Revista Philomatica

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Deus, essa personagem literária


Confesso que hoje não pretendia sequer resvalar na canaille. Mas não é que certa senadora, acima de qualquer suspeita, veio a público afirmar peremptoriamente que em seu partido não há bandidos? Li o que li em tom de ironia, afinal, só essa figura de retórica tem o poder de negar afirmando, como parece ser o caso. É tudo tão óbvio que nem mesmo a ironia de situação, acho, dá conta do desejado.
Mas voltemo-nos ao Altíssimo. Em minhas aulas de literatura tratava do estético, essa preocupação mais de cunho individual que de sociedade. Conversa vai, conversa vem, comentávamos alguns aspectos da originalidade, quando lembrei-me daquela estranheza que jamais assimilamos, teorizada por Bloom. O assunto pulou para a genealogia das obras e de arrasto veio o Gênesis. Curso de Letras, discussão sobre livros, literatura e discursos, e a tradição religiosa se impõe como provocação ante a compreensão da ficção.
Melhor fora não imaginar o mundo sem Deus e dar asas ao existencialismo sartriano, porque aí as suscetibilidades e a fé destruiriam qualquer raciocínio. Diante disso, trouxe Voltaire com sua célebre expressão Si Dieu n’existait pas, il faudrait l’inventer (Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.) e tudo continuou como se esperava.
Mas o fato é que a ambivalência entre o humano e o divino marcam os textos bíblicos desde a origem, sendo esta uma das características de sua originalidade. O susto vem da compreensão de que a adoração de Deus por judeus, cristãos e muçulmanos é a adoração de uma personagem literária. E não me acusem de blasfêmia, pois só estou a papaguear Bloom.
Acredita-se que a autora original dos livros de Gênesis, Êxodo e Números tenha sido J ou Bathseba, a rainha mãe de Salomão, uma hitita tomada pelo rei Davi, que, depois de cobiçá-la, deu um jeito de “apagar” do mapa seu marido Urias, enviando-o para um combate mais que conveniente.
É claro que a ironia de uma hitita escrever os livros basilares da Torá, e não um israelita, deveria ser corrigida, afinal, o Javé de Bathseba, também conhecida por J, é humano demais: é vingativo, come e bebe, delicia-se com suas estripulias, é ciumento, proclama sua imparcialidade ao mesmo tempo em que se coloca ao lado de seus protegidos e così via, de modo que Deus, Zeus e todo o pessoal do Olimpo irmanam-se em ações e humores, relativizando o divino e o pagão. E aqui trago um trecho sublime de Bloom: “Quando [Deus] conduz essa malta [os israelitas escravizados no Egito] enlouquecida e sofredora pelo deserto do Sinai, já se tornou tão insano e perigoso, para si mesmo e para os outros, que a escritora J merece ser chamada de a mais blasfema de todos os autores que já existiram.”
Não à toa, o que Bathseba escreveu foi censurado, apagado, distorcido e revisado inúmeras vezes ao longo dos séculos até que tivéssemos os livros tais como os lemos hoje, sendo Ezra o último desses redatores, logo após ter retornado de seu exílio na Babilônia.
Bathseba dá azo a uma liberdade irônica ao retratar Javé (Deus) que, é certo, escandalizou sacerdotes e escribas, portanto, o melhor a fazer era reescrever tudo ou a maior parte.
A narrativa de J, até onde se sabe, termina quando Javé enterra Moisés, com suas próprias mãos, numa cova anônima, sem sequer tê-lo deixado botar os pés na Terra Prometida. O relato de J, que transcende a ironia e a tragédia, traz Javé como uma personagem que se aflige por ter escolhido um profeta obstinado, obrigando-o mesmo a tentar assiná-lo gratuitamente enquanto a malta vagava pelo deserto.
Mas evitemos outros sustos: não falemos da personagem criada pelo evangelista Marcos, ou da audácia de Maomé ao registrar a voz de Alá em detalhes e extensamente no Corão. Relativizemos. Atenhamo-nos ao tamanho da nossa sociedade fluminense (como diria Alencar) e, ainda assim, não falemos da imagem encontrada nas águas no Rio Paraíba do Sul. Não olhemos para Padim Ciço, conselheiro de Lampião!
Quanta pretensão divina em reles humanos!
Mas vá lá! Por mais que o caldo entorne, ainda temos de um lado Voltaire a dizer que há uma fé para as coisas espantosas e outra fé para as coisas contraditórias e impossíveis; e do outro lado a canção, que teima em nos alentar garantindo que “a fé não costuma faiá”.

