Revista Philomatica

Mostrando postagens com marcador Franz Kafka. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Franz Kafka. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Uma carta de amor de Franz Kafka

Uma carta é o que deixo para você leitor, porque viajar é preciso; e quando se viaja o tempo é outro, não se deve manter a rotina de entregar o texto toda quarta ou quinta-feira. É preciso algum desprendimento, atrasar a ampulheta ao sabor das descobertas. Por isso, traduzi a carta que lerá abaixo, deixada por Franz Kafka a Milena Jesenská, que extraí do site “Des Lettres”.
Franz Kafka (1883-1924) um dia escreveu que “a facilidade em escrever cartas deve ter introduzido no mundo uma terrível bagunça de almas: é um comércio com fantasmas.” Este comércio manteve-se da forma mais intensa com Milena, que inicialmente foi sua tradutora, e depois, um dos grandes amores de sua vida. Eles só se viram em duas ocasiões, mas a correspondência entre eles constitui por si mesma uma estrutura de sofrimento e vazios, um monumento literário de uma paixão e força raras. Esta carta ilustra um amor alimentado pela falta e pela ausência, um irresistível jogo de fantasias.

Quinta-feira, 3 de junho de 1920.

Sim, Milena, esta manhã eu estava nu em meu sofá, metade no sol e metade na sombra, depois de uma noite quase em claro; como eu poderia dormir quando, desperto demais, ficava voando ao seu redor, realmente apavorado, exatamente como você mesma escreveu em sua carta esta manhã: “aquilo que havia caído sobre mim”; assustado no sentido da palavra quando se diz dos profetas que sendo (ainda? ou já? pouco importa), que sendo então frágeis crianças pequenas, esperando apenas por uma voz chamá-las, sentiam-se assustados, não queriam, e fincavam os pés ao chão e sentiam uma angústia rasgando seus cérebros, porque tendo ouvido vozes antes, eles não podiam entender de onde vinha o som que os aterrorizava - era esta a fraqueza de seus ouvidos? era esta a força da voz? - e não sabiam mais porque eram crianças, porque a voz os havia vencido e se instalado neles em virtude precisamente desse medo, dessa apreensão divinatória que tinham dela, que por outro lado não provava nada quanto à sua missão profética, porque muitos ouvem a voz, mas são eles verdadeiramente dignos dela? É muito duvidoso e é melhor dizer não de imediato para sentir segurança, tal era o meu estado de espírito no sofá quando suas duas cartas chegaram.
Há um traço de caráter, eu acho, Milena, que compartilhamos: somos medrosos, nós nos assustamos do nada; quase todas as nossas cartas são diferentes, mas quase todas elas temem aquela que as precede, e mais, aquela que as seguirá. Temerosa, contudo você não o é por natureza, vê-se isto facilmente; eu mesmo talvez não o seja mais da mesma maneira, mas isto tornou-se uma segunda natureza, uma vez que só desaparece no desespero, a rigor, na raiva, e, não esqueçamos, no medo.
Às vezes tenho a impressão de que vivemos em um mesmo quarto com duas portas, uma de frente para a outra; cada um tem a maçaneta da sua; apenas um cílio se move em um, o outro já está atrás da porta; o primeiro acrescenta uma palavra, o outro já fechou a porta definitivamente, e não o vê mais. Ele será aberto, porque trata-se de um quarto que não se pode abandonar. Se o primeiro não era como o outro, ele manterá sua calma, aparentemente acharia melhor não olhar o que fez o segundo e faria, pouco a pouco, reinar a ordem no quarto como se fosse uma sala semelhante a todos as outras; ao contrário, da sua porta ele trabalha como outro, acontece mesmo que cada um esteja atrás de sua porta e que o belo quarto esteja vazio.
Disso nascem mal-entendidos cruéis. Você reclama, muitas vezes, Milena, que se pode escrever e reescrever uma das minhas cartas sem que dela jamais saia coisa alguma; ora, é justamente isso, salvo algum erro, é uma dessas cartas em que mais estive perto de você, tão senhor do meu do meu sangue e do seu, tão embrenhado na floresta, tão descontraído, que realmente não ouvia do outro nada além do que eu disse: que se via o céu, por exemplo, por entre as árvores; isto é tudo, uma hora depois repete-se a mesma coisa, e não há nada nisso, é claro, nem uma única palavra é cuidadosamente pensada. Mas isto não dura, é apenas um momento, e imediatamente as trombetas da insônia recomeçam a soar.
Considere ainda, Milena, o estado em que venho até você, considere os trinta e oito anos de viagem que tenho a oferecer (e até muito mais, porque eu sou um judeu); quando eu a encontro numa volta aparentemente fortuita da estrada, você, que eu realmente não esperava ver, especialmente agora, especialmente tão tarde, não posso gritar, fazer qualquer coisa, nada mais grita em mim; não estou dizendo loucuras (também não estou falando sobre o que tenho em excesso), e só sei que estou de joelhos vendo seus pés perto dos meus olhos, acariciando-os.
Não me peça para ser sincero, Milena. Ninguém pode exigir mais sinceridade de mim do que eu mesmo, mas muitas coisas estão além de mim, talvez por isso elas me escapem. Incentivar-me a procurá-las não é me encorajar, ao contrário, não posso fazer nada menos que isso, de repente, tudo se torna uma mentira, e é a caça que está a estrangular o caçador. Estou em um caminho muito perigoso, Milena. Você, você está firmemente plantada ao pé de uma árvore, jovem, bonita, e o brilho de seus olhos elimina o sofrimento do mundo. Nós jogamos “muda, muda, pequena árvore”, eu escorreguei na sombra, de uma árvore para outra, estou no meio do caminho, você me chama, você me avisa dos perigos, você quer me dar coragem, meus passos incertos a assustam, você me lembra (a mim!) da gravidade do jogo, eu não posso mais, eu caio, eu estou por terra. Não posso mais ouvir ao mesmo tempo a sua voz e as vozes terríveis do mundo interior, mas posso escutá-las e confiar em você como em qualquer outra pessoa neste mundo.


Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

terça-feira, 23 de março de 2010

O inseto voador

"Certa manhã, ao despertar de um um sonho inquieto, Gregor Samsa descobriu-se em sua cama transformado em um insuportável inseto. Deitado de costas, duras como um casco, ele viu, ao erguer um pouco a cabeça, sua barriga arredondada, pardacenta, repartida por pregas arqueadas, do alto da qual a coberta, já quase toda caída, escorregava. Diante de seus olhos moviam-se desesperadas suas várias pernas, ridiculamente finas em comparação com suas proporções de antes". Isso foi há quinze dias, ou melhor, para Gregor Samsa, foi depois de um longa noite de sono, para mim, há quinze dias que, sem querer, lembrei-me de A Metamorfose, de Franz Kafka. Não sei se exatamente por causa do inseto, que muitos dizem ser uma barata, dada a descrição do autor, mas acho que em razão da conjunção com a chuva. Explico-me: ao ir até a cozinha, ouvi a chuva que caía batendo nos vidros da janela, que ficam rente à pia, onde está o filtro d'água. Por razões que só a sinapse explica, lembrei-me do trecho em que o caixeiro viajante, amanhecido e preso no corpo de um inseto contempla a chuva: "O olhar de Gregor voltou-se então para a janela, e o tempo fechado - ouviam-se gotas de chuva batendo no peitoril de metal - deixou-o bastante melancólico". Antes que você, leitor, se perca por entre essas linhas, adianto: continuo firme sobre duas pernas, ereto qual homo sapiens moderno. A conjunção a que me referi anteriormente, completou-se com a presença de uma barata em minha cozinha. Vi-a entrar voando na noite quente e chuvosa, talvez à procura de abrigo. Embora chovesse, confesso, melancolia não senti; de fato, fui tomado pelo asco. Começou a perseguição: de chinela em punho, optei por agir lentamente, à espreita, certo de que teria à frente uma presa fácil. Engano o meu, o pequeno inseto deve ter lá seus censores. A menor aproximação e disparava pelos cantos procurando tornar-se invisível, embora os azulejos sejam brancos e ela, a barata, marron avermelhada, ou pardacenta, tal qual Gregor. Resistente em seu intuito de fazer-se imperceptível, fez-se perversa. Aproximou-se de meu filtro São João - aqueles que têm um pequeno pedestral, oco, à maneira daqueles santos usados como cofre-forte em tempos idos, nas pequenas cidades do interior. Afastei o filtro, segurei a chinela mais forte e, num só golpe, acreditei tê-la esmagado. Que nada! Seus censores pressentiram o golpe mortal, o que a fez entrar pelo oco do filtro, através da fenda que a superfície da pia proporciona.
