sociedade, soam risíveis, quando não hipócritas, pois na falta de conteúdo, buscam abrigo nos rótulos, algo, é obvio, bastante afeito ao gosto multiculturalista.
Rótulos: cisgênero, agênero, gênero fluido, transgênero, trans... Nada contra, mas, face aos tais congressos pós-sociedade e pós-humanidade, toda essa discussão cai por terra, afinal, já não vivemos mais em sociedade e somos sequer humanos. Então, o que somos? Não me veio outra palavra a não ser hipócritas. Sim, leitor, somos todos hipócritas.
A fluidez das ideias aqui surge algo negativo, sobretudo se decidirmos justapô-la à série de hashtags habitualmente disseminadas na rede e, hoje, substitutivas dos livros, objeto cultuado outrora por universitários e ora ignorados.
Parte-se, por exemplo, da noção de multidão – alienada, na maioria das vezes, ora pela direita, ora pela esquerda -, este sujeito ativo que age a partir de singularidades em comuns. Ocorre que essas singularidades, como já dito, são extremamente manipuláveis por interesses outros. Assim como os interesses, as hashtags são múltiplas, tendenciosas e seletivas. Há listas delas na rede, e que aumentam à medida que os expertises se dispõem a opinar. Não que não se deva opinar, pelo contrário, o que discuto é o compartilhamento de opiniões criadas por terceiros e que o internauta, sem mesmo se dar ao trabalho de lê-la, compartilha, engrossando o lodo das ideias. Isso, para não falar dos grupos especializados em criar notícias falsas e opiniões falseadas, pois baseiam-se em invenções.
A seletividade, assim como as opiniões, é tão volátil que acusados do mesmo crime recebem tratamentos diferentes da massa ou povão (termos usados pela direita) e/ou burguesia, classe média (termos usados pela esquerda): um singular exemplo foi a execração de Harvey Weinstein (pelo que li, merecida) por estupro e assédio, e cujas estripulias deram origem às hashtags #metoo e #time’sup nos estados Unidos e, na França repercutiu com a “balancetonporc. No Brasil, no rastro de José Mayer, tivemos a #mexeucomumamexeucomtodas. No entanto, Morgan Freeman, depois de algumas desculpas, vai bem obrigado e já retornou às gravações.
Daniel Araújo “Pax”, ao longo da semana, publicou um vídeo ironizando a hipocrisia das hashtags e a falsa preocupação com os caminhoneiros. A despeito da hashtag #somostodosquasecaminhoneiros, aventada pelo youtuber, acho mesmo que acertou a mão ao cravar a #todoscorruptos como se tivesse descoberto o ovo de Colombo.
Enfim, leitor, assim como no reino das humanidades, nada de novo no pós-humano, só mais uma hashtag dizendo o óbvio! #somostodoscorruptos!

Réquiem Roth


Foi-se Philip Roth e, uma vez o corpo frio, a imprensa encarregou-se de comentários e rever sua biografia. O que sai, evidentemente, não são as ditas pérolas que se dá aos porcos. A inversão é total! Porcos encarregam-se de ilustrar o leitor, oferecendo-lhe resenhas de três linhas e dizendo o porquê de se ler Roth.
É possível que alguma publicação séria dedicada à literatura, algo raro e fadado ao insucesso tal a escassez de leitores, tenha dedicado alguns ótimos parágrafos ao ilustre Roth. Mas, tomando-se a folha a serviço do partido, foda-se o leitor!
De O Complexo de Portnoy, por exemplo, o primeiro romance que trouxe alguma notoriedade a Roth, a profunda análise do jornalista resume-se a dizer que a personagem masturba-se obsessivamente a ponto de usar um fígado cru. O leitor, diante do texto bem construído pergunta-se, evidentemente (mais um!), como Portnoy usava o fígado: envolvia a glândula do pênis com esta outra glândula mais volumosa e, sobre as duas, a mão, metacarpos e dedos em movimento? Ou esfregava ambas as glândulas até que, por fricção, o gozo jorrasse de uma delas imiscuindo-se na outra e produzindo tons róseos, mistura de sangue e sémen? Vá lá, poderia continuar por mais alguns parágrafos respeitando a toada do tal jornalista, mas prefiro poupá-lo, leitor. Um escritor como Roth merecer isto?
Ao menos, diante de tanta derrapagem tupiniquim, seus conterrâneos, aparentemente mais lúcidos ao escreverem, não demonstram fazer uso da erva estragada consumida pelo estagiário que não assinou a matéria. Diz-se que o bumerangue sempre volta à origem: é provável que você, leitor, ao ler estas garatujas, pergunte-se se também não a usei. Pois, afirmo, não consumo outro mato que os vegetais escuros: couve, espinafre, brócolis..., creia-me!
Pois bem, Bloom elevou Roth ao ápice da Literatura Americana, afirmando ser ele seu mais notável representante desde a morte de William Faulkner. “Ele representa o dilema do homem moderno e dos seres humanos de todas as nações. Ele certa vez definiu o homem como um monte de argila com aspirações, penso que não há definição melhor. Uma vez, durante uma palestra que demos a uma plateia furiosa, ele me acalmou dizendo que aquilo era o lema dele. Ele se voltou para mim e disse que estamos aqui para sermos insultados. Era esse o seu humor negro e sua inteligência.”, conta Bloom.
É provável que Bloom tenha dito isso porque a obra de Roth causa aquela estranheza, aquela originalidade que temos dificuldade em assimilar, ou, quem sabe, nos assimila a tal ponto que sequer notamos nela o que há de estranho – e aqui, rendo-me ao estagiário que, a essa hora já deve ter provado da estranha maciez do fígado.
Bloom afirmou ainda que Roth é um dos prováveis autores a entrar para o cânone ocidental. Bem, de certo modo isto é condenar Roth ao esquecimento, ao menos para a tribo multiculturalista. Razões não faltam: Roth é branco, americano e homem! Ingredientes não faltam. Ademais, recorro ao próprio Bloom que identificou nos críticos ao cânone a insistência em afirmar que sempre há uma ideologia envolvida na formação de um cânone, o cânone é um ato ideológico em si. 
Não discordo: afinal, toda literatura tenta, de algum modo, tornar-se cânone e, considerando-se a ideologia multiculturalista, que despreza o valor estético, engendrado pelo eu individual, as interconexões entre artistas e as influências advindas da interpretação, temos o que temos aí, pseudocânones representando tribos e não o homem em sentido lato.
Mas deixemos essa dita cozinha literária para lá. Paul Auster e Blake Baily, seu biógrafo, também sentiram sua partida. Auster, ao lamentar a morte do amigo, comenta: “Eu sabia que ele estava morrendo, eu era amigo dele.”
Eu, ao conhecer parte do mecanismo nas faculdades de letras, vejo a literatura tout court arfando, quase arquejada, justamente por aqueles que se intitulam seus mais eleitos expertises! Ah, o ego – tão literário isso!

