Revista Philomatica

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Voltaire: filósofo – e vegetariano avant la lettre (II)


A semana foi das melhores no quesito hipocrisia; nesse domínio, mostramos o quanto somos perversos, esquizofrênicos e amnésicos. Trato, evidentemente, da política torva e sanhuda que encheu o carro das ideias. Mas falemos de Voltaire, cujas reflexões continuam atuais e sempre nos levam a pensar o presente.
Semana passada discorri sobre alguns textos voltairianos e prometi comentar um pouco de seu Dicionário filosófico. No artigo “carne”, o filósofo mostra como Porfírio considerava os “animais como nossos irmãos porque eles são animados (de anima/alma) como nós, têm os mesmos princípios de vida e, assim como nós, têm ideias, sentimento, memória, habilidades” (Hoje, alguns países já concederam aos animais o status de seres sencientes.)
O vegetarianismo de Voltaire afirma-se assim como uma postura filosófica oposta a qualquer atitude antropocêntrica. O filósofo não acredita que a humanidade seja o centro da criação ou o topo da cadeia alimentar - e que os animais estejam abaixo dos seres humanos e apenas “predestinados” a servir de alimento para os homens: “As ovelhas não foram feitas absolutamente para serem cozidas e comidas, visto que muitas nações se abstêm deste horror.”
Em A Filosofia da História (capítulo XVII, “da Índia”), Voltaire defende a doutrina da reencarnação das almas (transmigração) que prevalece entre os índios (ou Hindus), nas terras “em direção ao Ganges”, que, segundo ele, é uma “filosofia da moralidade” que inspira “o horror do assassinato e de toda a violência”. Esta consideração voltairiana também se encontra nas Cartas de Amabed (Segunda Carta de Amabed a Shastadid), onde um jovem hindu de Benares, aluno de missionário jesuíta que quer evangelizá-lo e fazê-lo abjurar a fé seus antepassados, lamenta ver os europeus, colonizando a Índia, cometendo “terríveis crueldades pela pimenta” e matando as galinhas.
Essa postura moral vegetariana é para Voltaire uma oportunidade de relativizar as certezas ocidentais decorrentes do cristianismo, em proveito de uma universalização de referências negando todo o etnocentrismo e todo o antropocentrismo. É também uma oportunidade de louvar os “gentios” e sua filosofia antiga (grega ou indiana) e abertamente zombar dos clérigos cristãos e instituições da igreja - convencidos de sua moral exemplar - que se preocupavam muito com os minuciosos detalhes dogmáticos de suas crenças empenhadas em reconhecer ou condenar (lembrem-se do ódio entre católicos, judeus e protestantes), mas que se recusam a educar as massas à clemência em relação aos animais e eram  (e são), portanto, incapazes de promover o vegetarianismo:

Não vejo moralista entre nós, nenhum de nossos loquazes pregadores, nem mesmo um dos nossos hipócritas, que tenha feito qualquer reflexão sobre este terrível hábito [“alimentar-se continuamente de cadáveres”, segundo Voltaire]. Devemos voltar ao piedoso Porfírio e aos compassivos pitagoricianos para encontrar alguém que nos envergonhe de nossa sangrenta glutonaria, ou devemos viajar até aos brâmanes; porque (...) nem entre os monges, nem no Concílio de Trento, nem em nossas assembleias do clero ou em nossas academias, não se pensou ainda em dar o nome de mal a este abate universal.[1]

Voltaire protestou também contra as práticas de vivissecção de seu tempo (experimentação em animais, generalizando-se como dogma o “animal-máquina”, de Descartes):

Os bárbaros se apoderam do cão, que excede prodigiosamente ao homem em amizade; pregam-no em uma mesa e o dissecam vivo para mostrar suas veias mesentéricas. Você descobre nele todos os mesmos órgãos de sentimento que estão em você. Responda-me, homem máquina: a natureza arranjou todas as fontes de sentimento neste animal para que ele nada sinta? Ele tem nervos para ser impassível? Não suponha essa contradição impertinente na natureza.[2]

Tratando-se do vegetarianismo, nota-se que Voltaire não só foi um homem avant la lattre – antes de seu tempo, como também suas ideias têm se mostrado atuais, despertando o homem moderno à reflexão - ao menos aquele afeito à compaixão e ao respeito.

Imagem: L'Âge d'or, de Lucas Cranach l'Ancien (1530).


[1]  Voltaire, Il faut prendre un parti (Du mal, et en premier lieu de la destruction des bêtes).
[2]  Voltaire, Dictionnaire philosophique, articles "Bêtes", dans Œuvres complètes, Arvensa Editions. Kindle, 74852-74861.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Voltaire, filósofo - e vegetariano avant la lattre


Remissões a Voltaire, em uma imprensa povoada por celebridades vazias de espírito, parecem arcaísmo. De sua obra poética, pode-se afirmar que bem pouca coisa ainda é legível; de sua produção como historiador e cientista não se pode dizer algo muito diferente, haja vista seus escritos terem se tornado datados em razão das vicissitudes que movem as sociedades; sobram, portanto, o polemista, o filósofo e o prosador, enfim, o escritor, cuja verve irônica não só marcou o século XVIII, mas ainda perdura, sendo revisitada a cada vez que a intolerância abre as asas sobre nós. Mas Voltaire é mais, ou melhor, foi mais que isso: Voltaire nutria o mesmo respeito que Da Vinci e Schopenhauer - por exemplo, pelos animais, refletindo sobre suas percepções e sentimentos e praticando o vegetarianismo.
Voltaire recusava-se a ver os seres humanos como superiores, por sua essência, em relação a outras espécies animais; isto corresponde à sua rejeição pelas religiões abraâmicas (de Abrahão - Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, nas quais o animal é frequentemente considerado inferior ao homem) e a doutrina dos “animais-máquinas” presente no Discurso do método, de René Descartes - que ele odiava, e considerava ser uma “vã desculpa  da barbárie”, que permitia ao homem desnudar-se de qualquer sentimento de compaixão pelo sofrimento dos animais.
Voltaire começou a se interessar pelo vegetarianismo e, em sua defesa, por volta dos anos de 1761-1762, como mostrou Renan Larue[1]; diversas leituras ligam o filósofo a uma afirmação pitagoriciana (o termo vegetarianismo não existia à época): o testamento de Jean Meslier, o Émile, de Jean-Jacques Rousseau, o Tratado de Porfírio, sobre a abstinência da carne de animais, bem como numerosas obras sobre o hinduísmo (obras bramânicas que estavam começando a ser traduzidas para o francês e estudadas nos círculos intelectuais europeus).
Em suas cartas, Voltaire declara que “não come mais carne” e “nem peixe”, definindo-se ainda mais pitagoriciano que Philippe de Sainte-Aldegonde, um vegetariano que recebera em Ferney, perto de Genebra.
Para Voltaire, o vegetarianismo nunca foi justificado sob uma lógica ligada à saúde, mas sempre por razões éticas: o vegetarianismo é uma “doutrina humana” e uma “lei admirável pela qual é proibido comer os animais nossos semelhantes”. Tomando como exemplo Isaac Newton, para quem a compaixão pelos animais se revelava uma base sólida para a “verdadeira caridade” em relação aos homens, Voltaire afirmava que não merece ser chamado de filósofo quem não se tem essa “humanidade, virtude que inclui todas as virtudes”.
No Diálogo do galo e do frango, Voltaire faz com que os animais digam que os homens que os comem são “monstros”, “monstros” humanos que também se matam cruelmente: o galo elogia a Índia, onde “os homens têm uma lei sagrada que por milhares de séculos os proibiu de nos comer”, bem como os antigos filósofos europeus:

