
Hoje, porém, para a maioria dos mortais a leitura é um ato de persistência. O mundo é cada vez mais ágil, visual, fotográfico. A galera que amanhece com os fones socados nos ouvidos e em movimento constante, certamente se aborrece com a pausa e a reflexão exigidas pela leitura. Por outro lado, o mercado moderno incentiva o descarte; usa-se e joga fora. É preciso comprar, substituir, adquirir um modelo mais novo, algo mais recente, mais comentado. Nessa lógica, a sociedade moderna incentiva hábitos comerciais e ideológicos que induzem sempre a leitura de uma nova história, a compra de um novo livro. Mas e aquela história que gostamos de recontar? Esquecemos? Impossível. Daí a releitura, essa, como diz Barthes, contrária aos ditames do mercado e é praticada por categorias marginais - crianças, idosos e professores. Diferente do que muitos pensam, a releitura logo de cara salva o texto da repetição e nos surpreendemos em constatar que nem tudo já havia sido lido, ou seja, nossa releitura torna-se ainda mais plural à medida em que criamos liames com outras tantas histórias lidas desde aquela nossa primeira leitura. E foi exatamente isso o que me aconteceu quando botei as mãos num pequeno livrinho de James Hilton, o Horizonte Perdido. Relembrei-me não só a história, mas também minha história dos tempos de menino, quando me isolava na biblioteca do SESI e ali passava horas. Ali, percorri a trilha ingreme junto de Conway e seu grupo fugindo da guerra até chegar a Shangri-la, a longínqua aldeia encantada encravada nas montanhas do Tibete. Ali, lembro-me perfeitamente, é um mundo mágico, encantado, soberbo. Lugar paradisíaco onde a dor, a velhice e a morte assumem significados inesperados. Ali, nessa civilização ímpar, a vida caminha tranquila e livre. Li o livro de uma tacada só e descobri que ao menos na releitura, em Shangri-la, a busca de um ideal de paz e sabedoria é possível.
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