Revista Philomatica

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Beijo

Dizem que a história toda começou na Itália. Ninguém até agora identificou o lugar preciso, embora digam o nome do autor: Enrique Porchelo. O dia internacional do beijo foi criado em 1982 em razão de um feito inédito do tal italiano: conseguiu beijar todas as mulheres de sua pequena cidade. Muitos afirmam ter sido ele - ou ainda é?, um garanhão. De minha parte o considero não só corajoso, mas também alguém de espírito verdadeiramente altruísta, sublimador, enfim, um artista. Afinal, pense bem meu querido leitor, nosso homem deve ter beijado beldades, mas também deve ter passado lá seus maus bocados. Quanto malabarismo! Quantas cercas não deve ter pulado, de quantos maridos não deve ter corrido; quantas bocas, digamos, ainda não recuperadas por doses de botox, não deve ter experimentado? Afinal, um artista não pode ter qualquer preconceito!
Como em toda boa história, sua aventura encaminhou-se para um clímax e esse ocorreu em 13.4.1982, quando um padre francês, morador da mesma cidade, propôs pagar um prêmio em moedas de ouro para as únicas mulheres que ainda não haviam sido beijadas no vilarejo. Como não havia sequer uma que não tivesse sido beijada pelo tal Porchelo, o valor do prêmio foi guardado e todos os anos, nesta mesma data, são procuradas mulheres que ainda não tenham sido beijadas para receber o prêmio.
Contam também que até hoje mulher alguma recebeu o prêmio e que com a morte do padre, as tais moedas devem estar escondidas em algum lugar da pequena cidade. Portanto, caros leitores, beijados ou não, vamos todos à caça ao tesouro.
Impossível que essa história tenha algo de veracidade. Por isso, penso tratar-se de uma fábula, chinfrim, nada à la La Fontaine , mas ainda assim uma fábula. Observem os clichês: 1. lugar impreciso (a exemplo das histórias infantis: em um reino muito distante, aqui - numa cidade da Itália, não se sabe qual); 2. o nome do autor: Enrique Porchelo? Devem existir inúmeros, afinal Enrique, na Itália, deve ser como João ou José da Silva no Brasil, portanto, nome quase impessoal, generalizado; 3. o fato de todas as mulheres terem sido beijadas: lembram-se do Flautista de Hamelin que ora levou todos os ratos para fora da cidade com o som mavioso de sua flauta ora, furioso, fez o mesmo com as crianças? (pois é, essa coisa superlativa me cheira história de marqueteiro); 4. o padre e as moedas de ouro: quem, no mundo de hoje, ofereceria moedas de ouro? (aqui há um ranço de história medieval). Hoje, interessam-se por euros e doláres. Ouro em barras já é problema, trocá-lo por moeda corrente significa desfar-se de parte dele, repassar uma pequena parte ao cambista, seja ele banqueiro ou doleiro, o que não seria o caso, pois a história fala de moedas. Moedas: quais, se hoje já não se cunham mais moedas em ouro?; 5. o italiano coureur não deixava escapar mulheres casadas (aqui, um lance meio Casanova, só para afrontar a Igreja, no caso, representada pelo padre. Detalhe: o padre era francês, mais um enigma para os teóricos da literatura) e 6. as moedas que foram escondidas com a morte do padre: o velho chavão da caça ao tesouro que, ao mesmo tempo em que provoca a eterna ambição que vive dentro do leitor, demonstra sua inelutável limitação: afinal, beijar todos podem, mas achar o tesouro, ah! isso é outra história.

Mas deixando o vil metal de lado, como o beijo apareceu? Muitos especialistas argumentam que o autor do primeiro beijo não é identificado - pura idiotice, já que semelhante busca equivale a querer provar se quem apareceu primeiro foi o ovo ou a galinha. A razão pela qual o ato surgiu? Nem cientistas, antropólogos, historiadores ou filósofos têm justificativa única. Existem muitas teorias. Por que as pessoas se beijam? Em primeiro lugar, é uma tradição cultural. Quase no mundo inteiro as pessoas envolvidas em uma situação romântica sentem uma necessidade não explicada de se beijarem. Há um argumento de que representantes do sexo oposto estão programados para beijar e estão sempre esperando um momento oportuno. Mas me vem a questão: e o terceiro sexo, hoje tão expandido demograficamente, como fica? Não beija? Conclusão: argumento fajuto.

Muitos dizem que na sociedade moderna tudo leva ao beijo: concursos em shoppings premiam os beijoqueiros que mais tempo se mantêm "grudados" e as pessoas se sentem coagidas a beijar porque veem os atores se beijando em telas de TV, filmes e anúncios publicitários. Como resultado, em determinadas situações, o beijo é percebido como um ato essencial. É por isso que em qualquer situação romântica o estereótipo inconsciente entra em ação e as pessoas sentem um desejo quase irresistível de beijar, não importa se querem fazer isso ou não. Trata-se de algo incontrolável, um impulso meio freudiano. Afinal, um beijo é mais que apenas um beijo, ou seja, "é o uso sexual das membranas mucosas dos lábios e da boca", conforme dito por Freud. O fato é que pouca gente se dá conta disso quando beija. E olha que nem falo do beijo do vampiro, do beijo de Judas, do beijo da morte, os quais, presume-se não tenham as mucosas envolvidas.
Ao largo das definições, a arte nos comove pela estética. Assim, Rodin esculpiu Le Baiser, assim Robert Doisneau nos deixou Le Baiser de L'Hôtel de Ville.


Imagens: Le Baiser de l'Hôtel de Ville, 1950, de Robert Doisneau e Le Baiser, 1890, de Auguste Rodin.

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