
Semana
passada discorri sobre alguns textos voltairianos e prometi comentar um pouco
de seu Dicionário filosófico. No
artigo “carne”, o filósofo mostra como Porfírio considerava os “animais como
nossos irmãos porque eles são animados (de anima/alma)
como nós, têm os mesmos princípios de vida e, assim como nós, têm ideias,
sentimento, memória, habilidades” (Hoje, alguns países já concederam aos
animais o status de seres
sencientes.)
O
vegetarianismo de Voltaire afirma-se assim como uma postura filosófica oposta a
qualquer atitude antropocêntrica. O filósofo não acredita que a humanidade seja
o centro da criação ou o topo da cadeia alimentar - e que os animais estejam
abaixo dos seres humanos e apenas “predestinados” a servir de alimento para os
homens: “As ovelhas não foram feitas absolutamente para serem cozidas e comidas,
visto que muitas nações se abstêm deste horror.”
Em
A Filosofia da História (capítulo
XVII, “da Índia”), Voltaire defende a doutrina da reencarnação das almas (transmigração)
que prevalece entre os índios (ou Hindus), nas terras “em direção ao Ganges”,
que, segundo ele, é uma “filosofia da moralidade” que inspira “o horror do
assassinato e de toda a violência”. Esta consideração voltairiana também se
encontra nas Cartas de Amabed
(Segunda Carta de Amabed a Shastadid), onde um jovem hindu de Benares, aluno de
missionário jesuíta que quer evangelizá-lo e fazê-lo abjurar a fé seus
antepassados, lamenta ver os europeus, colonizando a Índia, cometendo “terríveis
crueldades pela pimenta” e matando as galinhas.
Essa
postura moral vegetariana é para Voltaire uma oportunidade de relativizar as
certezas ocidentais decorrentes do cristianismo, em proveito de uma
universalização de referências negando todo o etnocentrismo e todo o antropocentrismo.
É também uma oportunidade de louvar os “gentios” e sua filosofia antiga (grega
ou indiana) e abertamente zombar dos clérigos cristãos e instituições da igreja
- convencidos de sua moral exemplar - que se preocupavam muito com os minuciosos
detalhes dogmáticos de suas crenças empenhadas em reconhecer ou condenar (lembrem-se
do ódio entre católicos, judeus e protestantes), mas que se recusam a educar as
massas à clemência em relação aos animais e eram (e são), portanto, incapazes de promover o vegetarianismo:
Não vejo
moralista entre nós, nenhum de nossos loquazes pregadores, nem mesmo um dos
nossos hipócritas, que tenha feito qualquer reflexão sobre este terrível hábito
[“alimentar-se continuamente de cadáveres”, segundo Voltaire]. Devemos voltar
ao piedoso Porfírio e aos compassivos pitagoricianos para encontrar alguém que
nos envergonhe de nossa sangrenta glutonaria, ou devemos viajar até aos
brâmanes; porque (...) nem entre os monges, nem no Concílio de Trento, nem em
nossas assembleias do clero ou em nossas academias, não se pensou ainda em dar o
nome de mal a este abate universal.[1]
Voltaire
protestou também contra as práticas de vivissecção de seu tempo (experimentação
em animais, generalizando-se como dogma o “animal-máquina”, de Descartes):
Os bárbaros se
apoderam do cão, que excede prodigiosamente ao homem em amizade; pregam-no em uma
mesa e o dissecam vivo para mostrar suas veias mesentéricas. Você descobre nele
todos os mesmos órgãos de sentimento que
estão em você. Responda-me, homem máquina: a natureza arranjou todas as
fontes de sentimento neste animal para que ele nada sinta? Ele tem nervos para
ser impassível? Não suponha essa contradição impertinente na natureza.[2]
Tratando-se
do vegetarianismo, nota-se que Voltaire não só foi um homem avant la lattre – antes de seu tempo, como
também suas ideias têm se mostrado atuais, despertando o homem moderno à
reflexão - ao menos aquele afeito à compaixão e ao respeito.
Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/voltaire-filosofo-e-vegetariano-avant-la-lettre-ii/
[2] Voltaire, Dictionnaire
philosophique, articles "Bêtes", dans Œuvres complètes,
Arvensa Editions. Kindle,
74852-74861.
Nenhum comentário:
Postar um comentário