
A interdição era clara: qualquer melodia, tom, assovio, ruído ou... gemido que lembrasse a música era motivo pra bronca. Bronca das duras, sérias, e com beliscões se ficasse ao alcance. A música?
Je t'aime moi non plus, de
Serge Gainsbourg, proididíssima aos meus doze anos. Anos depois, tornou-se fundo musical em uma propaganda de televisão de uma boîte chamada
Fazendinha, lá pelos arredores de Campinas. A propaganda apresentava uma garota dançando o que hoje se conhece por
pole dancing. Na época dizíamos poste, mastro, cano, algo bem menos globalizado. Pois então, agarrada ao mastro, olhar sedento, olhos oblíquos, lábios soltos, entreabertos, língua meio à mostra, dizendo vem..., ou melhor,
tu vas et tu viens, entre mes reins... (Nem é preciso dizer qual era a especialidade da boîte.)
Ao fundo, os suspiros inigualáveis de Jane Birkin. Por ora, já não cabia mais bronca alguma e todos, inclusive minha mãe, ríamos lembrando da ingenuidade perdida. Tudo isso, claro, não passou de um
flash de memória, assim que bati os olhos na notícia veiculada hoje pela Reuters, o lançamento em 20 de janeiro do filme
Gainsbourg, vie héroïque. Gainsbourg foi um desses artistas polivalentes e super criativos. Nascido em Paris, de origem russa, transitou pelas artes com um repertório invejável. Compositor, escritor, diretor, ator e intérprete. Cantou, ao lado da atriz inglesa, Jane Birbin, sua terceira mulher,
Je t'aime, seu maior sucesso e que rendeu denúncia pelo Vaticano, além de proibição na BBC.
Celebrado por canções inventivas - ele fez uma versão reggae da Marseillaise -
Aux Armes et Caetera, Gainsbourg, morto em 1991, tal qual Edith Piaf, agora ganha sua cinebiografia. Segundo a reportagem,
Gainsbourg, vie héroïque, seduziu e escandalizou o público tanto quanto
La Môme, o filme que contou a conturbada vida da grande cantora francesa e que rendeu um Oscar, em 2008, para Marion Cotillard. Gainsbourg, célebre tanto por seu modo de viver quanto por sua música, teve intérpretes do quilate de
Juliette Gréco,
Françoise Hardy,
France Gall,
Brigitte Bardot,
Jacques Dutronc,
Catherine Deneuve,
Alain Chamfort,
Alain Bashung,
Anna Karina,
Isabelle Adjani,
Vanessa Paradis, além de sua filha
Charlotte Gainsbourg e, claro,
Jane Birkin, de suspiros inesquecíveis em
Je t'aime. O filme é só esperar para apreciar.
Créditos: Foto: Serge Gainsbourg na Cidade Internacional das Artes de Paris, no dia 1/4/1967, fotografado por Louis Joyeux. Disponível Reuters.
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