Os maiores filósofos da antiguidade nunca nos colocaram no espeto. Eles tentaram aprender nossa língua e descobrir nossas propriedades tão superiores às da espécie humana. Nós estávamos seguros como na idade do ouro. Os sábios não matam animais, diz Porfírio; somente bárbaros e padres os matam e os comem.

Em A Princesa da Babilônia, um pássaro afirma que os animais têm “uma alma”, assim como os homens. No Tratado sobre a tolerância (nota do capítulo XII), Voltaire lembra que o consumo de carne animal e o tratamento dos animais como objetos estritos não são práticas universais e que “há uma contradição manifesta em acreditar que Deus deu aos animais todos os órgãos do sentimento, e sustentar que ele não lhes deu nenhum sentimento. Parece-me ainda que nunca se deve ter observado os animais de modo a não distinguir entre eles as diferentes vozes da necessidade, do sofrimento, da alegria, do medo, do amor, da raiva e de todas as afeições”.
Voltaire vai mais longe quando se trata do respeito aos animais, mas o espaço e o tempo são curtos, leitor, por isso, à moda do folhetim, continuo semana que vem com as considerações do filósofo sobre “A Carne”, presentes em seu Dicionário filosófico.


Imagem: Pitágoras defendendo o vegetarianismo, de Pierre Paul Rubens.


[1] LARUE, Renan Larue. Pensées végétariennes, Voltaire, Éditions Mille et une nuits, n°632, 2014; « Le Végétarisme dans l'œuvre de Voltaire (1762-1778). Dix-Huitième siècle (2010) n°42, pp. 19-34.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Amor de verdade? O dos animais.


Em busca do carro das ideias corro os olhos pelas notícias da semana e não vejo nada além de balbúrdia. Balbúrdia em Brasília, balbúrdia nas universidades – não sou quem diz, mas um tal de Sr. Weintrauma -, enfim, balbúrdia nas ruas, nos sites de notícias e nas redes sociais. Fazendo as vezes de advogado do diabo: já notaram quanta gente tem passado por Harvard, quantas pesquisas brotaram de departamentos até então obscuros? O que me deixou pasmo não foi nem a pomada cicatrizante a partir de água de coco, mas a descoberta de que o cocô humano tem sido usado em tratamento contra infecções, obesidade e problemas mentais.
Ah vá, quem disse que contive as sinapses? Na hora fiquei achando que Brasília, o STF, leitor, deveria abandonar as lagostas e partir pra merda, afinal, o pessoal por lá anda um pouco além do peso e as faculdades mentais, bem, estas, considerando-se o que se decide por lá... prefiro não comentar, como diria Copélia! A dita refeição, penso, também deveria ser servida à gerência da rádio Jovem Pan, que ora censura o historiador Marco Antonio Villa por criticar o mandatário JB (que não é o whisky e nem o Jornal do Brasil). Deste, dizem, não partiu a ordem de suspensão do historiador e crítico do governo, mas, alguém acredita em notas emitidas por empresas de comunicação, pelo governo e por quem foi pego de calças curtas ou com a boca na botija?
O fato é que em meio a toda essa balbúrdia, resolvi dar um tempo e recolhi-me na leitura de um conto de Clarice Lispector, “A menor mulher do mundo”. Lá pelas tantas, a narradora diz: “Creio que também este conto vem de meu amor pelos bichos; parece-me que sinto os bichos como uma das coisas ainda muito próximas de Deus, material que não inventou a si mesmo, coisa ainda quente do próprio nascimento; e, no entanto, coisa já se pondo imediatamente de pé, e já vivendo toda, e em cada minuto vivendo de uma vez, nunca aos poucos apenas, nunca se poupando, nunca se gastando.”[1]
Volto às notícias e dou de olhos com a história de Capitán, o cão da cidade de Villa Carlos Paz, na Argentina. Capitán era uma dessas criaturas próximas de Deus, que não se reinventou, ainda cheia de um amor supremo, desinteressado e puro, há muito desaparecido de entre os humanos. Capitán pôs-se de pé, viveu de uma vez e cada minuto devotando todo o seu amor a seu dono, ainda que este já não estivesse mais entre os vivos. Capitán, repito, deu mostra de um amor que não é humano, pois este, o humano, é um bicho que reinventou a si próprio, se poupa a cada momento, não se gasta e, do alto de sua arrogância, jamais seria capaz de se entregar tão por inteiro.
Abaixo, transcrevo a história de Capitán, que retirei de um portal dedicado a contar relatos da vida desses seres tão especiais (a notícia também foi publicada no jornal Clarín, dentre outros), tão próximos de Deus, porém, tão maltratados diariamente - assim como a natureza -, por humanos que só veem Deus no invisível.

Morreu o cão que guardou fielmente o túmulo do dono durante dez anos



Capitán é o nome do cão mais conhecido em Villa Carlos Paz, uma província de Cordoba, na Argentina. O animal morreu no mesmo cemitério onde o dono está sepultado, depois de ter passado dez anos a guardar o seu túmulo.

