Revista Philomatica

sábado, 7 de setembro de 2019

As bruxas do SUS, ou as benzedeiras agentes de saúde pública


Às vezes, lembro-me dos meus tempos de menino. As lembranças, fluxos de memória involuntária, brotam do nada e o nada, é claro, não é nada parecido com a Madeleine do Proust, que descobri tardiamente. Às minhas reminiscências, juntam-se muitos capítulos de histórias ouvidas na infância que se tornaram referências e sustentação, fazendo de mim o que sou hoje. E hoje, adulto, felizmente sou traído pelo tempo que me lembra a todo o instante da sua passagem por meio de uma bobeira ou outra que alguém diz, um aroma, uma música... e quando vejo lá estou de novo vivenciando meus verdes anos. A meninice aflora e a nostalgia invade, por vezes, até mesmo as horas mortas, roubando-me o sono; então, faço-me menino, imaginando a delícia dos dias em que a preocupação da manhã seguinte era juntar os amigos e escolher os jogos e as brincadeiras daquele dia que, findo, parecia sempre ter sido o mais longo dos dias - até mesmo que os meus dias de hoje.

Terminadas as brincadeiras, banho tomado, barriga aquecida com a comida caseira preparada por minha mãe, nas noites agradáveis de primavera e verão, cercava-me de amigos e primos e, juntos, íamos sedentos à sobremesa que não era sorvete nem nada (não tínhamos uma geladeira), mas sim as historietas contadas pelos adultos que recontavam histórias ouvidas há muito ou rememoram suas próprias infâncias, sempre tomados pela saudade de aventuras perdidas na poeira do tempo. Sentávamos todos sob a lua e as estrelas (onde morava não tinha energia elétrica) e ficávamos atentos àquelas narrativas dos tempos de antanho: ouvíamos de tudo, a única regra válida era a de que uma história puxa a outra, e assim, atentos, passávamos horas embevecidos por relatos de pessoas cujas lembranças reduziam-se a nomes. Às vezes, um tio trazia à roda um Sr. Isidoro, que morava no “córgo” (córrego) da Anta... Identificados a personagem e o lugar, a história fluía. Não raro, eram histórias recheadas de elementos fantásticos: uivos não identificados que emergiam das matas, rodamoinhos, ventos inesperados, luzes intensas que apareciam do nada, chuviscos repentinos em noites quentes e secas, vozes assustadoras, imagens diáfanas (quase sempre mulheres, mas havia homens também) que se interpunham nos caminhos. Os caminhos eram sempre em meio às matas, trilhas de difícil acesso; até mesmo porque todos moravam, como dizia minha mãe, nos ermos, em lugares recém desmatados, isto em uma época em que desmatar e matar animais era a regra diária e ninguém se importava com isso. O vizinho do meu Tio João, que matara uma onça no sítio, era visto com respeito pelos outros moradores.

Ah, nessas histórias também era frequente uma personagem que, para nós meninos, à época, era terrível até mesmo imaginar que andasse pelas matas, o diabo. Sim, ele mesmo, o tinhoso, o capiroto, o pé-de-bode, o sete-peles, o renegado, e por aí vai. Ao ouvir seu nome em meio a uma narrativa, levados pelo medo, contorcíamo-nos todos, aproximávamo-nos uns dos outros imaginando que ele pudesse saltar do escuro e consumir-nos todos, meninos e adultos. Desconfio até hoje de que um vizinho azeitava suas histórias só para nos ver amedrontados. Mas isso é outra história; o fato é que ficávamos aterrorizados, porém, dominados por essas narrativas e à espera de seus desenlaces.

Ah, havia histórias fantásticas, como a do “Boi falô”, que data do tempo dos escravos, antiga... Tudo se passou em uma Sexta-feira Santa, quando o administrador da Fazenda Santa Genebra, ali perto de Campinas, pediu a um escravo por nome Toninho, que fosse até o estábulo pegar um boi para realizar seu trabalho do dia. Ali chegando, o escravo se deparou com o boi deitado no chão, tranquilo. Ao tentar pegá-lo à força, o animal, para espanto do homem, disse-lhe: “Hoje não é dia de trabalhar, é dia do Senhor!”. Aterrorizado, o escravo saiu o mais depressa possível dali e foi ao encontro do administrador; este, ao lhe perguntar sobre o boi, ouviu apenas: “O boi falô!”. Hoje, em Barão Geraldo, depois de a história correr de boca em boca, ser requentada e acrescida de pontos e mais pontos, às vésperas da Páscoa, moradores e visitantes se reúnem para comemorar e saborear uma tradicional macarronada em homenagem à lenda do “boi falô”. O porquê da macarronada fica por conta dos pontos, afinal quem conta um conto...

Ah, também havia histórias de bruxas e curandeiras. Estas, parece-me, deixaram os rincões, os lugares ermos, as matas e mudaram-se para os centros urbanos. Há festivais de bruxas, nos quais meninas e mulheres se travestem de bruxas – sempre, é claro, trajando figurinos à la Disney, com uma ou outra customização – e encenam danças em voltas de caldeirões, entoando canções um tanto esdrúxulas, tomando-se por seres especiais que povoam o universo apesar dos ridículos mortais que infestam a Terra mãe. As curandeiras, por sua vez, proliferaram-se por duas razões: o metafisicismo que desde tempos imemoriais conduziu as crenças humanas e a ausência da ciência, digo, um serviço de saúde justo e subvencionado pelo poder público, direito de todo cidadão. Junte-se as duas alternativas e voilà, as curandeiras tornaram-se agora agentes da saúde pública.

Ontem, ao acessar as redes sociais, o que leio? Leio que em algumas cidades do país há algum tempo benzedeiras, rezadeiras, curandeiras e costureiras de rendiduras (dores musculares) foram reconhecidas como agentes de saúde pública. Na prática, é o Estado reconhecendo aquele chazinho e aquela suave surra de ervas em substituição à saúde pública; trocando em miúdos: médicos, hospitais e postos de saúde.

Ao entrar na onda de ONGs que congregam benzedeiras, como a MASA (Movimento Aprendizes da Sabedoria), que cadastrou 161 em Triunfo (PR) e 133 em Rebouças (também PR), o poder público tira seu corpo fora e, para isso, conta com a ignorância de um povo acostumado ao falso conforto da mediocridade. Esta, como dizia Carpeaux, entre os homens é tão profunda quanto o oceano. A representante de uma das OGNs afirma que a iniciativa ajuda a combater o preconceito – e de quebra, é claro, rende alguns caraminguás às ONGs (algo que ela não disse, mas digo eu).