sábado, 19 de maio de 2018

Homo stupidus stupidus stupidus sapiens


Opinião, cada um tem a sua. Contudo, não importa qual seja ela e o modo como você se expresse, é certo que você será atacado por todos os lados, como se fosse um inimigo. A verdade óbvia de nossos dias, marcados pela polarização e expressada por Joshua Greene em Moral tribes: emotion, reason, and the gap between us and them.
Na obra, Greene, professor de neurociência na Universidade de Harvard, une neurociência, filosofia e psicologia ao tentar mapear nosso cérebro e explorar como as intuições éticas se manifestam no mundo contemporâneo. Greene afirma que os seres humanos têm uma tendência instintiva e automática (embora limitada) para cooperar com outros membros de seu grupo social (eu vs. nós) com base na imagem da Tragédia dos Comuns. Mas, em questões relativas à harmonia entre vários grupos (nós contra eles), intuições automáticas são problemáticas; e Greene chama isso de "tragédia da moralidade do senso comum". A mesma lealdade que permite aos membros de um grupo cooperar em sua comunidade leva à hostilidade entre as comunidades.
Eis uma das razões pela qual temos dificuldade em coexistir na diferença: nos cérebros estão programados para estruturar o mundo entre “nós” vs. “eles”, donde uma sociedade contemporânea polaridade ao extremo em que aqueles que não pensam como nós são – e devem – ser hostilizados, vergastados das mais diferentes maneiras. O resultado é medo, frustração, insegurança e um enorme ceticismo.
Por sua vez, Vittorino Andreolli, psiquiatra e escritor italiano, ao refletir sobre a sociedade contemporânea afirma que “vivemos em uma sociedade dominada por frustrações. A sensação predominante é a de estar em um ambiente no qual a pessoa se sente excluída, a pessoa se sente insegura, a pessoa está com medo. Assim, a frustração se acumula, o que então se torna raiva. E a raiva, sabe o que isso traz? Isso leva ao desejo de quebrar tudo. Nosso tempo não é violento, é destrutivo.”
Veja a curta entrevista que o escritor concede à jornalista Flavia Piccinni, quando do lançamento de seu livro Il silenzio dele pietre na Feira do Livro de Turim, e publicada no jornal La Repubblica em 15/05/2018.
Você falou sobre violência e destrutividade. Qual a diferença?
A violência visa produzir danos aos outros. Alguém é ciumento porque há outro que tirou seu objeto do amor, e se vinga violentamente: ele o mata. Mas, tendo cumprido esse propósito, a violência declina.
E a destrutividade?
Em vez disso, a destrutividade é a tendência a causar dano aos outros, mas também a si mesmo. Eles matam a esposa, filhos e se matam. É um pequeno apocalipse. E é muito comum nas famílias hoje.
Estamos vivendo um tempo destrutivo para a política também?
Há o desejo de fazer guerra, mascarar situações pessoais, fabricar armas, alimentar os arsenais nucleares. Existe ar de guerra e a guerra é destrutividade. Repito: a destrutividade é a característica fundamental do nosso tempo.
Quem são os outros?
Frustração e insegurança. Nós somos a sociedade do medo. Domina a cultura do inimigo.
O que isso envolve?
Isso mata a esperança e a confiança e promove o isolamento.
E então?
Você sabe, houve o período da razão, das Luzes, das grandes ideologias e agora ...
Agora?
Agora temos o período de estupidez.
Por que você diz isso?
Porque governa a irracionalidade! O absurdo domina. Não há senso de ética. Pior do que isso ... E como consequência da estupidez, temos a regressão para o homem da movimentação.
Lembrei-me de que pertencíamos ao homo sapiens sapiens.
Não! Neste momento histórico em que o absurdo domina, somos o homo stupidus stupidus stupidus.
Por que razão?
Todo mundo pensa em si. Ninguém pensa que somos um país. E isso é estupidez. Se alguém hoje não é stupidus nesta sociedade, não pode viver.
Como podemos nos salvar?
Fazendo como protagonista do meu romance, que entra em um mundo lindo onde não há comandantes. Onde não há o homem. A gênese parou no quinto dia, porque o Pai eterno é muito inteligente e em uma parte do mundo ele não fez o homem.
Onde a estupidez se concentra hoje?
