Revista Philomatica

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Da cura gay: ou sobre legisladores de rabicós

A historieta abaixo, leitor, não obedece à cronologia alguma. Por isso personagens e dados, aleatoriamente, ora avançam no tempo, ora regridem e misturam-se em proveito das personagens.
Tudo passou-se em um país distante, mas veja, pode ser que tudo esteja a acontecer agora, no instante mesmo em que você lê essas garatujas. O país fazia - ou faz - fronteira com o pays de oreillons, da também célebre historieta de autoria daquele senhor de quem se dizia que quando pretendia atacar o diabo do homem, acabava-se por ferir a virtude.
Pois bem, na primavera de 1207, ou 2017, que seja, reuniram-se os sábios para deliberarem sobre questão de extrema importância para o futuro do país. Dela dependiam a educação, a segurança, a saúde e até mesmo a economia, porque a esta última, os habitantes do país, digo, a aristocracia, creditava máxima importância, fazendo vista grossa até mesmo à corrupção que se alastrava por todas as castas e hierarquias, dos mais simplórios à intelligentsia.
Os sábios, também chamados de magistrados, decidiram naquela primavera que parte da população era doente. A razão nunca fora muito bem explicada, mas o fato é que toda a questão girava em torno do rabicó. Não o rabicó em si, se é que me entendem, mas ao que os habitantes do país decidiam fazer com ele. Insuflados por alguns barões levitas que bradavam versos de um manual, na impossibilidade de exterminar todos os que se diziam donos de seus rabicós, decidiram pela cura.
Propositadamente - ou não -, levitas e magistrados, ainda que soubessem que legislar sobre o rabicó de outrem não lhes dizia respeito, tornaram-se cada vez mais imperativos e ditaram leis. De fato, não se preocupavam com as questões fisiológicas e de saúde, pois, o que queriam mesmo era controlar o que pensava esse grupo que se achava dono de seus rabicós e que, portanto, dizia às desbragadas que faria o que quisesse com eles, os rabicós, algo, claro, inconcebível para levitas e magistrados.
A ideia da doença, e consequentemente da cura, talvez tenha mesmo se originado entre os levitas, pois há registros de alguns que, nas horas mortas, liberavam seus rabicós em boates e becos da cidade. Depois, fatigados, decidiram receber visitas pela porta da frente, proclamando-se curados. Mas, há quem diga que tudo isso é lorota e que eles continuam a lacrar (neologismo que para sua exata compreensão deve ser lido como antonímia). Inspirada com os episódios de cura, a família tradicional, hipócrita e em busca da perfeição, começou a procurar por shamans que diziam prescrever terapias capazes de mudar radicalmente as escolhas de seus filhos; a maioria dos shamans, diga-se, eram na verdade oportunistas ávidos pelo lucro patrocinado pela intolerância familiar.
De fato, o que incomodava mesmo levitas e magistrados era a escolha em si, a liberdade de decidir o que fazer, como fazer, com quem fazer, quando fazer. Receber visitas, seja pela porta da frente, seja pela dos fundos, não fazia dos habitantes detentores de melhor ou pior caráter, muito pelo contrário, mas, eles, os legisladores de rabicós, não concebiam a ideia de liberdade implícita na escolha; e não falo só da liberdade de expressão, fazer tudo o que der na veneta, como dizia minha vozinha, mas sobretudo da liberdade de fazer o que quiser com seu corpo. Ah, isso era demais para os levitas e magistrados! Diziam eles que tamanha liberdade poderia contaminar outros habitantes, esquecendo-se de que escolhas são escolhas - e pessoais.
Decretada a cura, o ministério da verdade terá que se ver com questões menores, tais como: a regulamentação da doença no código internacional de saúde, uma vez que a anomalia é tupiniquim e só atinge país; o grupo dos rabicós livres podem, por pirraça, decidir faltar ao trabalho alegando a tal doença, e aí, como fazer? Os atestados médicos, como preenchê-los? As perícias no malfadado sistema de saúde, como organizá-las? Chamadas de socorro ao SAMU: qual a prioridade, um atropelamento ou um rabicó sedento por aventura? Uma vez instalada a doença, como proceder com a aposentadoria em casos de doentes terminais, aqueles acostumados a pôr o rabicó na roda?
Apreensivos, os considerados “doentes” temem que práticas ainda anteriores a 1207 sejam colocadas em uso. À humilhação diária, bom que se diga, nunca deixaram de expor sua insatisfação, pois conheciam seus direitos, mas isso incomodava muito levitas e magistrados.
Por fim, o povo desse país, que um dia o chamou de ‘país do futuro, perdeu-se totalmente no calendário. Uns acreditavam estar em 2017, outros em 1207, outros ainda, mais desesperançados, acreditavam que estavam ainda antes no tempo. Mas nem tudo estava perdido: tinham rádio e, para localizarem-se no tempo, habitualmente, não só o povo, mas também levitas e magistrados ligavam seus aparelhos. Hora ou outra, depois de alguma notícia, a música soava forte e, para desespero de uns e alegria de outros, que não se continham, as ondas sonoras tornavam-se palavras e, dizem, até mesmo magistrados e levitas punham-se a cantarolar Dancing Queen e It’s raining men.


 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sábado, 16 de setembro de 2017

Queermuseu: alarido por uma omelete


Vivemos tempos imperativos em que os discursos devem ser pautados pela diferença. Contudo, há diferenças e diferenças, e, parece-me, as diferenças de uns são mais robustas que as de outros. Esquerda e direita digladiam-se ao tentar impor suas opiniões. Aquela história de que cada um deve ocupar o seu quadrado é deixada de lado, e a tal ponto que uns e outros só consideram um quadrado quando este lhe convém, caso contrário, o quadrado torna-se esfera. E é justamente aí que as ideias não se afinam. Um quadrado nasceu para ser quadrado, dizem, por que de um momento para outro decide ser esfera? Leitor, quadrados reproduzem quadradinhos, jamais esferas, dizem outros. Pensando assim, muitos decidem pelo extermínio de toda quadroesfera que teima banhar-se em purpurina!
Tolerância e intolerância são seletivas! Por isso, creio, nada mais oportuno que relembrar o aforismo apócrifo atribuído a Voltaire, algo que pode ser a pá de cal para enterrar de vez qualquer contradito àquilo que não defendo. Trata-se da célebre frase “não estou de acordo com o que você diz, mas lutarei até o fim para que você tenha o direito de dizê-lo”. Creditada a Voltaire, foi cunhada por Evelyn Beatrice Hall, em 1906, na sua obra The Friends of Voltaire, muito provavelmente por ter ele defendido Helvétius, ainda que tenha deplorado De l’esprit.
Veja, Voltaire defendeu o direito de Helvétius expressar-se, ainda que não estivesse inteiramente de acordo com seu pensamento empirista-materialista. Lembrei-me disto depois da polêmica em torno da exposição Queermuseu, cancelada pelo Banco Santander, instituição que ora cito sem ganhar um mísero caraminguá!
Houve exageros de ambas as partes: um jornal sair com a manchete de que a intolerância voltou a assombrar a arte pareceu-me um exagero. Afinal, penso, Voltaire teria repetido o que disse à época em relação à polêmica em torno da obra de Helvétius: “Que alarido por causa de uma omelete!” Não tivesse um grupelho lançado mão de armadura e espada, e saído em cruzada contra o que afirmam atentar à moral e aos bons costumes, só uma meia dúzia de gatos pingados é que iriam até ao Santander (de novo - e a contragosto!) conferir traços rudimentares e garatujas borradas sobre imagens artisticamente ainda infantilizadas.
A gritaria fica mais incompreensível se tomarmos exemplos anteriores. Relembrem o ocorrido com Flaubert e Laurent Pichat, ou até mesmo o próprio Baudelaire, face ao procurador Pinard, que também clamou à decência pública, à moral e aos bons costumes e etc etc... E o que Pinard ganhou com isso? Nada! Já Flaubert e Baudelaire asseguraram cadeira no Olimpo literário. Mas atenção! Não exageremos! Não estou a comparar Madame Bovary e As Flores do Mal com os desenhinhos de Bia Leite e o ménage à trois no papel de pão gozado de Adriana Varejão. Mas gostei do JC Deusa Shiva, de Fernando Baril!
Não entendi até agora o porquê da gritaria toda; os contrários acabaram por avalizar o que repudiavam, garantindo-lhe visibilidade. Ora, a exposição não generaliza nada, não impõe nada, não induz a nada, até mesmo porque se alguma reflexão poderia ser tirada dali, após todo esse bate-boca, nada sobrou além de uma intolerância polarizada. A vida é assim como ela é: Auerbach já dizia que “o histórico contém em cada indivíduo uma pletora de motivos contraditórios”. Povos, por mais identificáveis que possam parecer, são ambíguos, vacilantes, plurais, diferentes.
Por fim, creio que uns e outros tentam nos impor uma certa univocidade, e não somos assim! Somos feitos de camadas, slogans diferentes. Nós, brasileiros, só somos unívocos quando nos dispomos a uma grosseira simplificação, numa Copa do Mundo, por exemplo, chorando uma derrota de 7 a 1. Há univocidade também na guerra. Toda essa exasperação, para quê? É guerra que queremos? Sequer avaliamos a qualidade dos nossos canhões e, ademais, jamais empunharíamos uma espingarda de dois canos como a do filósofo de Ferney.



