
Bem, as sobras do café – melhor assim, eram a reflexão silenciosa e contínua sobre o que falávamos, tão logo havermos nos dispersado. M. acha que éramos mais sinceros, menos hipócritas. A. acha que éramos mais cruéis. Lembramo-nos de situações: P., porque tinha sobrancelhas e cílios avantajados, era chamado de mosca, R., que tinha nariz adunco e aquilino, projetado à frente, era o ladrão de oxigênio, alguém mais lento era logo chamado de retardado; os hoje chamados de especiais, à época, eram os mongolóides. Não se usava eufemismos. Também não se falava de bullying. É certo que éramos mais cruéis, mas não se pode ignorar que éramos mais verdadeiros – e como diz o provérbio: a verdade dói.
Na literatura a intimidação e a violência física ou psicológica – muitas vezes oriunda de uma des-qualidade física rendeu muitas histórias. O romantismo foi pródigo nesse tipo de fabulação. Quem não se lembra do famoso conto de fadas francês La Belle et la Bête (A Bela e a Fera), em que a Fera, personagem assustadora, revela-se, aos poucos, de uma meiguice inimaginável e conquista o coração da Bela, essa, de uma enorme dulcidão?! E Frankenstein, de Mary Shelley? Monstro asqueroso, agredido pelas pessoas comuns, porém, capaz de se instruir e chegar às vias de um comportamento moral invejável?! E nosso simpático Quasimodo, a personagem impagável de Notre-Dame de Paris, criação do não menos inesquecível Victor Hugo? Corcunda e deformado, mostra-se uma alma caridosa e sensível, bem ao contrário das pessoas comuns que o desprezavam por sua feiúra e deformidade. O romantismo foi capaz disso: de fazer valer a ideia de que a beleza não se explica pela razão, é espontânea, natural, talvez resultado de características como o sentimentalismo e o Mal do Século que fazem parte de sua receita. Com o sentimentalismo, o autor explora sentimentos comuns à sociedade e a temática centra-se nos dramas de amor, na paixão, no ódio, na cólera, etc.. Com o Mal do Século – termo originado com a geração conhecida por Byroniana ou também por Ultrarromantismo, o romantismo abordou temas obscuros como a morte, amores impossíveis e a escuridão. No Brasil, o romantismo teve como marco fundador a publicação do livro Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836, e durou 45 anos terminando em 1881 com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, para ser sucedido pelo Realismo.
O porquê de tudo isso? Ora, leituras, leituras e a programação da Virada Cultural 2010, que anuncia uma Exposição sobre Aleijadinho, no Palácio da Justiça, na Praça da Sé.
Aleijadinho, na versão que conhecemos hoje e, diga-se, atualizada ainda outras tantas vezes, teria sido uma invenção de Rodrigo Ferreira Bretas. Segundo estudo de Leandro Narloch[1], em 1858, o jurista, deputado estadual e diretor de ensino de Ouro Preto, decidiu escrever a biografia de Antônio Francisco Lisboa, um dos inúmeros artesãos que construíram os adornos da igrejas de Ouro Preto, durante a corrida do ouro, período chamado de Barroco Mineiro, nas artes. Ainda segundo Narloch, o escultor havia morrido há aproximadamente cinco décadas e comentava-se que ele tinha uma ou as duas mãos paralisadas por uma doença. A boca miúda alardeia e reconta, e, mesmo sem qualque

Muito já se discutiu sobre a veracidade da história. Na década de 1990, o pesquisador Dalton Sala, chegou mesmo a questionar se o escultor tinha alguma doença ou mesmo se existiu. Vasculhou-se os arquivos de Minas Gerais e o máximo que se encontrou foram alguns recibos assinados por Antônio Francisco Lisboa, o que comprova a existência de um artífice com aquele nome, porém, sem qualquer menção sobre sua história.
