Revista Philomatica

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os vacilões e a scriptum frons

A grosso modo, o humanismo é uma filosofia moral que, valendo-se de uma escala de importância, coloca o homem no centro do mundo, qual seja, versa sobre o humano, suas posturas éticas, suas aspirações e capacidades, atribuindo, sempre que pode, alguma importância à dignidade humana, sem, contudo, perder de vista a racionalidade.
Eis aí um rótulo: humanista! Filosófico, traz em si um método que, aceito em parte por uns e rechaçado por outros, deu origem a várias outras vertentes. E, uma vez que de rótulos entendemos em demasia, deveríamos todos ser íntimos do humanismo, e a tal ponto que não nos obrigássemos a um mínimo esforço que fosse para exercê-lo. Inspirar e ser humanista; expirar e ser humanista, contagiando outros tantos de tanta utopia - desculpem-me o rasgo irônico!
Ainda assim, presumo, o borogodó de todo humanista tem um não sei quê de alteridade – não avento qualquer definição para esta última porque suponho que o mais obtuso dos leitores constitui-se a partir do outro. Fosse esta uma prática, falar em respeito e tolerância cairiam em desuso pelo uso.
Mas, vá lá, vivemos de e para os rótulos! De miséria e mediocridade constitui-se o barro humano. A mediocridade, que na alma humana navega em águas profundas, dá mostras quotidianas. Fosse eu um desses especialistas – expertises, nomeiam-se alguns -, armar-me-ia de uma meia dúzias de rótulos para criticar outros tantos rótulos.
O porquê de toda esse palavrório, leitor vacilão? Não leu, não viu, não compartilhou, não comentou a testa do adolescente homem adulto que, pego no flagra, saiu rotulado?
Você, leitor especialista em comportamento humano, entendedor de suas relações, ás em generalizações teóricas com inferências sociológicas, não me aponte o dedo!
Não avalizo a frase grafada no crânio do adolescente, entre as sobrancelhas e o couro cabeludo; não, em absoluto! Mas também não avalizo sua inocência, assim como a de seus carrascos! Penso, ao contrário, na ladeira em que descemos todos; desde a canaille que desliza pela rampa dos palácios em Brasília até o poviléu que se movimenta por trilhas, ruas e becos das periferias, todos irmanados na possibilidade de se apossarem de um botão, matar um mandarim, amealhar uma fortuna sem qualquer esforço e livrar a si mesmos de qualquer culpa, a despeito da consciência.
Seríamos todos partículas de um povo ética e moralmente fraco? A corja de Brasília não me representa, dizem todos. Subiram a rampa prometendo ética, por isso é que os elegemos. Mas somos assim tão ingênuos? Acreditamos ainda em duendes e na fadinha do dente? Ora, a literatura nos ensina muita coisa: a vida, qual o romance, é um espelho, cujos reflexos faz com que vejamos a nós mesmos, e iluminemos hora ou outra os porões de nossa consciência. Por isso, leitor, aqueles que obram o poder e obram no poder, só o fazem por sua causa!
Como a memória precisa de chão, e às vezes é tratada como uma planta aérea, investem-se os especialistas de sabedoria facebookiana e perpetuam a disseminação de rótulos. Na tentativa de apontar o dedo para uns e outros, a fronte do adolescente foi reproduzida à exaustão com dizeres diversos, acusando o leitor virtual por seus pecadilhos sem, contudo, se darem conta de que ao fazê-lo expunham ainda mais o adolescente ao ridículo e à execração pública.
Esqueceram-se os especialistas da teoria do benefício. Será preciso avivar sua memória, obtuso leitor, achegar alguma terra às suas raízes? Pois é isso o que se vê! Certos de uma suposta anuência do leitor virtual, decidiram criticá-la e, ao fazê-lo, divulgaram a foto do rapaz incontáveis vezes acreditando praticar algum benefício. Há muito, Cubas explicou a natureza do benefício e seus efeitos. Acreditando fazer uma boa ação, julgam-se os especialistas superiores, esquecem-se dos próprios pecadilhos, cuja consciência acumula em seus porões nacos de perversidade, transgressão, maldade, erros, heresias, luxúria, vícios transgressões e, quiçá, crimes.
Ora, acenda ao menos uma lamparina nas trevas dos porões de sua consciência, caro leitor; tire primeiro o argueiro de seus próprios olhos, recolha o indicador, exclua as fotos do adolescente de sua página virtual, dê azo ao livre arbítrio e, se especialista, imploro: meta defronte à sua consciência um espelho e deixe o adolescente e seus carrascos responderem por seus atos!