No poder. Hoje, o poder é, por definição, estúpido. Eu uso o poder como um verbo: eu posso, então eu faço. E eu faço porque eu posso. O poder é o aspecto mais claro da estupidez.
Você se considera um homem de poder?
Não. Eu escrevi sobre os Ninguéns, aqueles com N maiúsculo, porque nesta sociedade há alguém que não é estúpido, e eles são os Ninguéns. Eu sou um Ninguém porque eu não conto nada.
Mas você conta ...
Sendo ninguém, não tenho que aceitar compromissos. Ninguém é quem está lá, mas é como se não estivesse. Eu amo esta sociedade, feita pelas pessoas bonitas que não contam para nada.
Você não conta, mas há alguém, Gene Gnocchi, que o imita na televisão.
Eu o vi recentemente. Eu considero humor e ironia como defensivos. Eles ajudam as pessoas a sobreviver. Eu amo os loucos, considero a loucura estupenda, humana, e o que sempre procurei foi o homem dividido. E eu sempre o procurei com uma arma, a ironia. Embora eu nunca o tenha conhecido, considero Gene Gnocchi muito bom.
Anos atrás, com Andrea Purgatori no Huffington Post, você fez um diagnóstico para o nosso país até agora histórico. Podemos atualizá-lo?
A Itália só piorou porque nunca foi curada.
E os italianos?
Somos masoquistas felizes: vivemos em constante e sério perigo econômico, mas somos capazes de nos divertir.
E então?
Estamos frustrados. Cheios de raiva. Darwin falou do instinto, mas estamos regredindo para o momento da impulsividade. Olhe ao redor.
Eu o faço todos os dias.
Veja: agora não há ética, mas existem comitês de ética. O ego domina e não nós. Eu quero isso. Eu quero isso, eu quero isso, eu quero isso.
Neste contexto, você acha que o aumento da violência contra as mulheres é significativo?
Antropologicamente, a mulher sempre foi a presa do homem. Salomão, que era a sabedoria do povo, disse: “Mais terrível do que a morte é a mulher, só o homem temente a Deus pode escapar dela, enquanto o pecador está preso a ela, enganado.”
Depois, o que aconteceu?
Então veio Cristo, que respeitava as mulheres. Havia a cultura que meticulosamente dava valor às mulheres, à feminilidade, à sua resistência. Mas se nos precipitamos para o homem pulsional, que dirige, e a mulher volta a ser a presa.
Outro dia, em Cannes, 83 atrizes protestaram silenciosamente contra a indústria cinematográfica e a discriminação de gênero. O que você acha desse movimento global que é o #metoo e das consequências inevitáveis ​​que ele terá no presente?
A mulher ainda precisa de um movimento forte. Ainda me lembro de ter participado da histórica marcha feminina do Central Park até a Broadway. Mas hoje as mulheres não têm que cometer o erro do feminismo nos anos setenta.
O quê?
Excluir os homens. Ter feito isso no passado não permitiu que ele crescesse. O movimento, como disse aquela grande mulher que era Ida Magli, devemos fazer juntos. Caso contrário, o homem permanecerá culturalmente desapegado. Ele continuará sendo um homúnculo.
Como você se sente?
Eu sou um infeliz alegre.
Você pode me explicar melhor?
Hoje falamos apenas de felicidade, mas a felicidade é algo individual. É um sentimento positivo e agradável que pertence ao eu. A alegria pertence a uma condição que nos preocupa: o ego junto com o outro. É transmitido e recebido, mas sempre diz respeito a um grupo. Hoje, apenas os imbecis podem ser felizes.
Por que razão?
Nós pertencemos a uma sociedade que é muito complexa para não considerar a condição dos outros. Como se pode ser feliz se todos os dias vemos pessoas sofrendo?
Eu não sei.
Eu não considero muitas pessoas, mas aquele homem de Nazaré, aquele homem com H maiúsculo, que ensinava alegria. Mas hoje tudo é diferente.
Em que sentido?
Hoje não há mais os senhores da terra, dos edifícios, mas os da humanidade. Avram Noam Chomsky diz isso bem.
Quem são esses mestres?
A economia depende de cerca de 20-25 pessoas. A maioria dos Ninguéns luta para viver, enquanto alguns não sabem viver porque têm muito.
Por exemplo?
Mark Zuckerberg! A próxima vez, olha bem: perdeu 100 bilhões em um dia. E você sabe o que ele disse? “Não é nada para mim.” Veja, eu fico infeliz e um pouco zangado. E é bom.
Por que razão?
Porque enquanto eu me indignar, continuarei a escrever.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Lucélia Santos, Carlos Vereza e Ana Clara