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

terça-feira, 25 de abril de 2017

Pássaros sem asas

E 2017 enfiou o pé a fundo no acelerador! Findou-se mais uma daquelas semanas pobres, em que os assuntos não oferecem muita relevância, sobretudo porque a canaille política, recolhida em seus covis - ou em Paris -, adia os habituais escândalos para fevereiro ou março, meses em que pretensamente volta ao trabalho.
O resultado é que a maioria dos sites de notícias, num esforço hercúleo para atrair o leitor, anda recheada de disparates. Quase nada se aproveita; o risco, nesses casos, é de embotar as ideias. Pensando informar-se, o leitor escorrega ladeira abaixo e é levado a comprar ouro de tolo.
À procura da arraia-miúda, satisfiz-me com o fútil. No site do partido, o episódio mais lido pelos leitores foi a gafe cometida ao vivo por uma jornalista - mais isso foi lá em 2006! Afora mexericos e otras cositas más, o tempo só esteve para rebeliões, de modo que a marginália continuou sob os holofotes.
Procuro daqui, procuro dali, e acabo na orla de Fortaleza em meio a uma multidão que, aos gritos, incentivava um casal que se conhecia biblicamente, esquecendo abertas as cortinas do quarto do hotel. O desempenho mereceu registros que, publicados na rede, foram vistos por milhares de voyeurs.
Avesso a adjetivos, continuei minha busca até dar com os olhos em uma notícia que vinha de Belo Horizonte. Tratava-se de um pedido protocolado por alguns historiadores no Iepha (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais); nele, solicitam a exclusão dos nomes de três ‘falsos inconfidentes’ do Monumento à Terra Mineira, inaugurado em 1930 em homenagem a bandeirantes paulistas e inconfidentes.
Lido o tal artigo, bateu-me a dúvida: como não acreditar piamente nas aulas de Dona Benedita, jurando de pés juntos que a conspiração havia sido desmantelada em 1789? Para o menino atento às aulas, só essa data já o enchia de admiração e respeito pelo levante de Vila Rica. Por sua vez, o artigo afirma que o movimento contra a Coroa Portuguesa deu-se em 1792!
- Dona Benedita? Então foi no mesmo ano da Revolução Francesa?!
- Isso mesmo! Mas, atenção meninos, só em 17 de abril de 1792 é que foi lida a sentença na cidade do Rio de Janeiro. Doze dos Inconfidentes foram condenados à morte! Mas, no dia seguinte, leu-se um decreto de D. Maria I, pelo qual todos, exceto Tiradentes, tiveram a pena comutada. Tiradentes, nosso herói! Dona Benedita enchia o peito e pronunciava um herói pleno e aspirado.
A despeito dos três intrusos (o escravo Alexandre, Fernando José Ribeiro e José Martins Borges) que os historiadores afirmam não terem participado do levante, cá com os meu botões, pensei na repaginação sofrida pelo herói de Dona Benedita, empreitada levada a cabo pelos ideólogos positivistas na fundação da República.
Ao buscar em Tiradentes a personificação da República, o militar que tinha no máximo um bigode e que, na prisão, fora obrigado a raspar barba e cabelo par evitar piolhos, à beira do cadafalso, teve sua figura assemelhada a Jesus Cristo, ganhou camisolão e barba feito madeixa. 
Ah, há ainda as teorias conspiratórias! Mas o melhor a fazer é deixá-las de lado; porém, não deixa de ser instigante o relato do carioca Marcos Correa que, na Paris de 1969, ao pesquisar a vida de José Bonifácio de Andrade e Silva, encontrou a assinatura de um tal de Antônio Xavier da Silva, na lista de presença da Assembleia Nacional Francesa, bem ao lado da do Patriarca da Independência. Aí começam as suspeitas de um complô orquestrado pelos maçons em que há a similaridade de assinaturas, a troca de Tiradentes por um ladrão, sua fuga para a Europa... Os militares, no século XX, teriam se encarregado de apagar rastros e colocá-lo no panteão dos heróis nacionais.
De minha parte, procuro guardar o dito do mestre, cuja opinião era de que a lenda é melhor do que a história autêntica, razão pela qual não desacredito da ficção. A história de Tiradentes é mais um desses exemplos em que a ‘verdade’ das realidades usurpa a lenda metida nos livros. Para isso basta sair em busca do relato de Marcos Correa, bisbilhotar arquivos de bibliotecas e museus... quiçá não tenham sido destruídos.  O fato é que, para acomodar interesses, a história pode ser modificada pela ficção. Por isso mesmo Machado afirma ser possível inventar “um pássaro sem asas, descrevê-lo, fazê-lo ver a todos” e, ao fazê-lo, levar todos a acreditar “que não há pássaros com asas”.
Por fim, surpreendi-me mesmo foi com a notícia de que cientistas chegaram à conclusão de que as galinhas são mais inteligentes do que pensamos: são capazes de empatia, lógica e até alguma astúcia. Enfim, algum alento para a humanidade... 
 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Lapsus memoriae

Um cidadão cuja memória não se estende por mais de quinze dias sofre de amnésia ou está em avançado estado de demência; o Alzheimer não só corrompeu sua memória de curto prazo, como também deteriorou - e muito - a de longo prazo.
Intencional, a memória seletiva é algo um pouco pior, pois envolve certa hipocrisia, ainda que a intenção seja a autopreservação. Nessa lógica, preservar-se aventa não só alguma superioridade, mas também alçar as próprias opiniões a um patamar em que os pares jamais alcançariam, conferindo a si próprio um direito à crítica nunca permitido aos confrades. Não foi à toa que o evangelista aconselhou tirar primeiro a trave dos próprios olhos para, só então, tirar o argueiro dos olhos de vosso irmão.
Digo o que digo referindo-me às bandeiras particulares; porém, tratando-se das bandeiras públicas, somos um povo difícil de entender. Vamos lá! Pergunte a um aficionado qualquer em futebol quais eram os jogadores da Copa da Suécia de 1958. É certo que os nomes de Pelé, Garrincha, Didi, Gilmar, Bellini e tantos outros explodem de lábios entusiastas em segundos.
Agora, pergunte você a este mesmo cidadão em qual larápio votou nas últimas eleições, ou melhor, pergunte a ele se tem algum conhecimento das tramoias em que esse larápio esteve envolvido, e que não constam em seu Lattes. Amnésia total!
Em 1979, o filho do ministro Golbery do Couto e Silva envolveu-se em negócios suspeitos de terra em Goiás. O então repórter Alexandre Garcia pergunta ao ministro se ele responderia às acusações que estavam estampadas nos jornais do dia, ao que o ministro respondeu: “Aqui no Brasil levam quinze dias para esquecer. Eu não vou contribuir para levarem 16.”
A resposta do ministro sintetiza muito da esculhambação moral que vivemos nos dias de hoje, em que a canaille reina absoluta. Nunca antes na história desse país (plágio!) roubou-se tanto e tão descaradamente! E para que isso tenha chegado ao ponto em que chegou, contaram sempre com a memória curta do brasileiro.
Talvez, desde o início, tenhamos alguma molécula de nosso DNA deteriorada. Em nossa certidão de nascimento, lá pelo final, Vaz Caminha tasca uma boa dose de nepotismo: “E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê.” Como se vê, um trocazinha de favor, hoje algo tão usual que sequer prestamos muita atenção.
Algum tempo passa, a família real já instalada no Rio de Janeiro e a necessidade de que alguém administrasse a Ucharia e as Cozinhas Reais. Joaquim José de Azevedo era o responsável pela área de compras e os estoques da casa real e Bento Maria Targini, do erário real. As maracutaias foram tantas e a corrupção tão deslavada que, quando D. João VI volta para Portugal, ambos foram proibidos de embarcar. Mas como o Brasil sempre foi o Brasil, aqui ambos foram promovidos de barão a visconde. Azevedo tornou-se o visconde do Rio Seco e Targini, o visconde de São Lourenço.
Vai a monarquia, vem república, e nada muda! Na ditadura Vargas é célebre a célebre fortuna de Gregório Fortunato, o chefe da guarda pessoal do ditador. Iniciados os trabalhos da nova capital, sob a égide de Juscelino Kubitschek, a pressa foi a grande responsável pela onda de corrupção, dando origem a não menos célebre vassourinha de Jânio Quadros.
À medida que se trocam os políticos, os escândalos se multiplicam: Coroa Brastel, Sudene, Escândalos dos precatórios, Anões do orçamento ... e a lista entre os anos 60 e agora ultrapassa duas centenas (procure por “lista de escândalos políticos no Brasil” no Google!).
Tão vergonhoso quanto os escândalos é a posição adotada pela canaille. Se nos Estados Unidos Donald Trump cunhou o neologismo ‘fatos alternativos’, aqui na república tupiniquim saiu-se com ‘acusações virtuais’. E mais: culpa-se hoje o judiciário, colocando-o como ameaça à democracia. Para a canaille roubar pode, investigar não!
Como os próprios cientistas afirmam que 90% do DNA humano não serve para nada, nós brasileiros resolvemos dar um jeitinho, usando o excedente inútil para fins ilícitos e particulares.
E eu que pensava em falar de livros...


Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nós sempre teremos Paris

Hoje, antes mesmo do matinal p’tit noir, corri os olhos por uma crônica de Leandro Karnal, cujo título homônimo à obra de Hemingway obrigou-me a uma releitura. Trata-se de Paris é uma festa. No momento, não pude ler a crônica, mas, de pronto, soube o que faria ao longo da tarde.
Na rua, coloquei-me a pensar nos livros já lidos e no tempo. Às vezes a vida nos exige demais; rouba-nos o tempo para leituras. Há tanto o que ler... Se tiver tempo, pensava, ainda vou reler este, aquele, aquele outro... Ah, Calvino! Lembrei-me de minha última crônica escrita; optei pelo presente e decidi reler Paris é uma festa, de Ernest Hemingway. Ao longo de uma tarde tomei a estrada rumo a Paris fervilhante dos anos 20, época em que Hemingway lê pela primeira vez Stendhal, Dostoiévski, Tolstói e convive com figuras como Gertrude Stein, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald e James Joyce. Os livros, todos alugados na Shakespeare & Company, livraria de Sylvia Beach.
Releituras são como lembranças de infância; nas vezes em que relatamos aos amigos nossas peripécias infantis, nossos rostos se iluminam e nossos espíritos ganham certa ingenuidade e um matiz mais leve, nos tornamos meninos. Reler um livro em nada difere da releitura de qualquer outra obra de arte, tudo depende de nossa compreensão da obra. Assim, a boa releitura sempre implica uma boa compreensão e interpretação. Nesse processo, o que devemos fazer de melhor é exercitar a criação.
A criatividade é muito mais inspiradora nas vezes em que mantemos um elo com a fonte de inspiração do artista. Ao reler Hemingway cruzei as lembranças do autor com as minhas próprias. Nessa toada, subi a Rue Mouffetard tentando me lembrar se ainda existe o Café des Amateurs e cheguei à Place Contrescarpe. Em seguida, peguei a Rue Cardinal Lemoire; ali, li a plaquinha na parede que sinaliza o hotel em que Verlaine morreu e que o próprio Hemingway, no último andar, mantinha seu gabinete de trabalho.
Também voltei a Rue Fleurus: Hemingway por ali transitara nas vezes em que ia ao número 27, onde residia Gertrude Stein e sua companheira; eu, morador efêmero, costumava ir ao 33, sede do Voyage à Vivre, falar com o Monsieur responsável por organizar os curtos passeios que fazia por cidadezinhas francesas. Nisso, desviei-me do caminho... Lembro-me muito bem de que costumava descer a Rue Lemoire, mas, antes, da Place Contrescarpe pegava a Rue de l’Estrapade, errava-me pelos becos até cruzar o Boulevard Saint-Germain, chegar à Place Saint-Michel e, ao dar de cara com o Sena, deitar uma olhadela à direita para conferir a imortal Notre-Dame.
Hemingway perdia-se pelo mesmo quartier: passava pelo Lycée Henri IV, ladeava a antiga igreja Saint-Étienne-du-Mont e a Place du Panthéon, para depois desembocar no Boulevard Saint-Michel, passar pelo Cluny, até chegar a mesma praça à procura de um bom café.  
Mas nem só de flânerie é feito Paris é uma festa: ali, também, fala-se do ato de escrever. Em dado momento Hemingway confessa sua aflição por acompanhar o relato, o conto tornara-se independente, escrevia-se a si mesmo, ignorava seu autor. As pausas para aparar o lápis, veículo que o trazia à luz, não só fazia acumular as aparas de madeira encaracolaras ao lado do pires, mas elevava a ansiedade do autor, deixando-o para trás do relato e fazendo com que se perdesse na história.
Em dado momento, o autor toma conta da história e passa a escrevê-la, esquecendo-se do tempo até concluí-la. Por fim, sente um cansaço bom e feliz como aquele que acomete alguém que acaba de se entregar ao amor físico. O conto estava pronto e era uma boa história, porém, afirma Hemingway, era preciso que dormisse. Todo texto deve dormir.
Paris é uma festa mostra uma visão lúcida e desencantada da vida na pena segura de um autor confiante e pleno em seus anos de criação. Desse modo Hemingway compõe um retrato objetivo de muitos dos escritores da época que habitavam Paris, respiravam o ar da Cidade Luz e ali encontravam estímulo, inspiração e matéria para a criação.
Ao fim da leitura de Paris é uma festa, no capítulo intitulado ‘Paris continua sempre’, Hemingway afirma: “Paris é imortal e as recordações das pessoas que lá vivem diferem de umas para as outras. Acabamos sempre por voltar, sejamos nós quem formos, ou mude Paris no que mudar, ou sejam quais forem as dificuldades ou as facilidades que, ao regressarmos, se nos deparem.” Impossível não se lembrar do célebre diálogo protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em Casablanca: “E nós, Rick?”, pergunta ela. “Nós sempre teremos Paris.”, responde ele.

Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

segunda-feira, 17 de abril de 2017

2017: um tempo de mim

Não sou muito de pensar a meu próprio respeito, mas, ainda assim, pretendo falar de mim. Em vossos dias, tal confissão soa algo meio egoísta. Ocorre-me, neste instante, jamais ter sido preciso que eu provasse isso ou aquilo. Nunca vivi crises existenciais; sequer experimentei a sensação de perda ou lamentei fracassos. Também não me lembro de ter corrido desenfreadamente em busca do sucesso e da fortuna. Não me deixo levar por misérias reconhecidamente humanas.
O que trago em mim de mais humano é o fato de que rio desbragadamente - dos outros -, embora me imputeis certa sisudez e mau humor. Sim, rio do outros sempre. Trago nos lábios aquele movimento no canto da boca que marcou a vida de alguns ilustres dentre vós; tenho em mim um azo para o sarcástico, tal aquele senhor cujo menu de crianças de carne tenra e assadas em forno brando afrontou a vossa hipocrisia.  
Nunca vos tratei como estúpidos, sempre vos respeitei, ainda que a grande maioria dentre vós o seja. Alguns poucos merecem meu respeito e admiração, considero-os sábios. Afinal, buscaram na fraqueza de vosso caráter a explicação de vossa existência. Gulosos, avarentos, luxuriosos, invejosos, preguiçosos, orgulhosos... Trazeis na alma esses matizes constitutivos da vida miserável que levais; contudo, considerai-vos perfeitos.
Admiro os poucos dentre vós que julgo sábios. Por eles tenho sincera reverência. Esclareço que meu conceito de sapiência atém-se mais à reflexão que à criação. Nisso somos diferentes: enquanto prezo os pensadores, pensais nos criadores de inovações que vos facilitais a vida, mas vos rouba a liberdade em proveito do progresso. Tornai-vos escravos de máquinas, entregais a elas a faculdade de pensar e acreditais que assim desenvolveis ideias.
Chamo de sapiência e progresso o pensar. Por isso, louvo aquele que um dia referiu-se a mim sem definições. Procurai em vossas maquinetas e ali encontrareis Santo Agostinho. Em suas Confissões, no Livro XI, aventura-se a tratar de mim. Dedica-me todo o capítulo; é claro que vós vos entremeteis na reflexão, mas isso é tudo para mostrar que sobre mim não tendes qualquer domínio; sequer definir-me sabeis muito bem.
Não por outra razão, Agostinho, ao tratar da vossa ignorância, afirma que andais “ao redor das ideias da sucessão dos tempos passados e futuros, e, por isso, tudo o que excogita é vão”. Há menos de uma semana, haveis movimentado todo o vosso espírito em razão de uma data que criastes na tentativa de me aprisionar - e que agora chamais de Réveillon; isso porque acreditais que de tempos em tempos eu me desperto. Ora, a essa hora creio que sabeis que eu, o tempo, não adormeço, não me desperto, sou eterno e impassível!
Prova de minha imutabilidade e de vossa ignorância é que, mesmo assim, não sabeis mesmo quem sou. Não à toa, o Santo Sábio pergunta: “Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria o tempo presente.”
Vistes que Agostinho prova o eu que disse acima: alguns dentre vós sois sábios; contudo, a maioria padece de inelutável ignorância, tanto é que nem sequer sabe definir-me, e, por não sabê-lo, sofre. Ainda que para muitos dentre vós seja claro que passado e futuro não existem, mesmo assim, não desfrutais do presente - a única parte de mim em que vos concedo relativa autonomia.
A alma humana padece desses entreveros de espírito: ora queixa-se do passado, atribuindo-lhe a razão de seus dissabores, ora louva-o com entusiasmo e saudosismo, dizendo ser ele o responsável pela melhor parte de sua vida. Há ainda almas que depositam suas esperanças no futuro e fazem do amanhã o arrazoado que justifica toda uma existência. Ambas, a que vive no passado, ou a que vive no futuro, esquecem-se do eterno “hoje”, tão efêmero quanto um dia. Mas nem isso se pode dizer verdadeiro, porque esse tempo já não existe! O instante em que começastes a ler este parágrafo já é passado. Quando me deixo escorrer por entre vossos dedos julgais que a mim podeis medir e perceber. Mas como podeis medir o que não existe?
Penso na imbecilidade de vossa existência a vaguear entre o passado e o futuro. Esquecei-vos completamente do presente fugaz. Passais toda a vossa existência à procura do frívolo sem lembrar-vos de viver a vida. Não por outra razão, um sábio dentre vós, ao pensar sobre vós mesmos, surpreendeu-se com a capacidade com que perdeis a saúde para juntar dinheiro e depois o perdeis na tentativa de recuperá-la. Dividis-me em pedaços: ora chamais-me anos, ora dias, ora horas... julgai-vos eternos! Ora, eterno sou eu, o tempo! Vivei o presente e deixai que eu cá ria de todos! Carpe diem! Isto não vos proíbo! Fazei o vosso melhor e usufruí de 2017 - esse tempo de mim!



Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Era de Aquarius

Giambattista Vico, em sua Nova Ciência - isto lá em 1725 -, postula um ciclo de três fases: Teocrática, Aristocrática e Democrática. A esta última, seguir-se-ia um caos do qual surgiria por fim uma Nova Era Teocrática. Vico não pressupunha uma Era do Caos antes que se iniciasse o teocraticismo, mas, segundo Harold Bloom, pretendendo continuar a Era Democrática, vivemos a Era do Caos. Leyla Perrone-Moisés, em seu mais recente livro, chama o pós-moderno de “nosso desastroso período histórico”.  
Pode-se também especular que logo após nossa Era do Caos, a “profecia” de Vico concretizar-se-á e então adentraremos a Nova Era Teocrática. Os sinais são claros, enxergá-los e/ou interpretá-los, de fato, requer pouco ou nenhum trabalho.
Há pouco revi um vídeo da célebre canção Aquarius, extraído do filme Hair, que embalou os sonhos de toda uma geração no final dos anos setenta e início dos oitenta. Os libertários anos sessenta afirmam-se nos setenta e os jovens sentem-se orgulhosos de terem quebrado barreiras, tabus e, de alguma forma, libertado o próprio corpo de dogmas há muito estratificados. A Era de Aquarius, almejada e cantada por essa geração, seria então a luz no fim do túnel, a saída da Era do Caos.
Vico nos assusta: será que teremos mesmo que passar pela Nova Era Teocrática antes que a Lua esteja na sétima casa? Quanto teremos que padecer até que Júpiter se alinhe com Marte? Qual o preço a pagar para que a solidariedade e a confiança sejam abundantes e tenhamos enfim a libertação verdadeira da mente?  
Guardados os devidos exageros, as notícias que pipocam na imprensa dão conta de que estamos a pouco da Nova Era Teocrática, conservadora e reacionária. Hoje, por exemplo, corri os olhos por duas importantes matérias a esse respeito: a perseguição religiosa que tem elegido os cristões como seu principal alvo e o aumento do islamismo no mundo.
Procurei na rede e descobri que estas mesmas notícias têm se repetido ao longo dos últimos três anos: “Islamismo é a religião que mais cresce, oferecendo conforto espiritual para fiéis no mundo inteiro”; “O número de mesquitas e mussalas (salas de oração islâmicas) no Estado de São Paulo cresceu cerca de 20% em 2015”; “Até 2050, islamismo crescerá 73% e será religião que mais terá se expandido no mundo, diz estudo”; “O fim do cristianismo”, “O cristianismo está com os dias contados” e così via.
Circunscrevendo especulações e levando-se em conta as evidências de fatos e estudos, pode-se mesmo acreditar no fim do mundo cristão. Hoje, a Igreja Católica debate-se em seu próprio seio. É bem possível que o Papa Francisco, voz dissonante na tradição conservadora da Igreja, tenha iniciado um processo que, curiosamente, nos últimos dias fará da Igreja esteio e porto seguro para homossexuais, prostitutas e toda a sorte de minorias, de maneira que a Igreja morrerá honrada, admirada e dignamente.
Os indícios da Nova Era Teocrática, como disse acima, podem ser colhidos aqui e ali. A França, por exemplo, país em estado de islamização avançado, mostra horror ao cristianismo, face, evidentemente, a um passado em que o clero protagonizava sedução, abuso e desmandos em seu conluio com o poder - senão o próprio poder. Hoje, no país de Voltaire, não é raro atrocidades cometidas contra a mulher ganharem explicações de cunho multiculturalista. 
Assim, o queijo é comido pelas beiradas. Casos como o do Cairo, Copenhague, Londres, Berlim, Paris e Nice não passam de uma dentada mais afoita. Passada a comoção, tudo volta à normalidade, ainda que as mesquitas salafistas em solo francês continuem seu trabalho de formiguinha.
No contar dos mortos, há de chegar o dia em que as almas crestadas pela Inquisição serão diminutas e só lembradas por seu viés exótico, assim como as Cruzadas.
Mas no embate entre a cruz e o crescente, este último, embora caminhe a passos largos, ainda não dizimou a primeira. Por enquanto, em terras tupiniquins nada de homens bombas ou caminhões em meio à multidão, manège islamista; aqui provamos da versão light do fundamentalismo cristão, que há muito perdeu seu poder de fogo e não mais arbitra contra inimigos, bruxas e hereges.
Seja o cristianismo, seja o islamismo, ambas pretendem-se religiões de paz, e isto é fácil de se provar: basta que se contem as vítimas.
Mas eu pretendia falar da Era de Aquarius, aquela luz no fim do túnel que muitos verão ao longe, tal Moisés a contemplar a Terra Prometida. Vá lá, adentremos o território do misticismo: acreditava-se que a Era de Aquarius teria início em 2150 d.C. (Elsa M. Glover); cálculos foram refeitos e Max Heindel prorrogou seu início para 2178; Shepard Simpson corrigiu alguns pequenos deslizes e tascou seu início para 2680 d.C.! Isso significa, caro leitor, que dificilmente escaparemos à Nova Era Teocrática.
Carl Jung, parece-me, também versado em astrologia, afirmou que a Era de Aquarius só ocorrerá por volta de 2600 d.C., e em Jung eu acredito!
Por fim, levando-se em conta os prognósticos aventados pela astrologia e as notícias, o horizonte está turvo - ou anuviado, como diz uma “amiga”! Portanto, só nos resta o verso final da célebre canção: “Deixe o raio de sol, deixe o raio de sol entrar...”.