Ora, convenhamos, não se trata de preconceito, mas de pura obtusidade. Ao dispensar uma visita ao médico, o paciente pode, em muitos casos, retardar um tratamento, algo que lhe será fatal mais tarde – e nunca ouvi falar de uma benzedeira que tivesse ressuscitado um morto! No mais, não acredito que alguém que padeça com um câncer, ao levar umas chicotadas de arruda, saia de lá saltitante e curado. Respeito a fé, mas curandeira não substitui médico. Ao ler comentários efusivos com a volta da ancestralidade (que duvido, conheçam) e com hipotético despertar que está acontecendo, lembro-me do povo que tem se recusado a tomar vacinas e penso que até para a ignorância há limites. Digo isso aos meus botões e eles, no silêncio de suas casinhas, parecem concordar. Saravá!



Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/as-bruxas-do-sus-ou-as-benzedeiras-agentes-de-saude-publica/

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A internacionalização da Amazônia


Ô semaninha agitada essa! Com o fogo ardendo a floresta, a fumaça tornou-se estratosférica e tóxica. Não bastassem o monóxido de carbono e outros compostos químicos prejudiciais à saúde, a polarização gerada pelos incêndios acrescentou à fumaça alguma bílis, rancor, desinformação, muita falta de educação e boa dose de colonialismo. Sim, os interesses sempre falam alto nessas situações e o representante do país da liberté, égalité e fraternité, saudoso dos tempos em que o colonizador transferia sábios en mission para as incultas colônias, botou as garrinhas de fora.
Por outro lado, na réplica, um representante tupiniquim desinformado, inexperiente e obtuso, que alimentou o fogo e a fumaça com sua costumeira grosseria. Deu no que deu. O assunto foi o mais discutido, o mais escrito e o mais comentado pela turba que povoa o espaço das redes sociais. Enfim, não preciso retomar a opinião de Umberto Eco sobre a capacidade cognitiva da fauna que o habita...
Em meio a toda essa balbúrdia, alguns desencavaram um texto de Cristovam Buarque, insigne representante da política torva e sanhuda, mas também professor e engenheiro. Lúcido cidadão, parece-me. Buarque, que estava em uma universidade americana, ao ser perguntado sobre a internacionalização da Amazônia por um aluno que dissera querer ouvir a resposta não de um brasileiro, mas de um Humanista, respondeu:

De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Defendo a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!”
Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/a-internacionalizacao-da-amazonia/

sábado, 24 de agosto de 2019

Gênesis1 – A criação do céu e da terra e de tudo o que há na Amazônia


1. No princípio criou Deus os céus e a terra. [...]
11. E disse Deus: “Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela sobre a terra.” E assim foi.
12. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom.


No Gênesis, primeiro livro do Pentateuco, a narrativa bíblica não só é pautada pela repetição, como também é marcada pelo predomínio do lendário, afinal, como explicar a astúcia da serpente enredando Eva em uma prosa científica, prometendo-lhe o conhecimento? Serpente e Eva punidas, sobrou-nos o pecado original e as tentativas ad eternum de arrependimento, até que Darwin batesse o pé e os criacionistas os tambores.
Ainda que os criacionistas glorifiquem as maravilhas divinas, como a criação dos céus e da terra e tudo o que nela existe, parece-me, não respeitam Deus e sequer a sua obra. Mas isso não é de hoje. Para os homens dos séculos XVII e XVIII, a maior prova da existência divina era a natureza; toda a natureza, afirmavam, estava cheia de traços que ajudavam a conceber as coisas celestes e as verdades mais sublimes. Contudo, vieram os racionalistas e os materialistas, solapando a rocha sobre a qual assentavam as ideias metafísicas. Deus no que deus! O cientificismo, acreditando resolver todos os problemas das sociedades por meio do progresso e da industrialização, ignorou as maravilhas concebidas pelo Altíssimo. Deu no que deu! Com o tempo a própria ciência se deu conta de que a natureza era a fonte de muitas de suas realizações; feito isso, voltou-se para as ervas, seus frutos e suas sementes.
Enquanto os europeus, depois de passarem por duas guerras, verem o fim do comunismo e terem enfrentado atribulações de percurso, decidiram que era a hora de pintar de verde o seu território, nós, brasileiros, a passos céleres resolvemos colorir tudo de cinza e preto – como ocorreu esta semana na cidade de São Paulo, quando o dia virou noite em razão do corredor de fumaça oriundo das queimadas na Amazônia.
A floresta é a última das preocupações das forças políticas que se enfrentam e polarizam as opiniões no cenário político atual. A destruição das matas é explicada por ambas as forças, cada uma apresentando suas razões e ignorando a tragédia que ora vemos, sem que nenhuma delas tenha implementado qualquer ação para impedir o fim da flora e da fauna da Amazônia. Os interesses são diversos e ambas as forças lucram de uma ou outra forma. O descaso é tamanho a ponto de os moradores-desmatadores da cidade de Novo Progresso, no sul do Pará, terem instituído o “Dia do Fogo” (10 de agosto), cujo objetivo não é outro que o de queimar propositadamente a floresta, sob o silêncio abençoado do governo federal, que sustenta um discurso abjeto sobre a questão.
Não à toa, países como a Alemanha e a Noruega, que contribuem com milhares de euros para a preservação da floresta, ao se recusarem a continuar a abrir a burra para os brasileiros, têm sido achincalhados pelo presidente e seus asseclas. Nesses nossos dias de relativização da imprensa escrita, em que tudo é pautado pelo visual, é comum recebermos imagens com frasezinhas curtas incitando o ódio contra ambientalistas, além de afirmarem que os europeus só estão atrás das riquezas minerais que jazem sob a camada verde criada pelo Altíssimo.
Não sou ingênuo: o interesse existe, assim como existe a cobiça desenfreada das mãos nacionais e cristãs, cujos ouvidos eriçam ao tilintar do vil metal.
O resultado é que em razão da polarização das forças políticas, a massa, que pouco e mal lê, deixa-se levar por discursos construídos pelos salvadores da pátria de ontem e de hoje, e passa a viver em bolhas (também líquidas?), construindo grupos que se juntam a fim de analisar e refletir sobre situações específicas, porém, a prerrogativa para a admissão nesses círculos é a uniformidade das ideias. Tem-se então a igualdade de pensamentos, as pessoas falam como se estivessem frente a um espelho, que, refratário, lhes devolve a mesmíssima coisa, e todo mundo fica feliz.
A circulação - e a evolução - das ideias exige contrapontos, reticências, desacordos, mas, porém, contudo, todavia... Nesta semana a imprensa divulgou comparação de pontos de vista de duas figuras do cenário político nacional a respeito do desmatamento na Amazônia. Os comentários, no site em que foi publicada, dão conta do que eu disse acima e mostra a intolerância construída entre pares que dizem e ouvem sempre um pouco mais do mesmo.
A despeito das variantes que envolvem o cotejo de opiniões publicado na imprensa, parece-me que no momento ninguém está interessado na diversidade dos discursos, na alteridade, na divergência de opiniões e no que pode advir disso. Encastelam-se em suas opiniões e sustentam as primícias do “eu e eles” e da “verdade absoluta”, nas quais o “eu” sempre prevalece, esquecendo-se de que o que move o homem são os interesses - e política é política. Não por outra razão Adorno nos advertiu um dia para desconfiarmos das ideologias, tenham elas o matiz que tiverem.
Abaixo, reproduzo os pontos de vista mencionados acima só para provocar, só para furar a sua bolha, caro leitor:

Lula: “Fico pensando que a Amazônia é que nem aqueles litros de água benta que tem na igreja: todo mundo acha que pode meter o dedo. Nós não podemos permitir que as pessoas tentem ditar as regras do que a gente tem que fazer na Amazônia.”