Imagem: Casa Vogue, de Cibele Bastos; foto Santander Cultural/Divulgação. 
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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Especialistas e malandros literários


Eu bem que poderia, mas não vou mencionar o célebre caso de ejaculação pública que monopolizou o noticiário, notadamente depois de o juiz soltar o estuprador, num evidente caso de leitura positivista da lei. Prefiro a crônica machadiana de 1861, que, à época, já dava conta dos pífios discursos no senado. Vá lá, não é de hoje que em matéria de mediocridade atingimos a profundeza dos mares, o que explica muito da tristeza que sentimos. Pois bem, Machado referia-se aos “discursos notáveis” ejaculados pelo senador Penna, donde o pedigree da casta política.
Também não faço qualquer referência à cerimônia conduzida pela ministra do Supremo Cármen Lúcia, em que apresenta a justiça em números. Os números, pautados por certa transparência - e aí, acho, eis um pequeno inconveniente para a justiça -, não deixam mentir e revelam que míseros 30% - ou quase - dos processos que chegam à justiça são efetivamente julgados. Eis a razão, acredito, de certo matiz de nossa sociedade, pautada pela impunidade. Sou indiferente, ainda, à fala territorialista do ministro Luiz Fux, aplaudido por uma plateia corporativista ao ressaltar que se deve proteger a justiça contra as críticas recentes, nas quais os números surgem como resultado da ineficiência jurídica.
Não falo de nada disso. Decidi-me, pelo contrário, falar dos especialistas da internet, sobretudo porque o episódio ejaculatório despertou ânimos e todos opinaram com conhecimento de causa. Falar sobre tudo como se tivesse ampla sabedoria do todo não é prática recente. Há muito que não só a retórica alimenta-se do pseudoconhecimento, mas também professores, palestrantes, escritores e especialistas que têm opinião formada sobre tudo.  
A obra de Pierre Bayard, publicada há mais de uma década, coloca luz sobre essa prática corrente e surge como um pequeno manual de malandragem. Tratando-se da leitura, ainda que vivêssemos um milênio, dificilmente leríamos todos os livros publicados, sobretudo porque, dizem os especialistas, por volta de três mil deles aparecem todos os dias.
O leitor contumaz conhece o território que adentro: trata-se daquele em que, na melhor das ocasiões, sofremos uma censura silenciosa. Para isso, basta nos deslocarmos entre as prateleiras de uma biblioteca. A despeito da cobrança social (Nossa, você não leu Dostoievski??!!!), esse sentimentozinho que nos recrimina e nos compele a pensar que devemos ler tudo, sugere ainda que devemos nos envergonhar por não ter lido este ou aquele autor.
Mentir, nesses casos é uma das alternativas, mas isto pode nos trazer complicações; tudo depende de nosso interlocutor, que, vá lá, pode ser alguém versado no autor em questão.  Há ainda a possibilidade de conhecer a obra por vias indiretas: resumos, crítica, amigos, a posição que o livro ocupa em catálogos, comentários de especialistas na internet, a Wikipédia...
Podemos ainda seguir à risca o que disse Schopenhauer: “Para ler o bom, uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta, e o tempo e a energia, escassos.” Donde, pressupomos que é imperativo certa seleção e recorte na grande biblioteca, caso queiramos constituir uma coletânea pessoal.
Como falar dos livros que não lemos, do francês que mencionei logo acima, maliciosamente nos fornece alguns truques de sobrevivência no mundo dos especialistas, além de algumas formas de apreciar um livro. Os afeitos à malandragem, bem, estes não vão extrair dali nada mais que um incentivo à fraude intelectual, tais os alunos experts em control C-control V.  
Bayard, especialista em literatura francesa, fornece algumas técnicas para o bom malandro e também ao especialista em falar sobre livros que nunca leu: 1) não tenha vergonha: quem não tem lá certa lacuna de conhecimento em sua formação? Não se envergonhe se o sujeito ao seu lado começar a falar de uma obra que você não conhece; isso não quer dizer que ele seja mais especialista que você; 2) imponha suas opiniões: afinal, opiniões são subjetivas, arbitrárias. Fale bem ou fale mal de um livro, mas fale com convicção! Ninguém há de desconfiar de você; 3) invente livros: há coisa mais falível que a memória? Quem já não foi traído por ela? Você pode falar com tranquilidade sobre personagens, criar episódios, reproduzir comentários de críticos sobre a obra e até mesmo falar de autores que não existem. Caso dê de cara com um especialista, diga que sua memória o confundiu; 4) fale de si mesmo: fale do significado que o livro ou o autor tem para você, mesmo que não os tenha lido. Oscar Wilde disse que a crítica literária é uma forma de biografia, leve isto a sério!
Por fim, tranquilize-se: a exigência de ler todos os livros da grande biblioteca é irreal. As quase-leituras, para Bayard, são tão produtivas quanto uma leitura total. Afinal, que cabeça a nossa! Ler um livro em sua completude é algo impossível, uma vez que somos traídos por nossas limitações; não por outra razão os especialistas afirmam que o esquecimento entra em ação logo após a leitura de uma página, de modo que ao ler a seguinte, já teremos esquecido a anterior. Com o tempo, embaralhamos obras, autores, personagens e episódios, isto quando não os esquecemos totalmente! Assim, falamos não deste ou daquele livro, mas de uma lembrança imprecisa, imperfeita e tortuosa que guardamos das obras. Portanto, leitor, tranquilize-se!
Eu bem que poderia, mas também não vou mencionar a célebre fortuna encontrada no apartamento do Geddel, o escroto bandido republicano!


