
Prova
disso são as centenas de dissertações e teses defendidas nas universidades públicas
brasileiras, cujo teor são as relações culturais, as literaturas africanas e as
literaturas pós-colonialistas; seus autores, na maioria das vezes, não se
deslocam para Angola, Moçambique, Cabo Verde etc., mas sim, vão a Lisboa,
Coimbra, Paris... - é sempre mais prazeroso estudar os povos africanos à margem
do Sena. Desse modo, em parte perpetuamos a ideia de uma África atrasada,
longínqua e inacessível. Não generalizo, é claro, mas parte do que tenho visto
hoje são produções pautadas por certo equívoco, resultado de pouca leitura e super
valorizando as questões raciais como parâmetro para a criatividade, o talento,
a aptidão e a capacidade. Dito isto, penso em qual seria a cor da literatura ou
das literaturas. É claro que as literaturas refletem seus meios e a manufatura
de um autor africano ou descendente terá traços e marcas próprias do seu espaço,
das suas histórias e de seus traumas, enfim, da saga do povo africano. Mas é
preciso reconhecer, é isso é polêmico, que muitos que se arvoram por esses
estudos o fazem superficialmente, uma vez que os olhares - como disse - foram
intermediados.
Mas
deixemos os estudos literários de lado e tomemos o bonde das notícias. Vejam
como o pensamento na Etiópia está a anos luz à frente do brasileiro: aqui, o
governo defende abertamente o desmatamento das florestas e o sucateamento dos
parques nacionais, empenhando-se em uma política retrógada que, se revertida,
demorará décadas, oxalá século, para que a natureza e fauna se refaçam – o que
não acredito, dada a ânsia de saúva que nos tomou a todos. Explico-me: nós,
brasileiros, (generalizo, embora deva respeitar uns poucos que navegam contra a
maré, pois é fato que a maioria ainda não se deu conta de que é um hospedeiro consumindo
seu organismo - o planeta – de tão forma avassaladora cujo fim não é outro senão
a morte de ambos) ainda não sabemos conviver com outras formas de vida,
derriçamos tudo, flora, fauna, enfim, praticamos a política da terra arrasada.
Lá,
na Etiópia, o governo adquiriu nova consciência em relação ao meio-ambiente, o que
faz com que nos envergonhemos das notícias por nós produzidas nos últimos anos.
Lá, na Etiópia, o governo está empenhado no reflorestamento do país. Estranho,
não!? É possível que as boas ideias tenham aparecido lentamente, mas como nunca
é tarde, a Etiópia propôs-se a plantar 4 bilhões de árvores para preservar seus
recursos naturais e combater as mudanças climáticas. Também é possível que os
etíopes tenham se dado conta disso às custas de muito sofrimento: quem não se
lembra da Carestia de 1983-1985, na
Etiópia? Essa fome em massa que exterminou 400.000 etíopes e impulsionou o
concerto Liv-Aid, elevando a fome a status internacional e garantindo algum recurso
aos etíopes. À época, se alguns acharam a ideia maravilhosa, outros
discordaram, haja vista o acadêmico Alex de Waal ter afirmado que “a ajuda
humanitária prolongou a fome, e com ela, o sofrimento humano”, talvez porque,
ele próprio, jamais tenha sentido o estômago preso às costas.
Mas
hoje os etíopes estão enxergando para além dos umbrais de suas portas. Na
segunda-feira passada, segundo notícias da agência AFP, o governo dispensou os
funcionários e organizou um esforço coletivo junto aos cidadãos para que
pudessem plantar árvores, motivando assim o restante do país a fazer o mesmo.
[Interrompa sua leitura, caro leitor, e compare as ações dos etíopes aos
discursos e o não fazer nada dos brasileiros. Quanto aos europeus, estes são
sensíveis à causa, mas plantam pouco ou coisa nenhuma!]
Feito
isso, continue.
Depois
de o governo etíope ter afirmado que cerca de 350 milhões de mudas de árvores
foram plantadas, o porta-voz do primeiro ministro Abiy Ahmed afirmou:
“Demonstramos a capacidade de as pessoas se unirem coletivamente.” De quebra,
ressaltou que a campanha cujo objetivo é reflorestar áreas desmatadas ao longo
das últimas décadas surgiu como uma boa oportunidade de solidarização entre os
cidadãos, qual seja, plantar árvores tornou-se instrumento humanitário, algo
que talvez seja óbvio para os indígenas, povos que têm por hábito o respeito à
natureza e estão aqui por perto, mas tão perto, que os ignorarmos - e os
matamos.
Por
fim, se para os etíopes o desmatamento tornou-se um problema muito sério, para
os brasileiros a consciência de que desmatar é algo nocivo à natureza está
longe de se tornar uma questão quotidiana, haja vista o INPE ter anunciado hoje
um aumento de 40% no desmatamento da Amazônia. É claro, há gente que desmereça
o INPE, afinal...
Para
concluir: a África é a mãe de muitas outras lições que o tempo e o espaço não
me permitem retomá-las.
Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/licoes-da-africa/
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