“Nunca vi uma coisa assim”, disse Marta Clot, florista do cemitério, ao “20 minutos”, recordando em lágrimas Capitán, que com 16 anos, depois de vários problemas de visão e complicações articulares, morreu.
O cão foi uma prenda de surpresa de Miguel Guzmán ao filho Damián. Um ano depois, em 2006, Miguel morreu e o cão desapareceu de casa, regressando algum tempo depois, permanecendo junto à casa da família.
O animal voltou a desaparecer e a família pensou que tinha morrido ou fora adotado por outras pessoas, até que o encontraram no cemitério, deitado no túmulo de Miguel. “De certeza que veio procurar o dono”, disse a florista.
Tendo em conta que o cão viveu grande parte dos últimos dias no cemitério, várias pessoas pedem para que os restos mortais do animal sejam depositados no cemitério. Para que isso seja possível, será necessária uma autorização especial.[2]


[1] LISPECTOR, Clarice. “A menor mulher do mundo”. In: Laços de Família: contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, pp. 77-86.






sábado, 25 de maio de 2019

A Slow Science Academy e os congressos predatórios nas universidades brasileiras


Na terça-feira desta semana, levantei-me de madrugada e peguei um ônibus para uma viagem de aproximadamente seis horas. Meu destino? Um congresso na capital mineira, Belo Horizonte. Lá chegando, dirigi-me para a sala na qual apresentaria meu trabalho, resultado de meses – para não dizer anos – de leitura, reflexão e escritura. Logo no início dos trabalhos nos informaram (éramos três pesquisadores alocados na sala) que cada um teria no máximo vinte minutos para a apresentação de seu trabalho. O público, em geral exíguo nessas ocasiões, foi informado de que teria dez minutos para perguntas, caso pretendesse fazê-las, porque a sala deveria ser liberada em seguida, sem atrasos na programação, assertiva bastante desmotivadora para qualquer criatura que se atrevesse a fazer uma questão. Não é preciso dizer que o modelo é obsoleto. Alguém se lembra do golpe que políticos, especialmente vereadores, aplicavam – ou aplicam – nas prefeituras, dizendo participar de congressos, para os quais recebiam diárias exorbitantes, mas na verdade saíam a turismo?

Pois bem, no nosso caso, nós pesquisadores, haja vista esse governo desalmado afirmar que nas universidades faz-se muita balbúrdia, não fizemos turismo e não tivemos diárias; alguns, mal recebem algum caraminguá para inteirar o transporte - e devo dizer que pesquisadores cruzam o país para participar de tais congressos, dada a pressão constante que têm sobre as costas para publicar. A publicação, não é preciso dizer, tornou-se o indicador que regula toda a vida acadêmica. Pesquisadores com bolsa produtividade pairam nas alturas e, de lá, lançam seu olhar oblíquo sob seus pares, a despeito de todo o discurso de igualdade.
Não é preciso dizer que, a exemplo dos congressos predatórios e caça-níqueis – sim, caça-níqueis porque a impressão que se tem não é a de que tais congressos fomentem o conhecimento por meio de uma análise conjunta, em que pesquisadores de diferentes lugares compartilhem suas descobertas e reflexões, mas a de que um grupo de pesquisadores-organizadores à caça de menções no Lattes, diga-se, em busca evidente de mostra de produtividade, submetem outros ao pagamento de inscrições para uma reflexão inexistente, para inglês ver – a superprodução de artigos e revistas, no quesito qualidade, tem muito pouco a oferecer.
O produção científica, estima-se, cresce a uma taxa anual de 5% sob a batuta exigente do sistema de avaliação acadêmica. Há casos de professores-pesquisadores que outrora produziram estudos interessantes e hoje, abrigados sob relativa nomeada, publicam artigos e livros bastante medíocres, sem qualquer rigor, às vezes, em um incessante autoplágio, e tudo isso com o objetivo de turbinar seus curricula.
Sei de periódicos nos quais muito do que se publica sequer passa por uma avaliação dos pares. Outro truque muito usado pelo pessoal da academia é o célebre salami slicing, qual seja, produz-se um estudo científico e depois começa-se a fatiá-lo em artigos de dez, doze, quinze páginas. E isto não é comum só nas humanas não, o pessoal que nos olha atravessado, por exemplo, não entendendo porque também nos consideramos cientistas, faz disso prática rotineira. O resultado, não é preciso dizer, é muitas vezes errôneo – e tudo por causa da ânsia da publicação. Tome-se por exemplo os departamentos de literatura, local em que os textos literários sequer são analisados; os clássicos não são mais lidos, faz-se leituras impressionistas de textos pobres (não generalizo, é claro, há muitos autores contemporâneos bastante interessantes) tentando ajustar a causa ao poema - fulana é exaustivamente estudada porque nasceu pobre, fulano porque é gay... e por aí vai.
Como tudo parece ecoar no buraco tupiniquim - os estudos multiculturalistas e pós-colonialistas, por exemplo, apareceram por aqui cerca de três décadas depois de os americanos terem começado a espernear nessa areia movediça -, ninguém ainda fala sobre a Slow Science Academy, iniciativa para desacelerar o ritmo da produção científica que, há quase uma década, começou a ser discutida em Berlim.
Não se trata de barrar o progresso da ciência, o manifesto de Berlim é claro sobre a questão: “Dizemos sim ao fluxo constante de publicações de revistas de revisão por pares e seu impacto, dizemos sim à crescente especialização e diversificação em todas as disciplinas. No entanto, afirmamos que isso não pode ser tudo. A ciência precisa de tempo para pensar. A ciência precisa de tempo para ler e tempo para falhar. A sociedade deve dar aos cientistas o tempo que eles precisam, mas o mais importante, os cientistas devem tomar seu tempo.” Parece-me que ainda não descobrimos a importância de se promover uma pesquisa mais reflexiva e pausada – por isso não culpo os organizadores do congresso supramencionado com suas apresentações the flash. Mas deviam saber!
Por fim, fica uma grande incógnita: em uma época marcada pelo visual, em que plataformas de internet limitam o número de caracteres, alunos universitários são afeitos ao control c control v, a quantidade se sobrepõe à qualidade, como produzir conhecimento sendo que o processo da ciência é lento, constante e metódico?


Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/a-slow-science-academy-e-os-congressos-predatorios-nas-universidades-brasileiras/

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Educação: o pomo da discórdia

Educação é um daqueles temas fronteiriços, essenciais – para não dizer, letais -, por isso atrai sonhadores, idealizadores e oportunistas. Fronteiriço porque a ele estão sujeitos o desenvolvimento ou o atraso de um país; essencial porque dele depende a riqueza ou a miséria intelectual – e econômica – das pessoas que habitam esse país; letal porque implica a sabedoria com que são analisadas, pensadas e colocadas em prática por seus cidadãos as ideias a respeito dela.
Em todo o processo, sobretudo porque a educação é uma planta cuja semente demanda solo fértil onde possa ser fecundada, o cultivo das ideias é campo aberto a oportunistas. Dentre esses, brotam como erva daninha – a célebre tiririca – os políticos e sua militância. A maioria, de fato, não é afeita à educação, mas em períodos eleitorais traz o tema à baila e faz dele sua maior promessa de campanha. Nessas épocas, o empenho e a preocupação dos políticos com a condição da educação e os professores chega a ser algo comovedor. Eleitos, são os primeiros a cortar e desviar verbas da educação. Quantos prefeitos já não ganharam os holofotes da imprensa por desviarem verbas da merenda escolar? Dito isto, a fronteira entre a pesquisa científica e o discurso interessado torna-se bastante tênue, razão de incompreensões, desentendimentos e desavenças.
Distantes dos centros do poder, das negociatas, dos ardis e da pusilanimidade da política, o povo, nas redes sociais, tenta ser participativo, e, via de regra, mete os pés pelas mãos.
Ontem, ao correr os olhos por uma rede social, li a publicação de um senhor, a meu ver sério, comprometido com a causa animal, alguém que dedica parte de seu tempo com a família e o lazer no resgate de animais abandonados, assim como compromete parte de seu orçamento na compra de remédios e alimentos para cães, gatos, cavalos e pássaros. Pois bem, ontem, R... publicou: “Estudantes? Massa de manobra para partidos da esquerda. Como é triste ver jovens sendo tão alienados assim. Faculdades lotadas de parasitas, gente que nada produz, que nada será e tão pouco estão (sic) se importando com o futuro deles próprios (sic) e muito menos do nosso país.” É claro que R... não sabe o que diz. R... nunca pisou em uma universidade, não sabe o conhecimento que ali se produz. R..., durante toda a sua vida não fez outra coisa além de trabalhar, trabalhar e trabalhar. Assim como eu, é muito provável que R... tenha ouvido quando pequeno que “a faculdade não é para você, é para os ricos, nós temos é que sobreviver”.
R... desconhece o esforço do trabalho intelectual. Trabalhar para R... é algo que implica cansaço físico na produção e na repetição de movimentos, por exemplo. R... não conseguiu romper a barreira da ignorância que o sistema teima em perpetuar e tornou-se, ele próprio, um alienado e objeto de massa de manobra. R... está reproduzindo o discurso em que os oportunistas fizeram-no acreditar. Tivesse R... a oportunidade de se sentar em um banco universitário, pensaria ele de outro modo e, vejam, só isso já é perigoso para os oportunistas, porque o fato de ali se sentar e começar a pensar implica desconstruir os sofismas dos quais se constituem o discurso dúctil.  
É claro que nas universidades habitam parasitas, mas eles são exceções. Para um professor que engana em sala de aula, não escreve artigos científicos há meia década e alimenta seu Lattes às custas de TCCs de graduandos e artigos de mestrandos e doutorandos (quando orienta), há seguramente um dezena que se esfola, dorme tarde da noite, não têm finais de semana e feriados e vive preocupada em manter certa pontuação para que dela possa garantir a viabilidade de projetos e bolsas para estudantes de iniciação científica, mestrandos e doutorandos. Essa gente tresloucada produz ciência e conhecimento, é o motor que faz girar as engrenagens do país. E digo mais, se há um grupo abjeto e parasita, é o grupo da canalha política. Este, desvia e consome muito mais riquezas produzidas pelo país que as universidades e a educação em seu conjunto. Portanto, lamento que até mesmo R..., um homem de bem, tenha se deixado levar por tal engodo.
Não preciso dizer que R... comprou um problema: ainda que tenha excluído seu comentário, antes foi crucificado e achincalhado por uma centena de internautas, alguns dos quais, creio eu, socorreram-no anteriormente quando precisou de ajuda para o resgate de um ou outro animal desgarrado e maltratado. Como punir R... por pensar assim? Tentar convencê-lo a repensar sua opinião e seu ponto de vista mostrando como as coisas de fato são, penso, seria o correto. Mas a guarda pretoriana composta de internautas ensandecidos – também ela, objeto de manobra - não perdoa. A “justiça” virtual sentencia sumariamente, não é compreensiva e não tem tempo para isso. Condena, xinga, avilta e coloca o réu no paredão. Nada de direitos humanos. Sinto, mas é provável que o pedido de ajuda de R..., na próxima vez em que precisar socorrer um cão ferido e maltratado, não terá eco nem ressonância. 


Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/educacao-o-pomo-da-discordia/

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ano que vem, em Jerusalém!


