Revista Philomatica

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Best Sellers

Semana passada dei um giro pela Paulista e estive nas livrarias Martins Fontes e FNAC. Nessa última havia uma prateleira ...(Nossa que antigo! Mas saiu e vá lá, fica. Você leitor, se preferir, troque por estante ou gondôla, já que lá vende-se de tudo, inclusive livros). Pois é. Lá havia uma prateleira com os livros Top. Top 1, Top 2, Top 3 e assim por diante. Me explico: por Top, leia-se os mais vendidos, os best sellers. E adivinhem. Qual era o mais vendido? Nada mais nada menos que O Símbolo Perdido de Dan Brown. Dan Brown, claro, todos conhecem. Se não se lembram do autor, com certeza ja ouviram falar sobre um livrinho - O Código da Vinci - que vendeu espetaculares 80 milhões de exemplares all around the world. Verdadeiro best seller, impossível negar.
Ao ver tamanha façanha do autor americano (Ele já emplacara recentemente Anjos e Demônios entre os mais vendidos.) lembrei-me de recente palestra proferida pelo escritor e correspondente do jornal O Estado de São Paulo, Gilles Lapouge, como parte das comemorações do ano da França no Brasil. A palestra de Lapouge intitulava-se A Literatura Francesa hoje. O escritor citou grandes nomes da Literatura Francesa e lá pelas tantas, em resposta a uma insistente ouvinte que perguntara o porquê de ele não comentar Amélie Nothomb, comentou sobre os autores que vendem muito. Segundo ele, a máxima adotada pela crítica francesa é a de que se vende muito é porque não é bom. Para sustentar essa ideia, lembrou autores de sucesso à época em que publicaram e que hoje cairam no esquecimento. Detalhe: venderam muito. Por outro lado, citou monstros sagrados da literatura que venderam pouco ou quase nada e resistiram ao tempo.
Eu, de minha parte, na hora visualizei o prefácio de Memória póstumas de Brás Cubas (1881), no qual Machado relembra Stendhal. Aí vai: "Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco." E nem é preciso comentar a eternidade de Stendhal e Machado! Vale ainda lembrar que à época em que Machado publicou Memórias póstumas, o grande sucesso editorial fora O Mulato de Aluísio de Azevedo.
Muitos declaram isso ser puro preconceito da crítica. Haja vista a indiferença sempre reservada ao nosso popular Jorge Amado, mas isso é conversa para outra hora. Por agora, me perguntei: alguém lera O Código da Vinci em 2110? Quem viver, verá!!!
Em tempo: Gilles Lapouge listou alguns bons autores franceses modernos que valem a pena. Entre eles: Roland Barthes com Le dégré zéro de l'écriture, Mythologies, Roland Barthes par lui même, Fragments d'un amoureux e La chambre noire; Pierre Michon com Vies minuscules, Rimbaud le fils, Corps du roi, Les Abbés, Les onze e La Grande Beume; Nicolas Bouvier com L'usage du monde, além de Marcel Proust, François Mauriac, Philippe Sollers, Jean Giono, Marguerite Duras, Pascal Quignard, Bernard Henry Lévy, Régis Debray e outros. É só conferir!

domingo, 10 de janeiro de 2010

As Noites de Cabinda


A notícia de que a Seleção de Futebol do Togo havia sido metralhada em Cabinda, ao cruzar a fronteira do Congo, foi largamente divulgada pela imprensa. Afinal, colocou-se em discussão não só a segurança dos atletas que participariam da Copa Africana de Nações, em Angola, como também, segundo articulistas, as implicações - negativas, evidentemente, que um evento tão deplorável pode trazer à Copa do Mundo, que se realizará daqui há alguns meses no Continente Africano.