Bolsonaro: “Eu queria até mandar recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares pra Amazônia. Pega essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá está precisando muito mais do que aqui.”



sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O padre Fábio de Melo e a ciranda das vaidades


Roda, roda, roda
Pé, pé, pé
Roda, roda, roda,

Caranguejo peixe é


O padre, cuja retórica era arrimo para uma multidão de internautas desesperançados, resolveu tirar a trave dos olhos de seus fiéis seguidores, mostrar-lhes que a verdade liberta, e não deu outra, rodou! Na fogueira das vaidades, a hipocrisia que habita as almas girou, girou e padre rodou, rodou. Condenado sumariamente por um aluvião de hipócritas, não teve como fincar o pé, desistiu! Abandonou o Twitter. É possível que a roda viva, nas voltas que o mundo dá, o traga de volta, mas, no momento, para o padre, tudo estancou de repente.

O padre Fábio de Melo, aventurou-se emitir sua opinião a respeito das beneméritas saidinhas com as quais são premiados pela justiça brasileira os filicidas e parricidas. Como é senso comum que nem sempre a justiça se ocupa da justiça, acredito que o padre tenha se sentido à vontade ao se expressar via Twitter e deu no que deu. Internautas moralmente corretos, éticos, virtuosos, honestos e escrupulosos apontaram o dedo para o padre, condenando-o por sua falta de cristandade, afinal, se Jesus perdoou um ladrão segundos antes de seu último suspiro, por que o padre faria diferente? Com mil raios! O padre não é filho de Deus? Por que não perdoar um pai que espancou e depois atirou a filha de cinco anos do sexto andar do prédio em que morava? A menina, claro, índole difícil, não devia ser alguém com quem fosse fácil conviver, e o pai, pobre pai, tomado pela pressão do dia a dia, certamente agiu em legítima defesa. O resto, bem, o resto foi tudo intriga e armação da promotoria, razão pela qual continua, injustamente encarcerado.

Vale lembrar que do episódio até nossos dias rodaram-se apenas 11 anos, mas a memória, fraca, fez com que a turba se esquecesse de que, à época, tentara ela mesma fazer “justiça” com suas próprias mãos, ignorando os preceitos que agora cobra do padre.  Este, por sua vez, afirmou: “Este lugar [a internet, o Twitter] deixou de ser saudável pra mim”; isto, depois de expor sua opinião e ter sido chamado de ‘justiceiro, canalha, desinformado, desonesto’ e otras cositas impublicáveis.

O padre, conhecido por suas tiradas bem humoradas não se deu conta de que muitos dos seus sete milhões de seguidores, obtusos, só enxergam aquilo que querem enxergar. É perda de tempo mostrar, provar, argumentar... Parte desses fiéis - ignorou o padre - só é ética se tiver a certeza de que uma câmera paira sobre suas cabeças como um onipresente anjo alado, caso contrário, subtrai, surripia, rouba e trai, mostrando-se moralmente correta e altruísta.

Ora, é sabido que as redes sociais é o espaço do fingido, do hipócrita, do mentiroso, do desleal, do enganoso, do errado, do ilegal, do falso, do fraudulento, do pérfido, do traiçoeiro, do fariseu, enfim, é por esta fogueira de vaidades que o padre se deixou levar ao imaginar uma Ágora a sua conta do Twitter, lugar em que pudesse dialogar com as diferenças e estabelecer alguma dialética com certa natureza de seguidores que só povoa as redes sociais porque divide as características que mencionei acima. Estes, hipócritas, travestem-se de juízes dignos e impolutos, pessoas moralmente íntegras, e, irrepreensíveis, “enfiam suas violas no saco” ou “enrolaram o rabo e sentam em cima” - como dizia minha sagrada nonna - sempre que algo é do seu interesse. 
O padre, não se dando conta disso, reuniu-se com improváveis, achou que tudo fosse uma brincadeira de meninos, esquecendo de que mesmo a cantiga, serve-nos de aviso, afinal, caranguejo só é peixe na enchente da maré. Trocando em miúdos, só quando você fala aquilo que ele quer ouvir.




sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Toni Morrison: livre e insurgente