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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Produto: prostitutas made in Brazil

Lá pelos idos de 1893 não tínhamos as modernidades tecnológicas que hoje nos sufocam com imagens exuberantes de lugares longínquos, que nos acham até mesmo no mais recôndito dos trous aux rats, que nos fazem clientes vinte e quatro horas por dia...
Basta um clique e lá estamos nós a conferir mercadorias a quilômetros de distância, regateando preços, avaliando a qualidade, apreciando a estética do produto. Sabemos que boa parte da quinquilharia vendida no Brasil vem da China, via Paraguai, e é produzida por mão de obra escrava, mas, ainda assim, não nos furtamos de botar as mãos em um pacote de chave-de-fendas ching ling; é só dar um pulinho ali, na esquina. A despeito da qualidade e de quem as produziu, lá vamos nós! E voltamos, é claro, à mesma esquina, depois de apertar o primeiro parafuso que, resistente, retorceu as chaves. Através de historietas como esta, repetidas infinitamente, é que se constroem os clichês.
Em 1893 ainda não tínhamos um produto nacional, como hoje o tem os chineses - aos milhares; só tínhamos florestas, árvores e mais árvores, papagaios e mais papagaios... e, vá lá, alguma cana e algum café. Muitos dos viajantes europeus que por aqui aportavam ressentiam a falta de um verniz cultural, tal era a modorra em que se vivia na capital; e falo de 1893! Mas não se assuste, leitor! Saia das grandes capitais, pegue a estrada e pare sorrateiramente em uma pequena cidade do interior de um estado brasileiro qualquer. Procure uma livraria, um teatro, um cinema, um café; sinto dizer, mas estará de volta em 1893!
Pois bem, em 1893, Machado de Assis publica uma crônica nas páginas da Gazeta de Notícias em que replica o dito de Sarah Bernhardt desmentindo uma folha argentina que publicara suas opiniões sobre o Brasil, país que deixara há pouco. Sarah, teria dito então: Ce pays féerique... (este país de contos de fadas). Machado não titubeia, ressente-se com a opinião da atriz, diz sentir-se afogar pelo banal e o vulgar, afirma que Sarah está a reproduzir a “velha chapa” de todo viajante que por aqui passa, e, hiperbólico, afirma que ela lhe arrancou sem piedade a ilusão do outono.
O ressentimento de Machado vem do fato de que todos os viajantes limitavam-se a comentar a exuberância da natureza, permanecendo indiferentes ao homem e suas obras. E aqui, dou-lhe a palavra: “Quando me louvam a casaca, louvam-me antes a mim que ao alfaiate. Ao menos, é o sentimento com que fico; a casaca é minha; se não a fiz, mandei fazê-la. Mas eu não fiz, nem mandei fazer o céu e as montanhas, as matas e os rios. Já os achei prontos, e não vejo que sejam admiráveis; mas há outras coisas que ver.”
Ah, Machado, se soubesses o que veem hoje; estou certo de que acrescentarias um bom parágrafo àquelas garatujas!!!
A notícia é velha, mas na última semana replicaram-na exaustivamente nas redes sociais. Trata-se de uma reportagem sobre um levantamento a respeito dos produtos que, na cultura popular, são estereotipicamente associados a certos países. Algo como pensarmos no Japão e vermos uma porção de produtos eletrônicos dançando em frente aos olhos, ou ainda, falarmos da Turquia e sentirmos uma vontade irresistível de pegar carona no tapete de Aladim, cruzarmos os ares, provarmos da liberdade plena!
Isto feito, produziram mapas de todos os continentes associados às buscas que os internautas fazem na rede, os produtos que procuram, seus interesses e curiosidades sobre este ou aquele país, e, adivinhem...
Sinto dizer, Machado, nada mudou! Quando procuram pelo Brasil na rede não estão em busca de sua produção cultural e/ou intelectual, mas da cor local - ainda. Basta olhar o mapa para vermos que há bem poucos lugares no mundo em que o produto local é a prostituta. Isto não é exclusividade nossa, é claro, mas, no caso, o produto prostituta associado à produção brasileira choca, sobretudo a nós, brasileiros, por mais acostumados que estejamos às estripulias do agronegócio e ao aço e o ferro que sangram no coração das antigas florestas. Ao dar de olhos com o mapa, confesso, por mais que chame de canaille a corja que habita o pináculo do poder em Brasília e me refira à Assembleia e ao Senado como prostíbulos, ver a palavra “Brasil” substituída por “Prostitute” foi lá um soco no estômago.
A situação em que nos encontramos não nos anima a ressentimentos, como ocorreu com Machado, principalmente porque logo ali ao lado jaz o Paraguai como lugar procurado para se viver. Num certo revanchismo, penso, talvez sejam foragidos da lei em seus países à procura de abrigo, mas isto só não me deixa mais otimista.
O fato é que compram a cerveja na Argentina e vêm ao Brasil bebê-la em companhia das nossas prostitutas.
Penso também nas escolas, na falta delas!
Olho para Brasília e não me animo! De onde me virá o socorro?

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Adolescentes, bárbaros e perversos

