
Por
isso, é só por isso, covardes, violentos e gananciosos são os 41 homens que
foram presos por patrocinarem rinhas entre cães em Mairiporã. Dentre eles,
destacam-se um veterinário, um médico e um policial. No frigir dos ovos, a
balança da justiça pendeu para a injustiça, que aos olhos da lei deve ser
perpetrada sempre. Dos 41 espúrios, só um ainda continuava preso - e duvido que
continue. O que esperar da humanidade em tempos em que todos se voltam para o
nascimento do Cristo e, hipocritamente, pregam a bondade, a nobreza e a retidão
de espíritos?
A
perversidade dos homens em seu quotidiano ressoa na literatura. Machado de
Assis, por exemplo, demonstrou genialidade incomparável ao tratar da essência do
espírito humano sob o crivo da ironia. Shakespeare fez das intrigas palacianas o
fermento para obras monumentais. Outros, mais contemporâneos, buscam na
curiosidade do leitor pelo desconhecido, sua intemperança, seu desespero e suas
atribulações o mote de suas obras e com isso se dão muito bem. Dan Brown e
Paulo Coelho estão aí a faturar milhões de caraminguás e a encher suas burras!
Mas
nem todo mundo lê. É claro, não devemos culpar o leitor, jamais, agindo como
agem as facções políticas de nossos dias, que preferem a animosidade ao
entendimento. Mas o fato é que não raro o escritor escreve para um leitor
ideal, conjecturando que um dia será lido, por isso a premissa de que todo
mundo que escreve, escreve para ser lido.
As
razões de textos não serem lidos têm suas variantes e, às vezes, isso parte de
uma autocrítica. Kurt Wolff em Memórias
de um editor conta o périplo de Kafka que, antes de morrer, recomendou a
seu amigo Max Bord que destruísse o que escrevera, pois o considerava de baixa
qualidade. Felizmente, Max Brod o desobedeceu. Há casos, como de Emily
Dickinson, que, reclusa, escrevia em cadernos e cuja obra só veio à luz por
causa de amigos.
Dito
isso, a caça aos leitores depende de marketing
– e Paulo Coelho está aí como prova de que não estou mentindo. Leandro
Karnal, Mário Cortella e Mark Manson com seu A sutil arte de ligar o foda-se, entre tantos outros, também estão
aí para trazer respostas rápidas a problemas incômodos.
Não
vou entrar na questão da literatura de massa, a despeito de as subcelebridades
em suas redes sociais recomendarem o foda-se;
penso em Kafka, não porque eu seja um leitor melhor que os outros, mas porque
procuro algo que me fale ao espírito e não somente às partes baixas – sejam
elas intelectuais ou físicas. No mais, reflito no porquê de ninguém lerem meus
textos e eu insistir em escrevê-los a mim mesmo: li que textos na internet
devem ser curtos, cheios de espaços, fotos, insistir nas palavras-chave que os
sistemas lembrem quotidianamente e, o mais importante, devem ser curtos, bem
curtos, sempre curtos. Curtíssimos.
Portanto,
já passei da medida. As intersecções entre a vilania do homem, sua
representação na ficção e o fato de ninguém querer ler textos que a elas se
referem, se não ficou claro, definitivamente não leia Lukács ou Auerbach, mas veja
TV ou leia qualquer livro que traga a palavra foda-se ou merda na capa,
e isso por três razões: subcelebridades como Marília Mendonça e Juliana Paes os
recomendam, editores dizem que são irreverentes e, o mais importante, a vida
sob a máscara da ignorância é muito mais bela.
Portanto,
se chegou até aqui leitor, considere-se “o cara”, pois terá sido um dos poucos
ou quem sabe o único a ler essas garatujas. Sendo assim, recomendo A morte de Ivan Ilitch, de Tólstoi, ou Almas mortas, de Gógol.
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