Toni Morrison partiu esta semana. Ao ler sobre sua morte, uma vez mais lembrei-me de Angela Davis, professora, ativista e insurgente contra o estado de coisas e o sistema que nos sufoca. Mas a semana foi de Toni Morrison, professora, rebelde, livre, pensadora, ativista, radical em suas análises e observações, isto é, alguém que afirmava o que quer que seja sem o uso de meias palavras - sempre do agrado de gregos e troianos -, alguém que afirmava ser a morte o significado da vida e a linguagem, por podermos fazê-la, a medida de nossas vidas. Enfim, alguém que dizia ser o “romance o lugar da liberdade”. Como não amar Toni Morrison? Como não fruir da literatura de Toni Morrison?
Aos avessos ao cânone, Morrison, queiram ou não, há de se tornar canônica; seu percurso deixou traços na pátina das ideias literárias, o que é indício de repouso no Panteão dos imortais. Agraciada com o Pulitzer de 1988, foi a primeira mulher afro-americana a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, por Beloved, um mergulho no universo negro dos Estados Unidos no século XIX.
Toni Morrison morreu na noite de segunda-feira sem que víssemos seu sentimento de revolta se esvanecer por um só momento. Nem o sucesso internacional nem o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, nem os vários doutorados honoris causa e outras distinções alteraram suas paixões e sua altivez, ainda que, depois de ver um afro-americano na presidência dos Estados Unidos, testemunhasse o retorno do racismo desinibido com a eleição de Donald Trump.
Neta de ex-escravos, ela sabia de onde veio e nunca teve medo de chocar. Em outubro de 1998, por exemplo, chamou Bill Clinton de “o primeiro presidente negro dos Estados Unidos”. “Ele tem todas as características dos cidadãos negros: veio de um lar monoparental, origem modesta, infância na classe trabalhadora, um grande conhecimento do saxofone e um amor pela junk-food digno de um rapaz do Arkansas”, disse ela. Recentemente, em 2015, quando promovia em Londres seu livro God Help the Child, ao comentar os vários abusos policiais que haviam acabado de acontecer nos Estados Unidos, disse ao The Telegraph: “Eu quero ver um policial atirar em um adolescente branco e indefeso. Eu quero ver um homem branco encarcerado por estuprar uma mulher negra. Só então, se você me perguntar: “Acabamos com as distinções raciais?”, eu responderei a você sim.”
Chloe Ardelia Wofford nasceu em 1931; ao converter-se ao catolicismo adotou o nome de Anthony, que seus amigos abreviaram paraToni. Seu avô era um fervoroso leitor da Bíblia e com ele logo aprendeu a ler e a escrever. Bolsista, Chloe Anthony Wofford (Morrison vem de seu casamento com Harold Morrison, em 1958) foi uma estudante brilhante, defendeu uma dissertação sobre o suicídio em Faulkner e Virginia Woolf e iniciou uma carreira docente. Em 1973, publicou pela Random House uma antologia de escritores negros, The Black Book.
Entre os anos 1989 a 2006, lecionou literatura na Universidade de Princeton (New Jersey), havia muito proibida para negros. Em 1989, ela já era uma escritora reconhecida, porém, tudo começou no ano de 1970, quando publicou o primeiro de seus onze romances, The Bluest Eye, que não teve sucesso e é apreciado com reservas pela comunidade negra. Na obra, uma menina de 11 anos, Pecola Breedlove, sonha em ter olhos azuis e acaba cega, louca e persuadida a ter um aspecto de cor cobalto, graças à operação de um charlatão negro.
Além de seus romances, vale ressaltar ensaios como Playing in the dark, extraído de suas conferências na Harvard, no qual pode-se observar a natureza radical de suas análises e suas observações: “Eu falo da construção da brancura em literatura. Como a literatura se torna ‘nacional’, como Melville ou Twain tiveram a ideia do branco que eles eram, imaginando o negro: sua linguagem, estranha, diferente, quase estrangeira; o modo de associar os negros a certos traços: a violência, a sexualidade, a raiva ou, se for um bom negro, o servilismo, o amor. O que não tem nada a ver com a realidade, mas é a maneira como os brancos imaginam os negros. Por exemplo, eu estudo Benito Cereno, de Melville, em que o homem branco não consegue imaginar que o negro possa fazer algo inteligente. Em Hemingway (em Ter e não ter, O Jardim do Éden), Saul Bellow, Flannery O'Connor, Willa Cather, Carson McCullers, Faulkner ... eles contemplam corpos negros para refletir sobre si mesmos, sobre sua própria moralidade, sua própria violência, sua própria capacidade de amar, ter medo etc.” 
E Morrison não reflete só sobre os preconceitos que constroem o tecido social, mas também sobre a escrita. Em 1998, referindo-se a Jazz, publicado em 1992, afirmou depois de ter sido acusada de “não respeitar o que fundamenta todo o romance, a unicidade da voz narrativa”: “Hoje, ser moderno é um crime!”, “Sem falar daqueles que me colam a etiqueta de “realismo mágico”, evocando alguma proximidade com Garcia Márquez, o que não faz sentido. ‘Realismo Mágico’ é o que dizemos quando não sabemos o que dizer, para ‘literatura não branca’”.
Por fim, leitores, espero que essas garatujas lhes deixem algo do espírito da Sra. Morrison, que gostaria, lessem um dia.


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Lições da África


Aos olhos dos países ricos europeus, Estados Unidos e Canadá, a África, a despeito de todos os beneméritos discursos dos líderes ocidentais, continua sendo vista com descaso, lugar fugidio de tribos e povos incultos, selvagens, pouco afeitos à inventividade coletiva e ao talento individual; a este, quando valorizado, atribui-se algum destaque em razão de seu caráter exótico. Não que os europeus não tenham visto - e vejam - a nós, brasileiros, da mesma forma. Ocorre que nós, quer queiram ou não, do alto de nosso espírito de colonizado, arrogantes, reputamo-nos colonizadores e sempre olhamos para a África a partir do olhar europeu, nunca fomos lá fuçar e tentar entender a África a partir de seus filhos.
Prova disso são as centenas de dissertações e teses defendidas nas universidades públicas brasileiras, cujo teor são as relações culturais, as literaturas africanas e as literaturas pós-colonialistas; seus autores, na maioria das vezes, não se deslocam para Angola, Moçambique, Cabo Verde etc., mas sim, vão a Lisboa, Coimbra, Paris... - é sempre mais prazeroso estudar os povos africanos à margem do Sena. Desse modo, em parte perpetuamos a ideia de uma África atrasada, longínqua e inacessível. Não generalizo, é claro, mas parte do que tenho visto hoje são produções pautadas por certo equívoco, resultado de pouca leitura e super valorizando as questões raciais como parâmetro para a criatividade, o talento, a aptidão e a capacidade. Dito isto, penso em qual seria a cor da literatura ou das literaturas. É claro que as literaturas refletem seus meios e a manufatura de um autor africano ou descendente terá traços e marcas próprias do seu espaço, das suas histórias e de seus traumas, enfim, da saga do povo africano. Mas é preciso reconhecer, é isso é polêmico, que muitos que se arvoram por esses estudos o fazem superficialmente, uma vez que os olhares - como disse - foram intermediados.
Mas deixemos os estudos literários de lado e tomemos o bonde das notícias. Vejam como o pensamento na Etiópia está a anos luz à frente do brasileiro: aqui, o governo defende abertamente o desmatamento das florestas e o sucateamento dos parques nacionais, empenhando-se em uma política retrógada que, se revertida, demorará décadas, oxalá século, para que a natureza e fauna se refaçam – o que não acredito, dada a ânsia de saúva que nos tomou a todos. Explico-me: nós, brasileiros, (generalizo, embora deva respeitar uns poucos que navegam contra a maré, pois é fato que a maioria ainda não se deu conta de que é um hospedeiro consumindo seu organismo - o planeta – de tão forma avassaladora cujo fim não é outro senão a morte de ambos) ainda não sabemos conviver com outras formas de vida, derriçamos tudo, flora, fauna, enfim, praticamos a política da terra arrasada.
Lá, na Etiópia, o governo adquiriu nova consciência em relação ao meio-ambiente, o que faz com que nos envergonhemos das notícias por nós produzidas nos últimos anos. Lá, na Etiópia, o governo está empenhado no reflorestamento do país. Estranho, não!? É possível que as boas ideias tenham aparecido lentamente, mas como nunca é tarde, a Etiópia propôs-se a plantar 4 bilhões de árvores para preservar seus recursos naturais e combater as mudanças climáticas. Também é possível que os etíopes tenham se dado conta disso às custas de muito sofrimento: quem não se lembra da Carestia de 1983-1985, na Etiópia? Essa fome em massa que exterminou 400.000 etíopes e impulsionou o concerto Liv-Aid, elevando a fome a status internacional e garantindo algum recurso aos etíopes. À época, se alguns acharam a ideia maravilhosa, outros discordaram, haja vista o acadêmico Alex de Waal ter afirmado que “a ajuda humanitária prolongou a fome, e com ela, o sofrimento humano”, talvez porque, ele próprio, jamais tenha sentido o estômago preso às costas.
Mas hoje os etíopes estão enxergando para além dos umbrais de suas portas. Na segunda-feira passada, segundo notícias da agência AFP, o governo dispensou os funcionários e organizou um esforço coletivo junto aos cidadãos para que pudessem plantar árvores, motivando assim o restante do país a fazer o mesmo. [Interrompa sua leitura, caro leitor, e compare as ações dos etíopes aos discursos e o não fazer nada dos brasileiros. Quanto aos europeus, estes são sensíveis à causa, mas plantam pouco ou coisa nenhuma!]
Feito isso, continue.
Depois de o governo etíope ter afirmado que cerca de 350 milhões de mudas de árvores foram plantadas, o porta-voz do primeiro ministro Abiy Ahmed afirmou: “Demonstramos a capacidade de as pessoas se unirem coletivamente.” De quebra, ressaltou que a campanha cujo objetivo é reflorestar áreas desmatadas ao longo das últimas décadas surgiu como uma boa oportunidade de solidarização entre os cidadãos, qual seja, plantar árvores tornou-se instrumento humanitário, algo que talvez seja óbvio para os indígenas, povos que têm por hábito o respeito à natureza e estão aqui por perto, mas tão perto, que os ignorarmos - e os matamos.
Por fim, se para os etíopes o desmatamento tornou-se um problema muito sério, para os brasileiros a consciência de que desmatar é algo nocivo à natureza está longe de se tornar uma questão quotidiana, haja vista o INPE ter anunciado hoje um aumento de 40% no desmatamento da Amazônia. É claro, há gente que desmereça o INPE, afinal...
Para concluir: a África é a mãe de muitas outras lições que o tempo e o espaço não me permitem retomá-las.