 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Flânerie na Rue Lepic

Manhã fria, céu cinza, embora já estivéssemos no começo de junho, com o verão à porta. Saímos logo depois do café. A chuvinha era leve e triste; o destino, Montmartre. Ela, como sempre, remoía clichês e disse estar exultante por conhecer os lilases eternizados por Aznavour. Eu, esforçando-me para parecer simpático, disse que a mim me encantavam os gerânios que pendiam das janelas e se ofereciam aos passantes.
Descemos na gare Anvers só porque ela achava a Rochechouart muito cheia de gente. É próxima uma da outra, disse-me, mas tem menos gente. É bizarro (o adjetivo saia-lhe dos lábios sequenciado, ritmando-se à medida em que via algo que merecesse sua crítica de cientista social – assim fizera ante igrejas, castelos e museus, por terem sido construídos com mão de obra escrava, afirmava), tem-se a impressão de que se está no Oriente ou na África! Não pude deixar de notar o laivo de sinceridade, mas não disse palavra! Prova leitor, de que há muito discurso que só considera o fenômeno. Arremedos de metafísica!
A razão para me acompanhar, dissera, fora o fato de que eu já fizera vários passeios pelo bairro, alguns deles, na companhia de uma francesa, que me mostrara becos e ruelas estranhos à horda de turistas que diariamente afluem para o local.
Entabulamos uma boa conversa, mesmo depois de a minha retina ter espelhado a ambiguidade de seu discurso. Num azo compensatório, destampou a falar de José do Patrocínio, a viagem que ele teria feito a França em 1892, de onde trouxera o primeiro automóvel a vapor que circulara pelo Brasil e cujo barulho espantava os transeuntes.
A historieta do automóvel e outra do dirigível Santa Cruz, uma geringonça de 45 metros e 1200 quilos que jamais levantou voo, ficaram por minha conta. De fato, ela estava por lá para descobrir o que Patrocínio fizera em sua viagem a Paris, curiosidade que, confesso, justifica um bom ano de flânerie – e que se dane a Capes e a pilha de formulários a ser preenchida! Tudo vale a pena se se está em Paris, ainda que seu orientador esteja locado em outro continente. Sobre isso ela preferiu não comentar! Mas, deixemo-la de lado, andemos por Montmartre!
Ainda nos arredores da Basilique du Sacré Coeur, torcemos à direita rumo a Saint-Pierre de Montmartre, onde mostrei-lhe as duas colunas que supostamente teriam pertencido a um templo dedicado ao deus Marte. Disse-me que só entrara ali por minha causa; detestava igrejas, achava-as bizarro!
Dali partimos para a Place du Tertre, encantamo-nos com os pintores de rua, flanamos por becos, lojinhas, o Museu do Chat Noir; arrisquei algumas anedotas quando chegamos ao Lapin Agile, descrevendo peripécias envolvendo boêmios e os salões de arte moderna, o burro de Frédéric, a tela que um pintor italiano jamais pintara... e, de repente, descobri a razão pela qual ela quisera tanto flanar por Montmartre: o café da Amélie Poulain, dissera, onde é o café da Amélie Poulain?
Num rasgo romântico, dissera-me que se encantara com o filme e pôs-se a contar-me sobre o dia em que o assistira, o dvd que comprara, as inúmeras vezes em que o revira, os sentimentos que lhe vinham à tona, certa nostalgia inexplicável... Face a tal disposição emocional, partimos rumo a Rue Lepic.
Juntos, éramos dois seres distantes: eu observava os prédios, as janelas, os gerânios, a rua, as marcas do tempo, as frutas, os peixes expostos nos pequenos comércios, as cerejas que teimavam em sufocar pêssegos e maçãs tal a quantidade com que eram oferecidas.
Descemos a desigual Rue Lepic até chegarmos à esquina do Café des 2 Moulins, com seu toldo vermelho a atrair turistas ansiosos em reviver seu filme preferido. Na calçada, abarrotada de mesas, transeuntes equilibravam-se na pequena faixa por onde ainda se podia andar, todos voltados para o interior do café.
Perguntei a ela se queria tomar um café no interior, afinal, por um lapso de tempo estaríamos e seríamos parte do cenário do filme. Não, respondeu-me! Quero entrar sim, mas só para tirar umas fotos e depois postar; minha amiga vai morrer de inveja!
Entramos e logo um garçom nos abordou. Ela respondeu ao garçom ensaiando um pedido de licença para fotografar o interior do café. De minha parte, olhava o balcão e tentava rememorar cenas e sons que fizeram a graça do célebre acetato. Embora disperso, acompanhei o rápido diálogo:
O garçom: Bonjour Madame, je peux vous aider?
Ela : Oui, faire des fotos seulement!
O garçom: Quel est le mot magique ?
Ela: (perdida, olha para mim).
Eu (absorto): Amélie Poulain.
Diante da bizarrice, o garçom sai gesticulando, sem deixar de mostrar toda a sua impaciência por ter cruzado com dois não clientes paspalhões.
Na rua, ria às desbragadas, por ter confundido a célebre palavra mágica “s’il vous plaît” com “Amélie Poulain”. Ela, que mal tirou uma ou duas fotos do café, saiu achando tudo bizarro.


Crédito: Aquarela d'Alex Krajewski

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

domingo, 4 de junho de 2017

Morre a Rainha Elizabeth II, do Reino Unido

Londres já não é mais a mesma. Nesta manhã, a comoção tomou conta dos ingleses ao saberem que Elizabeth II falecera no Royal London Hospital. À espera de um primeiro boletim médico que esclareça a morte da monarca, jornalistas do mundo todo se concentram defronte ao hospital. Contudo, comenta-se que a rainha teria vindo a óbito após ter comido um priániki de chocolate, que lhe fora oferecido por Alexandr Yakovenko, embaixador russo em Londres. Fontes não oficiais informam sobre intensa movimentação na Scotland Yard; a Royal Air Force, segundo jornalistas do The Guardian, movimenta-se em direção ao Kensington Palace Gardens, sede da embaixada russa. Moscou, até agora, é de um silêncio sepulcral.

Haja vista esta coluna tratar da semana em curso - e dada a relevância do assunto -, desculpo-me desde já, caro leitor, por interrompê-lo, mas, sinto-me obrigado a perambular entre os foliões antes de voltar à fria Londres.
Antes que soubesse da morte Rainha, à espera do carro das ideias, corri os olhos pelas diferentes notícias. O que vi confirma a lógica de que padecemos todos de alguma coerência. Foliões travestidos de mulher agridem casal gay em beijo caloroso na orla de Florianópolis; militantes da causa animal desfilam enfeitados com penas de pavão (a escola campeã de São Paulo gastou meio milhão de reais só em penas da malfadada ave, afirma a imprensa); apoiadas em carros estacionados nos becos de Ouro Preto, feministas se deixam fotografar em momento de luxúria com rapazes ‘bombados’; outros, que bradam aos quatro cantos o emblema da apropriação cultural, acabam-se no Carnaval, esquecendo-se de que ele nasceu no covil de lobos brancos de olhos claros e com os pés bem fincados nas Lupercálias e nas festas dionisíacas, e così via... De qualquer modo, como o ano só começa agora, desejo-lhe um Feliz Ano Novo!
É provável que você tenha vindo até esta página em razão do título. Felizmente a simpática Rainha continua lá, firme como uma rocha. Para encerrar algumas ideias desenvolvidas em textos anteriores (Fatos, opiniões e pós-verdade e Imprensa folhetinesca), decidi partilhar do mesmo modus operandi da imprensa atual, qual seja, lançar mão de um título sensacionalista a fim de arrastar o pobre leitor até suas páginas.
Depois de quase uma semana em que meus ouvidos foram postos à prova sob intenso bum bum paticumbum prugurundum, didático, comento como jornais e sites de notícia criam notícias falsas à cata de leitores.
Títulos sensacionalistas pululam nas redes sociais e até mesmo nos grandes jornais - a dita imprensa tradicional -, aquela que se coloca a serviço do Brasil, ou vem a cavalo, ou vê o que vê no imperativo, ou nomeia-se carta.
Pois bem leitor, você já deve ter notado que seu texto é incessantemente interrompido por propagandas; para dizer a verdade, elas se intrometem por todos os lados, apertam-no, fazem dele uma coluna estreita em meio a carros, modelos, banners de imobiliárias e lojas, anúncios de cartão de crédito, fotos paradisíacas de agências de viagem, etc. Tudo isso não está lá à toa. A cada vez que você se distrai e clica em um desses atrativos, esquecendo-se do texto, o site hospedeiro lucra um pouquinho. Eis o lema: clique é dinheiro.
Uma vez que a maioria dos leitores não sabe distinguir fato de boato, a mídia e as redes sociais navegam de vento em popa e a verdade, se antes já mostrava ter uma coluna bastante flexível, hoje, é relativizada a ponto de a ambiguidade surgir como pré-requisito, pois é instrumento de fidelização do público. Em geral, embaralha-se verdade e mentira. Desta feita, a militância, a intolerância, o ódio ou mesmo a simples curiosidade, encarregam-se de retroalimentar as notícias divulgadas por meio de infinitos compartilhamentos (espero que você faça o mesmo com meu post).
Para o sites e portais eletrônicos - o mesmo aplica-se à imprensa escrita -, pouco importa o estrago provocado pela notícia. Quando muito o ofendido entra com um processo, o juiz obriga a retirada da notícia e, vez ou outra, à cata do vil metal, um processo por dano moral continua; mas o link já foi disseminado, copiado, colado, gravado na memória de milhões de almas que o reproduzem ad infinitum. O fato é que se lucra com a notícia e quanto maior a audiência, mais se ganha com publicidade.
A maioria dessas notícias são publicadas em sites sensacionalistas registrados fora do país; não se publicam o expediente, endereço ou telefone para contato e sequer os autores dos textos são identificados - primeira pista para que você desconfie da veracidade do que está lendo.
Sob a bitola de “tudo é business, tudo é dinheiro”, a responsabilidade de saber o que é e o que não é fica a cargo do leitor, de modo que, relativizada, a verdade passa a ser uma questão de ponto de vista, uma pós-verdade, cada um acredita no que acha que deve acreditar, ainda que o fato esteja lá, diante dos olhos, e/ou posteriormente apareçam os desmentidos.
Os descalabros na política tem sido uma inesgotável fonte de criação de notícias sensacionalistas e, como não poderia deixar de ser, aparecem os especialistas. Estes, dividem-se ao sabor dos diferentes pontos de vista, uma vez que muitos deles também fazem as vezes de Teseu alimentando o Minotauro das fake news. Alguns clamam por uma regulação global, uma alfabetização midiática; outros proclamam uma autocorreção da mentira à medida que o tempo passa, acreditando que assim tudo se esclarece; outros ainda minimizam o assunto, registrando que ao compartilhar uma notícia falsa, que nos choca ética ou moralmente, nos sentimos, de fato, participativos.
O fato é que em tempos em que governos bradam gastos sensacionalistas com a educação, institutos apontam que apenas 8% dos brasileiros entre 15 e 64 anos de idade são capazes de se expressar por escrito, opinar, argumentar, ler gráficos e tabelas. Daí, vale que para essa maioria, a imagem ou o vídeo que muitas vezes vem acoplado ao texto passa ao largo do que jaz escrito, revelando-se uma crítica inócua.
Uma vez que o objetivo é provocar a desinformação e solapar a credibilidade de notícias pretensamente objetivas, cabe ao leitor agarrar-se àquela que lhe pareça mais fidedigna, já que nada de braçadas em um mar de mentiras. Mas nada disso é novo: há muito, ao escrever Anekdota, Procópio arruinou a reputação do Imperador Justiniano; Maria Antonieta foi outra que passou pelo crivo da imprensa clandestina pré-Revolução, que produzia notícias falsas e sensacionalistas às desbragadas.
Para terminar a prosa, leitor, só molequei no título por brincadeira - e nem precisei fazer como aquele jornal a serviço do Brasil que, para tentar elevar garatujas em paredes à categoria de Basquiat, precisou de um videozinho e fotos de pichação em estilo modern art para falar a mesmíssima coisa que falei aqui. E God Save the Queen.