A vírgula, no icônico cumprimento, não sei há ou não. Procurei aqui e ali e não a encontrei, mas resolvi introduzi-la porque, ao menos para mim, imprime certa esperança entre o futuro incerto e o desejo profundo. O povo israelita é marcado pelas diásporas. A diáspora, segundo a Bíblia, deveu-se à rebeldia de Israel e Judá para com Deus. Como disse semana passada, Deus não suporta ser contrariado, então, o que fez ele com o povo de Israel? Puniu, tirou-lhes a terra que lhes prometera. Espalhou-os pelo mundo até que, arrependidos, retornassem para a obediência a Deus. Metafísica de lado, para a História Moderna a diáspora judaica foi resultado do confronto do povo judaico com outros povos que tentaram subjugá-lo culturalmente e ocupar seu território.
A primeira diáspora ocorreu no século VI a.C., quando Nabucodonosor II invadiu o reino de Judá, destruiu o Templo e deportou os judeus para a Mesopotâmia. História Antiga que, quando adolescente, estudei na escola pública – acreditem! A segunda diáspora, que também aprendi no ginásio, ocorreu com a invasão romana no ano 70 d.C. e, repeteco, os judeus foram novamente espalhados por todo o planeta.
O porquê dessa história hoje? Bem, coincidências. Voltei às releituras ao preparar um curso sobre “História, Memória e Literatura”. Reli obras da adolescência, li história, teoria e biografias. Também resolvi falar sobre isso porque o Israel moderno completará 71 anos daqui a quatro dias!
Não vou comentar sobre a Shoah, o Holocausto - espero que ainda ensinem sobre isso nas aulas de história. Em tempo: àqueles cujo antissemitismo jaz sob a epiderme, informo-os de que não sou judeu, mas não teria vergonha alguma em sê-lo, sobretudo porque tenho imensa admiração por este povo tenaz, resistente, perseverante e empreendedor.
O IDH de Israel é considerado “muito alto” (22.o) e seu PIB nominal é de 373,751 bilhões de dólares. A título de comparação, o Brasil tem um IDH considerado alto (79.o) e um PIB de 2,141 trilhões de dólares. Estamos bem, não estamos? Pois então considere a população e a área dos dois países e verá que rolamos ladeira abaixo. Considerem ainda o fato de que nossas crianças não foram alvos nazistas, nossos pais e mães não foram mortos aos milhões em câmaras de gás e transformados em barras de sabão, bem, sei lá, não sei se estamos tão bem assim. E olha que junto com esses judeus foram destruídos centros de fé, estudo e erudição judaicos, geradores de gigantes nas artes, ciência e literatura.
Relendo a biografia Minha Vida, de Golda Meir, é impossível não compactuar da amargura da autora com os dias de hoje (e era 1975!), quando o “mundo preferiu adotar o terrorismo árabe de fascínio”. Sob o poder de fogo árabe desde as vésperas de sua independência, Israel conseguiu - dentre outras coisas - fazer brotar árvores no deserto, algo que até hoje somos incapazes de tentar no semiárido brasileiro. Ao reler Exodus, de Leon Uris, um misto de ficção e história, no volume II, Livro IV, capítulo II, o autor relaciona falas de personalidades árabes e manchetes de jornais no dia seguinte à aprovação da partilha da Palestina pelo Conselho das Nações Unidas. Leia, reflita sobre a tolerância, pergunte a si mesmo quem o aliena, reveja sua cultura facebookiana e tome suas próprias conclusões:

·        Kuwalty, Presidente da Síria: “Morreremos pela Palestina!”
·   Al Kulta, jornal do Cairo: “Quinhentos mil iraquianos se preparam para a Guerra Santa. Cento e cinquenta mil sírios atravessarão as fronteiras da Palestina e o poderoso Exército egípcio empurrará os judeus para o mar, se eles ousarem declarar seu estado.”
·    Jamil Mardam, “Premier” sírio: “Parem de falar, irmãos muçulmanos. Levantem-se e deem cabo da praga sionista.”
·    Ibn Saud, Rei da Arábia Saudita: “Somos cinquenta milhões de árabes. Que nos importa perder dez milhões, se conseguirmos matar todos os judeus? O preço vale a pena.”
·     Seleh Harb Pasha, Juventude Muçulmana: “Desembainhai as espadas contra os judeus! Morte a todos! A vitória é nossa!”
·     Xeque Hassan Al Bannah: “Todos os árabes se erguerão para aniquilar os judeus! O mar ficará juncado de seus cadáveres.”
·    Akram Yauytar, porta-voz do Mufti: “Cinquenta milhões de árabes combaterão até a última gota de sangue.”
·   Haj Amin El Husseini, Mufti de Jerusalém: “Eu declaro Guerra Santa, irmãos muçulmanos! Morte ao judeus! Morte a todos eles!”
·    Azzam Pasha, secretário-geral da Liga Árabe: “Esta será uma guerra de extermínio e massacre que ficará na história, como os famosos Massacres Mongóis.”

Dito isto, leitor, é compreensível que a esperança tenha lá seu cumprimento: “Ano que vem, em Jerusalém!”



sexta-feira, 3 de maio de 2019

Desejos mórbidos


O homem é um animal singular e complexo. Preocupa-me bastante o verso bíblico que afirma nossa semelhança com o Altíssimo: éramos, na origem, tão vis quanto somos hoje? À pergunta, minha consciência cristã refuta qualquer afirmativa, caso contrário, nosso Deus seria mais vingativo e cruel do que comumente se mostra. Não me entenda errado, leitor: a crueldade divina é necessária, haja vista sua criação ter extrapolado limites que até mesmo a metafísica imaginou.
O homem é um ser vil, não saber conviver com as diferenças, sejam elas de ordem moral, sejam físicas, e quando digo físicas, não me refiro às comparações entre si, mas às espécies que são obrigadas a dividir o espaço com a pusilanimidade humana.
O homem – não generalizo, falo da grandessíssima maioria (caso em que a redundância cai como uma luva) – tem um dedo infecto, em tudo o que toca, adoece e morre! O homem alimenta um desejo mórbido pela tortura, o extermínio, a morte. Já li sobre pessoas cujo único pensamento é a morte. Fazem dela irmã e companheira. A morbidez, afirmam os especialistas, surge em contraposição ao desejo biológico da vida. Mas, vejam, pensar em morrer, acabar com a própria existência é uma coisa, destruir, exterminar tudo o que está à sua volta por interesse próprio, almejando o vil metal ou qualquer outra coisa como o prazer doentio de ver sua vítima ofegante, isso é uma vilania de outra ordem, abjeta, não humana, mas que também não é animal!
Li que na Austrália, o governo pretende exterminar cerca de dois milhões de gatos selvagens. Até 2020, tencionam há de perecer cerca de um terço de todos os felinos “vadios” do país. Em Queensland, no nordeste, há a recompensa de dez dólares australianos por animal morto. Por que matá-los? Ora, porque os consideram destruidores da vida animal. E o homem? O homem, além de não destruir a vida animal, mata por prazer, e isso é nobre, já os gatos, bem, os gatos precisam comer; afinal, porque gatos precisam comer? Isso é tão comum!
Hoje li em um site português que um milhão de espécies estão em risco de extinção, muitas delas desaparecerão nas próximas décadas. “Nós precisamos de reconhecer que as alterações climáticas e a perda de [diversidade] natural são igualmente importantes, não apenas para o ambiente, mas também como fatores econômicos e de desenvolvimento”, declarou à France Presse Robert Watson, líder da equipe das Nações Unidas responsável pelo relatório, acrescentando, sem se referir às conclusões constantes do estudo, que “a forma como produzimos os nossos alimentos e energia está a desregular [os processos naturais] e os bens que obtemos a partir da natureza.”
No Brasil, a morbidez do homem tem sido particularmente cruel para com os animais e a natureza. Há deputados fiéis a Deus empenhados na morte – falo da legalização da caça. Em meio aos horrores publicados na imprensa quotidianamente, a notícia de hoje é encabeçada pelo projeto de lei elaborado pelo filho de sua eminência parda, o senador Flávio Bolsonaro (PSL) e seu comparsa, o senador Mário Bittar (MDB). Ambos, por meio do projeto, pretendem revogar as normas referentes à proteção da vegetação nativa nas propriedades rurais.
Não é preciso dizer que matas, florestas e a vida selvagem perecerão a olhos vistos, mas os parlamentares, autores do projeto, argumentam que é preciso abdicar da proteção às matas e toda vegetação nativa para garantir o que chamam de “direito constitucional de propriedade”. Traduzindo: garantir o lucro. O Código Florestal atual permite o uso sustentável dos recursos naturais nessas áreas, com desmatamento restrito e percentuais mínimos de preservação. O que querem os senhores F. Bolsonaro e M. Bittar é avançar o desmatamento em proveito da exploração desenfreada, sem qualquer respeito à vida.
O desejo mórbido que envolve politiqueiros, agronegócio – este, representado pela Menina Veneno – madeireiros e contrabandistas de madeira de lei e animais, não é outro senão o da morte – para os outros.