Às vezes, escrevo durante as horas mortas. Desta vez, porém, a caneta não estava à mão e o frio me incomodava um pouco, de modo que, respeitosamente, afastei o gato para o lado, virei-me e pus-me a pensar no que lera durante o dia.
De pronto, me veio ao espírito o tal do respeito e, num átimo, lembrei-me dos gregos e sua indelével mitologia. Olhei para o gato e disse: “Bem, Afrodite remete-nos ao amor, Apolo à beleza, Atena e Ares à guerra, Ártemis à caça...” E o respeito? - perguntei-lhe. Sonolento, ele se virou para o lado e continuou a dormir. Eu, desperto, sabia a resposta.
De fato, segundo a mitologia, herdamos um pouco das paixões e ódios dos deuses, não por outra razão os mitos nos auxiliam na compreensão das relações humanas e, por que não, são a chave para que melhor entendamos o mundo a partir desse nosso ponto de vista analítico afeito a esmiuçar tudo o que encontra? As peripécias dos deuses e semideuses, suas batalhas heroicas e seus enfrentamentos, revelam muito dos meandros do espírito humano. De certo modo, vá lá, somos heróis e deuses de nossa própria história. Mas e o respeito? Bem, não há deus que o represente.
O único homem conhecido por sua respeitabilidade foi Euphemus, um dos filhos de Poseidon, que, acreditem, tal como o Cristo, tinha o poder de andar sobre as águas e transmitia bons exemplos àqueles que transitavam à sua volta. Habitante da Fócida, região onde jaz o  Parnassus, Euphemus se junta aos Argonautas e torna-se timoneiro do navio. Ao passarem pelo Mediterrâneo, Triton quis presenteá-los. Os Argonautas receberam ouro e prata, mas, chegada a vez de Euphemus, não sobrou nada além de um torrão de terra, que Euphemus aceitou. Paro a lenda por aqui, você, leitor, se quiser saber o final da história que vá atrás!
Agora é preciso que eu ligue os pontos, uma vez que meu gato caiu em sono profundo, certo do respeito que recebe, deixando-nos, você e eu, a entabularmos essa boa prosa.
Pois bem, o fato em si é o caso da professora Marcia Friggi, de Santa Catarina, agredida verbal e fisicamente por um aluno de 15 anos em sala de aula. Veja, leitor, o torrão que coube a Marcia. Li diferentes matérias a respeito e, confesso, até mesmo a imprensa, que hora ou outra produz reportagens sobre o descanso em que anda a educação, foi unânime ao tratar o caso da Sra. Friggi.
A agressão, é preciso registrar, só veio a público porque a Sra. Friggi relatou-a em sua rede social. Isto posto, os compartilhamentos e comentários foram exponenciais. Ato contínuo, jornais e revistas trataram do assunto. Todas, sem qualquer aprofundamento da questão, limitaram-se ao relato do episódio em escala menor àquela que seria dispensada ao jogador que perde ou faz o gol em momento decisivo.
Ou seja, a Sra. Friggi, por seus anos de dedicação ao magistério só ganhou o mero e dolorido torrão que lhe fora dado por seu aluno! E ela que decida o que fazer com ele! Euphemus jogou-o ao mar, razão pela qual é citado como o ancestral de Battus, fundador de Cirene. O torrão da Sra. Friggi, lamento dizer, úmido, vai se misturar à lama quotidiana que verte em nosso país e será dignamente esquecido. Sequer a imprensa quis saber de que material ele é feito. O site da UOL, sabidamente ávido em criar títulos sensacionalistas, trouxe o seguinte: “Professora de SC diz que foi agredida por aluno de 15 anos” (o grifo é meu). Hoje, porém, como dedica-se à venda de produtos e ideias, comentou o linchamento virtual imposto a Sra. Friggi.
Ora, o pessoal da análise do discurso, que não é bobo nem nada, sabe do que falo. A partir do momento que coloco esse “diz”, materializo a dúvida na notícia. A foto em que a Professora aparece com o supercílio cortado e o sangue escorrendo rosto abaixo pode muito bem ter sido resultado de um encontro acidental com uma porta qualquer, de modo que a manchete da UOL relativiza o óbvio. Vivemos a época dos fatos alternativos, da pós-verdade, por isso, mesmo diante do fato verídico, teima-se em instalar a dúvida em prol de uma ideologia sub-reptícia, ignorando o fato de que a imprensa deve veicular notícias, fatos, e analisá-los.
Em tempos de polarizações, a Sra. Friggi foi obrigada a tragar boa dose de cicuta. Explico-me: não bastasse a agressão verbal, física e psicológica, a Sra. Friggi foi impelida a responder por seu posicionamento político. Parece-me que seu depoimento público, no qual diz sentir-se dilacerada com o ocorrido, foi muito cru, muito verdadeiro, careceu de verniz literário, enfim, um tom folhetinesco, dramático. Não, leitor, não lanço mão da ironia. É o que penso. Fato é que a Sra. Friggi não chegou a enternecer a massa. Parte dela, cansada ou obtusa - não sei – fez uso de suas próprias palavras em publicações anteriores para condená-la, como se tivesse ela criado o monstro que a atacou.
No mais, visto que não há deus ou semideus que represente o respeito, falemos ainda do torrão oferecido a Sra. Friggi, que, lamentavelmente, em estado de mutação, dilui-se com a lama da canaille, que é indiferente à educação; a lama da imprensa, quotidianamente parcial em suas publicações; a lama produzida pela sociedade, que acha lógico um adolescente conduzir um carro e eleger bandidos, mas não responder por seus atos; a lama gerada pelos pais, que acham “natural” responsabilizar a escola pela educação de seus filhos, com menosprezo do conhecimento  e la nave va. Não sou expertise em educação, mas acho que a equação que resultou nas pedradas lançadas na Sra. Friggi, por uma sociedade e um adolescente bárbaro e perverso, começa por aí.

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Sintropia literária


Stendhal confessou haver escrito um de seus livros para cerca de cem leitores, modéstia que Machado ironiza e, desta feita, não deixa por menos: arrisca cinco leitores para as célebres memórias post-mortem de Brás Cubas. Eu, que não sou presunçoso nem nada, e não vislumbro panteão outro que não seja a campa, dispenso likes em proveito de um mísero leitor. Justamente por isso dou-me o direito, a partir de agora, de dizer mediocridades tantas quantas as que tenho lido.

Vá lá! À guisa de exemplo tomo o mundinho que circunda à minha volta, que hora ou outra se mete a falar de literatura sob a égide cristã, preocupado em separar o joio do trigo com base na leitura de um ou dois papas multiculturalistas. Leio o que leio e me obrigo à repetição, até mesmo fazendo uso de certo parafraseio!
Putain! Os expertises do multiculturalismo repetem o leitor semântico ao tecer elogios e críticas e mais críticas, na grande maioria das vezes (perdoem-me, o pleonasmo é necessário!), sem terem se dado ao trabalho de ler as obras. Aliás, a moda perdura já há algum tempo nos estudos literários, em que a ênfase recai sobre a teoria, com menosprezo da ficção.

E você, leitor, não se adiante! Não estou a dizer que não se deve ler teoria, militar em prol da literatura dos países colonizados, da literatura de gênero e afins. Penso que devemos praticar a sintropia literária (o termo é meu, registre-se, que apropriei de Ernest Gotsch, versado em agricultura!). Isto posto, vejo que muitos multiculturalistas insistem em praticar a entropia, apostando na terra arrasada!

A literatura como meio de denúncia colonialista é válida e deve ser praticada, contudo, o cultivo é mais produtivo quando se opta pela diversidade de espécies. Gotsch prova isso na agricultura, por que não copiarmos ideia tão produtiva e transplantarmo-la para a esfera literária? Por que, obrigatoriamente, tenho que exterminar o cânone em proveito de uma pseudo-originalidade, sabidamente inexistente? A originalidade vem do estranhamento que a obra provoca, às vezes, pelo simples fato de jamais podermos assimilá-la por completo, já dizia Bloom. Então, porque “fundar” um idealismo em busca de uma justiça social e de uma harmonia que sabemos ser utópica? Não digo que a harmonia social não deva existir e que não devemos sair em busca de uma maior compreensão entre povos e raças; insisto é na importância do pluralismo de ideias, ainda que muitas delas permaneçam para serem refutadas, usadas como contrapontos, fortalecendo as que crescem entre as hortaliças, à sombra das leiras de grandes árvores.

Ora, fala-se em “alta literatura”, condenando-a; ao fazê-lo, esquecem-se os ressentidos de que até mesmo a literatura forte, o cânone, só é o que é porque sofreu o processo aflitivo da influência. A grande literatura reescreve velhas obras – sempre – sem se esquecer de abrir espaço para o eu, de modo que materializa novos sofrimentos e angústias.

Hoje, surgem desmemoriados a torto e a direito: esquecem-se de que a memória, ainda que involuntária é uma arte. Por que insistem então em apagar o pouco que sobrou? É europeu, é homem, é branco? Joga fora no lixo! Pratiquemos a sintropia literária, meus caros! Não se esqueçam de que o estético é mais uma preocupação individual que de sociedade.

Um romance é um extrato das perturbações humanas que ganha a página em branco, portanto, ali estão alegrias e medos, sobretudo o medo da morte. Ora, eis aí um de nossos medos que adentram a memória comum e que, na literatura, busca status canônico. Esquecer o valor estético é perigoso! Ao esquecê-lo não reconhecemos a arte, não a experimentamos e, ao não degustá-la, atrofiamos nossas sensações e percepções!

Ave Homero! Ave Virgílio! Ave Dante! Ave Machado!