sexta-feira, 26 de julho de 2019

Miriam Leitão e a intolerância




Pesquisando periódicos oitocentistas e do início do novecentos, deparei-me com uma carta publicada no Correio da Tarde maranhense de 26/8/1911. A correspondência a qual me refiro, afirma o jornal, era uma promessa aos leitores sobre “factos de Portugal”. Eis um pequeno entrecho:

Frederico o Grande, que foi alguém na história da humanidade e que manejava a pena e a espada com igual destreza, enviava em 1725 a Voltaire, o amigo íntimo com quem durante anos trocou uma correspondência que ficou célebre pelo saber profundo, pela agudeza do espírito e pela sutileza filosófica, uma carta em que se destacam essas palavras: “Felicito-vos pela excelente opinião que formais dos homens. Para mim, que em virtude da minha situação, conheço bastante esta espécie de dois pés e sem penas, afirmo que nem vós nem todos os filósofos do mundo corrigirão o gênero humano da superstição... Creio, no entanto, que a voz da razão, à força de se insurgir contra o fanatismo, poderá tornar a raça futura mais tolerante do que a do nosso tempo: e já isso será lucrar muito.”
O rei Frederico teve a admirável intuição de algumas verdades, que depois de sua morte floriram e se verificaram. Nos juízos que acabo de reproduzir, porém, ou falhou ou os formulou com muitos séculos de antecipação, antes que eles possam ser reconhecido como exatos. Com efeito, cento e quarenta e seis anos volvidos sobre a sua epístola a Voltaire, é fácil observar que a rez pensante do nosso tempo é tão intolerante ainda como o foi nos dias em que Frederico o Grande reinava. Reside nela o mesmo orgulho, a mesma vaidade, a mesma ânsia do domínio, a mesma vontade do triunfo sobre o seu semelhante: - e ativamente pretende impor a sua opinião à opinião dos outros e fazer prevalecer as suas ideias sobre as ideias alheias.

O articulista escreveu tais palavras em 1911, referindo-se a um contexto de 1725. E hoje, o que temos? Algum avanço na esfera das ideias? Avanços no respeito à diversidade e à opinião contrária? Parece-me que não! Quando um país inteiro pensa de um só modo, isto é algo bastante perigoso. Obrigar cidadãos a pensarem do mesmo modo, na historiografia moderna, tem um nome: ditadura, fascismo, nazismo etc. Etc porque nesses nossos dias em que a modernidade é líquida e a razão já não oferece qualquer garantia de compreensão do mundo, uma vez que, muitas vezes, comprometida com os jogos do poder, insurge-se como agente de repressão, o que dizer do episódio envolvendo a jornalista Miriam Leitão?
Miriam Leitão, ainda que tenha militado no PCdoB, penso, não come ou comeu criancinhas. Gostem ou não os apoiadores do presidente, os quais, destacaram-se publicamente no cenário nacional por clamarem por democracia, Miriam Leitão tem direito à sua opinião. No caso, é claro, ela não é apoiadora do atual presidente, assim como não era dos anteriores, um dos quais mencionava o nome da jornalista nos palanques, aventando a sua desaprovação à política econômica que praticava. Miriam foi achincalhada em um voo pelos asseclas do tal presidente, que a chamavam de direitista e neoliberal. Quem viu o vídeo constatou tratar-se de uma situação aterradora, beirando a fronteira da agressão física. Não por outra razão, a Profa. Maria Sylvia afirmava que a “ideologia emburrece”.
Na bola da vez, com a alternância das forças políticas, Miriam Leitão novamente sofre ataques, mas agora não foi insultada pela massa cuja ideologia aliena, mas pelo próprio presidente. E tudo isso por quê? Segundo nosso articulista, por causa da “vaidade, [d]a mesma ânsia do domínio, [d]a mesma vontade do triunfo sobre o seu semelhante”. Por isso, e só por isso, Miriam Leitão pode – e deve – ser aviltada, afinal, ainda que as forças e os jogos de poder tenham se alternado, a máxima continua a mesma: “a ideologia emburrece”, o que faz com que as pessoas não enxerguem muito além dos umbrais de suas portas, protegidas em sua zona de conforto. Talvez por isso, os comentários animosos e violentos direcionados à jornalista por apoiadores do presidente.
Voltaire, o interlocutor de Frederico o Grande e paladino da tolerância, perguntava: “O que é a tolerância? É o apanágio da humanidade. Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices, tal é a primeira lei da natureza.”
Dito isto, parece-me que sua eminência, o presidente, esqueceu-se inclusive do aforismo que encoraja os crédulos a jogar a primeira pedra caso jamais tenham pecado. Trocando em miúdos, sejamos mais humildes, respeitemo-nos, afinal, homens demais já decepcionaram Voltaire e fizeram com que Frederico o Grande incorresse em erro. 