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A exaustão das palavras

O fenômeno, em si, talvez não tenha nada de novo. Ocorre, porém, que à medida em que as redes sociais adensam os vínculos - ou as rupturas -, ele ressurge flagrante e invade o espírito. No espaço do texto, além de preencher o branco da página, palavras e discursos reiteradamente ditos, carregam-se de diferentes sentidos e utilizados à exaustão tornam-se ambíguos, perdem a significação e ganham certo vazio cuja sonoridade produz eco tão frívolo quanto a fonte.  
A mocinha que diz que sua filosofia não é carregar na maquiagem ou o amor dito às desbragadas nas redes sociais são exemplos de como as palavras ‘filosofia’ e ‘amor’ foram vandalizadas pelo uso. Fala-se muito e demais, diz-se pouco ou quase nada.
Não bastassem as palavras, nesse nosso tempo em que abundam celebridades, intelectuais e filósofos - hoje, pops e habitués de programas de variedades na TV -, as personalidades também se pautam pela mediocridade. O mérito, tal o carvalho frondoso, foi abatido pela obstinação da lâmina contra o caule; degenerado, tornou-se constitutivo opressivo e de menosprezo.
Vilipendiado pelo discurso multicultural, o mérito, por sua presença, contribui para a relativização do respeito, e quiçá, da competência; esta, tal como a flor do cacto, deve brotar de caules duros e espinhosos, em solo desértico e pedregoso, caso contrário, não se deve respeitá-la. Outras flores, malgrado o encanto, a delicadeza e a frescura, dado o discurso atual, são impiedosamente condenadas por supostamente terem se nutrido da umidade da campina em que nasceram. Ninguém quer saber do esforço empenhado por suas raízes, persistentes na procura do húmus que jaz na profundeza. Assim, cantada em verso e prosa, pulula a mediocridade!
No nada desse mundo sem Deus, em que o século ainda jovem só faz perpetuar o niilismo dos anteriores, tentamos a todo custo preencher o vazio. Para isso, buscamos alguma segurança material e algum conforto moral substituindo as certezas antigas, na maioria das vezes, por discursos antigos travestidos do novo, mas um novo feito de palavras exauridas! Ensaiamos novas tournures de frases cujo conteúdo quase nunca alça voo, arremetemos sempre! Esgotadas, as palavras sequer incomodam os ouvidos do sistema.
A verdade, como dizia Schopenhauer, não é uma garota que pula no pescoço de quem não a deseja, de modo que nos encantamos com o velho como se estivéssemos diante de algo genuíno e novo. Engodo às polarizações, os discursos nos desviam daquilo que realmente importa. E, no mais das vezes, fazemos ouvidos moucos, alienamo-nos face às ideologias e à verborragia das palavras cansadas.
Os fatos, por mais díspares que possam parecer, são ganchos para que os filósofos das redes sociais expressem os mais variados sistemas, todos, sem exceção, alheios ao mundo (ainda que se esforcem em mostrar-se interessados) e à evidência, mas focados unicamente na política à qual são subservientes, fazendo dela seu critério decisivo para julgar o que é bom, o que é ruim, o que é notável, ou o contrário! Os que não leem a mesma cartilha e ejaculam o mesmo discurso, as mesmas palavras velhas e cansadas, merecem a indiferença.
Neste cenário, é comum a mediocridade frequentar todos os bares, todas as esquinas, todos os becos, de modo que pode ser comprada e transmitida pela rede da qual o cidadão faz parte. Nas universidades, como em qualquer outro lugar, a amável mediocridade trabalha incessantemente, subserviente a interesses gerais ou pessoais, fazendo com que o saber seja prostituído e desprezado, tornando-se, não raro, simples favor.
Nesse mundo sombrio, uma palavra nova e robusta equivale a um ponto de luz projetado em meio à escuridão, capaz de emocionar, alegrar e nos consolar nesse deserto que é a vida! Mas sempre é preciso algum cuidado: ainda que as palavras curem os males, há sempre aquelas que matam!