 


 


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Palhaços inglórios

Isto ocorreu há algum tempo e lembro-me de à época não ter entendido muito bem. Explico-me: tratava-se de uma entrevista com a professora e filósofa Marilena Chauí. Nela, Chauí, se bem me lembro, negou-se a comentar a epopeia do Mensalão. Uma das razões que deu ao jornalista fora o fato de não ler jornais já havia uns seis meses. Espantei-me com tal afirmação e perguntei-me como uma professora, cujas opiniões soam referências, poderia passar meio ano ao largo das discussões trazidas à luz pela imprensa, esse fiat humano, segundo Machado.
Agora, bem mais recentemente, leio Umberto Eco, meu Padre Santo, afirmar que as redes sociais deram direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam em um bar, depois de uma boa taça de vinho, sem prejudicar a coletividade. Hoje, contudo, essa legião fala às desbragadas, tem náuseas e vômitos virtuais. Devemos sempre prever e respeitar o resultado de um pensamento democrático, mas, às vezes, mesmo sabendo que normalmente o vômito é inofensivo, são flagrantes os sinais de que advém de uma doença mais grave. Dentre estas doenças, a medicina aponta a obstrução intestinal e, parece-me, reside aí o fato de muita porcaria ter adentrado as linhas do jornais e sites de notícias, relativizando aspirações e inteligências.
Na lida com periódicos oitocentistas, torna-me quase impossível o cotejo com os jornais contemporâneos. Malgrado o desenvolvimento tipográfico e o fato de o jornal impresso estar com seus dias contados, não se pode deixar de notar o aprofundamento das reflexões desenvolvidas nos primeiros. É certo que a areia na ampulheta do tempo era mais grossa, havia sempre alguma dilação que afastava a brevidade e a rapidez. Hoje, é tudo muito rápido, não há digestão, o espírito não absorve as ideias e o que se tem é a dita obstrução intestinal, uma vez que num clic das bocas parece fruir o que deveria verter em direção aos países baixos - se é que me entendem.
Ontem, li um texto sobre racismo vegano escrito por uma pan-africanista de orientação garveysta em diáspora, que se autodenomina propagadora de ideias. Até aí, nada contra. Somos todos propagadores de ideias. Ocorre que ao longo de vários parágrafos tem-se o mais perfeito exemplo do resultado advindo pós uma obstrução intestinal: a autora não diz quem é, de onde veio e sequer para onde está pensando em ir em meio a toda aquela verborragia. Cheguei à conclusão de que não sabe o que são ideias. Palavras em sequência não configuram ideias!
Ocorre-me também, neste instante, que, sob efeitos alucinógenos, é bem possível que todos misturemos demagogia e asneiras à fumaça que emana ao horizonte, muitas vezes deitando-as sobre a folha em branco. O fato é que o texto prima por seu teor racista; trocadas as raças, teríamos uma peça passível de processo judicial por propagação racista. Dito isto, a cereja do bolo são os comentários elogiosos, inclusive de pares que pregam a tolerância e a igualdade, num caso óbvio de obstrução intestinal; prova, mais uma vez, de que a ideologia emburrece.
Mas deixemos de lado a morbidez que paira sobre a imprensa e as “ideias”, afinal, ontem, em Brasília, armou-se novamente o circo e os palhaços subiram ao picadeiro. Acho que já disse aqui que em relação à coisa pública, fazemos tudo mais ou menos; a excelência circunscreve-se aos impostos, que nos são extorquidos a cada respiro. Pois relativizo o que disse: ontem toda a corja corrupta da Assembleia ganhou a área central do circo e ali protagonizou mais um show exasperante, porém, excelente em canalhice.
Palavras de ordem, corruptos achincalhando corruptos, corruptos salvando corruptos, hipócritas clamando contra a hipocrisia, bandidos advogando em favor de bandidos, quadrilhas condenando quadrilhas, negociatas à vista de todos, compra e venda de votos, bandeiras particulares hasteadas, bandeiras públicas recolhidas e jogadas nas lixeiras da república, empurrões, apelo aos evangelistas na hora de proferir um voto cujo preço fora previamente barganhado à revelia dos interesses públicos, deputado comendo pedaço de plástico de um pixuleco, enfim, nem como palhaços conseguiram divertir a plateia, mas mostram-se excelentes no que são: canalhas! Tudo já estava combinado! A nação inteira sabia o fim do espetáculo, não houve surpresa. Portanto, o que TEMER do futuro se conhecemos o script desde que despacharam o Imperador?
Hoje entendo Chauí e admiro muito mais Eco, meu Padre Santo! O fato é que se tratando da política torva e sanhuda, não há dúvidas! Não há mocinhos! Proibiram-nos escrever o mais chinfrim dos folhetins! Só temos bandidos! Na nova narrativa, temos que nos ver com a eterna univocidade das personagens, alternando os bandidos no picadeiro como se estivéssemos a redigir os próximos passos de um enredo mafioso. Isto, se quisermos alguma verossimilhança possível, afinal, esta é a índole dos nossos políticos palhaços inglórios. 

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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Uma carta de amor de Franz Kafka

Uma carta é o que deixo para você leitor, porque viajar é preciso; e quando se viaja o tempo é outro, não se deve manter a rotina de entregar o texto toda quarta ou quinta-feira. É preciso algum desprendimento, atrasar a ampulheta ao sabor das descobertas. Por isso, traduzi a carta que lerá abaixo, deixada por Franz Kafka a Milena Jesenská, que extraí do site “Des Lettres”.
Franz Kafka (1883-1924) um dia escreveu que “a facilidade em escrever cartas deve ter introduzido no mundo uma terrível bagunça de almas: é um comércio com fantasmas.” Este comércio manteve-se da forma mais intensa com Milena, que inicialmente foi sua tradutora, e depois, um dos grandes amores de sua vida. Eles só se viram em duas ocasiões, mas a correspondência entre eles constitui por si mesma uma estrutura de sofrimento e vazios, um monumento literário de uma paixão e força raras. Esta carta ilustra um amor alimentado pela falta e pela ausência, um irresistível jogo de fantasias.

Quinta-feira, 3 de junho de 1920.