Em busca do carro das ideias, uma vez mais ensaio voos de colibri – ou de borboletas. O quotidiano se impõe e me vejo levado a um adejar de abelha, em humilde remissão ao célebre dito de Montaigne. Vá lá, quem sabe eu consiga fazer um mel que seja todo meu. Não creio ter uma alma afeita à quizília, mas abelhas têm ferrões e, como dizia o velho Machado, a crônica é como gato, acaricia arranhando. Desta feita, ao recolher algum pólen aqui e acolá é provável que às flores esqueça algum ferrão.
Creio, leitor, que nada pode ser diferente, afinal, viver é faca de dois gumes e concordar cegamente nunca foi de bom tom, portanto, desconfie de muito galanteio e muita lisonja. Pois bem, vivemos tempos de intenso falatório, e ai de quem discorda da galera com megafone em punho, do politicamente correto etc e tal. Este falatório, na maioria das vezes, é propositado, creio eu, porque nos afasta do que mais importa, do que nos é mais próprio.
Na redes sociais, grupos se organizam e, num átimo, fazem de uma simples opinião – que é de direito a todos –, por tratar-se de uma discordância, algo ferino, que tergiversa, blasfema, insulta, impreca, destrói, calunia e corrompe! Isto posto, acreditam que o mais importante é falar, esquecendo-se de que a fala é feita de pausas e silêncios que residem, sobretudo, no escutar.
Um leve pouso em uma dessas flores do campo e envolvo-me de um pólen cuja fonte ignoro; de lá apreendo que a dificuldade de escutar advém principalmente do renunciar à satisfação de exprimir-se. E mais, escutar é abdicar do controle, deixar-se guiar, digerir e deixar-se tocar pelo outro; algo como outorgar ao outro certa liberdade e algum poder sobre si mesmo. É desistir, ao menos temporariamente, daquele discurso internalizado que carregamos há algum tempo e ao qual atribuímos alguma verdade. É renunciar ao uso de seu/nosso poder sobre o outro. Escutar é correr o risco de se sentir confuso, de não entender bem o interlocutor, de não conseguir ajudá-lo e sobretudo de não poder salvá-lo (isso àqueles que se julgam os donos da verdade). Escutar é, portanto, uma espécie de luto para viver, o luto da nossa onipotência, da nossa fala, enfim.
O discurso quotidiano avança e se publiciza, disseminado por vozes supostamente “entendidas” disso ou daquilo. O resultado é um bando de gado marcado ejaculando as mesmas palavras, gritando aqui e ali a supremacia de seu lugar de fala, de modo a tornar tudo previsível; o leitor mais arguto conhece o diálogo de cabo a rabo, porque este é impessoal, trazendo em si uma suposta segurança, que acredita-se vantagem.
Nessa lógica, a musa multiculturalista, em seus filminhos youtube, atribui o adjetivo fascista àquele que se nega a escutar, mas, ao fazê-lo reproduz o mesmo, e, pela negação tenta impor o “seu” discurso, negaceia escutar e relativiza a fala do outro.
O desamparo é total, a seletividade é hiperbolizada. A fala do discordante é exagerada, ampliada e comentada a partir de críticas ideológicas e, finalmente, transformada em “discurso fascista” (uso a palavra porque está na moda). As opiniões, sejam elas de esquerda, sejam de direita, são severamente criticadas e refutadas por aqueles que não fazem parte da mesma panelinha ideológica. Vejam, por exemplo, o pólen que busquei hoje em uma flor da rede, em que um internauta (Braz Chediak) comenta o direito à opinião a dois atores brasileiros, um achincalhado por ser coxinha e outra por ser mortadela (rótulos usados sempre pejorativamente, inclusive por intelectuais):  
“LUCÉLIA SANTOS é uma atriz brasileira. Uma grande atriz brasileira.
Desde o início de sua carreira teve posições políticas que devem ser respeitadas, como devem ser respeitadas todas as opiniões – estamos numa democracia. Lucélia defende Lula. Quer sua liberdade. É opinião de Lucélia e, portanto, deve lutar por ela como lutou por todas suas convicções e sua arte.
CARLOS VEREZA é um ator brasileiro. Um grande ator brasileiro.
Ele tem suas posições políticas que devem ser respeitadas - estamos numa democracia. Vereza é a favor da condenação de Lula. É opinião dele e, portanto, deve lutar por ela como lutou para ser o grande ator que é.
LUCÉLIA SANTOS está sendo duramente atacada nas redes e blogs, com comentários que ultrapassam o bom senso. Não respeitam sua opinião, não respeitam sua vida. E ISTO É UMA MANIFESTAÇÃO FASCISTA, DE ÓDIO.
CARLOS VEREZA foi atacado por intolerantes que pediram ao público que boicotassem seu espetáculo em Brasília. Nas redes sociais, fazem análises maldosas sobre sua arte e sua vida. E ISTO É UMA MANIFESTAÇÃO FASCISTA, DE ÓDIO.
Lucélia Santos e Carlos Vereza são dois grandes artistas; são dois exemplos de nosso povo. Faltar com o respeito a eles é faltar com o respeito à liberdade de expressão, à democracia, é faltar com o respeito ao país.”
Concordo com Chediak, mas, à imprensa vendida/comprada e tendenciosa, que importância tem isso?
É melhor tratar de assuntos mais palatáveis e alienantes: “Ana Clara ficará na história”, anuncia a chamada do site do jornal que se diz a serviço do Brasil, enquanto este desce a ladeira. Quem é Ana Clara?  


