Revista Philomatica

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Os fanqueiros literários

É inacreditável como, às vezes, os assuntos vêm até nós sem que para isso façamos qualquer esforço. É um redizer sucessivo que, acredito, seja também necessário acrescentar um ponto ao conto. Lembro-me do livro que li recentemente de Eco e Carrière onde diziam que, não raro, os livros vêm até nós. Pois afirmo que com os assuntos não muda nada.
Reli, há pouco, uma crônica machadiana de 11/9/1859, publicada em O Espelho, Revista de teatro, de propriedade de Euletério de Sousa. Embora a revista primasse pela crítica teatral, o texto de Machado de Assis é de fato uma crítica à atividade de fanqueiro literário, indivíduo que se sustentava da venda de um subproduto literário, ofício considerado pelo cronista como "obra grossa", "loja manufatora do talento", por isso o desqualificava. No século XIX, os chamados fanqueiros eram negociantes de tecidos, porém, Machado discorre sobre aquele que desenvolve uma estratégia de mercado para a edição, distribuição, divulgação e comercialização de seus próprios livretos, com expectativa de lucro - evidentemente. Machado crê que a atividade desvaloriza a literatura, pois desenvolve-se à margem da produção literária oficial.
Em suma, o fanqueiro literário era um misto de escritor, negociante e bajulador. Cultivava amizades e circulava por espaços onde desfilam pessoas que colecionavam seus folhetos em troca de cortesias desmedidas. Casamentos, nascimentos, batizados, tudo era razão para se fazerem escritores e poetas porque, como bem assinala o cronista, o fanqueiro literário tinham a espinha dorsal mais flexível, e, chegavam mesmo a valer-se do expediente da sátira ao próprio freguês. No entender do cronista, a atividade do fanqueiro literário repugna[va] à natureza da própria intelectualidade.
A repulsa do jovem e frondeur Machado é tanta que chega à fronteira do radicalismo e, pasmem! - clama pela destruição dos livros e brada: "Mas tudo isso é causado pela falta sensível de uma inquisição literária! Que espetáculo não seria ver evaporar-se em uma fogueira inquisitorial tanto ópio encadernado que por aí anda enchendo as livrarias!".
No entanto, o tipo de comércio que Machado condenava era comum nas ruas do Rio de Janeiro, tanto que João do Rio, em 1908, ano da morte de Machado, elogiava em crônica a profissionalização da atividade literária: "Hoje o scriptor trabalha para o editor e não manda vender como José de Alencar e o Manuel de Macedo por um preto de balaio no braço, as suas obras de porta em porta, como melancias e tangerinas". Estariam, então, Alencar e Macedo inclusos no rol dos fanqueiros renegados pelo Machado da juventude? Jamais saberemos. O fato é que o reduzidíssimo público leitor[1] nem sempre estava à mão: Manuela Carneiro da Cunha, ao relatar alguns hábitos comerciais vigentes no Brasil em meados do século XIX, afirma que "Por preceito, por decoro, para evitarem o espetáculo tido por indecente que os negros seminus oferecem no centro da cidade, as mulheres brancas pouco saem de casa. Em contrapartida, todo o comércio vem a elas: vendedores de flores, de maçãs importadas dos Estados Unidos, de frutas e legumes, de galinhas e perus, de livros edificantes ou de novelas, de tecidos, gorros de seda, sapatos, facas, moringas, cristais, porcelanas"[2].
Hoje, porém, já distantes dessa época, como numa espiral, tudo se repete. Há uma semana li um artigo sobre as chamadas vendas "porta a porta", segmento que, se antes era encarado como bico, hoje passou a ser a atividade principal de milhares de brasileiros. Vendem-se cosméticos, roupas, carnês, perfumes, os famosos potes plásticos Tupperware (Deixe a reunião acontecer na sua casa e ganhe um brinde!) e livros!
O interessante é que a Avon; - é inacreditável, mas me vem à memória a loirinha do filme Little shop of horrors, com sua voz agudíssima: Avon calling!, mas revenons à nos moutons: a novidade é que a Avon incluiu livros em seus catálogos e a ideia tem sido um sucesso. Em Cabreúva, a 80 quilômetros de São Paulo, conta-se que a revendedora da Avon é esperada com ansiedade. Os títulos passam por uma remodelação antes de entrar nos catálogos: são edições compactas, sem orelha, com capa simples e letras bem apertadas - o que faz o custo cair em até 50%. Os best-sellers, é claro, e os livros de auto-ajuda, são os mais procurados. Compram-se também guias para programas básicos de computador e livros destinados ao estudo para concursos públicos.
O diretor da Avon no Brasil, um peruano de nome Luis Felipe Miranda, orgulha-se: "O mais importante é saber que criamos o hábito da leitura em pessoas que não o tinham". Parabéns à ideia e viva aos fanqueiros literários modernos que, imagino, podem hoje bradar: Avon calling - books.

[1] Hélio de Seixas Guimarães em Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial; Edusp, 2004, p. 68, afirma: “Em 1872, apenas 18.6% da população livre e 15,7% da população total, incluindo os escravos, sabiam ler e escrever, segundo dados do recenseamento; entre a população em idade escolar (6 a 15 anos), que somava 1.902.454 meninos e meninas, apenas 320.749 frequentavam escolas, ou seja, 16,9%. Já em 1890, a porcentagem diminuiu: apenas 14,8% sabiam ler e escrever.” Dos 18%, apenas 2% seriam capazes de ler livros!
[2] Manuela Carneiro da Cunha, Olhar escravo, ser olhado, in Paulo César de Azevedo; Maurício Lissovsky (org.), Escravos brasileiros do século XIX na fotografia de Christiano Jr. São Paulo: Ex Libris, 1988, pp. xxvi-xxvii.
Ilustrações de Henry Chamberlain que fazem parte de uma série realizada entre 1819 e 1820, intitulada Vistas e costumes da cidade e arredores do Rio de Janeiro. Em ambas as ilustrações nota-se escravos carregando livros entre outros objetos.

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