Guiomar de Grammont, filósofa e escritora, produziu tese de doutorado, na USP, que resultou no livro Aleijadinho e o Aeroplano, em 2008. Nele, Grammont, alimenta a polêmica por outro viés: o de que as histórias contadas por Bretas e outros escritores são ecos de personagens literárias. Diz a autora: “Compreendemos ‘Aleijadinho’ como um personagem literário, sucessivamente reconstruído na história do pensamento em letras e artes no Brasil, de acordo com os interesses do momento em que se produzia cada discurso sobre o tema”[4]. “Além do clichê belo-horrível, Antônio Lisboa ganhou traços de artista romântico: o indivíduo isolado de seus semelhantes e de genialidade espontânea, acrescenta Narloch. Segundo Bretas, o escultor entocava-se na igrejas, separado do mundo por cortinas improvisadas, para não assustar os passantes com suas chagas. Grammont levanta as semelhanças biográficas do escultor com grandes mestres do Renascimento: Aleijadinho teria deixado cair pedaços de granito na cabeça de um general que vistoriava seu trabalho, assim como Michelangelo teria feito com o Papa Júlio II e assim como Rafael, vingou-se de seu desafeto usando o rosto dele como modelo para uma de suas obras. O êxito da narrativa de Bretas foi tamanho que passou à condição de documento histórico, além do que, sua personagem era tão fantástica para a época que rendeu ao seu criador a Ordem da Rosa, outorgado por D. Pedro II. Uma curiosa lenda local tornou-se ícone nacional, alimentada exaustivamente por guias turísticos, dando cor às cidades históricas mineiras e cristalizando-se principalmente após o “esforço avassalador de estudiosos modernistas, que enxergavam no escultor uma das raízes da cultura genuinamente brasileira, de médicos a dar detalhes de sua doença, de historiadores a falar de sua infância como assistente do pai, o arquiteto português Manuel Francisco Lisboa, de críticos a apontar intenções psicológicas que explicariam o seu trabalho, e de mora

O problema do culto a Aleijadinho é que o monstro que todos consideravam genial produziu obras grosseiras. A verdade incômoda é que muitas figuras tinham o nariz desproporcional , maçãs do rosto salientes demais, polegar na mesma direção de outros dedos e olhos exageramente amendoados, além do fato de que as igrejas que contaram com seu esforço parecerem cópias de seus símiles europeus. A crítica viu isso e não perdou, criticou. Porém, com os intelectuais modernistas, o trabalho de Aleijadinho foi reavaliado e o monstro-genial foi alçado a símbolo de brasilidade, depois da viagem a Minas que fizeram Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral em companhia do poeta francês Blaise Cendras.
A obra do escultor? Ah, essa há cinco décadas não passava de 160 peças, hoje, estão perto de 425, segundo catálogo de Márcio Jardim, de 2006. A filósofa Guiomar de Grammont é taxativa: “Tenho razão para desconfiar que existe um conluio entre colecionadores e críticos para valorizar obras anônimas”[5]. Afinal, tivesse você, leitor, uma estatuazinha estilo barroco mineiro, não ia querê-la também feita por Aleijadinho, essa personagem que fica a cada dia mais interessante e que pode, de uma hora para outra, fazer seu patrimônio valorizar muito além da Bolsa? Isso é assunto para muita prosa! Polêmicas à parte, não há nada mais agradável e estimulante que passear pelas cidades históricas mineiras e apreciar a arte de suas igrejas barrocas.
Imagens: Projeto de frontspício para a Igreja de São Francisco em São João del Rei, séc. XVII, atribuído a Aleijadinho; São Francisco de Assis (Ouro Preto) de Aleijadinho e Estudo para a fachada da Igreja São Francisco de Assis, de Ouro Preto, atribuído a Aleijadinho.
[1] NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do Brasil. Ilustrações de Gilmar Fraga. São Paulo: Leya, 2009, p. 181-197.
[2] FERREIRA BRETAS, Rodrigo. O Aleijadinho. Itatiaia, 2002.
[3] HUGO, Victor. O Corcunda de Notre-Dame. São Paulo: Larouse do Brasil, 2005, p. 7.
[4] GRAMMONT, Guiomar de. Aleijadinho e o Aeroplano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 86
[5] NARLOCH, Leandro. Op.cit., p. 195.
[1] NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do Brasil. Ilustrações de Gilmar Fraga. São Paulo: Leya, 2009, p. 181-197.
[2] FERREIRA BRETAS, Rodrigo. O Aleijadinho. Itatiaia, 2002.
[3] HUGO, Victor. O Corcunda de Notre-Dame. São Paulo: Larouse do Brasil, 2005, p. 7.
[4] GRAMMONT, Guiomar de. Aleijadinho e o Aeroplano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 86
[5] NARLOCH, Leandro. Op.cit., p. 195.
Nenhum comentário:
Postar um comentário