domingo, 6 de maio de 2018

E la nave va!


Que o mundo anda de cabeça para baixo, de ponta-cabeça ou de pernas para o ar, isso todo mundo sabe! O que incomoda é o entorpecimento geral! A semana foi de comemoração pelo dia do trabalho, contudo, poucos se deram conta de uma notícia sorrateira que, arrisco, só foi publicada para, junto dela, o jornal vender sua imparcialidade obscura.
Trata-se de o governo usar o dinheiro do Fundo de Garantia (R$ 1,16 bilhão) para cobrir calotes dos governos da Venezuela e do Moçambique junto ao BNDS. É claro, os poucos que a leram e comentaram, resolveram apanhar o terço e impor suas ladainhas e credos ideológicos, uns acusando os outros e todos se esquecendo de que mais uma vez o trabalhador paga pela estupidez dos “salvadores da pátria”.
O analfabetismo funcional que muitos acreditam frequentar paradas de ônibus, chão de fábrica e bares da esquina, creiam-me, abunda nas universidades a ponto de intelectuais carimbarem o adorado vil metal pleiteando a liberdade do grande irmão. O fato é que nas comemorações do dia do trabalho, segundo a imprensa, não havia trabalhadores, mas povo marcado, cuja vida de gado, mais uma vez, sofre uma rasteira, seja com as estripulias político-partidárias de lideranças cujos nomes se ajustam cada vez mais ao noticiário policial, seja porque só estão ali em troca de uns poucos caraminguás.
De fato, a data perdeu todo o seu simbolismo; o trabalho perdeu sua centralidade e os sindicatos só sobrevivem porque surrupiam parte do mísero salário do trabalhador. A tecnologia e a globalização contribuíram para isso? Sim, mas a falta de liderança e a presença de marginais nos sindicatos, parece-me, tem sido a pá de cal que contribui para que os trabalhadores vejam quotidianamente seus direitos subtraídos. A esquerda intelectual, que ama o discurso do desconstrucionismo não se deu conta da desconstrução que ora ocorre na classe operária.
Mas deixemos a política torva e sanhuda para lá, afinal, a festa do trabalho foi convertida em shows musicais e sorteios de carros, na tentativa de atrair a massa para mais um evento em que o espaço de reivindicação do trabalhador tornou-se pura e simplesmente palanque eleitoral.
O fato é que em meio a tanta idiotice surgiu uma publicação deliciosa lá no Hexagone. Trata-se de La Nouvelle Quinzaine Littéraire, que dedica todo um número ao “O que é a idiotice?” Não vejo a hora de pôr os olhos em tais artigos, tal a onda que nos sufoca; isso tudo, claro, na tentativa de submergir ao caos.
Ao escrever o parágrafo acima me ocorreu a ideia de que a todo momento nos autocensuramos. Os exemplos me vêm ao espírito, a coceira toma conta das mãos, pelinhos dos metacarpos e falanges eriçam, tal a vontade de rechear o texto com nomes e situações, mas, em nome do politicamente correto e na tentativa de preservar algumas amizades, calo-me.
Mas o idiotas são valorosos! Veja-se, por exemplo, a importância dada por Eco, meu padre-santo, à idiotice e à burrice. Eco, por exemplo, empreendeu esforços na tentativa de reunir testemunhos bombásticos sobre a paixão pelo equívoco, afinal, afirmava ele, muito do que sabemos hoje é graças a esse bando de idiotas que não se constrangeu em transformar suas ideias em tinta e deixá-las escorrer sobre o papel.
Sob autocensura, paro por aqui, afinal, até mesmo nas universidades, onde deveria imperar o pluralismo de ideias, caso algo contrário seja dito ao grupo que se intitula dono da verdade, corre-se o risco de ter à frente uma centena de estudantes chamando-o de fascista aos gritos de “1, 2, 3, 4, 5 mil, lugar de fascista é na ponta do fuzil!”
Et voilà, la nave va!