Sim, Milena, esta manhã eu estava nu em meu sofá, metade no sol e metade na sombra, depois de uma noite quase em claro; como eu poderia dormir quando, desperto demais, ficava voando ao seu redor, realmente apavorado, exatamente como você mesma escreveu em sua carta esta manhã: “aquilo que havia caído sobre mim”; assustado no sentido da palavra quando se diz dos profetas que sendo (ainda? ou já? pouco importa), que sendo então frágeis crianças pequenas, esperando apenas por uma voz chamá-las, sentiam-se assustados, não queriam, e fincavam os pés ao chão e sentiam uma angústia rasgando seus cérebros, porque tendo ouvido vozes antes, eles não podiam entender de onde vinha o som que os aterrorizava - era esta a fraqueza de seus ouvidos? era esta a força da voz? - e não sabiam mais porque eram crianças, porque a voz os havia vencido e se instalado neles em virtude precisamente desse medo, dessa apreensão divinatória que tinham dela, que por outro lado não provava nada quanto à sua missão profética, porque muitos ouvem a voz, mas são eles verdadeiramente dignos dela? É muito duvidoso e é melhor dizer não de imediato para sentir segurança, tal era o meu estado de espírito no sofá quando suas duas cartas chegaram.
Há um traço de caráter, eu acho, Milena, que compartilhamos: somos medrosos, nós nos assustamos do nada; quase todas as nossas cartas são diferentes, mas quase todas elas temem aquela que as precede, e mais, aquela que as seguirá. Temerosa, contudo você não o é por natureza, vê-se isto facilmente; eu mesmo talvez não o seja mais da mesma maneira, mas isto tornou-se uma segunda natureza, uma vez que só desaparece no desespero, a rigor, na raiva, e, não esqueçamos, no medo.
Às vezes tenho a impressão de que vivemos em um mesmo quarto com duas portas, uma de frente para a outra; cada um tem a maçaneta da sua; apenas um cílio se move em um, o outro já está atrás da porta; o primeiro acrescenta uma palavra, o outro já fechou a porta definitivamente, e não o vê mais. Ele será aberto, porque trata-se de um quarto que não se pode abandonar. Se o primeiro não era como o outro, ele manterá sua calma, aparentemente acharia melhor não olhar o que fez o segundo e faria, pouco a pouco, reinar a ordem no quarto como se fosse uma sala semelhante a todos as outras; ao contrário, da sua porta ele trabalha como outro, acontece mesmo que cada um esteja atrás de sua porta e que o belo quarto esteja vazio.
Disso nascem mal-entendidos cruéis. Você reclama, muitas vezes, Milena, que se pode escrever e reescrever uma das minhas cartas sem que dela jamais saia coisa alguma; ora, é justamente isso, salvo algum erro, é uma dessas cartas em que mais estive perto de você, tão senhor do meu do meu sangue e do seu, tão embrenhado na floresta, tão descontraído, que realmente não ouvia do outro nada além do que eu disse: que se via o céu, por exemplo, por entre as árvores; isto é tudo, uma hora depois repete-se a mesma coisa, e não há nada nisso, é claro, nem uma única palavra é cuidadosamente pensada. Mas isto não dura, é apenas um momento, e imediatamente as trombetas da insônia recomeçam a soar.
Considere ainda, Milena, o estado em que venho até você, considere os trinta e oito anos de viagem que tenho a oferecer (e até muito mais, porque eu sou um judeu); quando eu a encontro numa volta aparentemente fortuita da estrada, você, que eu realmente não esperava ver, especialmente agora, especialmente tão tarde, não posso gritar, fazer qualquer coisa, nada mais grita em mim; não estou dizendo loucuras (também não estou falando sobre o que tenho em excesso), e só sei que estou de joelhos vendo seus pés perto dos meus olhos, acariciando-os.
Não me peça para ser sincero, Milena. Ninguém pode exigir mais sinceridade de mim do que eu mesmo, mas muitas coisas estão além de mim, talvez por isso elas me escapem. Incentivar-me a procurá-las não é me encorajar, ao contrário, não posso fazer nada menos que isso, de repente, tudo se torna uma mentira, e é a caça que está a estrangular o caçador. Estou em um caminho muito perigoso, Milena. Você, você está firmemente plantada ao pé de uma árvore, jovem, bonita, e o brilho de seus olhos elimina o sofrimento do mundo. Nós jogamos “muda, muda, pequena árvore”, eu escorreguei na sombra, de uma árvore para outra, estou no meio do caminho, você me chama, você me avisa dos perigos, você quer me dar coragem, meus passos incertos a assustam, você me lembra (a mim!) da gravidade do jogo, eu não posso mais, eu caio, eu estou por terra. Não posso mais ouvir ao mesmo tempo a sua voz e as vozes terríveis do mundo interior, mas posso escutá-las e confiar em você como em qualquer outra pessoa neste mundo.


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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Annie Lennox e os desmemoriados

O que Annie Lennox tem a ver com a falta de memória? A resposta, leitor, se se dispuser a um pequeno esforço, ainda que padeça de alguma anamnese, verá que tem lá seus lastros nos célebres versos do profeta, dado que uma geração vai, e outra geração vem. Bem, as predições do áuspice afirmam que nesse movimento pendular o que permanece é a terra, por isso, tudo o que venha a dizer digo sob as asas da ressalva e da ambiguidade.
Não sei em que grau de perda de memória você se inscreve, mas Annie Lennox é uma cantora; sim, daquelas que comumente faziam uso do aparelho fonador, ao contrário das atuais estrelas da música, cujos glúteos bombados e em movimento produzem sons supostamente admissíveis na escala musical. Lembrou-se de seu ídolo da música e já está a resmungar, achincalhando-me conservador? Vá lá, estravase, bote seu lado fã clube para fora, não me importo! Mas aposto que ao lembrar-se dele, se não padecer de qualquer encefalopatia, serão lembranças da ordem corpórea e não sonora! Pronto, matei a charada! Seu ídolo canta com o cul!
Após a provocação, vamos ao caso Annie Lennox: a Cantora, célebre já nos anos 80, quando fazia parte da banda Eurythmics, vendeu cerca de 75 milhões de discos planeta afora e foi premiada com Grammys e Oscars. Portanto, seu Lattes dispensa apresentações, até mesmo porque as mulheres escocesas não são conhecidas pelo quesito derrière.
Ocorre que semana passada a representante de uma rádio comercial americana enviou-lhe um e-mail dizendo ter apreciado muito suas músicas, que ouvira pela internet. Até aí nada de novo. Contudo, ato contínuo ao elogio, diz ser coordenadora de músicas e estar à procura de artistas que considera ter potencial, para tocá-los em sua rádio.
Não bastasse apresentar-se como completa desmemoriada, sobretudo tratando-se de seu mundo, a música, a tal coordenadora pede a Lennox que envie um mp3 de seu último single, informando que o encaminharia ao diretor de programação, para ver se ele estaria interessado em tocá-lo. Completo desconhecimento da comida que mastiga todos os dias! Fosse eu o dono da rádio!
Mas fosse a perda da memória um caso localizado de gafe, vá lá! O fato é que tem se tornado clichê afirmarmos que somos um povo sem memória - veja que já me locomovi geograficamente. À medida em que envelhecemos, tornamo-nos autobiográficos, o repertório aumenta, repetimos histórias tal aquela tia velha lá do interior que, a cada nova visita, nos submete à narrativas há muito conhecidas. Mas não se trata disso leitor, trata-se da convivência com uma geração nada curiosa do passado recente, que pouco importa em saber o porquê disto ou daquilo, a origem, e quiçá, nada afeita à leitura e ao conhecimento. Basta saber fazer o quadradinho!
Para esses tantos o conhecimento é descartável, ondulante, limitam-se à última moda, sem se darem conta de que são, na maioria das vezes, alienados pela indústria do entretenimento. Esta, embora credite a seus produtos de diversão o status de cultura, tão logo os venda, inventa outros para assim manter girando a roda do consumo. A cultura, desse modo, vê-se alijada da sociedade de massas. Afinal, a arte, para o bem ou para o mal, incomoda o sujeito, interrompe seu sono fantasioso, obriga-o a pensar.
Vem-me ao espírito a última onda da literatura especializada em sangue, o dos vampiros. Desconheço-a por inteiro e creio mesmo que ali haja muitos bons prosadores, contudo, o exercício de engavetamento promovido pela indústria do entretenimento apaga a cultura passada, de maneira que arrisco afirmar que apenas uma reduzida gama de leitores dá-se ao trabalho de ir atrás do romance gótico, de um Abraham Stoker, por exemplo. Este, na toada da historieta da Annie Lennox, figuraria autor iniciante de potencial sucesso na literatura vampiresca.
E não falemos da política torva e sanhuda e suas personagens, cuja defenestração é mais que merecida; estas, no entanto, sobem à cena e ganham protagonismo a cada eleição. Culpa de um bando de milhões de desmemoriados e interesseiros, cujo horizonte não vai além das ideias que rondam o próprio umbigo?