Eu, de minha parte, fiquei matutando com a sonoridade do nome. Cabinda, Cabinda. Já ouvira esse nome antes. Mas, quando, onde? De alguma forma o nome me trazia certa nostalgia, um não sei quê de aventura, de distante, que ressoava, enfim, a impressão de que o nome escondia algo interessante e que era preciso que eu o desvendasse. Hoje, num lampejo, lembrei-me. De fato, não tratava-se de Cabinda, mas Cabíria. As Noites de Cabíria (Le Notti de Cabiria) de Federico Fellini, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano de 1957 e também prêmio de Melhor Atriz para Giulietta Masina, em Cannes. Em As noites de Cabíria, Cabíria, personagem de Giuletta, é uma prostituta ingênua, eletrizante e baixinha, que vaga pelas ruas de Roma à procura de seu verdadeiro amor. Uma decepção atrás de outra, tenta de tudo, até a ajuda divina. Resultado: acaba por encontrar seu pretendente dos sonhos em local e hora mais inapropriados. Para saber se o pretendente será assim tão perfeito é só ver o filme, que vale a pena!

Vejam: não disse que havia algo escondido por trás de tal sonoridade!? Certamente os jogadores do Togo não viram relação alguma entre as Noites de Cabinda e as Noites de Cabíria. Mas ainda assim, a sonoridade as aproximam, assim como se aproximam os dois eventos, a Copa Africana de Nações e a Copa do Mundo. Entre elas um assunto espinhoso: a segurança almejada por todos em tempos tão aterrorizantes e tão terroristas. Nós aqui, do outro lado do oceano, pensamos nos eventos planetários que vamos patrocinar: primeiro, as Olimpíadas, depois, daqui algum tempo, a próxima Copa do Mundo. Tudo está ligado. Na hora em que o mundo questiona a segurança possível na África para a próxima Copa do Mundo, na África do Sul, nos perguntamos, qual a segurança possível no Rio de Janeiro das próximas Olimpíadas? Após ler o noticiário de hoje, que estampa a eterna guerra do tráfico entre os morros cariocas com o sempre garantido saldo de inocentes mortos ao final, o que nos espera? O que nos resta, parece, é apelar pela ajuda divina - como Cabíria, e torcer para que a sonoridade fique nas palavras e não seja aquela tão comum das balas perdidas, que diariamente amendronta os cariocas.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A Juventude de Machado de Assis

Ao longo de 2008 comemorou-se o centenário da morte de Machado de Assis, sem dúvida, nosso maior expoente literário do século XIX, porém, ainda há muito da biografia do escritor que permanece em zona obscura, envolta por especulações da crítica, a grande maioria, diga-se de passagem, sem quaisquer lastros que as sustentem.
Daí a importância do relançamento do livro A Juventude de Machado de Assis (1839-1870) de Jean-Michel Massa. O autor, vale lembrar, é um francês aficionado por Machado. Começou seus estudos machadianos em 1948; de sua tese de doutorado para a Université de Poitiers surgiu La jeunesse de Machado de Assis (1839-1870), publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1971. Depois, escreveu ainda Machado de Assis tradutor, Dispersos de Machado de Assis e A biblioteca de Machado de Assis.
Com o reaparecimento do livro o leitor terá a oportunidade de desfazer muito do folclore criado em torno da figura de Machado, o qual sempre fora considerado uma espécie de milagre pela crítica tupiniquim. Massa vai de encontro a equívocos e lendas que foram se perpetuando e hoje aparecem colados à imagem do escritor. Não se sabe, por exemplo, como ele aprendeu o francês, idioma cultural dominante no Brasil do século XIX. Diz-se, por exemplo, que ele aprendera o idioma de Voltaire com uma senhora francesa, dona de uma padaria chamada Gallot. Após anos de pesquisas em subterrâneos de bibliotecas à procura de manuscritos, o professor é categórico: "Esta padaria nunca existiu! É só dar uma olhada no anuário Laemmert, que sinaliza todos os estabelecimentos do Rio de Janeiro à época." Para ele a crítica desconsidera que Machado fora educado pelos proprietários da fazenda do Livramento, no Rio, onde era uma espécie de neto adotivo. O professor acrescenta: "Como naquela época as pessoas cultas falavam quase só francês – em todas as cortes alías só se falava francês-, Machado teria aprendido seu francês aí." E finaliza: "Alguém que aprendeu francês na padaria dificilmente traduziria Oliver Twist de Charles Dickens ainda tão jovem." (A tradução foi feita a partir de uma versão francesa.)
Jean-Michel Massa destrói ainda a imagem tão disseminada do jovem Machado pobre e doente de epilepsia: "Como um jovem que ia praticamente todos os dias ao teatro, recitava poemas em público, namorava todas as atrizes e tinha vida de farras podia ser epilético e gago?", questiona o professor.
A Juventude de Machado de Assis- 1839-1870 que reapaecu semstre passado, atualizado e revisado, não só revela o perfil de um jovem de origem pobre que desejava subir na escala social – e, sobretudo, desejava reconhecimento intelectual, como também o périplo de Machado para se afirmar como escritor, além de sua passagem pelos periódicos, a poesia, a crítica teatral, a crônica, etc., antes da descoberta da prosa de ficção como o veículo ideal de sua expressão.

