
Os
hábitos foram tão alterados pela indústria que hoje as pessoas recusam o leite in natura por considerá-lo nojento,
intragável. Pois é, com a literatura, acreditem se quiser, aconteceu o mesmo.
Se a narrativa não estiver a serviço de uma causa ou de uma ideologia – e
quando digo ideologia considero a indústria cultural e de entretenimentos – não
presta, é erudita demais, é canônica, representa o sistema, o opressor e tudo o
mais.
Desconfio
de tudo! Se não leio, desconfio do texto; quando o leio, desconfio mais ainda,
tento esmiuçá-lo, trato-o como inimigo, não me deixo convencer, busco nas
entrelinhas o discurso sub-reptício que pode me alienar e me colocar a serviço
de uma causa cujos interesses sequer desconheço, até mesmo porque a dificuldade
em descobrir quem controla as marionetes na tentativa de nos tornar títeres de
seus desejos e interesses é inimaginável.
Tome-se
por exemplo – antes de adentrarmos ao puramente literário – as celebridades. Não
falo de artistas, como Sophia Loren, que em sua biografia relata a ajuda que
teria dado a um menino e que tentara manter em secreto, mas que fora descoberta
pela imprensa. Refiro-me a uma casta de atores e atrizes cujo talento, na
maioria das vezes (pleonasmo) é fugidio. Na tentativa de trazê-lo para perto de
si, contratam empresas que gerenciam suas vidas profissionais e do nada
tornam-se ativistas e pilares do politicamente correto. Às vezes o passado
condena, mas essa mesma empresa trata de torcer a vara e adequar os discursos
para que as celebridades surjam ilibadas, quase perfeitas. Li há pouco que existe até
mesmo um cardápio de causas e à celebridade basta escolher entre militar na
causa feminista, indígena, racial, gay e demais variantes. O curioso é
quanto mais medíocre a celebridade, mais ela aparece! Houve até mesmo um casal
que adotou uma cachorrinha abandonada na beira da estrada... bem, previra
tratarmos de literatura.
Pois
bem, na literatura acontece o mesmo. O
Estadão publicou uma reportagem sobre o “mais completo levantamento sobre o
hábito de leitura do brasileiro, a Pesquisa Retratos de Leitura”, agora sob a
batuta do Itaú Cultural (desconfio de bancos sobretudo!). A novidade, no caso é
realizar pesquisas “menores” em “festivais literários para conhecer o perfil do
brasileiro que frequenta esse tipo de evento”. Deduz-se que quem frequenta
estas feiras já é alguém ligado a livros. Não creio. É o mesmo que afirmar que
alguém vai a Roma só para ver o Papa ou que todo muçulmano é terrorista!
É
claro, relativizei, mas há algo errado nessa reportagem que também generaliza o
brasileiro como grande leitor. Vejam: afirmam que 30% dos brasileiros gostam
muito de ler, porém, na Bienal, este índice sobe para 74% e na Flup (Feira
literária das periferias) 77%! Não creio que os hábitos se alteram ao badalar
dos sinos. Fato é que a mesma pesquisa Retratos da Leitura recentemente divulgou que
44% da população brasileira não lê e 30% nunca compraram um livro! Ademais,
basta pesquisar na rede para dar de cara com notícias que revelam uma queda de
17,94% na venda de livros nos primeiros meses deste ano em comparação com 2018.
O
fato é que em sua maioria os livros e autores mencionados na lista da
reportagem referenciada parecem produtos das empresas de gerenciamento, cada um
contando seu drama pessoal, ajustando-o a uma causa da moda. No mais, me
intriga a distância desses 70% e trá lá
lá de leitores das escolas e universidades. Onde se meteram eles?
Confunde-me o espírito tal leitura, considerando-se o esforço que nós
professores fazemos durante um curso para que os alunos leiam três ou quatro
livros ao longo do semestre, sobre os quais giram as discussões em sala de
aula. Onde andam esses leitores que povoam as feiras de livros? Nunca adentram
as escolas e universidades?
Vislumbro
públicos diferentes: há um caduco, em ruínas, que aprecia Machado de Assis,
Guimarães, Clarice, Dalton Trevisan, Rubem Braga, Dante, Balzac, Amós Oz,
Drummond, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa, Camões (os nomes vieram-me aleatoriamente);
e há os antenados e socialmente comprometidos ou psicologicamente fragilizados à procura de pertencimento e de algum alento, que aprecia Zibia Gasparetto,
Alan Kardec, Lázaro Ramos, Augusto Cury, Paolo Coelho, Stephen King, Djamila
Ribeiro etc.
Não
vou adentrar a questão do cânone e nem à resposta que deveria dar à pergunta
que mantive como título, mas algo afirmado na reportagem continua a me corroer
o espírito: “enquanto 56% dos ouvidos pelo Retrato da Leitura em 2015 disseram
ser leitores, os números saltam para 95% na Bienal e 97% na Flup. É leitor pelo
menos quem leu um livro inteiro ou em parte nos três meses que antecederam a
pesquisa. [Meu Deus! Que definição!] 6,6% é a média de livros lidos nos últimos
três meses pelo público da Bienal, 7,9% pelo público da Flup e 2,5 pelo
brasileiro em geral.”
Reflitam
vocês quatro sobre os índices – sim, porque creio que este texto não será lido
nem pelos cinco leitores que previra Machado ao escrevinhar seu Memórias póstumas, de modo que permanece
a questão: literatura pra quê? Talvez para fugir à ignorância que nos rodeia e
nos sufoca, e é exatamente por isso que me intriga saber o que um público de
95% 97% lê. Apesar da lista, a reportagem traz mais dúvidas que respostas. Detalhe:
do público da Bienal, que supostamente tem maior poder aquisitivo, apenas 7%
leem história, economia, ciências sociais, filosofia, economia e política,
enquanto 17% do público da Flup consomem obras relacionadas a essas áreas, o
que prova que outras pesquisas sobre a escolaridade na periferia não passam de
lorotas. Não estou a desmerecer a periferia, até mesmo porque de lá saí; afora
isso, a reportagem afirma que o gênero preferido dos leitores da periferia é o
romance - e eu também gosto de romances. Também não estou a desmerecer o
gênero, o que questiono é a diferença de índices. Perdidíssimo estou. Acho que
vou ler um romance, o gênero preferido de 100% dos brasileiros, essa massa
genial de leitores que ignora as celebridades pseudo-engajadas e até mesmo os derrières cantantes, como disse semana
passada.
De
minha parte, prefiro a literatura de raiz – como se diz por aí – à literatura
das prateleiras de supermercado, alienante e ao gosto de interesses que sequer
imagino.
Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/literatura-pra-que/
Confira:
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