 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

2016 d.C.

Divido-me entre duas ideias: uma sacra e a outra profana, a religião e a política. Há pouco li sobre o embaraço que a data do nascimento de Jesus Cristo impõe a religiosos e estudiosos. Na ânsia pela procura de dados, inscrições e afrescos, a razão contradiz a fé, números contradizem números e eu fico com Machado, que disse ser a lenda melhor que a história autêntica.
O dificuldade toda refere-se ao nosso calendário, pois Jesus, afirmam alguns estudiosos, nasceu “antes de Cristo”, em razão de um erro de cálculo no início da Idade Média. Assim, a era Cristã começa ao menos quatro anos depois do que deveria. Explico-me: segundo os Evangelhos, Jesus nasceu no final do reinado de Herodes, o Grande, cuja morte deu-se no ano 4 a.C. Depois disso, dados e informações criam um imbróglio que envolve um recenseamento, Quirino, governador da Síria, Galileia e Herodes Antipas... Mas isso é prosa para os amantes da história bíblica. Fiquemos com a lenda que nos sustenta a fé!
Alguns, no entanto, são indiferentes a isso tudo; aí está o Sr. Mercado, cuja preocupação não é outra que o tilintar da caixa registradora. Um rasgo de ideia me faz pensar naquele que expulsou os mercadores do templo. Estou certo de que jamais imaginou caminhar sob neves artificiais e em meio ao brilho de milhares de luzes piscantes, ou mesmo cruzar o com o bom velhinho e suas renas voadoras...
É certo que o grande Mestre se surpreenderia com toda a simbologia atribuída ao seu nascimento, mas o homem é homem, e, em meio às misérias da vida, busca razões para enlevar o espírito e alimentar a esperança de um futuro melhor, ainda que o rotor da máquina religiosa seja o vil metal. E, nessa toada, chego ao profano.
O site francês de informações Boulevard Voltaire publicou a higienização dos símbolos cristãos empreendida pela municipalidade socialista de Avignon, antiga cidade dos Papas.
Hoje, sob a égide do verniz civilizatório, o Estado, opressor, não destrói mais igrejas e frontispícios de edifícios religiosos como à época da Revolução. Dessa vez o alvo são os presépios e mercados de Natal - lugares comumente visitados pela população alheia a credos e ideologias -, que foram completamente varridos da cidade tradicionalmente cristã.
Resultado das ideias do século da audácia crítica? Não me parece. Afinal, Voltaire, um de seus maiores bastiões, tido por muitos como ateu, mas de fato, deísta, em seu Dictionnaire philosophique, questiona: “O que é a fé? É acreditarmos naquilo que parece evidente? Não: é evidente que há um Ser necessário, eterno, supremo, inteligente; mas isso não é artigo de fé, mas, sim, de razão. Não tenho mérito nenhum em pensar que este Ser, eterno, infinito, que conheço como a virtude, a própria bondade, queira que eu seja bom e virtuoso. A fé consiste em acreditarmos, não naquilo que nos parece verdadeiro, mas naquilo que se apresenta como errado e falso ao nosso entendimento.”
Ora pois, considerando a assertiva voltairiana, quer então a municipalidade avignonnaise impor uma querela da razão contra a razão. Desse modo, nota-se que por mais racionais e ‘civilizadas’ que se mostram as ideologias, sempre há uma nesga contrária à pluralidade de ideias. Se a fé exige o errado e o falso, por que considera-se o Estado o responsável por extrair a fruta de dentro da casca?
Isso tudo, creio, não passam de tentativas de apagar um passado que, consideram, opõe-se ao presente. Nas vezes em que contemplo ruínas ou leio a respeito de civilizações perdidas, pergunto-me sobre o porquê de tudo aquilo haver desaparecido, esquecendo-me dos exemplos que pululam à minha volta: o estado islâmico que destrói a história milenar do oriente, a Rússia que despeja bombas, os terroristas que se tornam bombas, o ódio que grassa entre nós em razão da raça, da crença, do sexo...
Devo concluir que as ideias destroem? Não, recuso-me a acreditar nisso, as ideias estão aí para iluminar, inspirar, conduzir - assim como a fé -, afinal, há muito “Rome n’est plus en Rome. Elle est partout où je suis.” Por isso, enquanto estamos à procura da razão, imploro aos que têm fé – orem por Alepo! Oremos por Alepo!

Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Bandeiras particulares e bandeiras públicas

“Não sabemos de época em que não fossemos como agora.” Eis o dito do Satanás shakespeariano de Milton. Depois de correr os olhos por algumas notícias da semana, achei-o conveniente para animar a prosa e preencher o vazio da página. O que levou a Milton não foi a canalha de Brasília. Esta, é uma questão de estômago – dizeres do meu sacrossanto Valéry -, até mesmo porque, em se tratando de surrupiar o erário, é sempre original.
            Lembrei-me do bardo depois de ler sobre um estudo feito pela Universidade de Stanford; nele, estudiosos definem como lamentável a capacidade de os jovens - habituados a toda a parafernália tecnológica de comunicação - distinguir as notícias, qual seja, diferenciar as produzidas por fontes confiáveis das informações falsas disseminadas na internet.
            A relevância do estudo ganha importância na medida em que se discute o impacto que as notícias falsas têm sobre a opinião pública. Nesse ponto, discordo de Satanás. Até mesmo quem pouco leu sobre o período pré-Revolução na França, algo há de ter ouvido a respeito dos libelos, panfletos e da imprensa clandestina - os gazetiers frondeurs -, que fizeram de Maria Antonieta, por exemplo, a figura pública mais vilipendiada da história - levando-se em conta as considerações de Évelyne Lever. Portanto, já fomos sim como agora.
            Contudo, ainda que discorde de Satanás, dobro-me a Valéry. Raros são os sites de notícia e jornais em que grande parte do conteúdo não seja, de fato, estomáquico. Não falo de originalidade, é claro, mas de sensaborias que embrulham o estômago e são reproduzidas nas redes sociais travestidas de certo ineditismo, afinal, toda surpresa é efeito da novidade sobre a ignorância, com os devidos créditos ao reverenciado Johnson.
            À espera do carro das ideias penso na monomania que consome o cérebro do leitor contumaz fazendo com que qualquer arraia-miúda seja pretexto para relembrar leituras, personagens e fragmentos de histórias inesquecíveis. Desta feita, a patuleia das notícias sequer trazia um texto, mas a foto de um estudante acendendo o cigarro em um ônibus em chamas. Os protestos foram exponencialmente ignorados, mas a foto viralizou.
            De pronto, lembrei-me de um capítulo de Quincas Borba, a meu ver, o mais cinematográfico dos livros machadianos. Eis o contozinho:

A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache vulgar, vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia nas estrada; a dona – um triste molambo de mulher, -chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
– É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
– Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado, para acender um charuto nas misérias alheias. Bom padre Chagas! – Chamava-se Chagas. – Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa ideia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando, esta outra: – o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, – a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas!

Ficção e realidade parecem às voltas com o mesmo assunto, mas entre elas não entrevejo vizinhança maior que vá além do cigarro ou charuto; para o fumante, algo equivalente ao óbolo para se chegar até Caronte.
Machado de Assis, contudo, ao reproduzir o contozinho nas páginas de Quincas Borba, volta a tratar das ‘bandeiras particulares’ (em muitos de seus escritos justapõe as bandeiras públicas às particulares). Sob fina ironia, vemos o homem acender seu cigarro na calamidade particular, ainda que demonstre certo respeito ao princípio de propriedade.
O estudante, no caso, do particular adentra as bandeiras públicas. Tratava-se de mais um protesto contra o governo, porém, neles tem-se aplicado o mesmo estratagema da malta política: é público? é de ninguém, portanto é de todos. Não existe dinheiro do contribuinte, mas dinheiro público e, sendo público, apropriam-se dele sem o menor constrangimento como sê-lhes pertencesse (falo dos eleitos).
O estudante, afirma o fotógrafo da Reuters, não fazia parte do grupo que relativizou o conceito de propriedade; o que fez foi aproximar-se calmamente, retirar o cigarro do bolso e acendê-lo. Fotografado no instante preciso, alçou-se celebridade. Entrevistado, ato e discurso divergem: alheio às reivindicações, firmou a desobrigação de portar um isqueiro; célebre, disse que o foco deveria ser nos protestos - no que concordo.
Concordo sobretudo porque pouco se falou da utilidade das catástrofes. A violência presente nas recentes manifestações não só tem desviado da caçapa as inocentes bolinhas de gude, mas também feito alvo cabeças de jornalistas e transeuntes que se arriscam à frente do furacão. Ato justo, democrático e tolerante, afinal, é preciso desobstruir o caminho; e, o sangue alheio, ainda que pouco, matiza cenas e é sempre necessário.
Dentro da Câmara, em outra foto, participantes de um coquetel, próximos a uma das janelas, indiferentes à explosão de bombas, às bolinhas de gude e à correria dos manifestantes, deliciavam-se em meio a quitutes, canapés e champagne, prova de que ambos, povo e malta, continuam a confundir bandeiras particulares e públicas.
 
____________________

Crédito foto: Adriano Machado/Reuters

Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Após a visita da Velha Senhora: a desesperança