Nota: As falas de Jean-Michel Massa aqui transcritas proferidas quando de sua Palestra sobre Machado de Assis, na Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas (FFLCH) no segundo semestre de 2008.


A Juventude de Machado de Assis - Jean-Michel Massa
Trad.: Marco Aurélio de Moura Matos. Civilização Brasileira, 1971 [esgotado]




A juventude de Machado de Assis (1839-1870) - ensaio de biografia intelectual
Autor: Jean-Michel Massa
Número de páginas: 582 - Formato: 16 x 23 cm - Preço: R$ 70,00 ISBN: 978-85-7139-917-4
Os livros da Fundação Editora da Unesp podem ser adquiridos pelo site: http://www.editoraunesp.com.br/ ou telefone (11) 3242-7171.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Textos 'scriptibles' e textos 'lisibles'!



Roland Barthes, grande crítico francês, em seu S/Z, de 1970, cunhou o termo scriptible ao responder à pergunta sobre como fundar uma tipologia de textos. Como determinar, ou melhor, como avaliar um texto? Segundo Barthes, a "évaluation fondatrice" não pode vir da ciência, pois esta não avalia, nem sequer da ideologia, pois quaisquer que sejam os valores ideológicos de um texto - moral, politíco, estético, são valores representativos e não de produção. A ideologia reflete e não trabalha, afirma o crítico. O valor de um texto estaria então ligado a uma prática, a prática da escritura. Dai o scriptible figurar como um conceito de valor, uma vez que no jogo literário, ou seja, na literatura como trabalho, o leitor ganha status não mais de consumidor, mas de produtor do texto. É meio um trabalho intertextual onde a partir das ideias lançadas pelo autor, o leitor aumentará seu universo literário ou, a partir delas, fará ligações com obras já lidas. O fato é que o leitor não mais ficará mergulhado em certa ociosidade e ou intransitividade frente ao texto, mas a partir dele fará outras intelecções. E o que seria então o texto lisible? Ora, nada mais que o contraponto ao scriptible, o contravalor em geral de caráter reativo e negativo. O texto que não permite uma segunda interpretação, que teima em se fazer unívoco, isento de polissemia e de pluralidade.
O texto abaixo já há muito roda pela rede em sites e blogs, portanto, tomo a oportunidade de transcrevê-lo uma vez mais; primeiro por acreditar já tratar-se de domínio público; segundo, porque acho que a intenção do autor era mesmo de que sua correspondência fosse interceptada por milhões de outros destinatários antes daquele a quem fora concebida na origem. Os seguidores do "cara" sentem arrepios, assim com o a maioria da pseudoesquerda, tornando-o um texto scriptible, pois muitos serão os argumentos para desqualificar o conteúdo. Desse processo, nascerá o intertextual, uma rede de proteção à procura de outras ideias que possam destruir aquelas de Garbi. Os opositores do "cara" também farão o mesmo percurso, só que em sentido contrário, óbvio. E aí, lembrarão do mais recente decreto idealizado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, de 31.12.2009, e assinado pelo presidente sem sequer tê-lo lido (ao menos foi o que foi dito e publicado na imprensa).