 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A farsa da liberdade de expressão

Monica Iozzi, novata na arte da interpretação, seja por seus trabalhos como atriz, seja pela destreza exibida nas vezes em que, arremedo de jornalista, meteu-se a comentarista e repórter de programas B, há muito frequenta o noticiário das celebridades.
Monica sentiu-se tão à vontade com as perguntas diretas que lançava às subcelebridades que ao referir-se ao ignaro e peripatético ministro Gilmar Mendes em sua conta do Instagram, tratou-o como devia ser tratado: um cidadão como qualquer outro que, não se sabe bem o porquê, deu asas à liberdade ao médico monstro. Nós cidadãos não entendemos, Monica não entendeu e deu no que deu. Monica foi punida por fazer um comentário, aliás, nada que qualquer uma das cidadãs abusadas pelo tal médico não tivesse engasgado na garganta.
Gilmar Mendes também não entendeu o comentário da Monica, e, achando-se acima da lei, por um momento esqueceu-se de seu lado histriônico e exibicionista, valeu-se do poder do cargo, disse ter se sentido moralmente ofendido (o que não questiono) e colocou a maquineta da república em andamento no intuito de penalizar Monica, aumentando ainda mais seus caraminguás, juntando estes àqueles de Furnas. Monica pagou caro por seu engano, qual seja, acreditar que vivemos em uma democracia em que há a tão sonora liberdade de expressão. Não há, Monica!
Há pouco li sobre uma esportista que retrucou comentários de um apresentador. Segundo o bom moço, quem não pensa exatamente como ele, bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé, valendo-me aqui de um verso da célebre canção. Ocorre que o samba do rapaz deixa a gente mole e quando se canta nem todo mundo bole; é samba de uma nota só, que exclui toda e qualquer pluralidade de ideias. Não é música, não se combinam sons e ritmos, não há sequer organização de tempo, não há polifonia. Tudo ali é do jeito dele, uma ladainha cuja invocação tem sempre o mesmo santo e faz uso da mesma reza.
Esses moços, pobres moços... deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno à procura luz! E Ave Lupicínio! Este sim, santo, poeta e músico!
O fato é que a ideologia emburrece até mesmo as mentes que se acreditam pensantes. Hoje, em tempos bicudos em que a polaridade atinge seu ápice, dividindo o país em duas bandas, as ideias andam bem embaralhadas. O povo se deixa levar e as instituições aproveitam de certo vácuo para impor suas estripulias.
Se nas redes sociais uns execram outros, em que pautar o caráter e a moralidade (não a cristã, falo daquela característica de um observador, um analista, enfim, um moralista) já parece um lugar comum reflexivo, quando instituições como a Procuradoria Geral da República infringe as leis, isto é realmente algo com que o cidadão deve se preocupar.
Leitor, veja você que nesta semana a Procuradoria deixou vazar uma conversa do jornalista Reinaldo Azevedo com uma de suas fontes, no caso, a irmã do senador presidenciável afastado por corrupção. Ocorre que senador e jornalista são declaradamente de direita (considere, leitor, que posicionamentos políticos como esquerda e direita são relativos no Brasil, país em que a canaille se agrupa para surrupiar o erário).
Dito isto, não é preciso dizer que o lado oponente vibrou com a divulgação das gravações da dita conversa, ainda que a mesma Procuradoria afirmasse que nada ali houvesse que constrangesse jornalista e fonte. O fato é que ao fazê-lo, o oponente esqueceu-se de que a sonora liberdade de expressão foi ferida na alma.
Afora os comentários comumente irascíveis e repudiáveis do jornalista, que defendia a Lava Jato enquanto seus oponentes políticos eram investigados, e, agora que suas fontes passam pelo mesmo processo, coloca-se radicalmente contra a investigação, o que está em jogo é a liberdade de expressão e, de arrasto, a pluralidade das ideias.
O que os oponentes de Azevedo não se deram conta é que o Estado começou a interceptar conversas particulares, no caso, para punir um jornalista por suas posições, seus pontos de vista. Vale lembrar que Azevedo já fez duras críticas aos procuradores, à Procuradoria.
O que não se pode é ignorar ataques à privacidade, sobretudo em questões que envolvem pluralidade de ideias, desacordo de visões de mundo. Festejar isto é muito pior; é esquecer-se de que ao fazê-lo, tornamos impossível ataques similares àqueles que expressam nossos pontos de vista.
Por fim, em tempos em que arremedos de comentaristas e filósofos abundam nas redes sociais, cada um mais certo de sua verdade que qualquer outro, vale recordar Luciano de Samosata, que coloca tais filósofos como parte de uma “raça preguiçosa, rixenta, vaidosa, irascível, gulosa, desmiolada e orgulhosa”, por isso, nada melhor a fazer que sacar um espelho qualquer, olhar-se por um bom tempo e refletir um pouco sobre o que nele vemos.