Há pouco, uma conhecida senhora, referindo-se à corrupção, tratou-a por uma velha senhora. Familiaridade ou não, não cabe a mim julgá-la. O fato é que a conhecida senhora, parece-me, tinha razão, haja vista a semana decorrida, rica para os articulistas políticos, porém, moralmente dissoluta para a quase totalidade do país. A lama que emana da Ilha da Fantasia relativizou a que verteu nos arredores de Mariana. Diferentes? Muito provável: nas Alterosas, ceifou vidas e trouxe a miséria; na capital, acostumada, a politicalha nela chafurda em braçadas, alheia à desgraça quotidianamente imposta ao povo.
Desde que soube do dito da conhecida senhora, não pude dissociá-lo da obra A Visita da Velha Senhora, de profundo pessimismo. Dürrenmatt não é desses autores cujas personagens são psicologicamente densas, tal Hamlet, Lady Macbeth, Emma Bovary, Albertine, Julien Sorel, Brás Cubas, etc., mas de seres que se movem quase na superfície.
E é sob a epiderme que ele revela as hipocrisias dissimuladas, porém, meio à vista de todos. Para enxergá-las basta um olhar de míope. Dürrenmatt diz o que diz no espaço reservado ao leitor, as entrelinhas. O encoberto está ali para ser decodificado - e de maneira simples. Não à toa, suas personagens são mais importantes por conta de suas ações que por suas personalidades. Assim, o leitor tem a impressão de que pode encontrá-las a qualquer instante, tal a familiaridade com que se mostram.
Na peça teatral A Visita da Velha Senhora temos como cenário uma cidade arruinada pela corrupção. Nela, a população tem pouco o que fazer para escapar da miséria, tal a crise econômica provocada em razão do fechamento das indústrias e dos desmandos administrativos. O anúncio da visita de uma velha e rica senhora, injustamente expulsa quando jovem, movimenta o vulgacho e a alta-roda.
À chegada da velha dama, o alvoroço é total. Em massa, o povo ruma para a decadente estação de trens. Discursos, banda de música, tudo fora previamente preparado para recebê-la e, agora, próximo à sua chegada, pululam os encontros afetuosos, os sorrisos e as alegrias daqueles que a expulsaram. Afinal, pensavam, ela traria dinheiro o bastante para salvar a cidade da ruína.
Como disse há pouco, atento leitor, a familiaridade das personagens de Dürrenmatt é tamanha que temos a impressão de que já as conhecemos. Como prova, mire a malta que habita a Ilha da Fantasia, justapondo-a àqueles que expulsaram a milionária Zachanassian; interprete você mesmo no papel do povo, porque esse é o quinhão que lhe foi reservado (aqui, um breve arremedo de Leibniz, seja lá o que for, a essa altura); pense na fortuna da velha senhora como pensa a canalha política sempre afeita a idealizar projetos e reformas constitucionais e pronto: você terá um roteiro completo, todo seu, porém, real e sofrível, afinal uma PEC é uma PEC, e com aposentadoria não se brinca - tortura-se!
A ficção, nesses casos, é mais atraente: o que toda a cidade ignorava é que a velha senhora voltava com a intenção de se vingar daqueles que a haviam expulsado. No jantar oferecido após sua chegada, disse estar disposta a doar a quantia de 1 bilhão, metade para a cidade e metade entre seus habitantes, contanto que matassem o responsável pela injustiça que sofrera no passado.
Indignação e espanto pouco duraram. O que antes foi visto com pasmo e repulsa, aos poucos tornou-se compreensível e bastante aceitável. A expectativa de reativação dos negócios com a expansão do consumo e a circulação do dinheiro fez com que vislumbrassem uma vida melhor. No final, a velha senhora consuma sua vingança e deixa a cidade. Justapondo ficção e realidade, ouso dizer que dependemos do desaparecimento daquele torpe senhor que deu as costas a um certo oficial de justiça. Mas a realidade é dura e penosa; exterminá-lo não é o bastante, uma vez que seus comparsas se assemelham às saúvas de Lima Barreto. Exterminá-los todos? Ah, leitor, isso é utopia e catarse, e, ao fazê-lo nos tornaríamos iguais a eles. Eis aí um naco da densidade psicológica deixada de lado por Dürrenmatt.
As sinapses continuam e ao refletir a vingança de Zachanassian, penso que a autora do artigo acadêmico que acabo de revisar a veria com bons olhos, circunscrevendo seu conflito a uma questão de gênero em que teríamos de um lado a mulher antes fragilizada, e de outro, o homem vil e opressor (não que ela não tenha razão e eu não torça por ela). Mas é que quase sempre, nessa toada, a Escola do Ressentimento faz com que Beatriz, Laura, Dulcineia, Proserpina e até mesmo Capitu percam toda a dimensão estética. Mas isso é história para uma outra prosa. Por enquanto, ausento-me desse problema de memória cruzada que me leva a Dante.
Na arrumação que faz do Inferno, Dante nos coloca no nível oito abaixo do oitavo círculo, ali não muito distante de Satanás. Talvez por isso não devamos nos surpreender com as trapaças nossas de todos os dias. O mais sábio talvez seja empreendermos uma viagem, tornarmos peregrinos na vida, exilarmo-nos de Florença, partirmos em direção a Ítaca ou Pasárgada.
Talvez assim, como Dante, possamos um dia voltar de nossa viagem ao Inferno. Viagem, às vezes, sequer planejada porque, afinal, o poema não é verdade nem ficção, mas conhecimento. Por fim, antes de decidirmos se o lodo que vem da capital é verdade ou ficção, o mais importante talvez seja descobrimos que o conhecimento é de fato nosso, ainda que a um alto preço, o da desesperança. 


Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Ruínas intelectuais

Corri os olhos pelas notícias do dia e, parece-me, tudo padece de desentendimentos. O quotidiano tem-se mostrado tão esvaziado de sentido que talvez só a crônica pode traduzi-lo, uma vez que é capaz de abarcar histórias mínimas, fragmentos, cacos, ruínas, enfim, todo o entulho produzido por um aluvião de almas estilhaçadas e sem rumo.
Da janela, vejo pássaros brancos que cruzam os céus pela manhã em direção ao oeste e, no final da tarde, quando em dias claros o horizonte tinge-se de laranja e vermelho, voltam em direção ao leste. Lembro-me das cegonhas de Chateaubriand saindo aos bandos das margens do Ilíssus tal como faziam no tempo de Péricles. Como uma história leva a outra, lembro-me ainda de Chateaubriand ter classificado em duas as espécies de ruínas: as que resultam do trabalho do tempo, e as outras, dos homens.
As primeiras, aventadas pelo visconde, vão ao encontro daquelas teorizadas por Benjamin: sobreviventes das forças da natureza, surgem como legado de uma Antiguidade que para muitos hoje não passa de algo pitoresco ou um monte de escombros. As outras, as dos homens, hospedam-se em material muito mais frágil, templo de vermes que roem a carne e, muito frequentemente, o caráter.
Na fogueira das vaidades ethos se alteram ao sabor da supremacia das imagens pessoais e, acreditem, a Academia surge como laboratório perfeito onde espécimes podem ser analisados de perto e bem nitidamente, afinal, exibem-se não só em corredores, mas sobretudo em seminários, exposições, ateliês, defesas e eventos outros.
O sistema está longe de sinalizar qualquer mudança, visto que os alunos galgam degraus na trilha de seus mestres, reproduzindo passos e trejeitos. Ainda na graduação, lá pelo final, é fácil identificar os donos disso ou daquilo. Há os donos do Machado, do Guimarães, da Clarice, do Drummond, do Bandeira, do Proust, do Foucault, do Barthes... e por aí vai.
A máquina é alimentada por egos inflados e a arrogância intelectual produz seitas, grupelhos, brigas e núcleos - de estudos. Amigos começam a ser classificados já na graduação. Não se sabe bem por quais critérios, mas o fato é que a pirâmide é encimada pelos muito bons e a base pelos muito ruins; os medianos em geral são aqueles que se curvam à arrogância dos muito bons, compadecendo-se dos muito ruins.
Assim, vigor criativo e efervescência crítica, aos poucos, ganham ares burocráticos. Curiosamente, a despeito de publicações em revistas Qualis A1, que ninguém vai ler (ouvi dizer que agora a última vazão do filtro para a seleção dos muito bons será o fator de impacto), a inventividade se cristaliza. E já que falo nas publicações, eis um laboratório curioso: não raro mestrandos e doutorados começam aí a prática dos pequenos poderes, já que o parecer ad hoc torna-se um exercício de plena e ardilosa covardia, em que a perfídia é protegida pela sombra do anonimato.
Cristalizada a inventividade, uns poucos eleitos que habitam o topo da pirâmide exercem a perversidade dos pequenos poderes, fazendo da ingerência uma ferramenta opressora e de caráter destrutivo sem igual. Egos são comidos friamente, tal o prato da vingança; às vezes pelo simples fato de que as ideias não se afinam. Os donos do Machado não permitem que um imigrante da história, por exemplo, atreva-se a amar Marcela, ainda que por quinze dias e à módica quantia de onze contos de réis.
Na arena, digladiam-se as inteligências: a supremacia creditada a uns poucos, os medalhões, arrebanha todo um entourage com as caraterísticas dos antigos suivants, domésticos à disposição de seus senhores para os pequenos afazeres. Mais que absorver conhecimento, arvorarem-se críticos do sistema e/ou autocríticos, esses “discípulos” encarregam-se da perpetuação de um estado de coisas, acreditando, assim, um dia poderem encimar a dita pirâmide.
Acadêmicos, quando contestados, sentem-se mortalmente feridos, o fel invade a alma. Tornam-se inimigos perigosos, de maneira que disputas intelectuais adentram o particular. Deveriam, penso, espelhar-se na canaille, cujos afiliados, durante as campanhas eleitorais, tripudiam um do outro, mas, passadas as eleições, comem irmamente do pão assado no forno do populacho.
Gênios, porque a formação acadêmica pressupõe uma batalha cujo objetivo não é outro, alunos e professores tornam-se predadores. A seu favor contam com o fato de que a vida não são duas paralelas, mas é repleta de ruelas, esquinas, curvas e becos. À frente, vislumbram encontros e é nesses encontros que se materializam golpes certeiros.
A destruição do outro, no caso, é questão de tempo. O porquê de destruí-lo na maioria das vezes é algo tão estúpido quanto a espera; às vezes, um simples discordar, a refutação de uma ideia, o querer ser o outro, o não concordar com um estado de coisas viciado e proselitista... Nesses casos, pouco importa o trajeto percorrido pela vítima, suas ideias tornam-se indefensáveis.
A destruição é igualmente nociva: ao destruir o outro, destroem-se a si mesmos. Duvido que lá no fundo, diante do espelho, não se deem conta, ainda que por um átimo, de que não passam de ruínas.