terça-feira, 30 de abril de 2019

Formados e iletrados


Em busca do carro das ideias corro os olhos pelas notícias produzidas ao longo da semana. Acostumado à manipulação de periódicos antigos e recentes, noto a flagrante ruptura ocorrida com a ocorrência da internet. Refiro-me à interação responsiva do leitor. Em grandes periódicos impressos ainda resistem as seções “Painel do Leitor” ou “Carta dos leitores”, que muitos já tratam como gênero textual.
Esses leitores comentaristas e críticos maturavam suas ideias ao escrever, qual seja, supõem-se que liam os textos, senão demoradamente, mas em sua integralidade, antes de se comunicarem com os jornais. A interlocução era mais demorada, o que, acredito, impunha certo filtro aos comentários. Havia opiniões que extrapolavam a simples manifestação da concordância e ou discordância da matéria, estendiam a discussão proposta provocando uma interação que acabava por abarcar um grupo amplo de leitores e, com isso, criava-se um diálogo em que o objeto em questão era analisado em seus diferentes aspectos. Isso, em muitas das vezes, destituía a parcialidade primeira imposta à matéria.
Hoje, contudo, com a agilidade impressa aos meios de comunicação, sobretudo sites de notícias que permitem a opinião instantânea do leitor, algo mudou. Há certa impaciência na leitura de textos um pouco longos. Quando digo ‘um pouco longos’ refiro-me a textos que dobram ou triplicam a quantidade de caracteres imposta pelo Twitter, por exemplo. Nesse novo formato não se tem mais tempo para pensar sobre o que se está lendo e o resultado disso tudo é um circo de horrores que se materializa nos comentários.
A opinião dos leitores é rasteira, superficial e, não bastasse isso, vem acrescida de uma enormidade de erros gramaticais. É certo que os adeptos da Escola do Ressentimento defendem a ideia do preconceito linguístico, mas não estou falando disso, até mesmo porque, dependendo do viés, isto pode ser desmontado como um castelo de cartas. Em tempo: considero a existência do preconceito linguístico, mas é incompreensível que alunos saiam de curso universitário escrevendo como escrevem nos comentários que deixam ao final das matérias em sites de notícia. É lamentável! Mesmo o ensino superior (falo dos departamentos de letras, os outros, só Deus na causa!) passou a só instrumentalizar: lê-se para ler manuais, bulas e informativos. Se não generalizo é porque justaponho ao lado da redundante “grande maioria”, uma minoria perdida quase extraterrestre.
Ginecomastia, fotofobia, dor abdominal superior, constipação, boca seca, disgeusia, dispepsia, astenia, calafrios, fadiga, fogacho, mal-estar, pirexia icterícia, reação anafilactóide, hiperlipidemia, aumento do apetite, mialgia, tontura, parestesia, calor, formigamento, sonolência, insônia, nervosismo, epistaxe, eritema multiforme, prurido, erupção cutânea, urticária, xeroderma, hipotensão ortostática etc, são alguns dos sintomas que o leitor ou alunos sentem face a um texto que demanda algum tempo e alguma reflexão.
Nesses tempos de intensa cultura massa e pasteurização do conhecimento, em que clássicos são reduzidos a extratos e textos de duas colunas dão conta de assuntos complexos, que não pedem mais que dois minutos de leitura, é impossível não se lembrar de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury e citá-lo de memória sem aspas nem nada!
Os alunos saídos hoje da universidade, tornam-se leitores preparados para a leitura instrumentalizada de manuais, bulas e informativos, porém, ao sair, acreditem, mostram-se pouco íntimos de livros que têm textura e poros. Os poros, para Bradbury, significam qualidade e qualidade muitas vezes traduz-se por clássicos. Para quem não sabe, nos departamentos de letras há a tchurma especializada em refutar os clássicos. Ocorre que esta espécie de livro têm feições, diz Bradbury, e as feições nem sempre agradam à massa bovina e frívola que quotidianamente se movimenta como títeres e cuja preocupação é a expressão, o elogio ou a crítica que pode ferir o outro, não pela intenção, maldade, exploração ou preconceito, mas porque o discurso montado pela Escola do Ressentimento assim o quer. E voilà, continuamos todos bem informados, mas pensamos pouco, bem pouco. Afinal, a ignorância é tranquilizadora e traz a felicidade que todos procuramos.

Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/formados-e-iletrados/

Quasímodo chorou


A semana não foi das melhores para os amantes das artes: na segunda-feira à noite a Catedral de Notre-Dame de Paris foi parcialmente consumida pelas chamas, deixando atrás de si uma multidão dividida: os consternados com a tragédia e os que boquejaram quando começaram a afluir os donativos para a restauração da centenária Catedral.
A pobre e maledicente turma do boquejo, penso, deve ser ignorada, até mesmo porque não estou aqui para falar da Escola do Ressentimento. Os estudantes islâmicos da UNEF, tênias no estômago francês, e os muçulmanos que comemoraram o incêndio são provas da existência de um radicalismo doentio e de uma intolerância perversa, por isso e só por isso, são-me indiferentes.
A Catedral, cuja construção começou no ano de 1163, pelo bispo Maurice de Sully, é inspiradora e frequentou as melhores páginas da literatura e da poesia francesa. Rabelais, Peguy, Claudel, Nerval e Balzac são alguns dos que se inspiraram na Notre-Dame.
Talvez a obra que maior repercussão deu à Catedral foi Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo. Um dos protagonistas da trama, o corcunda Quasímodo, é uma das personagens mais feias e populares da história da literatura; coxo, ensurdeceu devido à atividade de sineiro dos sinos de Notre-Dame. Quasímodo também é a chave para a justaposição do grotesco e do sublime em Notre-Dame de Paris, algo que Hugo faz de modo extraordinário.
Na segunda-feira, Quasímodo chorou.
Cego de um olho, aos quatro anos Quasímodo é abandonado pelos pais por causa de suas deformidades físicas. Recolhido pelo padre Claude Frollo, a ele se dedica inteiramente, passando a morar na catedral de Notre-Dame. Quasímodo, o nome, recebera-o de Frollo em referência à festa homônima, celebração católica realizada no primeiro domingo após a Páscoa, porque este fora o dia em que o padre o encontrara. O pequeno abandonado tornar-se-ia um dia o responsável pelo badalar dos sinos da Catedral.
Rejeitado pela multidão, que não apreciava ver um corcunda, caolho e coxo circulando por entre ela, Quasímodo pouco se aventurava pelos espaços exteriores, limitando-se a uma autoclausura na Catedral. Aos 20 anos, apaixona-se pela cigana e dançarina Esmeralda, que, por sua vez, encanta-se pelo oficial da guarda Phoebus.
Frollo também apaixona-se pela cigana e, louco por ter sido desprezado por ela, entrega-a à justiça. A caminho da forca, Quasímodo tentará salvá-la, levando-a nos braços para a Notre-Dame, que, na condição de igreja, era lugar de asilo.
Após a execução de Esmeralda, Quasímodo, que assiste a cena do alto das torres, joga Frollo no vazio; depois, morre ao lado do corpo de Esmeralda, onde eram depositados os restos dos torturados.
Assim como Frollo, partes da catedral caíram no vazio. Assim como Esmeralda, a Catedral foi consumida pela ignorância. Assim como Quasímodo, choramos a morte da arte e da inspiração e morremos um pouco em meio à mediocridade.

Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/quasimodo-chorou/

sábado, 20 de abril de 2019

As delícias do sexo a três


Leitor obtuso, por mais que você se esconda na crosta da hipocrisia moral e religiosa que protege a sagrada família brasileira, estou certo de que tem lá os seus segredos. Não há quem não os tenha. Revelá-los, fica por conta de alguns poucos corajosos. Para outros, no entanto, a literatura e as artes são espaços para inconfessas confidências. Leitores são como matilhas, dividem-se em grupos: alguns, amplos e populares; outros, restritos, diminutos, mas todos dispostos à caça. Há grupos que saem à noite em busca da carne tenra, apetitosa, promíscua e pecaminosa; há outros que procuram mistérios, desejos gozosos e recônditos, dissimulados nas entrelinhas, nas dobras da páginas, nas curvas macias das lombadas, sob a contra capa e as cantoneiras. O foda é que até mesmo esse grupo de leitores chegou à conclusão de que a literatura séria é coisa para poucos, muito poucos, arcaísmo quanto o latim, embora escrita em vernáculo.
Quem lê Guimarães, Machado, Hilda Hilst? Poucos, creiam-me. Hoje, nem mesmo escritos sobre a boa literatura atraem leitores. A prova, encontrei-a nas asneiras que semanalmente aqui escrevo.
Quando falo da perversão religião ou dos prazeres do cu, o público leitor aumenta: a primeira, arrisco, desperta a ira de fanáticos, saudosos da santa inquisição; os últimos, desperta nos que leem a busca por alguma correspondência, afinal, uma cunilíngua e uma borboleta paraguaia devem ter lá sua nesga simbolista.
Não sou Hilda Hilst, mas estou certo de que o leitor quer mesmo é bandalheira. Corri os olhos pelos sites de notícia e a matéria mais lida tratava-se da suruba da Anitta. O livro Furacão Anitta, de Leo Dias (?), uma biografia “não autorizada”, sequer despertou o interesse do público, mas o comentário de que a celebridade gosta de transar a três viralizou. A ressalva, feita pelo jornalista, foi que Anitta não fizera ménage durante o casamento, afinal, nossa hipocrisia tem limite. Um ménage aqui, uma suruba ali, tudo bem, mas nem tudo deve ser dito e feito, sobretudo no sagrado do lar.
Hilda Hilst afirmou um dia que só começou a escrever bandalheira em razão da escassez de leitores para sua literatura séria. Não estava errada: a literatura séria obriga a reflexão e o leitor sedento de pornografia gosta mesmo é de putaria e bandalheira! Refletir? Não, jamais!
Mas caiu do cavalo aquele leitor que cavalga em espaços sujos, promíscuos e pegajosos do gozo anterior de prostitutas e prostitutos, de pais e mães de família. A escritora não! Hilda não se dá a tanto, não se rebaixa. Sua literatura oferece níveis, degraus a subir: engana-se o leitor que está só à procura da devassidão, da transgressão e do sujo.
Hilda aproxima o divino do profano: toda a sujidade daquele que foi feito à semelhança de Deus é escancarada. “Deus é quase sempre essa noite escura, infinita. Mas ele pode ser também um flamejante sorvete de cerejas. É uma escuridão absoluta, mas de repente te vem uma volúpia doce lá dentro.”[1]
Em Estar sendo, ter sido (1997), Hilda, apresenta Deus no lugar mais improvável – e reprovável -, porém o mais desejado pelos leitores sedentos de pornografia. Face à morte e delirando, o velho Vittorio repensa a vida e, obstinado com a ausência do Deus que o habita, pede a empregada que procure vestígios do sagrado em uma parte de seu corpo na qual jamais imaginaríamos experimentar a presença de Deus:
[…] sabe, Rosinha, ele está aí dentro, estou sentindo
onde seo Vittorio, onde?
No meu cu, idiota, ah, está bem, não chora, já vi que você não entende nada de deus, eu precisava é falar com Dom Deo, mostrar-lhe o único buraco aqui na Terra onde deus habita.[2]
Ao leitor que renega a literatura, mas gosta de uma putaria, um pouco de reflexão: se és feito à semelhança de Deus, teu corpo é obra divina, teu cu é obra divina! E nem vou perguntar se Deus tem cu.
Até nossos próximos encontros gozosos – caso apareça, leitor -, e, para justificar o título, que venha acompanhado!