 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Imprensa folhetinesca

Inventado pelo jornal - e para o jornal - o que no início chamava-se feuilleton-roman, tornou-se folhetim e, em muitos casos, a razão de existência do próprio jornal. Essa nova forma de literatura, cujos capítulos seriados eram publicados no rodapé da primeira página dos jornais, brotou de uma simples necessidade jornalística: aumentar o público leitor. Ponson du Terrail, Eugène Sue e Alexandre Dumas, por exemplo, garantiram a fidelidade de milhares de assinantes e, de quebra, a venda de zilhões de edições.
Assim como esses pães de liquidificador, que dispensam aquele trabalho de mergulhar a bolinha de massa crua em um copo d’água, esperar que ela flutue para, só então, levá-los ao forno, o folhetim tem uma receita simples. Eis os ingredientes: tome uma mocinha infeliz e perseguida, coloque-a no caminho de um tirano brutal e sanguinário, faça-a tornar-se amiga de um pajem sensível e virtuoso e, de quebra, dê um jeito para que ela revele seus segredos mais íntimos a um confidente dissimulado e pérfido.
Personagens delineados, tome da pena, misture todos rapidamente e produza sete, oito, dez, vinte folhetins e sirva-os quente! Porém, como bem esclarece Reybaud, é preciso ter a máxima atenção ao corte, porque é isso que define o bom folhetinista. É preciso que um episódio esteja amarrado ao outro, que desperte o desejo, a curiosidade, a impaciência de ler a continuação.
Esta curiosidade, claro, é o que vai determinar o grau de erotização do texto. Explico-me: depende de o autor manipular com destreza a estética do desejo e do obstáculo, de modo que o leitor, seduzido pela narrativa, fique preso pela periodicidade e à espera daquilo que o autor escolheu não dizer.
Sendo essa uma das habilidades requeridas ao autor do folhetim, tratando-se da imprensa, cuja notícias são apresentadas por meio de títulos chamativos - quando não falsos -, também à procura do maior número de leitores e à moda de fait-divers, o que vemos não é algo diverso, muito pelo contrário: seletiva e nada imparcial, escolhe fatos e situações, mistura-os a outros contextos, apimenta-se o enredo, destaca-se uma frase qualquer tornando-a dúbia, junta-se ao texto uma imagem também ambígua, acrescenta-se um gráfico, distorce e/ou relativiza-se os dados da célebre estatística de modo a confundir o leitor e voilà - eis a receita da imprensa folhetinesca. Sob alcunhas de Folha, Gazeta, Diário, Estado, Correio disso ou daquilo, e nomes sonoros como colunistas, articulistas, especialistas, jornalistas, etc, diariamente o leitor dá de cara com muito Aqui Agora e Datena impressos.
Tratando-se da política, não raro me pergunto quais pudores levam essa imprensa do espetáculo a dividir o noticiário político do policial, cujas imbricações nem mesmo leigos e ingênuos ignoram. Hipócrita, a imprensa não é afeita à imparcialidades. Parti pris? Não creio. A resposta talvez esteja no vil metal, que jorra para dentro da burra via anúncios de instituições públicas e, de forma indireta, por meio de partidos-quadrilhas devidamente registrados no Superior Tribunal Eleitoral.
E tudo isso é algo genuinamente brasileiro? Não, infelizmente não, caro leitor. Países como a França já passaram pelo que passamos hoje, embora, aparentemente, tenham conseguido expurgar a parte espúria e infecta. Extinguir a imprensa? Não, melhor tê-la a nos contentarmos com um sistema sozinho e soberano a nos dizer o que e qual é a verdade.
O que incomoda é a imprensa e a política comerem do mesmo prato, às vezes, fazendo uso até do mesmo garfo. Isso faz com que as bactérias transferiram de uma boca a outra, confundindo o pobre do leitor, obrigando-o a uma vigilância cansativa.
Não bastasse isso, é comum os jornais apresentarem as notícias sob viés literário: a ação se desloca de protagonistas a coadjuvantes à medida que os interesses mudam; quando não, a canaille surge dissimulada e bandidos-políticos viram celebridades. Até mesmo as críticas ao cascateamento da infração em todos os níveis de poder, esfera em que o crime tornou-se um de seus constitutivos maiores, é relativizada visando poupar uns e outros.  
Abaixo, reproduzo um extrato de Bel Ami, de Guy de Maupassant. O folhetim, de 1885, conta a ascensão social de Georges Duroy, homem ambicioso, sedutor e sem escrúpulos, que chega ao topo da pirâmide social parisiense graças às suas amantes e seu conluio entre finanças, política e imprensa. Neste trecho, Duroy, ao passear pelo Bois de Boulogne, reconhece os homens e mulheres mais influentes de sua época, demonstra conhecer seus segredos, a história de suas vidas e de suas fortunas. Cabe a você leitor fazer as atualizações: os nomes, escolha-os a seu critério; o local e a situação, relembre algumas das últimas aparições em que políticos e empresários vestiram-se uniformes de estatais, inauguraram projetos e exibiram-se para uma imprensa que, na manhã seguinte, publicou o show com ares de grandes realizações.

Este jogo o divertia muito, como se estivesse constatando, sob as severas aparências, a eterna e profunda infâmia do homem... E pôs-se a procurar os cavaleiros sobre os quais corriam as histórias mais salgadas.
Avistou bastantes homens suspeitos de roubar no jogo, cujos únicos recursos vinham da jogatina.
Outros, muito célebres, que viviam unicamente dos rendimentos de suas esposas; outros, das rendas de suas amantes... Muitos haviam pago suas dívidas - coisa muito honrosa -, sem que no entanto ninguém tivesse adivinhado de onde lhes tinha vindo o dinheiro (mistério muito suspeito). Viu homens de finanças, cuja imensa fortuna tivera origem num roubo e que nem por isso deixavam de ser recebidos por todos, nas mais nobres casas; e viu homens tão respeitados que os pequenos burgueses tiravam o chapéu à sua passagem, mas cujas trapaças descaradas nas grandes empresas do Estado não constituíam mistério para nenhum que conhecesse os avessos do mundo.
E todos tinham um ar altivo, o lábio orgulhoso, o olhar insolente, os de suíças e o de bigode...  (1959: 135)


Quem dera, leitor, a imprensa folhetinesca e imparcial nos apresentasse a canaille política como Georges Duroy a via... O que fazer? Conselho de tio velho em porta de sacristia:  observe e desconfie, ao menos saberá de fato quem é o lobo na história da carochinha reproduzida todos os dias nas páginas do folhetim que entregam à sua porta. 

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Pop-mortem: Antonio Candido

O existencialismo, corrente da qual fizeram parte Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, defende que o homem constitui sua essência ao longo de sua existência, de maneira que não existe uma essência que o determine. A atitude existencial, algo como um estalo ou um escangalho das sinapses, ao mesmo tempo em que provoca no homem uma sensação de desorientação e certa confusão face à aparente falta de sentido e o absurdo do mundo, determina os sentimentos, as ações e a vivência do indivíduo. A grosso modo, é como se ao longo de nossa existência fossemos colecionando experiências, criando a nós mesmos, de modo que só com a morte atingimos nossa completude. Não à toa, a ênfase do existencialismo está na responsabilidade do homem sobre seu destino e no seu livre arbítrio.
Mas deixemos a nesga de erudição para lá: falemos de Antonio Candido! Ontem completou-se uma semana da morte do grande ensaísta e crítico literário brasileiro. Candido atingiu sua completude; escreveu as últimas páginas de seu livro. Cabe a nós, agora, a leitura de sua obra, a inveja de sua essência.
Até aí, nada demais! Contudo, o curioso mesmo foi tê-lo encontrado em meio aos entretenimentos e fofocas de celebridades em um site de notícias. Talvez um provável descuido; desses que fugiram às exceções e tornaram-se regra na malfadada indústria da informação.
Singular ou não, o fato é que me lembrei de Machado e por fim achei que talvez tudo não passasse de uma predestinação irônica, dessas que hora ou outra acometem seres supostamente alheios às futilidades efêmeras.
Explico-me: há tempos escrevi sobre a indignação póstuma de Machado. Ocorre-me agora que Brás Cubas, figura culta e refinada, porém voluntariosa, não só daria um piparotes em seu criador, mas também usaria de muita ironia ao vê-lo em meio a Madonna e a Mulher Melancia (ambas já recolhidas ao esquecimento) em uma banca de jornal.
Melancia, na capa de uma publicação especializada em estimular carpos, metacarpos e falantes de marmanjos, exibia o derrière e pernas em V invertido. Cubas não faria por menos! É certo que tripudiaria da página leve em que Machado traz de arrasto a Eneida e assola o verso virgiliano de modo a fazer com que virumque ignore a arma, degenerando-se em Vir, no intuito de sugestionar seu pai, que decide apresentá-lo a Virgília (Perdeu-se leitor? Eis pura provocação para que voltes às páginas de Memórias Póstumas!).
Na época, lembro-me que ao contemplar Machado exposto entre os exuberantes seios de Madona e o buzanfã da Mulher Melancia, a válvula de escape ao risível e ao ridículo veio-me de alguns versos de Baby grafados na capa de uma outra revista: lá vem o Brasil descendo a ladeira. À época Baby ainda não era do Brasil e este descia a ladeira na bola, no samba, na sola e ainda não lançava o salto em direção aos nossos sacrossantos traseiros!
Enfim, com Candido deu-se algo parecido: colocaram-no entre uma ‘bbb’ (com minúsculas mesmo!) que reclamara do reclinar de uma poltrona de avião e uma reportagem que versava sobre característica constitutiva do homem: o fingimento; no caso, homens que fingiam orgasmos. Vá lá, é certo que Candido tenha dado algumas remexidas post-mortem.
O fato é que Candido tornou-se pop; em vida, referência, admirado nos meios acadêmico e intelectual, morto, adentrou as revistas de celebridades e ao longo da semana disputou espaço com as fofocas. Contudo, nas redes sociais trouxe algum respiro para o universo facebookiano, lugar-comum de comentários repletos de clichês, preconceitos e uma boa dose de iracúndia.
Enquanto escrevo dou uma olhadela nas últimas notícias: figuras do meio político-policial de Brasília vêm a público afirmar que possíveis delações hão de marcar o fim da República, o que só prova que vivem em um mundo de fantasia, à parte. A lama é tanta que não vejo outra alternativa a não ser recolher-me também em meu mundo. Por fim, plagiando Cícero, se ao lado da biblioteca houver um jardim, nada me faltará! 

