
Há
cerca de um mês, em uma livraria de Sampa, à procura de uns livros que não
encontrei, fiz o que fazem os viciados em livros e, como Calvino, abri caminho
“através da densa barreira dos Livros Que Nunca Li, das mesas e prateleiras,
olhei-os de esguelha tentando intimidá-los, mesmo sabendo que não devia deixar-me
impressionar, pois estavam distribuídos por hectares e mais hectares os Livros
Cuja Leitura é Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os
Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à
categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos”... Por fim,
ao atravessar em meio às falanges e falanges de livros, um pequeno volume,
frágil, pequeno, porém robusto de conteúdo, lançou-me um olhar cândido. É
preciso que diga ao leitor que estava de joelhos e o olhar do livrinho, cândido,
porém imponente, trouxe-me algo do frescor das ideias potentes, assegurando-me
da força das palavras ali escritas. Capitulei. Trouxe comigo Memórias de um editor, de Kurt Wolff,
editado pela Âyiné, de Belo Horizonte.
A
obra editada pela Âyiné me foi uma dessas verdadeiras descobertas: o primor da
edição faz dela uma preciosidade; a capa de Julia Geiser é daquelas que se
justapõem ao relato, complementa-o, torna-o memorável. E por falar em memória,
as Memórias de Kurt Wolff são
circunscritas à sua empreitada como editor, ainda que temperadas aqui e lá por
preciosismos e esquisitices dos autores com os quais trabalhou.
O
livro de Wolff é sobre autores e livros e só por isso vale transcrever um
fragmento tornado público pelo editor de sua obra em 1965:
A ideia que o
leigo tem do editor e de como ele trabalha é surpreendentemente primitiva: ele
lê o manuscrito ou dá para alguém de sua confiança ler (há sempre enorme
quantidade de manuscritos à espera) e manda para a gráfica as obras que
agradaram a ele ou a seus colegas. Para o livro ficar bonito e com aspecto
agradável, ele capricha na encadernação e contrata um ilustrador para
desenvolver a capa. Se o livro terá sucesso ou não, é pura obra do acaso.
A realidade,
porém, é outra. É difícil explicar quão complexa é essa profissão e como há uma
série de elementos que devem funcionar coordenadamente para se ter um conceito
real, legítimo e positivo de editoração. Como vira e mexe, nessa profissão, o
irracional se sobrepõe ao plano racionalmente desenvolvido, jogam-se todas as
previsões no lixo. Vive-se em uma situação permanente de incertezas e
surpresas; uma fonte interminável de alegrias e decepções.
De
fato, Memórias joga com essa sua
afirmação. Editor de Franz Kafka, Heinrich Mann, Max Brod, Gustav Meyrink, Karl
Kraus e tantos outros, Wolff tenta elucidar a complexidade da profissão. O
primeiro capítulo “Livros e aventuras” procura responder ao leitor como ele,
Wolff, tornou-se editor, além de responder a questões sobre como os manuscritos
chegam à editora, os critérios empregados na escolha do que se publica ou
ainda, como se dá o encontro entre autor e editor. Ao elencar muitos dos
autores que publicou na fase inicial de sua editora, Wolff explica “a odiosa
pecha de editor do expressionismo” que lhe fora atribuída.
O
segundo capítulo, intitulado “‘Afanar’ ou como autores e editores se
distanciam” traz ao leitor um panorama sobre as relações entre ambos, editor e
autor, e também entre editor e editor, à vista dos deslocamentos dos autores de
uma editora a outra. Wolff trata do assunto com refinada diplomacia,
assegurando seu “desejo de manter a inviolabilidade da liberdade de decisão do
autor”, embora confesse que é sempre frustrante para um editor ter um de seus
autores “afanados” por outro editor, sobretudo se o autor “afanado” é, digamos,
rentável.
O
terceiro capítulo é dedicado à aventura de publicar. Destaca-se nesse capítulo
o périplo para publicar Avant et Après,
de Gauguin, à época (1913) um pintor ainda não tão cortejado pelos museus. Wolff
conta suas tratativas com os herdeiros e como, quarenta anos depois, teria
notícia do manuscrito em Nova York. Vale ressaltar ainda que nesse capítulo
Wolff confessa certo “arrependimento” por não ter publicado um dos livros de
James Joyce, antes que o escritor escrevesse Ulisses, fato que me fez lembrar de Gide, que se negara a publicar
Proust, quando editor da Nouvelle Revue Française (NRF).
Na
segunda parte do livro Wolff traz um capítulo dedicado aos autores Carl
Sternheim Franz Kafka e Karl Krauss. Não é preciso dizer que o ponto alto desse
capítulo é o aclamado Kafka. Wolff relata como fora apresentado a ele por Max
Brod, quando estes, em uma viagem de férias, passaram por Leipzig. Segundo
Wolff, Kafka mostrou-se “calado, acanhado, tênue, vulnerável, intimidado como
um colegial diante do examinador, convencido da impossibilidade de satisfazer
as expectativas oriundas dos elogios do empresário”, no caso, papel atribuído a
Max Brod, que o levara até Wolff. Este, ao despedir-se de Kafka naquela tarde
de junho de 1912, diz ter ouvido algo do escritor que jamais ouvira de outro
autor, nem antes, nem depois dele: “Agradeceria o senhor ainda mais pelo
retorno do manuscrito do que pela publicação.”
Os
anexos trazem alguns momentos particulares da vida de Kurt Wolff, as dificuldades
com a editora em razão da inflação galopante, os frequentes deslocamentos pela
França e Itália em razão da guerra, até sua imigração aos Estados Unidos, onde
se fixaria e fundaria a editora Pantheon Books que, a exemplo da editora Kurt
Wolff seria um empreendimento bem sucedido. Wolff desapareceria em 21 de
outubro de 1963, a caminho de um encontro com o Grupo 47 (grupo de autores e
críticos alemães empenhados em revitalizar a literatura alemã no pós-guerra),
mas, como os autores que publicou, está aí, vivo e presente, nos contando
histórias e histórias sobre livros, autores e editores.
Imagem:
capa do livro publicado pela Editora Âyiné.
Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/memoria-de-um-editor/
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