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Absurdos: da educação e d’A Cantora Careca, de Ionesco


O site do periódico a favor do partido publica hoje uma reportagem inusitada: “Famílias fazem sacrifício para filhos estudar no exterior”. O lado positivo é que os chamados intercâmbios estão mais acessíveis, não são mais só aqueles poucos eleitos que têm a oportunidade de, digamos, conscientizarem-se dos contrastes entre o que o governo nos oferece em matéria de educação, e o que está disponível nos ditos países de primeiro mundo. O lado sombrio é ver o dono de uma renomada agência promotora de intercâmbios afirmar: “É muito comum sabermos que o pai está vendendo o carro dele para pagar o intercâmbio do filho, e é muito bonito ver isso.”
!!! E continua o Sr. Garcia: Você vê que são famílias de poder econômico limitado, mas o pessoal vê como investimento. Muitas vezes o pessoal trabalha, mora com a família e vai juntando um dinheirinho, porque sabe que o idioma é mais importante na empregabilidade do que fazer um curso universitário de qualidade ruim ou fazer uma pós-graduação ou extensão universitária que não agrega nada.”
Segundo o Sr. Celso Garcia, que lucra com o desespero do alunado (não o critico, afinal, alguém sempre lucra, o governo lucra, a canalha de Brasília e do judiciário lucram!), “a questão do idioma é sempre o ponto número um”. É claro, ele precisa vender seu peixe.
Mas, consultando os meus botões, há aquele cuja sabedoria me surpreende sempre; pois bem, ele me sussurrou algumas perguntas: mas o Sr. Garcia não sabe que em seis meses, um ano, poucos, muitos poucos, tornam-se fluentes em um idioma, seja ele qual for, a ponto de isso por si só garantir a dita empregabilidade? Pois é, replico em concordância ao que ele acabara de dizer: Eu mesmo, acrescento, conheci alunos no exterior que não tinham sequer o conhecimento básico do idioma e, chegando lá, precisaram começar do bê-á-bá, repetindo “Eu me chamo... Eu sou brasileiro.” Aquiescente, ele rememora e concorda. E diga-se, acrescento, eram alunos que deixaram o Brasil em busca de um doutorado em conceituadas universidades. Voltaram prontos para o mercado de trabalho?, pergunto. Ele, escapando da casinha que o mantém fixo na camisa, olha-me de soslaio e é como tivesse lançado um sorriso irônico por entre as dobras do tecido.
O Sr. Garcia faz parte de uma engrenagem colocada em movimento há tempos pelo governo, cuja mobilidade não tem outro fim que o sucateamento da educação. Não acho bonito ter que se desfazer dos míseros bens materiais que possui para poder pagar um cursinho de língua na esperança de que isso seja garantia de bom trabalho. Bom trabalho para quem? Para os empregadores? Vejam: hoje há empresas que exigem do candidato fluência em inglês, conhecimentos de espanhol, além de todos aqueles apetrechos criados pelos especialistas em recursos humanos, enfim, tudo isso e otras cositas más em troca de um mísero contracheque, às vezes, de dois salários mínimos. Resumo da ópera: o carro vendido para o intercâmbio, nessa lógica, será readquirido décadas depois!
Deixemos o Sr. Garcia acumulando seus caraminguás com a ilusão dos tolos e vamos a um absurdo mais palatável e não tão obsceno quanto a educação brasileira; falo d’A Cantora Careca, de Ionesco.
Hoje, 26 de abril de 2018, o teatro Huchette, em Paris, celebra seu 70o aniversário com a obra de Ionesco, A Cantora Careca, que detém um recorde de longevidade nos palcos, uma vez que está em cartaz neste mesmo palco há nada menos que 61 anos.
Considerando-se a recepção da peça quando de sua estreia, isto é um grande feito, pois, à época, as críticas foram violentas. Mas falemos de Ionesco, esse gênio do teatro do absurdo: nascido na Romênia, filho de pai romeno e mãe francesa, Ionesco vive na França entre os anos de 1913 e 1925; termina seus estudos de literatura francesa na Universidade de Bucareste e torna-se professor de francês e crítico literário. Retorna a França para escrever uma tese que jamais terminará, mas o que deixou é de uma monta inigualável: A Lição, As Cadeiras, Rinoceronte, O Rei está morrendo; ou seja cerca de trinta peças teatrais, ensaios e alguns romances. E quem quer saber da tese?
A Cantora Careca, sua primeira obra teatral, Ionesco qualificou-a de “teatro de escárnio”, cujo subtítulo era “ante-peça”. A ideia lhe ocorreu depois de aprender inglês (algo de extrema importância ainda hoje, ao menos para o Sr. Garcia!) com o método Assimil: frases curtas, desarticuladas, clichês, tudo junto e misturado resultando em um diálogo muito louco. O título original Inglês sem dificuldade, foi substituído por A Cantora Careca, em razão de um deslize de um ator durante o ensaio.
Emblemática obra do teatro do absurdo, o texto foi encenado por Nicolas Bataille em 1950. Para Bataille, o ponto de partida da peça é “um casal que não tem nada a dizer um ao outro depois de vinte anos de casamento, e um outro que não se reconhece mais”. Diante disso, comentários frívolos, absurdos e incoerentes são trocados.
A primeira apresentação deu-se em uma pequena sala no Quartier-Latin, no Théâtre des Noctambules, em 11 de maio de 1950, às 18 horas. Mal recebida pelo público, as apresentações foram interrompidas logo após a estreia (25 apresentações foram canceladas).
Depois, em 16 de fevereiro de 1957, a peça volta em cartaz no Théâtre de La Huchette, em Paris, e finalmente conhece o sucesso. A Cantora Careca continua em cartaz provando entre outras coisas, que o teatro e as humanidades têm muito a dizer, e não só as “praticidades” como quer o Sr. Garcia.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Delírios literários