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Fatos, opiniões e pós-verdade


À época das ideias positivistas, teorias e argumentos, uma vez submetidos a métodos científicos válidos, tornavam-se irrefutáveis. Até mesmo a cultura surgia impositiva, considerando-se que havia freios à arbitrariedade de ações e crenças. Tudo isso perdeu-se na poeira dos tempos.
Vivemos tempos de extremado relativismo, tudo pode e não pode ser, enfim, a marca de nossa existência holográfica. O que você vê não é real. O que você lê não tem lastro. Fatos não existem mais, foram extintos pelo poder da opinião. São Tomé, insurreto em sua fé, jamais tocaria as chagas do Mestre; quando muito, viveria da exponencial dúvida que é a existência, obrigando-se a beliscar a própria carne para provar da sua materialidade.
Antes, a virtù visiva dava alguma garantia do real, ou da representação dele, seja lá o que isso for; hoje, vemos o que inexiste e, se existe, quando pode ser tocado - ou lido -, foi criado com o simples propósito da trapaça, do engano, para nos desviar daquilo que intencionalmente não querem - ou querem - que vejamos.
Vou a Pasárgada com a alma leve, mas não vou a Brasília, recuso-me. Caso me atrevesse comentar a estripulias das canalhas legitimadas que lá habitam, me embrenharia por um pessimismo que sequer o filósofo de Dantzig suportaria. Mas esqueça o preâmbulo, caro leitor, e vamos ao título.
Não sou expert em jornalismo, como também duvido que o seja a maioria que opina nos periódicos atuais. Tento ler a obra antes da crítica, e vá lá, às vezes sinto-me credenciado a dar meus pitacos.
Vamos aos fatos e opiniões: um fato é algo que aconteceu na realidade, e opinião, o que se pensa a respeito, uma interpretação. Eis a liçãozinha básica. Ocorre que nem todos recontam o fato do mesmo modo e é aí que, de modo sorrateiro, a opinião mete o bedelho; seja pela organização das ideias, seja pelo modo seletivo com que a informação vem à luz, priorizando a opinião do autor.
Fato e opinião se embrenham de tal modo que, relativizados, entram em conflito. Hoje, é comum ver a opinião galgar degraus, pisotear os fatos. Não que se deva priorizar um em detrimento do outro, mas é fato que não se condena um assassino, por exemplo, pela antipatia que o dispunha contra a sua vítima, mas pelo fato de tê-la mandado sem um reles óbolo, visitar Caronte.
E não é que a memória me traz de arrasto aquela senhora acriana, cujo marido fez fortuna à custa de umas poucas toras de mogno (mais um caso, dizem, em que confundiram fato e opinião)? Lá pelas tantas, antes da tragédia de Mariana, gozando da alcunha de ambientalista, bradou contra a arrogância e a esperteza dos fatos objetivos, derivados de um positivismo rudimentar, afirmou ela, que se julgam superiores à opinião, esta, vista como mera suposição subjetiva. Diz ela que os fatos, seletivos, surgem para sustentar opiniões baseadas em interesses próprios e objetivos.  
Nessa toada, o que se vê é a opinião maculada pelo objetivismo dos interesses, e o fato, outrora objetivo, ganhar subjetividade em consonância com o discurso e os interesses nele impressos. Alienados, os fatos tornaram-se massa de manobra, tanto é que hoje podem ser mesmo alternativos, virtuais; já a opinião vestiu-se de certa nobreza, em conformidade à relevância da posição de seu enunciador (na política, quase sempre pautada pela mediocridade, inexplicavelmente move multidões).
Parece-me que nós, o populacho, hora ou outra dependemos desse maná para sobrevivermos no deserto. Ao longo da travessia, olhos e mentes turvados pela areia, guiamo-nos pelo vulto da opinião, na qual acreditamos piamente, investindo-a de verdade. Isto posto, agimos como aquela personagem de Ponson du Terrail, o sr. Williams, para quem os homens deixam de acreditar nas verdades que afirmam em demasia.
Assim, chegamos à pós-verdade, comportamento que faz com que o homem se recuse a acreditar naquilo que está diante dos seus olhos, no que já foi provado por A mais B. Na era da pós-verdade, acredita-se naquilo em que se quer acreditar. O resultado, creio, é nefasto: políticos já não são mais políticos, mas gestores; quando investigados pelo desvio de milhões, se dizem inocentes; condenados pelos mesmos crimes, se dizem injustiçados, perseguidos; tratando-se da ineficiente máquina pública, os responsáveis, quando entrevistados, garantem sua excelência e plena funcionabilidade;  a população, de um lado, morrendo à míngua, reclama da ausência da polícia, do outro, a polícia afirma sua onipresença e eficiência; ministros cujas obras são referências, são pegos por plágios, mas continuam referências; doutores se dizem doutores, mas desconhecem o conteúdo de suas teses, pois jamais as escreveram; candidatos comemoram vitórias em concursos públicos, mas seus nomes já haviam sido escolhidos à socapa antes mesmo da realização das provas e così via. E acreditamos!
Hoje, desconfiei dos céus: as nuvens espessas prometiam chuva, porém, o sol rompeu-se abruptamente, rasgou o enorme aglomerado de gotas em suspensão, mostrou-se atrevido; ainda assim, acreditei que chovia, senti as gotas d’água que escorriam pelo meu rosto, gotejavam dos lábios e deslizavam até meu peito gotículas de pós-verdade.