Imagem: Tolérance, por Boussoussa.
Publicado anteriormente em https://www.z1portal.com.br/miriam-leitao-e-a-intolerancia/

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Sísifo: revolte-se e mereça a vida!


 “É porque há revolta que a vida de Sísifo merece ser vivida,
a razão por si só não lhe permite dar sentido ao absurdo do mundo.”
Albert Camus


Em busca do carro das ideias, leio as notícias da semana e agradeço ao universo por ainda termos a literatura. A literatura, diferente dos Evangelhos, não nos pede nada – sequer que amemos uns aos outros -, não nos promete coisa alguma, contenta-se tão somente em alimentar-nos o espírito. Tudo depende de nós. Muitos, porém, nutrem por ela certo asco, sobretudo ignorantes e os poderosos, cuja função não é outra que cercear as liberdades em proveito de interesses.
Troca-se a canalha política no poder e tudo continua igual, até mesmo a ideia de que o livro é arma perigosa. E talvez seja mesmo, afinal, ali a verdade das ideologias é esmiuçada a ponto de o leitor perspicaz subtrair dos discursos a máxima de que todos eles são alienantes. Por essa razão, creio, a presença de Miriam Leitão e Sérgio Abranches foi vetada pela comissão organizadora da 13a Feira do Livro de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina.
Por isso, leitor, se as coisas não estão indo bem hoje, diga a si mesmo que você poderia ter sido Sísifo. Ou pode vir a ser, quem sabe? Do jeito que a banda tem tocado, manadas de gados felizes encurralando junto ao abatedouro os revoltosos... e estes, só assim chamados porque discordam dessa ou daquela cartilha. Ainda assim, afirmo, somos agradecidos e felizes, pois temos a literatura e nos revoltamos.
A revolta, diferente do que muitos afirmam, é maná distribuído feito pão a nós homens perdidos no deserto da ignorância. Portanto, revoltemo-nos. Isso me leva a Sísifo, um Sísifo feliz, tal como disse pela primeira vez o pensador japonês Kuki Shuzo, antes mesmo de o ser por Albert Camus. Mas Sísifo não se deixa imaginar facilmente na alegria. Sísifo, nos poemas de Homero, é o mais inteligente dos homens, é um navegador, um grande comerciante, um homem muito seguro de si mesmo, pois não hesitou em desafiar Zeus, revelando ao deus-rio Azopos, onde se encontrava sua filha Aegina, que Zeus havia raptado porque a desejava.
Por vingança, Zeus pediu a Thanatos que matasse Sísifo, mas Sísifo conseguiu acorrentá-lo, impedindo-o de levá-lo ao inferno. Tudo isso provocou a ira de Zeus, que condenou Sísifo a rolar com suas mãos uma rocha até o topo de uma montanha, de modo que toda vez que estivesse quase alcançando o topo, a pedra rolaria montanha abaixo até o ponto de partida em razão de uma força irresistível, invalidando todo o esforço empreendido
As interpretações variam: para alguns, Sísifo encarna os movimentos perpétuos da natureza, o sol, as marés; para outros, Sísifo personifica a infelicidade do homem, o absurdo da vida. Esta é, em particular, particular a concepção de Albert Camus em seu mito de Sísifo. Mas para Camus, Sísifo também é um lutador, ele não cede ao desespero porque continua a rolar sua pedra, ele escolhe a vida contra e apesar de tudo. Ele se revolta, não se desespera.
É por isso que Sísifo encarna, segundo Camus, a única questão filosófica realmente séria, a do suicídio. Viver, claro, nunca é fácil, escreve Camus, continuamos a fazer os gestos que a existência comanda por muitas razões, a primeira das quais é o hábito. Não há punição mais terrível do que a de um trabalho inútil e absurdo como o de Sísifo, um trabalho absolutamente sem sentido, um trabalho sem fim. O que dá sentido à existência dessa personagem é, em última análise, o modo como ela desafia os deuses, se liga à vida, enfim, o modo como se revolta.
O significado de sua existência é a luta. Esse mito é trágico porque essa personagem está ciente disso, ela sabe muito bem que seu destino enfrenta uma punição irracional (assim como hoje temos enfrentado decisões irracionais!). Por fim, como disse Camus: “Sísifo, proletário dos deuses, impotente e rebelde, conhece toda a extensão de sua miserável condição. É nela que ele pensa durante a descida, e a lucidez que deveria constituir sua tortura, pela mesma ação consome sua vitória. É porque há revolta que a vida de Sísifo merece ser vivida, a razão por si só não lhe permite dar sentido ao absurdo do mundo.”
Por isso, leitor, alegre-se, se você já não é um Sísifo.

Imagem: Sisyphus, por Antonio Zanchi, c. 1660=1665.



