
Quer
saber? Foi ótimo ter vivido intensamente os anos 80. Pouco importa se foi a
“Década Perdida” para os economistas e burocratas, afinal, quem liga pra eles? O
fato é que olhando para trás vemos uma década inovadora, plena de tendências
culturais e modismos que hoje, convenhamos, seriam rejeitados pelo bom mocismo
das patrulhas que regulam o politicamente correto e até mesmo o que você gosta
porque acha que gosta e o que você não gosta, mas nem sabe porque não gosta.
A
moda New Age, quem não se lembra?
Alguém sabe o que é sair para o trabalho usando camiseta verde-limão, calça
laranja e tênis vermelhos? A cidade era um festival de cores. Na TV, as manhãs eram
animadas pela Rainha dos Baixinhos, Xuxa, em trajes minúsculos, quase nua - e não
aparecia sequer uma mãe tresloucada, escoltada pelo Conselho Tutelar, gritando aos
ventos e acusando a loira de atiçar a libido dos baixinhos. Aos sábados,
Chacrinha cantava Maria Sapatão, sapatão,
sapatão,/ De dia é Maria, à noite é João e Olha a cabeleira do Zézé/ Será que ele é/ Será que ele é..
Os
anos 80 trouxe o Asdrúbal trouxe o trombone, a Legião Urbana, Cazuza, o
Movimento das Diretas Já, Titãs, Paralamas do Sucesso, o primeiro Rock in Rio, o punk, o soul à
brasileira, a TV Pirata, Armação Ilimitada, Marina, Gal cantando Vaca Profana... Eita saudosismo!
E
hoje, o que sobrou? É certo que o respeito à diversidade é inalienável, mas
tudo tem ficado tão chato, mas tão chato que se você ousar afirmar em público
que não gosta de jiló é provável que a patrulha em defesa do jiló venha para
cima com tudo!
Não
deu outra, Lulu Santos aventurou-se a elogiar uma cantora e ao fazê-lo, disse:
“Você emagreceu, ficou mais bonita.” Pronto! Tornou-se alvo dos internautas
irados (todos certinhos). Lembrei-me dos anos 80 porque foi mais ou menos a essa
época que a expressão cunhada pouco antes pelo cineasta Cacá Diegues ganhou as
ruas. Foram tempos de patrulhamento inócuo, em que apareceram bizarrices como a
passeata contra as guitarras - essa, de 1967 -, que reuniu artistas ciosos em
zelar pela pureza da MPB. Hoje, mal podiam imaginar, a MPB jaz deitada
eternamente em berço esplêndido, isso se você leitor for magnânimo, caso
contrário, pode-se afirmar que ela nem existe mais, sufocada que foi pelo
pagode, o funk e todos esses ruídos que incomodam seus ouvidos e o seu sono.
Os
tempos são pendulares, mas, curiosamente, tratando-se do patrulhamento, vivemos situação semelhante aos anos 60 e 70,
quando toda arte que não fosse engajada era proscrita, gerando certa polaridade
em que o radicalismo emburrecedor inviabilizava o diálogo e dava azo às
patrulhas ideológicas; hoje, infelizmente, a arte parece ter sido espezinhada
dos dois lados e é a política que define que lado da luta escolher. No meio do
tiroteio, aí daquele que tentar criar um atalho entre os dois lados... Hoje,
até mesmo a amizade tem sido ferida pelo patrulhamento. Quem não conhece amigos
que deixaram de se falar pós eleições 2018?
No âmbito social, dá-se a mesma coisa com as investidas contra as
opiniões divergentes, algo nocivo que secciona as minorias, porque para muitos
que se arvoram defensores das minorias há minorias e minorias, e algumas
minorias são mais minorias que outras minorias.
Lembrei-me
agora do Festival de Cinema Pernambucano, em que cineastas retaliação às
apresentações de documentários considerados por eles como ligados a valores
tradicionais e à esquerda tucana dos anos 1990. À época, uma das signatárias do
texto emitido pelos cineastas, Cíntia
Domit Bittar, colocou em xeque a legitimidade da seleção, criticou a curadoria
e afirmou: “Não censuramos filme nenhum de estar no festival, nem incitamos
boicote. Apenas retiramos nossos filmes”. (Não mesmo?!) Em seguida à decisão, a
direção do festival decidiu suspender o evento. E como o patrulhamento - e a
censura – vira e mexe despertam a memória, lembrei-me de Cacá Diegues, que em
1978 teve seu filme Chuvas de Verão recebido com frieza pelos críticos –
o que já havia acontecido com Xica da
Silva, seu filme anterior. Após o banho de água fria, Diegues, em
entrevista à jornalista Póla Vartuck, publicada no jornal O Estado de São Paulo, denunciou as patrulhas
ideológicas, que seriam integradas por jornalistas ligados ao PCB e que não
teriam objetivo outro que detratar produtos culturais não alinhados ao
politicamente correto defendido por esses grupos formadores de opinião.
A polêmica que se seguiu à entrevista
de Diegues resultou em um livro, Patrulhas Ideológicas, de Carlos
Alberto M. Pereira e Heloisa Buarque de Hollanda, publicado pela Editora
Brasiliense. No livro, Diegues, em nova entrevista, define o modus operandi das patrulhas: “O que
existe é um sistema de pressão, abstrato, um sistema de cobrança. É uma
tentativa de codificar toda manifestação cultural brasileira. Tudo o que escapa
a esta codificação será necessariamente patrulhado.”
Patrulhados ou não, parece-me,
Chacrinha e Xuxa saíram ilesos. Já Lulu, ovacionado dia desses por assumir seu
amor, ontem, distraído, foi tomado pela sinceridade e deu no que deu.
Publicado originalmente em https://www.z1portal.com.br/patrulhamento-cultural-e-ideologico/
Nenhum comentário:
Postar um comentário