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Ruínas, crônicas e lembranças


O céu exibe uma lua cheia e brilhante cujo ápice da visibilidade será daqui a dois dias. Contudo, não se dá o mesmo com as notícias, pois à medida que o tempo avança, a impressão que se tem é que elas tornam-se cada vez mais obscuras. Tem sido difícil desvendar as entrelinhas, descobrir o que está por trás, enfim, os interesses de uns e de outros ou de todos em conluio.
Parece-me que temos lido as mesmas notícias há dias, tal a assiduidade com que o modus operandi da canaille é desvendado nas páginas dos jornais, sempre de modo seletivo, é claro, e em consonância com os próprios interesses da imprensa. Mas vá lá, deixemos a política torva e sanhuda de lado!
Roma, que é feita de escultura e arquitetura, à sombra de grandes árvores imensas (se não me falha a memória, foi exatamente assim que Rubem Braga a descreveu), surpreendeu mais uma vez, a despeito dos arqueólogos alemães, ingleses, americanos e de tantos outros ciosos de uma boa pilhagem. Explico-me: hoje li em um site italiano dedicado à história romana, que as escavações na tomba del gladiatore ainda continuam a fascinar.
De pronto, foi-me impossível não traçar sinapses intertextuais, uma vez que acabara de ler o Manifesto Antropófago (ou Antropofágico) de Oswald de Andrade; ali, Oswald tasca que nesse paiz da cobra grande “nunca tivemos grammaticas, nem colecções de velhos vegetaes. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental”.
Nessa toada, no encontro de culturas dissimétricas, a antropofagia surge como um conceito que atribui papel ativo à cultura ‘subjugada’. Aliás, não era outra a vontade do Bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis se ressente do pays féerique proferido por Sarah Bernhardt, ignorando aspectos da cultura brasileira. Mas, como disse Oswald décadas depois, “nunca soubemos o que era urbano”, e aí, permita-me o leitor um pequeno retoque: “nunca soubemos o que eram ruínas”.
Hoje, achamos hora ou outra um vidrinho aqui, um caquinho de vaso acolá. No XIX, o máximo que fazíamos era tentar exumar uma ou outra ossada, tal aquela há muito sepultada no Castelo e creditada a Estácio de Sá, que Machado comenta em uma de suas crônicas. Machado desconfiava dos tais ossos e, ironicamente, resgata uma historieta em que coloca Méry em Roma a presenciar dois sujeitos cavando os flancos da Cidade Eterna.
Animados por dois lords ingleses, os trabalhadores exumaram fragmentos de uma estátua que aparentava nada mais nada menos que mil anos de idade. Apaixonado por antiguidade e ruínas como Chateaubriand, Méry não se contém e humildemente pede aos ingleses para ajudá-los a transportar as preciosidades. Mais à noite, em uma reunião, Méry descobre que os fragmentos achados haviam sido preparados na véspera para parecerem que datavam de longe. Eis as ilusões do espírito deixando-se iludir pelas ruínas, que, embora falsas, impressionavam e exibiam volumes e massas.
Mas não parece ser esse o caso da tomba del gladiatore: descoberta em 2008 ao longo da Via Flaminia, na periferia de Roma, a sete metros de profundidade, sob vias férreas e em escavações preliminares para a construção de edifícios, surgiu da noite dos tempos não só a tumba, mas também o traçado de uma antiga via romana e um monumento incrivelmente preservado. Descobriu-se que pedaços do mausoléu traziam o nome de uma personagem célebre da história romana, o general Marcus Nonius Macrinus, do exército de Marco Aurélio e desaparecido em 161 d.C.
Como alguns anos antes Ridley Scott havia realizado Gladiator, não demorou muito para que a imprensa ligasse o fictício Massimo Decimo Meridio a Marcus Macrimus; daí por diante, o general romano tornou-se gladiador e seu mausoléu a tumba do gladiador, de modo que a história, mais uma vez, curvou-se à ficção.
Em 2010, veio à luz a estátua da esposa do Gladiador e, como sempre acontece na história de Roma, quanto mais se cava, mas surpresas emergem da terra. O sítio arqueológico em que jaz o mausoléu do Gladiador, dada a sua riqueza, já foi apelidado de “Fórum Romano em miniatura”. As escavações prosseguem, infelizmente visível aos olhos de alguns poucos privilegiados, de modo que Chateaubriand seria impedido de meditar sobre tais ruínas.
Como não sou Chateaubriand nem nada, cá com os meus botões, conto os dias para novamente vislumbrar a ruinaria da Città Eterna.

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O homem é o lobo do homem

Homo homini lupus est. A expressão vem de longe; apareceu pela primeira vez na comédia Asinaria (c. 195 a.C.), de Plauto. Ao longo da circulação das ideias foi retomada por Plínio, o Velho, Erasmo, Bacon, Schopenhauer, Montaigne, Hobbes e mais uma porção de homens - e lobos.
Há pouco, li um artigo sobre a violência entre os primatas. No mundo animal, os suricatos ganham em disparada. Nada afeitos à competição, sacrificam os recém-nascidos. Contudo, na vida adulta, sequer os suricatos superam os humanos - assim chamados porque são pretensamente dotados de razão -, cujos espécimes matam sem qualquer motivo aparente. Eis, em parte, o significado da expressão.
A compreensão total, no mais das vezes, vem do fato de o homo sapiens não se contentar com uma mortezinha e pronto acabou. É preciso requintes de crueldade e submissão, enfim, apreciar a espinha dorsal do adversário curvar-se ao chão, humilhá-lo, destruí-lo em vida, fazê-lo rastejar-se, vê-lo mendigar o pão de cada dia - e só. A morte é a cereja do bolo. Alteridade, tolerância, respeito e tantos outros atributos fazem parte de seu discurso diário. Nas vezes em que se pretende amigo do homem, saca sua cartilha de humanidades e clama pela razão. Mas isso é discurso, na prática, bem a prática...
Mas vá lá, a memória é fraca e a cartilha é logo deixada de lado; os que estão à sua volta tornam-se invisíveis, acha-se o escolhido, e, quando acredita-se desrespeitado, lança mão da famosa carteirada: Você sabe com quem está falando? Se brasileiro, julgando-se especial, recorre ao famoso jeitinho, fazendo valer o dito do velho cronista de que a exceção só é odiosa para os outros; em si mesmo é necessária. Tratando-se de política, democracia é quando ele manda e os outros obedecem; dando-se o contrário, é ditadura. E la nave va!
Ave Schopenhauer! Vê-se leitor, que hoje estou para generalizações. Quando isso ocorre, sabe-se, lá vem verborreia... Voltando aos lobos, a razão pela qual me veio à memória o aforismo de Plauto nem foi a individualidade extremada de nossos dias e o fato de que nos tornarmos o maior dos predadores da natureza, mas a saga do lobo, o canis lupus.
E não é que antes de ser odiado pelos homens, o pobre do lobo era objeto de adoração? Buffon, já contaminado, referindo-se ao animal, disse: “Desagradável em tudo, estatura baixa, aspecto selvagem, voz assustadora, odor insuportável, natureza perversa, modos ferozes, ele é odioso, prejudicial enquanto vivo, inútil após sua morte.” Misto de repulsa e atração, este canidae percorreu o folclore, histórias e lendas; ainda hoje, atrai e assusta.
O fato é que bem antes de assustar as criancinhas nas fábulas de La Fontaine ou Charles Perrault, o lobo era objeto de admiração por parte do homem. Etnozoologistas afirmam que nos locais em que viveram os lobos, havia grupos de caçadores para os quais ele era um modelo absoluto; a ele creditavam a fundação de linhagens reais e de chefes e até mesmo a fertilidade. Nessas sociedades que viviam da guerra e da caça, o lobo era muito bem-vindo, o modelo a imitar.
Diz-se, contudo, que o homem sempre odiou o lobo porque se parece muito com ele. Talvez, por isso, Plauto, ao demorar-se nas semelhanças, viu que a mesma astúcia e força empregada pelo lobo no exercício da caça, o homem aplica para subjugar seu semelhante. Quando se admira alguém, o que fazer? Imitá-lo e perpetuá-lo como exemplo a seguir. Disso, por exemplo, as inúmeras estelas com imagens de lobos encontradas por historiadores e arqueólogos em escavações, a lenda de Rômulo e Rêmulo, alimentados por uma loba e così via.
Como o lobo tornou-se um animal diabólico? A religião! Deixo a palavra com a etnozoóloga Genéviève Carbone: “Descobrimos uma nova religião inteiramente diferente que diz que há um Deus sobre Terra, que ele está ao lado do cordeiro, da luz, e que ele vai banir o inverno, a morte e o frio. O problema é que o lobo está do lado do inverno, da morte e do frio e é ele quem vem para comer os cordeiros quando esquecem de vigiá-los. Para continuar a integrar um lobo, que é um dos elementos mais importantes do folclore ocidental com o urso, é preciso encontrar uma razão de ser, e esta é o diabo. Assim, acomodam o lobo do lado da noite e da feitiçaria.” E que venham os lobisomens!
Hoje, o dito de Plauto e as historietas modernizaram-se: para mim, Chamfort é o que mais se aproxima do italiano ao afirmar que a sociedade não é outra coisa que um grupo de que uma parte devora a outra; por sua vez, o lobo acomoda-se perfeitamente à figura do homem que oprime e subjuga a mulher - e que Deus proteja vovó e a Chapeuzinho! -, ou, numa exegese marxista, ao capitalista bem sucedido que, também opressor, explora o proletariado, de modo que tudo fica a gosto do freguês, até mesmo porque já não há mais lobos que façam mingau de criancinhas e as exéquias, assunto que tomou a semana, encheu os picuás! 

