
Pois bem, no nosso caso, nós pesquisadores, haja
vista esse governo desalmado afirmar que nas universidades faz-se muita
balbúrdia, não fizemos turismo e não tivemos diárias; alguns, mal recebem algum
caraminguá para inteirar o transporte - e devo dizer que pesquisadores cruzam o
país para participar de tais congressos, dada a pressão constante que têm sobre
as costas para publicar. A publicação, não é preciso dizer, tornou-se o indicador
que regula toda a vida acadêmica. Pesquisadores com bolsa produtividade pairam
nas alturas e, de lá, lançam seu olhar oblíquo sob seus pares, a despeito de
todo o discurso de igualdade.
Não é preciso dizer que, a exemplo dos congressos
predatórios e caça-níqueis – sim, caça-níqueis porque a impressão que se tem
não é a de que tais congressos fomentem o conhecimento por meio de uma análise
conjunta, em que pesquisadores de diferentes lugares compartilhem suas
descobertas e reflexões, mas a de que um grupo de pesquisadores-organizadores à
caça de menções no Lattes, diga-se, em busca evidente de mostra de
produtividade, submetem outros ao pagamento de inscrições para uma reflexão
inexistente, para inglês ver – a superprodução de artigos e revistas, no
quesito qualidade, tem muito pouco a oferecer.
O produção científica, estima-se, cresce a uma taxa
anual de 5% sob a batuta exigente do sistema de avaliação acadêmica. Há casos
de professores-pesquisadores que outrora produziram estudos interessantes e
hoje, abrigados sob relativa nomeada, publicam artigos e livros bastante
medíocres, sem qualquer rigor, às vezes, em um incessante autoplágio, e tudo
isso com o objetivo de turbinar seus curricula.
Sei de periódicos nos quais muito do
que se publica sequer passa por uma avaliação dos pares. Outro truque muito
usado pelo pessoal da academia é o célebre salami
slicing, qual seja, produz-se um estudo científico e depois começa-se a
fatiá-lo em artigos de dez, doze, quinze páginas. E isto não é comum só nas
humanas não, o pessoal que nos olha atravessado, por exemplo, não entendendo
porque também nos consideramos cientistas, faz disso prática rotineira. O
resultado, não é preciso dizer, é muitas vezes errôneo – e tudo por causa da
ânsia da publicação. Tome-se por exemplo os departamentos de literatura, local
em que os textos literários sequer são analisados; os clássicos não são mais
lidos, faz-se leituras impressionistas de textos pobres (não generalizo, é
claro, há muitos autores contemporâneos bastante interessantes) tentando
ajustar a causa ao poema - fulana é exaustivamente estudada porque nasceu
pobre, fulano porque é gay... e por aí vai.
Como tudo parece ecoar no buraco tupiniquim
- os estudos multiculturalistas e pós-colonialistas, por exemplo, apareceram
por aqui cerca de três décadas depois de os americanos terem começado a
espernear nessa areia movediça -, ninguém ainda fala sobre a Slow Science Academy, iniciativa para
desacelerar o ritmo da produção científica que, há quase uma década, começou a
ser discutida em Berlim.
Não se trata de barrar o progresso da
ciência, o manifesto de Berlim é claro sobre a questão: “Dizemos sim ao fluxo
constante de publicações de revistas de revisão por pares e seu impacto,
dizemos sim à crescente especialização e diversificação em todas as
disciplinas. No entanto, afirmamos que isso não pode ser tudo. A ciência precisa de tempo para
pensar. A ciência precisa de tempo para ler e tempo para falhar. A sociedade
deve dar aos cientistas o tempo que eles precisam, mas o mais importante, os
cientistas devem tomar seu tempo.” Parece-me que ainda não descobrimos a
importância de se promover uma pesquisa mais reflexiva e pausada – por isso não
culpo os organizadores do congresso supramencionado com suas apresentações the flash. Mas deviam saber!
Por fim, fica uma grande incógnita:
em uma época marcada pelo visual, em que plataformas de internet limitam o
número de caracteres, alunos universitários são afeitos ao control c control v, a quantidade se sobrepõe à qualidade, como
produzir conhecimento sendo que o processo da ciência é lento, constante e
metódico?
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