segunda-feira, 15 de julho de 2019

Amores difíceis


A prosa de hoje é mais um desabafo, o que não impede o leitor experimentado de associar o título à obra de Italo Calvino – Os Amores difíceis (Gli amori difficili). Mestre da narrativa curta, o conto, do calibre de Tchekhov, Maupassant, Borges, Cortázar e outros, Calvino é daqueles autores cuja estranheza nos assimila de tal modo que, original, deixa de nos ser estranha. Sua escrita, por mais que esperneiem as patrulhas empenhadas em fazer trigo do joio, é canônica, e Os Amores difíceis são uma mostra de narrativas do desencontro, em que “o não encontrar-se não é um simples motivo de desespero, mas elemento essencial da própria relação amorosa”.
Mas a vida real é diferente. Não à toa Balzac, ao escrever seu Père Goriot, pedia ao leitor que creditasse qualquer exagero ou poesia aos infortúnios de Goriot, pois o drama não é nem uma ficção, nem um romance: All is true, disse Balzac. A vida é real, tão real que até mesmo elementos fisgados da ficção, em lances de imaginação tão grotescos quanto as mais extravagantes narrativas, não se equiparam a ela. Tudo é verdade, por isso, a vida real é completo desespero.
Em tempos em que discursos radicais têm-se imposto e o povo (agora cito Chomsky) “não sabe o que está acontecendo, nem mesmo sabe que não sabe”, muitos, que escondem sua hipocrisia e seus preconceitos sob o escudo da religião, por interesse, sim, porque é o interesse que move o mundo, revelam seu jeito próprio de ser, qual seja, a fruta dentro da casca, e, nesses casos, o sabor é amargo e repugnante.
Tome-se, a título de exemplo, essa narrativa que pincei da vida real, ocorrida com um casal de amigos, companheiros de uma jornada de quinze anos. Sim, dois amigos gays. É deles que vou falar e, se você leitor, estiver investido de sua pureza moral e for um desses guardiões da família tradicional, hipócrita (salvo raras exceções) e preconceituosa, interrompa a sua leitura agora e procure a estante de livros mais próxima, ali, apanhe um volume dos Evangélicos e verá que o Mestre, cujas palavras hoje são tão vilipendiadas, defendeu prostitutas, andou ao lado de pobres e leprosos e disse que deveríamos amar-nos uns aos outros. Ah vá lá! Mas isso é o óbvio, pode você contra-argumentar. Não, não é, replico! Caso fosse, não estaríamos vivendo dias tão assustadores quanto os de hoje.
Pois bem, retorno à minha narrativa: L. conheceu D. há quinze anos, respeitaram-se, amaram-se e resolveram que viveriam juntos, compartilhando o respeito, as alegrias e as tristezas. Ocorre que semana passada, D. partiu, expirou durante uma noite de sono tranquilo. A tranquilidade dos justos, de alguém que não roubava, não caluniava, não cometia falsos testemunhos, mas só queria viver, viver a arte, viver a vida.
L., desesperado, sim, para L. não encontrar-se mais com D. tornou-se seu grande desespero logo no café da manhã, quando descobriu que seu companheiro não mais existia. Repito, tomado pelo desespero, L. procurou ajuda. A família de D., ausente por longos quinze anos, apareceu. Apareceu como um raio, algo divino, mas atravessado, movida pelo interesse. L. viu-se obrigado ao desprezo e ao constrangimento, imposto pela família de seu companheiro, ausente até o dia anterior. E não bastasse isso, sofreu também com o descaso, os risinhos e os cochichos dos colegas de trabalho de D., machões, hipócritas e falsos moralistas, daqueles que defendem a família, mas passam suas horas de happy hour relaxando em prostíbulos.
Por que contar a síntese da síntese desse relato? Ora, por duas únicas razões: a primeira é que sob a égide do bom mocismo e da religião, famílias, por interesse, e amigos, por sarcasmo, sabem ser cruéis, perversos, hediondos e impiedosos; a outra, é que aqueles que se respeitam, devem fazer valer seus direitos e não mais se submeterem a esse tipo de violência. O que mais posso dizer quando noto que a humanidade é pura retórica?



sexta-feira, 5 de julho de 2019

Memórias de um editor


Lembro-me de Umberto Eco ter dito em um de seus livros que, às vezes, não somos nós que escolhemos os livros, mas são eles que nos escolhem. Olhamos suas capas, apanhamo-los das estantes, manuseamos, cheiramos (sim, bibliófilos cheiram livros como glutões se deixam levar por aromas e memórias gastronômicas) e, por fim, levamos para casa livros cuja leitura é incerta, mas, quando acontece é descoberta, aventura, encanto e conversão.
Há cerca de um mês, em uma livraria de Sampa, à procura de uns livros que não encontrei, fiz o que fazem os viciados em livros e, como Calvino, abri caminho “através da densa barreira dos Livros Que Nunca Li, das mesas e prateleiras, olhei-os de esguelha tentando intimidá-los, mesmo sabendo que não devia deixar-me impressionar, pois estavam distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura é Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos”... Por fim, ao atravessar em meio às falanges e falanges de livros, um pequeno volume, frágil, pequeno, porém robusto de conteúdo, lançou-me um olhar cândido. É preciso que diga ao leitor que estava de joelhos e o olhar do livrinho, cândido, porém imponente, trouxe-me algo do frescor das ideias potentes, assegurando-me da força das palavras ali escritas. Capitulei. Trouxe comigo Memórias de um editor, de Kurt Wolff, editado pela Âyiné, de Belo Horizonte.
A obra editada pela Âyiné me foi uma dessas verdadeiras descobertas: o primor da edição faz dela uma preciosidade; a capa de Julia Geiser é daquelas que se justapõem ao relato, complementa-o, torna-o memorável. E por falar em memória, as Memórias de Kurt Wolff são circunscritas à sua empreitada como editor, ainda que temperadas aqui e lá por preciosismos e esquisitices dos autores com os quais trabalhou.
O livro de Wolff é sobre autores e livros e só por isso vale transcrever um fragmento tornado público pelo editor de sua obra em 1965:

A ideia que o leigo tem do editor e de como ele trabalha é surpreendentemente primitiva: ele lê o manuscrito ou dá para alguém de sua confiança ler (há sempre enorme quantidade de manuscritos à espera) e manda para a gráfica as obras que agradaram a ele ou a seus colegas. Para o livro ficar bonito e com aspecto agradável, ele capricha na encadernação e contrata um ilustrador para desenvolver a capa. Se o livro terá sucesso ou não, é pura obra do acaso.
A realidade, porém, é outra. É difícil explicar quão complexa é essa profissão e como há uma série de elementos que devem funcionar coordenadamente para se ter um conceito real, legítimo e positivo de editoração. Como vira e mexe, nessa profissão, o irracional se sobrepõe ao plano racionalmente desenvolvido, jogam-se todas as previsões no lixo. Vive-se em uma situação permanente de incertezas e surpresas; uma fonte interminável de alegrias e decepções.