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Ítaca ou Pasárgada?

Ítaca ou Pasárgada? As notícias da semana, em grande parte protagonizadas pela canaille, não nos deixam dúvida: devemos fugir. Antes que escolha entre Ítaca ou Pasárgada, as sinapses me trazem aos ouvidos a canção de G. Gil. Ocorre que a canção é de um lúdico rasteiro, nem mesmo serve para alentar qualquer espírito já turvo e lesionado por falta de oxigênio. A canaille nos rouba o ar e não temos herói que nos liberte ou louco que nos traga à sanidade.
Fugir? Para onde? Ítaca é um longo caminho de volta. Não à toa Penélope ali esperou por Ulisses por mais de uma década. A viagem até Ítaca é repleta de aventuras; encontramos ciclopes pelo caminho. Porém, não ligamos, pois a poeira dos tempos encarregou-se de apagar de nossa memória Polifermo e tantos outros que, com Hefesto, forjavam os raios usados por Zeus.
Perdemos toda e qualquer nobreza mítico-literária, já não há mais deuses e semideuses, somos todos iguais em nossa utópica república do politicamente correto. Incoerentes, vivemos em meio a uma violência moral, em que a notícia e o fato cruento surgem implacáveis e impiedosos. Hoje, forjam-se raios em mãos moral e profundamente comprometidas. Nossos ciclopes continuam a ser divididos entre os de primeira e os da nova geração, contudo, travestidos de vampiros, sugam-nos o sangue e a alma, tratando-nos com extrema indiferença.
A estrada, sabemos, é longa: mais ou menos setenta, oitenta anos, e atravessamo-la a trancos e barrancos. As manhãs de verão são muitas, mas a alegria de ver novos portos é sempre uma incógnita. Por mais que conheçamos outras paragens, não devemos perder Ítaca de vista, pois nosso destino será nosso alento. Como dizia o poeta, ainda que Ítaca não nos dê muitas riquezas, ela nos dará uma bela viagem, ademais, sem ela não teríamos partido.
Seja a pé, seja de trem, mesmo se Ítaca nos parecer pobre, ela nos terá feito sábios, e, por causa dela, teremos vivido uma vida plena e intensa. O mesmo ocorrerá se decidirmos por Pasárgada, esse país de delícias imaginado pelo poeta.
Contudo, só vamos para Pasárgada porque aqui não somos felizes e também porque lá somos amigos do rei. Por isso importa a viagem. “E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/ Vontade de me matar”... Ah, Bandeira! Se tivesses lido o que li hoje... Ficarias mesmo muito triste ao ver que chegamos onde nunca imaginaste...
Veja você leitor: em Luiziana, um pequeno vilarejo no centro-oeste do Paraná, o ex-prefeito José Claudio Pol, também conhecido por Claudião tornou-se réu por homicídio e peculato em uma ação criminal. Até aí nada de novo, afinal, políticos tornarem-se réus já é lugar-comum no noticiário nacional. O estranhamento, no caso, vem da própria imprensa ao relatar tais peripécias nas páginas de política e não nas páginas de polícia.
Bem, o vilarejo em que Claudião reinava possuía um só cilindro de oxigênio móvel da unidade de saúde, e não é que Claudião, também cachaceiro, tomou emprestado o tal do cilindro da unidade de saúde para bombear chope em sua festinha particular? Tudo passaria desapercebido não fosse uma paciente inoportuna que resolvera passar mal justamente enquanto Claudião e sua prole sorviam do chope bombeado com o oxigênio que, surrupiado da paciente, obrigou-a a apressar sua visita ao Hades.
O irônico é que na foto publicada pelo familiares de Claudião, o cilindro está logo abaixo de um quadro que exibe o rosto do Cristo entalhado em madeira. Ainda que de muito mal gosto, a representação do Mestre não deixa de ressaltar a nulidade de seus conselhos, ao menos para Claudião, o fariseu, que, pelo menos por enquanto, não se encaixa bem na historieta do filho pródigo, pois antes terá que se ver com a justiça.
Como vês, leitor, a saída é fugir: seja voltar a Ítaca, de onde nunca deveríamos ter saído, seja para Pasárgada, onde somos amigos do rei. Deixemos a pátria mãe gentil; distraída, se Claudião lançar nova candidatura em 2018, ela o receberá de braços abertos. Hipócritas, bradamos alguma dose de moralidade, mas gostamos mesmo é de uma boa patifaria. O STF está aí e não me deixa mentir. 2018 está às portas!
Mas não nos condenemos! Não somos muito diferentes de outros povos, afinal, há mais de dois mil anos libertaram Barrabás!


Imagem: Vers Ithaque, de Henry Pou

Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/