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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Spleen

À procura do carro das ideias, corro os olhos de cima abaixo pelos sites de notícia e o que leio, felizmente, obriga-me a intersecções com a literatura. Graças à mimeses suportamos o real. Não à toa, a memória literária, por meio de uma série de sinapses, às vezes confusas, nos traz lembranças e entrechos de poemas e narrativas.
À primeira delas, leitor, credito o título destas garatujas. Tente você ler as notícias do dia; se não for resistente o bastante, advirto-o, certamente padecerá de um pessimismo exacerbado que remete ao mal do século, razão da existência de algumas obras-primas do século XIX. Guardadas as devidas proporções entre Musset, Byron, Goethe e mesmo os nossos Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, vem-me Fernanda Young, que hoje disse que só produziu o que produziu graças à depressão, eis aí um exemplo da extensão do tédio que se instala nesta tupiniquim republiqueta.
Não há nada, parece-me, que nos anime a seguir em frente. Esperamos por algo, e nada acontece! As sinapses me levam a Emma Bovary. Lá pelas tantas, no capítulo IX, Flaubert descreve o estado de alma de sua célebre personagem: “Como os marinheiros em perigo, ela lançava os olhos desesperados para a solidão da vida, procurando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte. Não sabia o que seria, que ventos trariam esse acontecimento para si, para onde a levaria, se viria carregado de angústias ou de felicidade. Mas, cada manhã ao despertar, ela esperava o dia, ouvindo todos os ruídos, erguendo-se sobressaltada; e espantava-se por nada suceder. Ao pôr-do-sol ficava mais triste, desejando que o dia seguinte chegasse logo.”
Flaubert disse um dia ser Mme Bovary. E nós, cidadãos espezinhados pela canaille, somos todos Emma Bovary? O que faremos, entediados como estamos diante de um país que não caminha, mas vive a sapatear como se esforçasse para não ser tragado pela areia movediça? Espoliados, prostituídos e massacrados por uma nação vampiresca, nos suga o sangue e as esperanças... o que ela quer mais, matar-nos todos?
Esperamos acontecimentos e eles, quando vêm, vêm carregados de angústias. Os ruídos são produzidos pelas mesmas figuras, pelas mesmas quadrilhas e seus líderes, deslocando-se pelo país como se salvadores da pátrias fossem, tentando a todo custo apagar de nossas memórias o passado recente! Os salvadores da pátria, todos, queremos mortos! Por que insistem em vilipendiar nossos espíritos? Despertamos, esperamos por um novo dia, e nada! Só nos resta tristeza ao contemplar o pôr-do-sol à espera do dia seguinte.
Reflito um instante e as sinapses me trazem à memória um dos nossos: Nelson Rodrigues, sim, aquele da célebre série de crônicas A Vida como ela é e dos não menos instigantes Vestido de Noiva, O Beijo no Asfalto e A Falecida. Lembro-me de Sarah Lopes na Falecida. Tudo, as peças, as crônicas e Nelson! Tudo foi coberto pela poeira do tempo! Mas ventou tão pouco, penso, por que não há um aluno sequer que se lembre disso? Por que estamos tão desmemoriados? Por que somos embotados diariamente por um lixo que teimam em chamar cultura, em que subcelebridades cantam com o derrière e pseudojornalistas produzem reportagens sobre a importância desse ícones de não sei do quê e nem sei para quem? Nelson insiste batendo à porta da memória, ouço o ecoar de sua fala: “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.”
Está bem, incorremos em erro todas as vezes em que generalizamos, mas eis um fato: tratando-se de políticos, não há quem possa desdizer Nelson Rodrigues!
Penso o que penso e lá me vêm as sinapses, agora, com o Zweig a me provocar: “Nada é mais típico do brasileiro do que o fato de ser um homem sem história. Todos os valores civis foram importados pelo mar.” Zeus! Muitos dizem que estamos a fazer história; atraso-me a pensar no modo como a escrevemos: buscamos a tornure da frase, caprichamos nas descrições, criamos argumentos, às vezes trabalhamos a síntese, somos afeitos à análise do discurso (escrevemos teses sobre o discurso implícito nas contas luz), mas e os valores civis? Devemos insistir em refutá-los em prol de um discurso ressentido que eleva os traços tupiniquins?
O que fazer senão padecer de um mal do século todo nosso, longe dos lugares sombrios, úmidos e frios, mas ao sol à beira-mar, sentados na areia branca que toca nossos pés, contemplando o grande disco a submergir nas águas?
Eis que as sinapses me trazem Carlota Joaquina: “Desta terra, não quero levar nem o pó!”

Agora só me resta arrancar os sapatos e atirá-los ao mar!

