
Voltaire
recusava-se a ver os seres humanos como superiores, por sua essência, em
relação a outras espécies animais; isto corresponde à sua rejeição pelas
religiões abraâmicas (de Abrahão - Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, nas
quais o animal é frequentemente considerado inferior ao homem) e a doutrina dos
“animais-máquinas” presente no Discurso
do método, de René Descartes - que ele odiava, e considerava ser uma “vã
desculpa da barbárie”, que permitia ao
homem desnudar-se de qualquer sentimento de compaixão pelo sofrimento dos
animais.
Voltaire
começou a se interessar pelo vegetarianismo e, em sua defesa, por volta dos
anos de 1761-1762, como mostrou Renan Larue[1]; diversas
leituras ligam o filósofo a uma afirmação pitagoriciana
(o termo vegetarianismo não existia à
época): o testamento de Jean Meslier, o Émile,
de Jean-Jacques Rousseau, o Tratado de Porfírio,
sobre a abstinência da carne de animais, bem como numerosas obras sobre o hinduísmo
(obras bramânicas que estavam começando a ser traduzidas para o francês e
estudadas nos círculos intelectuais europeus).
Em
suas cartas, Voltaire declara que “não come mais carne” e “nem peixe”,
definindo-se ainda mais pitagoriciano que Philippe de Sainte-Aldegonde, um
vegetariano que recebera em Ferney, perto de Genebra.
Para
Voltaire, o vegetarianismo nunca foi justificado sob uma lógica ligada à saúde,
mas sempre por razões éticas: o vegetarianismo é uma “doutrina humana” e uma “lei
admirável pela qual é proibido comer os animais nossos semelhantes”. Tomando como
exemplo Isaac Newton, para quem a compaixão pelos animais se revelava uma base
sólida para a “verdadeira caridade” em relação aos homens, Voltaire afirmava
que não merece ser chamado de filósofo quem não se tem essa “humanidade,
virtude que inclui todas as virtudes”.
No
Diálogo do galo e do frango, Voltaire
faz com que os animais digam que os homens que os comem são “monstros”,
“monstros” humanos que também se matam cruelmente: o galo elogia a Índia, onde
“os homens têm uma lei sagrada que por milhares de séculos os proibiu de nos
comer”, bem como os antigos filósofos europeus:
Os maiores
filósofos da antiguidade nunca nos colocaram no espeto. Eles tentaram aprender
nossa língua e descobrir nossas propriedades tão superiores às da espécie
humana. Nós estávamos seguros como na idade do ouro. Os sábios não matam
animais, diz Porfírio; somente bárbaros e padres os matam e os comem.
Em
A Princesa da Babilônia, um pássaro
afirma que os animais têm “uma alma”, assim como os homens. No Tratado sobre a tolerância (nota do capítulo
XII), Voltaire lembra que o consumo de carne animal e o tratamento dos animais
como objetos estritos não são práticas universais e que “há uma contradição manifesta
em acreditar que Deus deu aos animais todos os órgãos do sentimento, e sustentar
que ele não lhes deu nenhum sentimento. Parece-me ainda que nunca se deve ter
observado os animais de modo a não distinguir entre eles as diferentes vozes da
necessidade, do sofrimento, da alegria, do medo, do amor, da raiva e de todas
as afeições”.
Voltaire
vai mais longe quando se trata do respeito aos animais, mas o espaço e o tempo
são curtos, leitor, por isso, à moda do folhetim, continuo semana que vem com
as considerações do filósofo sobre “A Carne”, presentes em seu Dicionário filosófico.
Imagem:
Pitágoras defendendo o vegetarianismo,
de Pierre Paul Rubens.
Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/voltaire-filosofo-e-vegetariano-avant-la-lettre/
[1] LARUE, Renan Larue. Pensées
végétariennes, Voltaire, Éditions Mille et une nuits, n°632, 2014; « Le Végétarisme
dans l'œuvre de Voltaire (1762-1778)”.
Dix-Huitième siècle (2010) n°42, pp. 19-34.
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