De fato, Memórias joga com essa sua afirmação. Editor de Franz Kafka, Heinrich Mann, Max Brod, Gustav Meyrink, Karl Kraus e tantos outros, Wolff tenta elucidar a complexidade da profissão. O primeiro capítulo “Livros e aventuras” procura responder ao leitor como ele, Wolff, tornou-se editor, além de responder a questões sobre como os manuscritos chegam à editora, os critérios empregados na escolha do que se publica ou ainda, como se dá o encontro entre autor e editor. Ao elencar muitos dos autores que publicou na fase inicial de sua editora, Wolff explica “a odiosa pecha de editor do expressionismo” que lhe fora atribuída.
O segundo capítulo, intitulado “‘Afanar’ ou como autores e editores se distanciam” traz ao leitor um panorama sobre as relações entre ambos, editor e autor, e também entre editor e editor, à vista dos deslocamentos dos autores de uma editora a outra. Wolff trata do assunto com refinada diplomacia, assegurando seu “desejo de manter a inviolabilidade da liberdade de decisão do autor”, embora confesse que é sempre frustrante para um editor ter um de seus autores “afanados” por outro editor, sobretudo se o autor “afanado” é, digamos, rentável.
O terceiro capítulo é dedicado à aventura de publicar. Destaca-se nesse capítulo o périplo para publicar Avant et Après, de Gauguin, à época (1913) um pintor ainda não tão cortejado pelos museus. Wolff conta suas tratativas com os herdeiros e como, quarenta anos depois, teria notícia do manuscrito em Nova York. Vale ressaltar ainda que nesse capítulo Wolff confessa certo “arrependimento” por não ter publicado um dos livros de James Joyce, antes que o escritor escrevesse Ulisses, fato que me fez lembrar de Gide, que se negara a publicar Proust, quando editor da Nouvelle Revue Française (NRF).
Na segunda parte do livro Wolff traz um capítulo dedicado aos autores Carl Sternheim Franz Kafka e Karl Krauss. Não é preciso dizer que o ponto alto desse capítulo é o aclamado Kafka. Wolff relata como fora apresentado a ele por Max Brod, quando estes, em uma viagem de férias, passaram por Leipzig. Segundo Wolff, Kafka mostrou-se “calado, acanhado, tênue, vulnerável, intimidado como um colegial diante do examinador, convencido da impossibilidade de satisfazer as expectativas oriundas dos elogios do empresário”, no caso, papel atribuído a Max Brod, que o levara até Wolff. Este, ao despedir-se de Kafka naquela tarde de junho de 1912, diz ter ouvido algo do escritor que jamais ouvira de outro autor, nem antes, nem depois dele: “Agradeceria o senhor ainda mais pelo retorno do manuscrito do que pela publicação.”
Os anexos trazem alguns momentos particulares da vida de Kurt Wolff, as dificuldades com a editora em razão da inflação galopante, os frequentes deslocamentos pela França e Itália em razão da guerra, até sua imigração aos Estados Unidos, onde se fixaria e fundaria a editora Pantheon Books que, a exemplo da editora Kurt Wolff seria um empreendimento bem sucedido. Wolff desapareceria em 21 de outubro de 1963, a caminho de um encontro com o Grupo 47 (grupo de autores e críticos alemães empenhados em revitalizar a literatura alemã no pós-guerra), mas, como os autores que publicou, está aí, vivo e presente, nos contando histórias e histórias sobre livros, autores e editores.




Imagem: capa do livro publicado pela Editora Âyiné.
Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/memoria-de-um-editor/

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Escrever e morrer


Em 1967, Roland Barthes escreve A Morte do Autor, texto seminal para os estudos literários. Nele, ao comentar a novela Sarrasine, de Balzac, o crítico afirma que a escrita é um neutro, um compósito, um oblíquo para onde foge o sujeito, o preto-e-branco onde perde-se toda a identidade, começando precisamente pelo corpo que a escreve.
Ora, fato contado, produz-se um descompasso e a voz perde sua origem, morre o autor e a escrita começa. Em proveito da escrita, restitui-se então o lugar ao leitor, esse escriptor que reescreverá livros e livros à sua maneira, preenchendo as entrelinhas.
É claro que há críticos - Bloom, por exemplo – que acham isso tudo uma tolice. A despeito da teoria, o império do Autor, essa personagem moderna, segundo Barthes, ainda é muito poderoso. Não importa aqui se as sociedades modernas o tenham produzido em proveito de interesses outros, o que importa é que o Autor acreditou desde sempre que o produto de sua criatividade, ainda que espalhado pelos quatro cantos, é coisa sua, só sua. Surrupiar vira plágio, alterar, só com seu consentimento, e, ainda assim, às vezes, as relações azedam entre autores e os artistas que resolvem balançar o berço da criança cuja paternidade não fora sua.
Tomemos alguns exemplos: conta-me S. L., que fora amiga de Hilda Hilst, que, juntas, em uma noite fria resolveram ir ao teatro Centro de Convivência, em Campinas, assistir a montagem de A Morte do Patriarca. Casa lotada, atores e diretor exultantes, afinal, Hilda estava na plateia. Mal esperavam o final do espetáculo para ouvirem a opinião da escritora e quem sabe dividir algum dedo de prosa em algum dos bares do Cambuí. Ocorre que nem mesmo haviam transcorridos vinte minutos do início do o espetáculo, Hilda toma S.L. pelo braço e, decidida, diz: “Vamos, agora.” Hilda saiu do teatro e a plateia que sabia de sua presença ali voltou as costas para o palco. Atores e diretores... prefiro não comentar. O que soube por S.L. é que ela, Hilda, odiara tudo. “Não foi isso o que escrevi”, concluiu. Porém, Hilda sobreviveu.
Marguerite Duras, por sua vez, antes mesmo de se tornar cineasta tivera algumas de suas obras adaptadas: René Clément realizou Un barrage contre le Pacifique, que Duras considerou “a mais inacreditável traição”; o mesmo ocorreria com Moderato Cantabile, adaptado por Peter Brook, que a autora, descontente, disse ter querido fazer sua própria versão. Já com O Amante (1984), adaptado por Jean-Jacques Annaud em 1991, e cuja estreia deu-se em 1992, Duras não gostou nem um pouco, afirmando que a adaptação ideal do romance seria sua leitura feita por ela mesma. Duras, assim como Hilda, também sobreviveu.
Boris Vian, prolífero autor francês que escreveu nada mais nada menos que 10 romances, uns 60 contos, 3 coletâneas de poesia, 3 volumes de crítica e crônicas de jazz, 10 peças de teatro, 6 libretos de ópera, 30 roteiros, cartas, panfletos, manifestos e traduções, também teve lá seus problemas com os adaptadores. Em 1946, Vian havia escrito J’irai cracher sur vos tombes, cujos direitos de adaptação haviam disso comprados pela sociedade SIPRO.
O próprio Vian se encarregara de adaptar seu romance para o cinema; ao entregar sua adaptação aos produtores recebeu um “não compreendemos bem o que o você quis dizer [...] fomos obrigados a contatar um novo adaptador para este trabalho”.
Na manhã de 23 de junho de 1959, J’irai cracher sur vos tombes, filme inspirado em seu romance é projetado no cinema Le Marbeuf, perto da Champs-Élysées. Vian, que já havia discutido com os produtores, dissera estar convencido de que a adaptação não era seu estilo e que expressaria publicamente seu desagrado e, por fim, que não queria seu nome associado ao filme. Apesar de suas hesitações, Boris fora convencido por amigos a ir à projeção. Logo nos créditos do início, quando apareceram as palavras “inspirado no romance de Vernon Sullivan (pseudônimo de Vian), traduzido do americano por Boris Vian”, este se levanta e grita “Ah, não...”.
Diferente de Hilst e Duras, Vian não suporta o ultraje e morre de uma fibrilação ventricular, aos 39 anos, antes mesmo de chegar ao hospital Laennec. 

Foto: Cena de J’irai cracher sur vos tombes, filme de Michel Gast, 1959.
Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/escrever-e-morrer/