Ao Leitor:
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Harold
Bloom – se você é daqueles leitores teimosos e resolveu insistir no texto –
morreu aos 89 anos e foi um titã da crítica literária. Cultíssimo, era uma
enciclopédia ambulante da literatura inglesa; notório por se opor ao
politicamente correto e por seus julgamentos tradicionais e fora de moda sobre poetas,
romancistas e dramaturgos. Não era lá muito do gosto da patota
multiculturalista, sobretudo aquela que flutua pelas periferias do texto.
Professor
de longa data de Yale e da Universidade de Nova York era, em si, um verdadeiro
oximoro, considerando que se tratava de um estudioso sério que escrevia para as
massas. A Ansiedade da Influência e O Canône Ocidental são best-sellers inquestionáveis. O
primeiro, publicado em 1973, é uma obra densa que expõe uma teoria fortemente
dependente de Freud, sobre a luta psíquica que produz grandes poetas. Nos anos
posteriores, contudo, Bloom foi um populista determinado, traduzindo preocupações
de alto nível sobre educação literária para um público geral e mais abrangente,
razão pela qual tornou-se um dos raros críticos a ter suas obras nas listas de best-sellers.
Tratando
das inseguranças culturais, Bloom ofereceu respostas inequívocas a perguntas
que considerava fundamentais para a literatura e o aprendizado dela. Quais
escritores pertencem ao panteão literário e quais estão no meio da confusão?
Devemos ler para satisfazer agendas sociais ou políticas, ou devemos ler para
entender nosso eu essencial? À medida que novas escolas de crítica tomavam
conta das universidades americanas na década de 1960, permitindo que os
defensores do marxismo, desconstrucionismo, feminismo e multiculturalismo
revisassem o currículo, Bloom emergiu como um defensor da tradição.
O Canône Ocidental
(1994) tornou-se sua réplica para os teóricos multiculturalistas, que ele reuniu
e ridicularizou como adeptos da “Escola de Ressentimento”. O livro destaca 26
escritores - quase todos homens brancos europeus mortos, incluindo Shakespeare,
Dante, Borges e Beckett - cujas obras ele considerou leitura obrigatória, razão
do chororô dos ressentidos. Sem papas na língua, extravagante em sua incorreção
política, ele alienou movimentos inteiros com críticas irreverentes sobre o que
chamou de mal-estar a varrer a
academia. “Eu não sou”, proclamou maliciosamente em um artigo no Times londrino, “um defensor da ficção
lésbica esquimó”.
Considerado
o crítico mais audacioso de sua geração, em 1900 publicou O Livro de J, em que tratava a Bíblia
como literatura e sustentava que o Antigo
Testamento fora escrito por uma mulher. Não é nem preciso dizer que os estudiosos
da Bíblia refutaram a sua tese; o livro,
porém, tornou-se um best-seller. O
mesmo aconteceu com Como ler um livro e
por quê (2000), versão condensada do cânone de Bloom.
A
celebridade de Bloom era devido tanto à sua personalidade quanto às suas ideias;
foi uma personagem tão colorida quanto Falstaff, a grande criação cômica de
Shakespeare. Bloom, com seus olhos melancólicos, podia ser cáustico,
bombástico, atrevido e encantador. Aos 30 e poucos anos, sofreu uma depressão
profunda e começou a ler Freud obsessivamente. Suas lutas psíquicas se
arrastaram por seis anos, durante os quais ele começou a escrever um poema
épico inspirado em um pesadelo. O poema se transformou em uma teoria da poesia,
que veio à luz em A Ansiedade da
Influência.
Sua
teoria sustentava que os poetas são como filhos que se rebelam contra o pai -
adaptação da teoria da raiva edipiana de Freud. Segundo Bloom, o desejo de
ofuscar o trabalho brilhante do passado leva poetas “fortes” a usurpar seus
antecessores e criar seus próprios trabalhos significativos. Para isso, baseou-se
nos românticos para ilustrar a teoria de que compor um poema é um “processo
feroz” de ultrapassagem e revisão das melhores obras poéticas do passado. O
livro, ao mesmo tempo deslumbrante e confuso, empregava tantos termos obscuros
que levou a escritora nova-iorquina Larissa MacFarquhar a afirmar “que parecia
ter sido escrito por um cabalista Lewis Carroll”. O crítico britânico Terry
Eagleton, contudo, chamou-o de “uma das teorias literárias mais ousadamente
originais da década passada”.
Bloom
era uma celebridade na academia, mas ficou cada vez mais atormentado. Ele havia
tolerado os desconstrucionistas - o principal deles, o pensador francês Jacques
Derrida - e, embora tenha contribuído com um ensaio para um livro com Derrida e
outros defensores da desconstrução, negou que fosse um deles. À medida que
outras novas escolas de crítica ganhavam popularidade - novos historicistas,
socialistas, feministas e multiculturalistas -, Bloom as ridicularizou
afirmando que faziam parte de “grupo de lemmings” que estavam destruindo os
estudos literários com suas agendas não literárias – por isso foi visto como
reacionário. Um de seus ex-alunos, o escritor Charles McGrath, observou que o
velho professor começou a brincar dizendo que era marxista da “escola marxista
Groucho ... cujo lema é Seja o que for,
sou contra”. Ao escrever O Canône
Ocidental afirmou que procurava salvar a educação literária tradicional dos
bárbaros, momento em que considerava o que era ensinado nas academias como
resultado de uma culpa social e cultural que assumira o controle.
Tratado
como um dinossauro pela maioria de seus colegas, afirmava, disse não se importar,
pois acreditava na genialidade literária e no “poder de alterar o mundo da
imaginação de um poeta”, convencido de que a grande poesia mudou o mundo.
Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/requiem-a-harold-bloom/
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