Revista Philomatica

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pequena prosa sobre o cu: o meu, o seu e o do Zé Celso


Pois é leitor, parece que a semana foi mesmo dedicada ao orifício! Ao menos, espero, a partir de agora há de se grafar o monossílabo sem o dito acento. Sim, porque embora o acento traga lá certo erotismo, cu, a palavra, não tem acento. Talvez, depois que divulgaram o vídeo de um rapaz que, do nada, grita a plenos pulmões na fila do Burger King “eu quero dar o cu” e de Zé Celso ter declamado Rimbaud para o, como é mesmo? Feriado? – ah, sim -, o Holiday, na Câmara Municipal de São Paulo, terminemos a semana menos hipócritas.
Afinal, quem na vida já não viu alguém com o cu falido? Quem já não trabalhou para esse maldito governo até o cu fazer bico? Quem, depois de uma escorregadela, não caiu de cu? Qual o cristão que assustado ao extremo e tomado pelo medo, por um segundo não sentiu o cu cair da bunda? E não me venham dizer que nunca se referiram a um glutão dizendo que ele encheu o cu disso ou daquilo. O pavor, quando nos bate à porta, deixa-nos com o cu na mão; o que fazer? A situação é tamanha que há almas que não têm no cu um periquito que roa, tal a miséria. Por outro lado, há aqueles que nasceram com o cu para lua, pois, dentre outras coisas, quase nunca moram lá no cu do Judas. Mas você pode estar se perguntando o que tem a ver o cu com as calças; ora, em geral, aqueles cujo cu miram a lua, pouco fazem, sempre tiram o cu da reta e cabe ao pobre miserável tirar o cu da seringa, isto quando não vê o cu ao pé das calças. No fundo, no fundo, Zé Celso é quem tem razão: “Vamos todos tomar no cu”, de um jeito ou de outro. E veja, leitor, abstive-me de usar o verbo “dar”; “tomar” fica por conta do Zé Celso.
O genial na conversa do Zé Celso com o vereador Feriado, foi o dramaturgo cantar os versos de Rimbaud. De quebra, além de matar com o pau aqueles que põem acento no cu, trouxe à imprensa fétida o sublime poeta francês. Zé Celso, a meu ver, só pecou porque não conseguiu conter a emoção e vergastou o vereador Feriado com a frase: “A sua visão do mundo é o fascismo, o nazismo, uma coisa inclusive racista”. Digo isso porque essa história de chamar de fascista, nazista e racista é igual a mandar alguém tomar no cu: as pessoas gostam, não é mais um xingamento. Talvez tenha sido há algum tempo, mas, hoje, tempos em que um enfia o dedo no cu do outro em público, vá lá, convenhamos, já virou história de carochinha. Aliás, ocorre-me agora a versão de Chapeuzinho Vermelho em que o lobo dá uma dedada no cu da vó!
Dito isto, caros leitores, fiquem com Rimbaud (só para não transcrever os deliciosos poemas de Pietro Aretino):

SONETO DO OLHO DO CU

Obscuro e franzido como um cravo roxo,
Humilde ele respira escondido na espuma,
Úmido ainda do amor que pelas curvas suaves
Dos glúteos brancos desce à orla de sua auréola.

Uns filamentos, como lágrimas de leite,
Choraram, ao vento inclemente que os expulsa,
Passando por calhaus de uma argila vermelha,
Para escorrer, por fim, ao longo das encostas.

Muita vez minha boca uniu-se a essa ventosa;
Sem poder ter o coito material, minha alma
Fez dele um lacrimário, um ninho de soluços.

Ele é tonta azeitona, a flauta carinhosa,
Tudo por onde desce a divina pralina,
Canãa feminino que eclode na umidade.

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Justificando o título: opinião, dizem, é como cu, cada uma tem a sua, portanto, do meu cu cuido eu, e você leitor, espero que faça o mesmo.



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