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Intrusa

Afirmar que o mundo sempre foi regido pela batuta masculina nada mais é que constatar o óbvio. E isso não se explica pela constituição física e/ou a inteligência do homem, como insiste em bradar muito machista de plantão. Arrisco dizer que a submissão da mulher tem origem na sua própria força. Não, não estou atribuindo a ela a culpa da sua subjugação, como tem sido comum em nossos dias, em casos em que se condena a vítima e não o estuprador!
Afirmo que o homem age covardemente todas as vezes em que assedia física e moralmente a mulher, valendo-se do poder tradicionalmente conferido a ele - sim, é tradição, até mesmo mulheres dizem que homens não choram - para sujeitar o sexo oposto. E por duas razões: medo e bestialidade; medo, porque por mais que se esforce não consegue entender o intelecto feminino, diverso, plural, criativo, perseverante, vigoroso e forte; bestial, porque rude se esquece de que a delicadeza e a inteligência são superiores à força e ao poder perverso.
Bem, todo esse preâmbulo do óbvio só para dizer que apesar da maladroite regência masculina, ópera e o libreto são escritos por elas, que há muito solaparam a base do pedestal do macho. E não fizeram isso de modo sorrateiro, mas armadas de cortesia, civilidade e singeleza, ainda que hora ou outra tenham sido tomadas por intrusas. Afinal, que faria o homem ao ver seu universo desbravado por essas bravas gentes delicadas fazendo tudo o que ele fazia - e melhor?!
Vejam Júlia Lopes de Almeida! Nascida no Rio de Janeiro, viveu parte da infância na minha querida Campinas; ali, começa a escrever na Gazeta de Campinas, apesar de a literatura “não ser visto como uma atividade própria das mulheres” (com aspas, porque é assim que dizem seus biógrafos). Também confessa a João do Rio que a essa época fazia versos às escondidas.
Bem, o fato é que Júlia vem à luz e já em 1919 é eleita presidente honorária da Legião da Mulher Brasileira. Mais tarde, integra o grupo de escritores e intelectuais que planeja a criação da Academia Brasileira de Letras. Contudo, embora seu nome fizesse parte da lista dos 40 imortais que fundariam a entidade, foi excluído posteriormente, porque os fundadores optaram por uma academia exclusivamente masculina. E Machado consentiu!!!
Mas falemos de A Intrusa, romance de Júlia Lopes de Almeida, que me foi apresentado por uma amiga, leitora contumaz. Publicado em 1905 nas páginas do Jornal do Commercio, em capítulos, como ditava a regra de todo bom folhetim, vira volume três anos depois. Ainda que parte da crítica afirme que a obra de Lopes de Almeida é marcada pela influência do realismo e do naturalismo francês, tratando-se d’A Intrusa, não me parece este um comentário de todo justo.
A Intrusa, obra escrita já sub judice do realismo, tem uma estrutura narrativa característica do Romantismo. Lopes de Almeida segue a velha fórmula do folhetim à la Dumas, de modo que o leitor vê-se diante de um sobejar de diálogos. O juramento romântico - vide Atala, de Chateaubriand -, déclancheur de toda a trama, também está lá, assim como os ardis da antagonista, de fato, a intrusa. Mas vamos ao enredo.
A Intrusa conta a história de Argemiro, advogado bem sucedido no Rio de Janeiro oitocentista, mais precisamente à época da Belle Époque, quando a capital, um arremedo de Paris, acreditava-se no auge da cultura cosmopolita. Viúvo, jovem e atraente, é cobiçado pelas mulheres; contudo, do casamento anterior com a filha dos Barões de Cerro Alegre, resultou a intratável e mimada filha Glória.
Em meio à má educação da filha - educada pela sogra, a baronesa de Cerro Alegre - e um escravo ludibriador, Argemiro decide contratar uma governanta, e o faz via anúncio de jornal. Ao fazê-lo Argemiro não só recebe críticas do amigos Caldas e Assunção, mas sobretudo da sogra ciumenta.
Argemiro, ainda empenhado em seu juramento, impõe a Alice Galba, única candidata a responder ao anúncio, à condição de jamais se encontrarem, de modo que quando Argemiro adentrava a casa, Alice se escondia. A situação perdura gerando conflitos, sobretudo com a sogra, cujo intrometimento confere a ela o protagonismo e a alcunha de intrusa, muito embora na obra o adjetivo seja atribuído a Alice Galba. Ocorre que a onipresença de Alice Galba invade a casa e o espírito de Argemiro, que tem seu quotidiano inteiramente alterado. O final! Aquele que todo leitor semântico deseja; felizes para sempre!
A presença de Alice reproduz ipsis litteris o papel da mulher não tão bela, mas recatada e do lar - fazendo uso, aqui, do jargão repetido à exaustão nos últimos dias. Isto posto, em A Intrusa não é evidente a escritora de verve feminista como quer boa parte da crítica; e só o digo porque há aqueles que a culpam de “reforçar a dualidade contraditória com que a tradição estigmatizou a mulher”, confirmando a ideologia dominante.
Antes de concluir, peço ao leitor semiótico que leia o início do capítulo XII: uma pérola que reproduz o embate entre romancista e personagem, algo à la Sterne e no rastro de Machado.
Por fim, dada a projeção de Júlia Lopes de Almeida em seu tempo, não é justo que lhe seja reservada perene coadjuvação. Que ganhe o merecido protagonismo!



Imagem: Almeida Júnior, Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, 1891.
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Opinião talhada na pedra


___ Acho qui num é bem assim. Eu já disse, o senhor divia pensá a respeito i quem sabe, mudá de opinião... Isso ia facilitá por demais.
___ Num mudo não. Aqui, tenho minhas ‘opiniães’; sei que elas tão certa. Num mudo não!

O diálogo acima, ouvi-o na fila de um caixa eletrônico. Adiantei-me para próximo da máquina, efetuei alguns pagamentos e, quando voltei-me, as duas personagens já haviam desaparecido na multidão. Ficaram as duas falas a me incomodar e ressoar no espírito.
Há muito consideram louvável mudar de opinião; não a dos outros, por meio da astúcia, como dizia Maquiavel, mas a sua própria. Perdoe-me, leitor, enredar dois monstros da literatura em um só parágrafo pode parecer pedante, mas não posso deixar de pensar em Fernando Pessoa que disse um dia que “convicções profundas só as têm as criaturas superficiais”. Questão de sinapses...
Nada contra a coerência, em absoluto, mas sentar-se sobre uma opinião, buscando ser coerente consigo próprio, é demonstrar um atavismo despropositado, algo como se as opiniões, uma vez internalizadas, adquirissem características biológicas. Ora, até mesmo a ciência vive de um desdizer constante; à medida que novas experiências são postas à prova, conclusões anteriores ou são reelaboradas ou banidas de vez. Portanto, por que não mudar de opinião, olhar para outras paisagens, respirar outros ares, pintar-se de outras cores?
Mas não, alguns insistem em gravar suas opiniões na pedra como se fossem testemunhos dignos de serem preservados; quando não ressuscitam provérbios já há muito esquecidos, na tentativa de enobrecer textos e contextos por si só irrelevantes. As estripulias recentes da canalha política trouxeram à luz o célebre verba volant, scripta manent (as palavras voam, os escritos permanecem), que parece ter sido dito por Caio Tito, no senado Romano.
Hoje, em dias de intolerância e opiniões renhidas, talvez o maior estorvo para um bom diálogo seja o pensamento tribal. Tratando-se de questões religiosas, políticas ou raciais, partidários dos diferentes grupos rejeitam em definitivo pessoas que pertençam a uma outra comunidade que não partilha das mesmas ideias. Falar ou dirigir-se a essas pessoas constitui-se então uma tarefa desafiadora. 
Os exemplos transbordam no senso comum: na matriz, há pouco mais de uma década, tivemos Uma verdade inconveniente, documentário de Al Gore, que tratava da crise global climática. A eloquência e a lógica irretocável de Al Gore não foram suficientes, embora tenham impactado muitos, a persuadir outros tantos. Explico-me: Al Gore era/ou é um político, ser que, por sua natureza, está fadado a/ou deve ser visto com reserva e muita desconfiança.
No mais, Al Gore gravitava em um país cindido por duas ideologias políticas. Nesses casos - aliás, vemos isso agora em nosso país -, a militância e os instintos partidários erguem barreiras intransponíveis contra as ideias e a propaganda do lado oposto. Ainda que a causa de Al Gore fosse legítima, ela foi relativizada por uma grande parcela da população americana. A prova de que, às vezes, as ideias são talhadas na pedra, é que a questão climática, ainda hoje, está na ordem do dia.
Aqui nos trópicos tivemos o caso Haddad, prefeito de São Paulo. Haddad colocou-se como objetivo implantar quilômetros de ciclovia na capital paulista. Mesmo que muitos desses quilômetros tenham sido desbravados em ruas sem qualquer condição de abrigar ciclovias ou estas, quando executadas, trouxessem de arrasto alguns bueiros em desnível, postes no meio do caminho e um ou outro buraco, muito foi feito e a ideia era - e é - ótima. A ideia de Haddad é uma mão na roda na qualidade de vida da poluída capital. No entanto, muita gente foi contra a ideia do prefeito em razão de ele pertence à parte contrária da canaille política (a partir de agora, leitor, toda vez que eu grafar canaille, trata-se de abjetos políticos).
Vê-se, com isso, o prejuízo causado pela impossibilidade - ou pela falta de vontade - de se colocar no lugar do outro, quiçá, mudar de opinião. Vivemos dias em que, apesar da disseminação do conhecimento, as pessoas mostram completo despreparo ou pura indisposição a ouvir. Resultado? A comunicação não acontece em razão de as opiniões terem sido talhadas na pedra, algo que nos rincões dizem de alguém “teimoso feito uma mula” ou ainda, um “cabeça dura”. 


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