Em tempo: cercado por amigos, estou muito bem; do que falo, vislumbro da janela, assim como os pássaros. 

Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Romance: o amigo genial

A semana foi de obituários - assim como a anterior. Tânato, cioso de sua reputação, terminou o que havia começado. Não que eu acredite na finitude de seu trabalho, mas, quando se vai um poeta, pensamos que nada mais resta além de nós e a página em branco à espera de versos, estrofes, rimas, sonetos...
Ágil, a foice ceifou almas. A mídia ignorou o poeta, fez heróis outros e embalou-nos a todos com o espetáculo da morte. Jornalistas e apresentadores de televisão narraram o deslocamento de caixões, o choro do populacho e, voz embargada, apagaram o drama dos vivos levando-nos à cova. Esquecemos Brasília e fizemos de Chapecó a capital da “sofrência”, uma vez que nos obrigaram a uma carência imerecida, ao menos para a parte do país não afeita aos gramados.
Mas falemos de livros. Há pouco foram anunciados os vencedores do Prêmio Jabuti. Hoje, talvez, o mais importante no cenário brasileiro. Dos três primeiros vencedores, não li nenhum. Vi que Julián Fuks levou o primeiro lugar com A Resistência. Penso que deve ser um bom autor, pois anteriormente já emplacara dois outros títulos como finalistas do Prêmio.
Desde 2012, o Jabuti me traz à memória o jurado “C”. Sim, aquele que, corajoso, peitou a intelligentsia e disse que o sistema literário brasileiro está doente. Na época, depois do chororô de uma autora, Rodrigo Gurgel concedeu uma entrevista bastante elucidativa à Folha de São Paulo, em que comentava um pouco da estrutura literário-editorial vigente no país.  
Curioseei os finalistas do Jabuti com base nos comentários de Gurgel, o jurado “C”, sobretudo quando este ressalta que hoje tem-se escritos livros bastante retóricos, cuja principal preocupação é a forma. “C” divide, portanto, os autores em duas tribos: os estruturalistas e os desconstrucionistas. Assim, afirma, hoje não se escreve para leitores, mas para agradar amigos, professores de teoria literária e críticos.
Por essas e outras, gosto de histórias. Gosto de ler a obra antes da crítica. Gosto de ouvir, contar e ler histórias. Ao rabiscar essas garatujas, corri os olhos pela estante e dei de cara com A Amiga genial, de Elena Ferrante. A identidade da autora em si já é uma boa história para se contar.
Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana. Ferrante concede poucas entrevistas e nunca se mostrou em público. O que diz é através de sua editora e por e-mails. Neles, explica que optou pelo anonimato para que o público não seja influenciado por sua imagem e, principalmente, para que possa escrever com liberdade.
Especula-se que tenha nascido em Nápoles, por volta de 1943, dadas as pistas colhidas em suas obras. O que se sabe - também a partir de suas obras -, é que conhece bem os clássicos gregos e latinos. Isso é tudo!
Para o leitor, contudo, esse mistério pouco importa! O que vale são as deliciosas trezentas e poucas páginas de A Amiga genial, primeiro livro da chamada série napolitana (no total: 4 volumes). A história de Ferrante dialoga com a realidade, é harmônica, vigorosa, e traz certo lirismo que encanta o leitor. A mesmice e o discurso politicamente correto, muitas vezes nada convincente, passa ao largo da obra de Ferrante.
O que você vai ler é a história de duas meninas - Lila Cerullo e Elena Greco - que nascem e crescem no subúrbio de Nápoles, ainda sob os resquícios da segunda Grande Guerra. No bairro em que moram o trabalho parece definir os moradores, de modo a constituir-se num microcosmo da sociedade. A modernidade pulsante do pós-guerra define essa Nápoles em movimento, onde o velho e o novo, o local e o universal, o grego e o latino se acotovelam quotidianamente.
Nesse cenário, a vida das duas amigas ganha em densidade e, tal como nos colocamos defronte a um espelho, uma olha para a outra e se depara com a oscilação inapreensível e incômoda de fragilidade e força que se deslocam entre esses dois seres amigos. Postas à prova à medida que os anos passam, inteligência, beleza e sexualidade são submetidas a um duelo constante, misto de admiração, afeto, repulsa, inveja, intimidação e outras emoções sumamente humanas.
A escrita robusta, crua e visceral de Elena Ferrante é uma daquelas razões que nos levam a ler romances. Afinal, para se ler um romance é preciso se dispor a um ritual, dedicar-lhe horas de leitura, pois o que se acha ali não se encontra em filmes ou mesmo nas quinquilharias eletrônicas.
Por fim - e como já disse antes -, ler é sonhar pelas mãos de outrem. Por isso sugiro que você, leitor, deixe-se levar pelas mãos de Ferrante, que nos propõe uma leitura plural sobre a vida, desobrigada das ideologias sub-reptícias nas entrelinhas. A Amiga genial é sim uma história apaixonante que faz jus ao gênero romance, essa metamorfose ambulante em constante mutação, cujos saberes insistem em trazer o menos científico dos discursos, por mais que a ele queiram atribuir pensadas e impensadas ambições científicas. A Amiga genial é daquelas obras que enlevam o espírito, ainda que efemeramente, visto que a realidade, providencial, nos desperta - sempre.

Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/