
A
pobre e maledicente turma do boquejo, penso, deve ser ignorada, até mesmo
porque não estou aqui para falar da Escola do Ressentimento. Os estudantes
islâmicos da UNEF, tênias no estômago francês, e os muçulmanos que comemoraram
o incêndio são provas da existência de um radicalismo doentio e de uma
intolerância perversa, por isso e só por isso, são-me indiferentes.
A
Catedral, cuja construção começou no ano de 1163, pelo bispo Maurice de Sully,
é inspiradora e frequentou as melhores páginas da literatura e da poesia
francesa. Rabelais, Peguy, Claudel, Nerval e Balzac são alguns dos que se
inspiraram na Notre-Dame.
Talvez
a obra que maior repercussão deu à Catedral foi Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo. Um dos protagonistas da trama, o corcunda Quasímodo, é uma das
personagens mais feias e populares da história da literatura; coxo, ensurdeceu
devido à atividade de sineiro dos sinos de Notre-Dame. Quasímodo também é a
chave para a justaposição do grotesco e do sublime em Notre-Dame de Paris, algo que Hugo faz de modo extraordinário.
Na
segunda-feira, Quasímodo chorou.
Cego
de um olho, aos quatro anos Quasímodo é abandonado pelos pais por causa de suas
deformidades físicas. Recolhido pelo padre Claude Frollo, a ele se dedica
inteiramente, passando a morar na catedral de Notre-Dame. Quasímodo, o nome,
recebera-o de Frollo em referência à festa homônima, celebração católica
realizada no primeiro domingo após a Páscoa, porque este fora o dia em que o
padre o encontrara. O pequeno abandonado tornar-se-ia um dia o responsável pelo
badalar dos sinos da Catedral.
Rejeitado
pela multidão, que não apreciava ver um corcunda, caolho e coxo circulando por
entre ela, Quasímodo pouco se aventurava pelos espaços exteriores, limitando-se
a uma autoclausura na Catedral. Aos 20 anos, apaixona-se pela cigana e dançarina
Esmeralda, que, por sua vez, encanta-se pelo oficial da guarda Phoebus.
Frollo
também apaixona-se pela cigana e, louco por ter sido desprezado por ela,
entrega-a à justiça. A caminho da forca, Quasímodo tentará salvá-la, levando-a
nos braços para a Notre-Dame, que, na condição de igreja, era lugar de asilo.
Após
a execução de Esmeralda, Quasímodo, que assiste a cena do alto das torres, joga
Frollo no vazio; depois, morre ao lado do corpo de Esmeralda, onde eram depositados
os restos dos torturados.
Assim
como Frollo, partes da catedral caíram no vazio. Assim como Esmeralda, a Catedral
foi consumida pela ignorância. Assim como Quasímodo, choramos a morte da arte e
da inspiração e morremos um pouco em meio à mediocridade.
Publicado originalmente em https://z1portal.com.br/quasimodo-chorou/
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