[1] Entrevista concedida a Caio Fernando Abreu, em 1987. Em: Fico besta quando me entendem, 2013, p. 99.
[2] Estar sendo, ter sido, 2006, pp. 101-102.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Livros das sagas Harry Potter e o Crepúsculo são queimados em auto de fé na Polônia


Não, leitor, não se trata de mais um ato das Inquisições Espanhola e Portuguesa, mas sim de mais um episódio em que a ignorância, despudoradamente, grassa sob nossos olhos, na tentativa de reforçar algum obscurantismo em almas ainda guiadas por certa metafísica teológica ou pura carolice, seja lá o que isso for.
O fato é esta semana sacerdotes católicos queimaram livros das sagas Harry Potter e Crepúsculo, na cidade polonesa de Koszalin. Os clérigos consideraram-nas sacrílegas e justificaram seu ato afirmando a necessidade e “obedecer à palavra divina”. Esses religiosos, oriundos de um grupo denominado ‘SMS dos Céus’, sustentam que os livros promovem a bruxaria. Leitor, se você vislumbrar nisso ecos medievais e inquisitórios, mantenha a sanidade, estamos sim em 2019. Não é delírio!
A cerimônia, promovida pelos padres católicos, foi fotografada e publicada no Facebook, o que provocou fortes reações. Nas imagens, vê-se três sacerdotes que levam uma cesta de livros, incluindo alguns da série Harry Potter, de J. K. Rowling, e do vampiro Edward Cullen, de Stepheine Meyer. No auto de fé, enquanto os padres entoam rezas, ardiam na cesta, além dos livros, outros objetos, como uma máscara de estilo africano, um guarda-chuva da Hello Kitty e uma estatueta hindu.
Na publicação,  os integrantes do ‘SMS dos Céus’, reproduzem uma parte do Deuteronômio, um dos livros do Antigo Testamento, cuja frase “vocês queimarão seus ídolos com fogo”, justifica a ação dos padres, que exortam os fiéis a destruírem os “inimigos de Deus”.
A ação é controversa, é claro, sobretudo porque intolerantes e fanáticos arrogam-se o direito de falar em nome de Deus. A pergunta que me vem ao espírito é rasteira: “Qual Deus?” A narrativa, leitor, é a mesma que se espraia em nosso torrão tupiniquim, em que uma certa autoridade do MEC (contratada, demitida e não empossada), julga-se no direito de atribuir apostos a Deus, fazendo do Altíssimo matemático e geógrafo. Por sua vez, Jan Kucharski, exorcista e pároco de Gdansk, no norte da Polônia, afirma que “não se tratava de queimar nenhum livro, mas objetos associados à magia e ao ocultismo”.
A Polônia, país beato que corroborou o genocídio judeu impetrado pelos nazistas, parece-me, tornar-se-á a mais nova teocracia na Europa, à moda de países do Oriente, com a diferença de que em vez da crescente, teremos a cruz; mas não se engane, a dose de intolerância e fanatismo será equivalente. Embora tenham recusado comentar o auto de fé, o episcopado e o bispo local reconheceram-no após sua visibilidade, afinal, antes de queimarem livros, amuletos e talismãs trazidos pelos fiéis, afirmaram que era “hora de colocar as coisas em ordem”.
A publicação do grupo religioso “SMS dos Céus” tornou-se viral e alguns fizeram comparações com a Alemanha nazista, referindo-se às queimas de livros de 1933, sob Hitler, quando vários intelectuais judeus e alemães pereceram em autos de fé. “Eu gostaria de pensar que isso é uma piada. Sério? Como as pessoas podem queimar literatura de fantasia no século XXI em um ritual de mau gosto?”, pergunta um internauta desorientado, perdido no tempo, e confuso com o obscurantismo. Por outro lado, outros aprovaram a ação dos padres: “Devemos parar a idolatria e o fanatismo que são contrários à nossa ética. Eu valido esta ação”, pode-se ler também.
Esta não é a primeira vez que a saga do mundialmente famoso mago Harry Potter atrai a ira de fanáticos religiosos. Por delírio de intolerantes, que acusam-na de suposto conteúdo oculto e satânico, a série de J. K. Rowling foi alvo de representantes de vários cultos. Nos Estados Unidos, por várias vezes tentou-se proibir Harry Potter. O debate ultrapassou as fronteiras americanas e o simpático mago teve-se que ver com os mais virulentos discursos de grupos evangélicos fundamentalistas de igrejas evangélicas, católicas, ortodoxas e anglicanas. Embora a oposição à série venha principalmente de cristãos, alguns países muçulmanos sentiram que os temas contidos na história conflitavam com a fé de Maomé. Em 2002, livros foram banidos de escolas nos Emirados Árabes Unidos.
J.K. Rowling negou várias vezes que queria atrair crianças para a bruxaria; em 1999, disse à CNN: “Eu não criei essa história para incentivar as crianças a praticar bruxaria.” Em 2000, ela, que nunca havia se pronunciado sobre sua religião, disse: “Sim, eu sou cristã, o que parece incomodar mais alguns religiosos do que se eu tivesse afirmado que Deus não existe”. A controvérsia, o fanatismo e a intolerância continuam, de modo que, se por um lado a autora vira e mexe é obrigada a se justificar; por outro, Fernando Báez, autor do vigoroso A Destruição universal da destruição dos livros, corre o risco de acabar com um livro obsoleto, isto, é claro, se não se dispuser a escrever mais alguns capítulos.