
Pois é. Lembra-me de que no princípio era a cola. Certa vez, no primeiro ano do ensino médio - à época, colegial-, deparei-me com florestas tropicais úmidas, tundras, estepes, savanas, desertos, pradarias, taigas... Rodeei o assunto e depois de alguma leitura buscando cercá-lo, não tive dúvidas: optei pelo copiar-colar. Óbvio que não havia então o Control-X, nem Control-C, nem Control-V. Foi com Bic mesmo! Bic, papel branco e letra miúda, miudinha. Ao final da operação, o papel, já azul, era uma sanfoninha à semelhança de um fole de acordeão. É provável que o professor esperasse que eu ao menos respondesse as questões à minha maneira, o que não fiz, ergo, não sabia que plagiava. Pensando bem, por este lado, quem nunca plagiou que jogue a primeira pedra! Ops!, isto é plágio.
Naturalmente, você, leitor, sabe que essa história de jogar a primeira pedra vem de longa data e já notou que o assunto aqui é o hábito cada vez mais comum de assumir a obra intelectual ou artística de outrem, sem lhe dar os devidos e merecidos créditos.
Cheguei a isso em razão de notícias que li recentemente: plágio em tese de doutorado derruba ministro alemão; universidade confirma plágio em tese de vice-presidente do parlamento europeu; escritoras acusam de plágio a série Macho Man, da Rede Globo; SBT é notificado por plágio de quadro no Programa do Sílvio Santos, além, é claro, de histórias próximas e que correm à boca miúda, cujos envolvidos não ganham foro de imprensa.
De fato, ao longo da produção literária, o conceito de plágio é algo relativamente novo. Na Idade Média, regiam as leis da imitação. Aos escritores e artistas era permitido que buscassem um exemplum, um modelo do passado que servisse de base para que se pudesse fazer algo novo. O público que ia ao teatro ver a Fedra, de Racini, muito provavelmente já conhecia a paixão proibida vivida pela heroína em Hipólito, de Eurípedes, ou na Fedra, de Sêneca. Talvez o que procurassem era constatar o gênio de Racine ao recontar a história por outro viés, afora sua habilidade com os versos alexandrinos.
Isso ocorria porque talvez ainda imperasse a mentalidade cristã do imitatio Christi, ascese que ditava a assimilação de Cristo como modelo a ser seguido. Nesse contexto, artistas, escritores e professores apropriavam-se com liberdade de fontes cristãs e greco-latinas porque lhes parecia inspirador. No caso dos clássicos, recontar a história era, ao fazê-lo, acrescentar um nova argola à corrente, um ponto ao conto, enfim, uma espécie de plágio criativo.
Na antiguidade e, depois, na Idade Média, antes da difusão da imprensa, o direito do autor não existia: foi com a aparição do texto impresso que se instaurou a noção de propriedade literária. Desnecessário dizer que se os autores buscaram proteger suas ideias, os plagiadores não deixaram por menos e, ironicamente, criaram... maneiras e dinâmicas próprias de copiar.
O plágio constitui uma cópia ipsis litteris, sem tirar nem por, enfim, algo que pode trazer sérias implicações jurídicas e... derrubar ministros. Mas nem todo mundo pensa assim: a primeira das Fictions, de Borges, Tlön Uqbar Orbis Tertius, traz o conceito de que o plágio não existe e de que todas as obras são ob

Barthes também concebe a ideia da literatura como patrimônio generalizado ao dizer que na literatura tudo existe, resta saber onde.[2] Mas nem sempre se apropriar da fala do outro é plágio. Dentre as práticas intertextuais, a citação é claramente destacada e a interação entre os textos é bastante distinta. No entanto, a referência, assim como a alusão e o plágio, são bastante ambíguos. Sua localização depende da cultura e da sagacidade do leitor, algo que torna a relação intertextual incerta e aleatória. Em casos de apropriação total, como ocorre com o plágio, o texto citado se funde de tal maneira ao texto citante que a heterogeneidade - se notada -, só ocorre devido à sintaxe ou ao estilo, isso quando não atinge todo o conteúdo do texto, eliminando qualquer traço particular - se é que eles existem (rsrsrs). Afinal, como dizia o pregador nos Eclesiastes (1:9): nada há de novo debaixo do sol (viram que fiz uma mudançazinha?).
Para encurtar a prosa, lá vai um copiar-colar da Wikipédia. Conta-se que o escritor austríaco Egon Freidell (1878-1938), ao constatar que tinha sido vítima de plágio, em 1931, escreveu ao seu plagiador, um certo Anton Kuh, esta memorável cartinha:
Prezado Senhor,
Foi surpresa verificar que resolveu publicar a minha humilde estória, "O imperador José e a Prostituta", tal como a escrevi, com o acréscimo das três palavras: "Por Anton Kuh" , na publicação Querschnitt. Honra-me sem dúvida o fato de sua escolha ter recaído na minha estorinha, quando toda a literatura mundial desde Homero se encontrava à sua disposição. Teria gostado de retribuir na mesma moeda, mas depois de examinar toda a sua obra, não encontrei nada que tivesse vontade de subscrever. (ass) Egon Friedell.
[1] BORGES, Jorge Luís. Fictions. Paris: Gallimard, Coll. Folio, p. 24
[2] BARTHES, Roland. Le Bruissement de la langue. Paris: Seuil, 1984, p. 330
Imagens: Mona Lisa, de Botero. Todas disponíveis no Google Images.
Nenhum comentário:
Postar um comentário