Revista Philomatica

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Rendez-vous no Alcazar Lyrique

"Há nesta cidade do Rio de Janeiro um estabelecimento, onde, tôdas as noites, por entre baforadas de fumo de álcool, vê-se e ouve-se aquilo que nossos pais nunca viram nem ouviram, embora se diga que é um sinal de progresso e de civilização. Chama-se êste estabelecimento - Alcazar Lírico".[1]
O parágrafo acima é trecho da primeira de umas das crônicas que Machado de Assis escreveu para a Semana Ilustrada, periódico carioca fundado em 1860 por Henrique Fleiüss e que teve no seu quadro de colaboradores, além de Machado, personalidades como Quintino Bocaiuva, Joaquim Manuel de Macedo, Joaquim Nabuco, Bernardo Guimarães e outros.
A série de crônicas fazia parte da coluna Crônicas do Dr. Semana e foram dirigidas ao Ilmo. Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polícia e ao Ilmo. e Exmo. Sr. Conselheiro Presidente do Conservatório Dramático Brasileiro, instituição onde Machado atuaria como censor teatral a partir de 1862.
Machado, ao redigir seus libelos, coloca-se radical e ironicamente contra o estabelecimento dirigido pelo francês Mr. Arnaud e com isso participa da polêmica gerada à época em que o Alcazar Lírico era odiado por uns e amado e aplaudido por outros.
O Alcazar Lyrique foi inaugurado em 17.2.1859 com um programa variado[2], segundo o Jornal do Commercio. Também foi conhecido por alguns anos (1866/1880) por Théâtre Lyrique Français, Theatro Francez, Alcazar Lyrico Fluminense e Alcazar Fluminense; e ocupava os números 43, 45, 47, 49 e 51 da Rua da Vala, posteriormente denominada Rua Uruguaiana. De acordo com o Requerimento 50-2-60 de 15.2.1879, o prédio do teatro recebeu o número 39, que corresponde atualmente aos números 31 e 35 da Rua Uruguaiana, área hoje ocupada pelo Banco Francês e Brasileiro e a Loja Bemoreira, no pavimento térreo, sendo o prédio de dois pavimentos.
Em meados dos século XIX, mais precisamente nos anos 60, época em que o teatro era dirigido pelo artista francês Joseph Arnaud, proprietário e empresário que pretendeu dar à casa de espetáculos a feição dos cabarés de Paris, o Alcazar foi alvo permanente de polêmicas, contudo, tornou-se referência no quadro das mudanças urbanas que então se processavam na capital.
O Alcazar introduziu na pacata noite carioca uma novidade: o vaudeville revisitado e ficaria imortalizado não só nas crônicas, mas também pelas beldades que ali se apresentaram. O palco do Alcazar oferecia um teatro de variedades com números de dança e canto, inspirados principalmente na obra de Offenbach, autor que aparecerá muitas outras vezes como intertexto nas crônicas machadianas.
Para muitos, o Alcazar era uma preocupação e dava muito trabalho à polícia. CRULS[3], por exemplo, comenta o pesadelo que o Alcazar representava para as famílias: "... os velhos babosos, os maridos bilontras e a rapaziada bordelenga se davam rendez-vous todas as noites, para rentear as atrizes brejeiras e as cupletistas gaiatas que degelavam os mais idosos e rescaldavam os mais moços". Joaquim Manoel de Macedo[4] o chama de satânico e afirma que o Alcazar era "o teatro dos trocadilhos obscenos, dos cancãs e das exibições de mulheres seminuas" e que "corrompeu os costumes e atiçou a imoralidade". Macedo afirma ainda que o Alcazar influiu para "a decadência da arte dramática e a depravação do gosto".
Havia, porém, uma parte da sociedade, digamos, não tão moralista, que via o Alcazar como um símbolo do progresso que novos ares traziam à capital do Império. Muitos o elogiavam e o viam como a possibilidade de aplaudir um teatro que praticamente não existia na corte. Ali, era possível o contato com os artistes d'élite - as celebridades da época, como Aimée, Risette, Delmary, Adèle Escudero, Duchaumont e outras.
Essas beldades passaram pelo Alcazar, sobretudo, no período em que Mr. Arnaud dirigiu a casa. Nesses anos o Alcazar atingiu seu auge e passou a oferecer espetáculos consagrados e artistas de destaque, de maneira que as novidades teatrais francesas fizeram parte de um contexto de modernização. Assim , classificá-los como espetáculos de "mau gosto" denota mais uma crítica moralista que estética.
O Alcazar, passa então a propagar as novidades de Paris e o esplendor cultural que o Império de Napoleão III projetava sobre o mundo e, de quebra, ventilava a ideia da educação pelo teatro, em parte disseminada pelo mimetismo da cultura francesa que afetava a sociedade como um todo. Vale ressaltar que à época a França era vista como o exemplo a seguir por toda nação que se propusesse a fazer parte dos paises ditos civilizados.
A título de reflexão, cabe lembrar aqui, mais uma vez, o trecho de Elementos de Rhetorica Nacional, de 1869, de Junqueira Freire I (p.50-51): “Depois da gloriosa época da nossa emancipação política, têm surgido muitos gênios, mas ainda não temos completa a nossa emancipação literária. Enquanto não a tivermos, e formos obrigados a seguir um norte, sigamos a França. Porque é ela o farol que ilumina todo o mundo civilizado"; o próprio Machado, anos mais tarde, em 1877, constata: "Vivemos de, por e para Paris". [5]
O fato é que na multifacetada influência francesa na cidade do Rio de Janeiro, o Alcazar e suas celebridades, despertando repulsa ou admiração, contribuíram para reforçar a ideia de que a França era o modelo a seguir. Com isso, no Rio de Janeiro do século XIX, a presença da cultura francesa era assídua e copiosa também a importação de produtos franceses, com destaque para a moda, os espetáculos teatrais, livros e, dada a história do alcazar, a cocotte commédienne do teatro ligeiro e das operetas.

[1] ASSIS, Machado de. Semana Ilustrada. Crônicas do Dr. Semana. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. Editores, 1957, Vol. 22, p. 248.
[2] Ouverture: 1ère Partie: Adieu, M. Lamoureux, chansonnette par Mlle. Adèline; Le cabinet de lecture, scène comique par M. Amédée; Un prince auvergnant, duo-comique par Mlle. Julie et M. Triollier; La faurette du canton, par Mme. Maire; Le chat de Mme. Chopin, scène comique par M. Germain; Le vieux braconier, chansonnette par M. Amédée; Air de Galathées, par Mme. Maire. 2ème Partie: 1ère présentation de La perle de la cannebière, vaudeville en 1 acte de Marc Michel et Labiche. Distribution: Beautandon - MM. Amédée; Godefroid, son fils - MM. Triollier; Antoine, domestique de Beautandon - MM. Germain; Georges, domestique de Thérèson - MM. Alexis; Thérèson, macasse marseillaise - MMmes Céline Dulac, Mme. de Ste. Poule, Mmmes. Adèline Morand; Mme. Blanche, sa fille - MM. Julie Conjeon.
[3] CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro: notícia histórica e descritiva da cidade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965, p. 553.
[4] MACEDO, Joaquim Manoel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Brasília: UnB, 1988, p. 142.
[5] ASSIS, Machado de. Crônicas. História dos quinze dias, 15.11.1857. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. Editores, 1957, vol. 24, p. 293.
Imagens: Rua Uruguaiana, Teatro Lírico e Rua Uruguiana.

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