Lá pelas tantas de a Poética, Aristóteles afirma que os poetas são gênios e que os loucos deliram. A loucura tem sido, parece, o pão quotidiano que nos tem mantido de pé nesses últimos tempos. A procura pelo certinho anda tão árdua e exaustiva que temos nos tornado direitos demais. Não por outra razão acredito que a vida, os acontecimentos, enfim, até mesmo a história caminha em movimentos pendulares. Às vezes, com o soprar dos ares, o pêndulo avança - até mais da conta -, tanto é que somos obrigados a presenciar a derrocada moral daqueles outrora chamados príncipes do Império – hoje meramente ditos senadores (digitei pérfidos, o adjetivo, ante de senadores, mas o pensamento não se ajustou à frase).

Mas os delírios são de outra ordem: adentram à literatura, ou melhor, orbitam sua periferia. Cortázar fala em cozinha literária. Algo, leitor, parecido com deixar tinta no papel, alimento para o esquecimento. Pois bem, ao sair em busca de alguns artigos para um aluno, descubro a facilidade dos buscadores da internet. Vou lá e digito Pai Goriot, minha palavra-chave. De pronto, uma explosão de resultados. Obra de finado, digo, de gênio, nenhuma, nada, sequer uma iguaria! Mas, gororoba, bóia, rango, ah, isso havia em abundância! Perfeita cozinha literária!

E não é que no refrigerador da cozinha acho eu algo exótico? Um prato pequeno, perdido atrás dos potes de condimentos e de muita salada metida a prato principal. Um texto publicado no site chamado Esteta e que compara o futebolista Neymar à personagem Rastignac, de Balzac.

Segundo o autor, o simples fato de o jogador ter se transferido para Paris é razão suficiente para equipará-lo a Rastignac, personagem arrivista de Le Père Goriot. O autor do texto tem como fio condutor a célebre frase da personagem balzaquiana: “À nous deux maintenant!” (Agora, é entre nós dois!).

Vale contextualizar o entrecho: ao final de Le Père Goriot, Eugène de Rastignac, o jovem e ambicioso estudante, do alto do cemitério Père Lachaise, vê a cidade de Paris e finalmente compreende o papel da cidade, e é exatamente nesse instante que lança ao ar o célebre desafio.

Ora, isso é muito pouco meu caro futeboleiro (acho que o neologismo é bem a cara do texto dele – e, por que não, do meu?; às vezes me é impossível um certa dose de autoironia!)! Poderias, afora ter insistido na tecla do arrivismo, escorregado os dedos sobre aquela em que explicaria muito da sua associação, meu caro autor: por exemplo, o fato de Balzac ter se inspirado em Thiers, jovem liberal, que mais tarde se tornaria presidente da república. Todos sabemos, a política produz o pior tipo de arrivista, não porque são arrivistas tout court, mas porque, para chegarem ao topo, associam-se a pessoas da mais alta suspeição. Ademais, não me ocorre de Rastignac ter se metido em tenebrosas transações (ao menos em Le Père Goriot), algo como sonegar milhões do imposto de renda em dois países e, ainda assim, ter suas dívidas perdoadas por acordos escusos.

É claro que nosso autor menciona o fato de Neymar ser avesso aos livros e, mesmo depois de um bom tempo na Cidade Luz, mal balbuciar a língua de Molière. Isso só prova a disparidade da comparação: se há algo que faz de Rastignac uma personagem singular é o uso dos neurônios. Esse jovem lobo de dentes longos, como se diz de um arrivista na França, tem constituição e essência bastantes substanciosas que, honestamente, não resvalam na futilidade do nosso spécimen.

Trago alguma arrogância na prosa? Vá lá, que seja! É lamentável que pseudo-historiadores lancem mão do copia-e-cola no intuito de justificar a pobreza de espírito que vejo no nosso homem da bola, cujas sinapses – para ele, felizmente – produzem-se entre os pododáctilos. A meu ver o mocinho de Mogi das Cruzes, que fazia e faz Chico Pinheiro papagaio, traz uma malandragem que não cai bem em Rastignac, provinciano do sudeste da França disposto a conquistar Paris. Ademais, Rastignac chega por lá pobre, ao contrário do tupiniquim e, cá entre nós, se nosso historiador conhecesse um pouco do jeito francês de ser, ia saber que do futebolista só querem as pernas e os pés, até mesmo porque quem o paga são os árabes. Et voilà!