Eis o carta de Gilberto Geraldo Garbi ao presidente:

Em tempo: Gilberto Geraldo Garbi foi um dos alunos classificados a seu tempo como um dos melhores alunos de matemática que já haviam adentrado ao ITA, entre outras honrarias que recebeu daquela instituição. Depois de graduado, desenvolveu carreira na TELEPAR, onde chegou a Diretor Técnico e Diretor Presidente, sendo depois Presidente da TELEBRAS.

A CAMINHO DOS 99,9999995%

Há poucos dias, a imprensa anunciou amplamente que, segundo as últimas pesquisas de opinião, Lula bateu de novo seus recordes anteriores de popularidade e chegou a 84% de avaliação positiva. É, realmente, algo "nunca antes visto nesse país" e eu fiquei me perguntando o que poderemos esperar das próximas consultas populares. Lembro-me de que quando Lula chegou aos 70% achei que ele jamais bateria Hitler, a quem, em seu auge, a cultíssima Alemanha chegara a conceder 82% de aprovação. Mas eu estava enganado: nosso operário-presidente já deixou para trás o psicopata de bigodinho e hoje só deve estar perdendo para Fidel Castro e para aquele tiranete caricato da Coreia do Norte, cujo nome jamais me interessei em guardar. Mas Lula tem uma vantagem sobre os dois ditadores: aqui as pesquisas refletem verdadeiramente o que o povo pensa, enquanto em Cuba e na Coreia do Norte as pesquisas de opinião lembram o que se dizia dos plebiscitos portugueses durante a ditadura lusitana: SIM, Salazar fica; NÃO, Salazar não sai; brancos e nulos sendo contados a favor do governo... (Quem nunca ouviu falar em Salazar, por favor, pergunte a um parente com mais de 60). Portanto, a popularidade de Lula ainda "tem espaço" para crescer, para empregar essa expressão surrada e pedante, mas adorada pelos economistas. E faltam apenas cerca de 16% para que Lula possa, com suas habituais presunção e imodéstia, anunciar ao mundo que obteve a unanimidade dos brasileiros em torno de seu nome, superando até Jesus Cristo ou outras celebridades menores que jamais conseguiram livrar-se de alguma oposição... Sim, faltam apenas 16% mas eu tenho uma péssima notícia a dar a seu hipertrofiado ego: pode tirar o cavalinho da chuva, cumpanhero, porque de 99,9999995% você não passa. Como você não é muito chegado em Aritmética, exceto nos cálculos rudimentares dos percentuais sobre os orçamentos dos ministérios que você entrega aos partidos que constituem sua base de sustentação no Congresso, explico melhor: o Brasil tem 200.000.000 de habitantes, um dos quais sou eu. Represento, portanto, 1 em 200.000.000, ou seja, 0,0000005% enquanto os demais brasileiros totalizam os restantes 99,9999995%. Esses, talvez, você possa conquistar, em todo ou em parte. Mas meus humildes 0,0000005% você jamais terá porque não há força neste ou em outros mundos, nem todo o dinheiro com que você tem comprado votos e apoios nos aterros sanitários da política brasileira, não há, repito, força capaz de mudar minha convicção de que você foi o pior dentre todos os presidentes que tive a infelicidade de ver comandando o Brasil em meus 65 anos de vida. E minha convicção fundamenta-se em um fato simples: desde minha adolescência, quando comecei a me dar conta das desgraças brasileiras e a identificar suas causas, convenci-me de que na raiz de tudo está a mentalidade dominante no Brasil, essa mentalidade dos que valorizam a esperteza e o sucesso a qualquer custo; dos que detestam o trabalho e o estudo; dos que buscam o acesso ao patrimônio público para proveito pessoal; dos que almejam os cabides de emprego, as sinecuras e os cargos fantasmas; dos que criam infindáveis dinastias nepotistas nos órgãos públicos; dos que desprezam a justiça desde que a injustiça lhes seja