Sonolento, desisti do inseto, tranquilo por tê-lo deixado preso. Ao encaminhar para a cama, pensei que ao menos não experimentara da sensação que tomou Brás Cubas ao lançar a toalha e desferir o golpe mortal na borboleta preta como a noite que lhe pousara na testa. Anteontem é que fui descobrir a resistência da barata. Ao mover o filtro, ela disparou em velocidade inacreditável, como se em todos esses dias de cárcere estivesse acumulando energia para a fuga final. Precavido, dei o golpe certeiro e confesso, não me aborreci feito o defunto autor, nem sequer entrei em estado de reflexão procurando razões que me desculpassem por tão certeiro golpe. Nem é preciso dizer: sonhei com barata.
No dia seguinte decidi saber mais sobre o inseto, afinal, pensei, por que razão teria Kafka escolhido inseto semelhante - se é que era realmente uma barata? Eis o que descobri:
1) Há um site que tem o nome do inseto - A Barata. As razões para isso? Bem, seu autor também menciona Kafka e afirma ser A Metamorfose uma parábola social e que, de fato, as pessoas pouco se importam com o estado do caixeiro viajante, mas sim com o impacto que seu estado causará àqueles que o rodeiam; outra razão: baratas gostam de papel, igual a escritores, donos de sebo etc (e eu que sempre adorei os gatos porque resfestelam-se sobre os livros); diz ainda nosso amigo: a barata é um ser underground, que todo poeta com ela se identifica (será?; queria poder perguntar isso ao Drummond, ao Beaudelaire -rsrsrs); e mais: barata em inglês é roach, gíria também para "bagana" - toco de cigarro de maconha - Ah! aí entendi tudo! (rsrsrs).
2) As baratas sobreviveram aos dinossauros, ou seja, foram concidadãos;
3) Conseguem sobreviver - algumas espécies, por até dois meses sem comida e, sem cabeça, por nove dias;
4) Em situações extremas, se reproduzem sem o macho;
5) Algumas chegam atingir até 10 cm;
6) Gastam 75% de seu tempo descansando (Eh, vida boa!);
7) Aqueles negocinhos do tamanho de um feijão, na verdade é um ovo e se chama ooteca;
8) Alguns machos, durante o acasalamento, estridulam emitindo sons que chegam a 60dB;
9) Nos Estados Unidos, gastam-se US$ 1,5 bilhões por ano para tentar exterminar o inseto;
10) Na alimentação humana, para muitos povos orientais as baratas fazem parte de sua dieta, sendo comidas cruas ou cozidas. No Brasil, os índios Chocleng, de Santa Catarina, apreciavam as baratas. (Eca, eca, eca, mil vezes eca!!!)
Embora repugnantes - claro, acabei por respeitá-las, porém, elas lá, em qualquer lugar, longe, bem longe da minha cozinha. E fim da prosa: reli bom trecho de A Metamorfose, de 1915, publicado originalmente na revista expressionista Weifbe Blätter, que abrigava textos da nova geração de escritores alemães como Heinrich Mann, Ernest Bloch e Rosa de Luxemburgo. A novela narra a singular história de Gregor Samsa, um caixeiro viajante que certo dia acorda transformado em inseto. Plena de significados simbólicos, a obra deu origems às mais diversas interpretações. Wladimir Nabokov, professor e escritor russo, afirma que a obra não é redutível a drama familiares do autor mas, sim, traz a expressão da tensão do artista em meio à sociedade burguesa de sua época.