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Humanizando o passado


Mais uma vez a canalha política confirmou o clichê de que o Brasil não é para principiantes. Olhe para as leis, leitor, e veja como essas senhoras tornaram-se dissimuladas e traiçoeiras. Foi-se o tempo em que a elas nos dirigíamos respeitosamente e bradávamos hora ou outra dura lex sed lex. Volúveis, fanfarronas, hoje elas riem nas nossas caras e estão tão maleáveis quanto as verdades - ou pós-verdades - na boca suja da politicalha. A situação tem se tornado indigesta a ponto de até mesmo as generalidades na imprensa adentrarem a folha política - ou de polícia -, uma vez que celebridades, tomando-se por formadores de opinião, decidiram também vender suas pseudo-ideias.  
Parece-me que estamos a cada dia menos humanos. Não por outra razão, fui buscar a história de uma brasileira nas páginas francesas do Le Figaro. Trata-se de Marina Amaral, artista aqui da terrinha, cuja ocupação é passar horas e horas a fio trabalhando em fotos monocromáticas. Tudo o que faz, afirma Amaral, é tentar humanizar documentos, o que não deixa de ser ironia, comparando-se sua singeleza artística à truculência política.
Marina Amaral foi notícia aqui só porque, recentemente, foi notícia lá fora. Entrevo aí uma nesga do nosso velho complexo de vira-lata. Se o gringo diz ser bom, então tá, reconhecemos que é de fato bom. O lixo, a imprensa teima em nos oferecer diariamente, como o café, cujos melhores grãos são exportados e a nós, oferecem-nos palha e casca torradas, talvez pensando que não sejamos capazes de digerir pérolas, como as produzidas por Marina Amaral.
A artista trabalha em fotos pungentes de forma meticulosa e o caso de Czeslawa Kwoka foi singular. Kwoka tinha 14 anos quando, em 12 de março de 1943, sucumbiu no campo de Auschwitz, logo após ter recebido uma injeção de fenol em seu coração. Pouco antes, ela havia sido espancada por um Kapo e fotografada sob diferentes ângulos. Sua história jazia desconhecida do público até 12 de março último, quando Marina Amaral, tocada pelas imagens da garota ferida, mas que mantém a cabeça erguida, resolveu colorir suas fotos monocromáticas.
“Eu queria dar a ela uma chance de contar sua história e dar às pessoas a oportunidade de ver seu rosto em cores pela primeira vez”, disse a artista. Compartilhada no Twitter pelo memorial de Auschwitz, na Polônia, no dia do aniversário da morte de Czeslawa Kwoka, as fotos coloridas imediatamente viralizaram na web. “Recebi mensagens de todo o mundo, de pessoas totalmente diferentes, que entendiam minhas intenções”, afirmou Marina.
Aos 25 anos, esta colorista digital já conquistou um enorme público graças às fotos históricas em preto e branco às quais adicionou cor. Martin Luther King, Elvis Presley, Albert Einstein, a Rainha Elizabeth II, todos eles ficaram sob seus dedos de fada. A jovem brasileira, que já trabalhou em mais de duzentos clichês, afirma desenvolver uma atividade à qual não estava predestinada, pois estudava relações internacionais. Seu trabalho de formiguinha adveio depois de descobrir na internet uma coleção de fotos coloridas da Segunda Guerra Mundial. Marina então decidiu reproduzir a técnica, meio que intuitivamente e, com o tempo, descobriu seu próprio jeito de trabalhar.
Quando finalmente encontra uma foto acessível, “com uma história pungente por trás dela”, Marina inicia um processo de investigação sobre a origem e a história da foto. Esse trabalho demanda um tarefa meticulosa, cujo objetivo é fazer com que a imagem permaneça o mais fiel possível em relação ao slide. Isso pode durar semanas, explica Marina. “Se, por exemplo, eu tenho uma imagem de um conflito armado, vou procurar as cores originais dos uniformes, medalhas, botas, veículos, pele, olhos e cabelos da pessoa ou personagens, quando é possível. Eu também tento encontrar instantâneos recentes dos locais das fotografias”, detalha Marina.
Todo o trabalho artístico de Marina faz com que o passado seja redescoberto de forma diferente. Marina não descobriu a pólvora, diga-se, já que o processo de colorir fotos não é novo, traços podem ser encontrados já em 1840 nas obras do famoso fotógrafo suíço Johann Baptist Isenring, contudo, Marina é prata da casa, e só por isso deve ser incensada, admirada. Infelizmente, o espaço que as redes sociais concederam a Marina só encontrou correspondente na imprensa francesa, sob a pena da jornalista Ludivine Trichot.
Para conhecer o trabalho de Marina acesse:
E se você se apaixonar pelo trabalho da artista, há o livro The Colour of time: a new history of the world (1850-1860), de Dan Jones & Marina Amaral, lançado recentemente pela Hardcover. É só apreciar!

Foto: Czeslawa Kwoka, vítima da barbárie nazista no campo de Auschwitz, Memorial de Auschwitz/Marina Amaral.