vantajosa; dos que só reclamam dos privilégios por não estar incluídos entre os privilegiados; dos que enriquecem através dos negócios sujos com o Estado; dos que vendem seus votos por uma camiseta, um sanduíche ou, como agora, uma bolsa família; dos que são de tal forma ignorantes e alienados que se deixam iludir pelas prostitutas da política e beijam-lhes as mãos por receber de volta algumas migalhas do muito que lhes vem sendo roubado desde as origens dos tempos; dos que são incapazes de discernir, comover-se e indignar-se diante de infâmias. Antes e depois de mim, muitos outros brasileiros, incomparavelmente melhores e mais lúcidos, chegaram à mesma conclusão e, embora sejamos minoria, sinto-me feliz e honrado por estar ao lado de Rui Barbosa. Já ouviu falar nele? Como você nunca lê, eu quase iria sugerir-lhe que pedisse a algum de seus incontáveis assessores que lhe falasse alguma coisa sobre a Oração aos Moços... Mas, esqueça... Se você souber o que ele, em 1922, disse de políticos como você e dos que fazem parte de sua base de sustentação, terá azia até o final da vida. Pense a maioria o que quiser, diga a maioria o que disser, não mudarei minha convicção de que este País só deixará de ser o que é - uma terra onde as riquezas produzidas pelo suor da parte honesta e trabalhadora é saqueada pelos parasitas do Estado e pelos ladrões privados eternamente impunes - quando a mentalidade da população e de seus representantes for profundamente mudada. Mudada pela educação, pela perseverança, pela punição aos maus, pela recompensa aos bons, pelo exemplo dos governantes. E você Lula, teve uma oportunidade única de dar início à mudança dessa mentalidade, embalado que estava com uma vitória popular que poderia fazer com que o Congresso se curvasse diante de sua autoridade moral, se você a tivesse. Você teve a oportunidade de tornar-se nossa tão esperada âncora moral, esta sim, nunca antes vista nesse País. Mas não, você preferiu o caminho mais fácil e batido das práticas populistas e coronelistas de sempre, da compra de tudo e de todos. Infelizmente para o Brasil, mas felizmente para os objetivos pessoais seus e de seu grupo, você estava certo: para que se esforçar, escorado apenas em princípios de decência, se muito mais rápido e eficiente é comprar o que for necessário, nessa terra onde quase tudo está à venda? Eu não o considero inteligente, no nobre sentido da palavra, porque uma pessoa verdadeiramente inteligente, depois de chegar aonde você chegou, partindo de onde você partiu, não chafurdaria nesse lamaçal em que você e sua malta alegremente surfam, nem se entregaria a seu permanente êxtase de vaidade e autoidolatria. Mas reconheço em você uma esperteza excepcional: nunca antes nesse País um presidente explorou tão bem, em proveito próprio e de seu bando, as piores qualidades da massa brasileira e de seus representantes. Esse é seu legado maior, e de longa duração: o de haver escancarado a lúgubre realidade de que o Brasil continua o mesmo que Darwin encontrou quando passou por essas plagas em 1832 e anotou em seu diário: "Aqui todos são subornáveis". Você destruiu as ilusões de quem achava que havíamos evoluído em nossa mentalidade e matou as esperanças dos que ainda acreditavam poder ver um Brasil decente antes de morrer. Você não inventou a corrupção brasileira, mas fez dela um maquiavélico instrumento de poder, tornando-ageneralizada e fazendo-a permear até os últimos níveis da Administração. O Brasil, sob você, vive um quadro que em medicina se chamaria de septicemia corruptiva. Peça ao Marco Aurélio para lhe explicar o que é isso. Você é o sonho de consumo da banda podre desse País, o exemplo que os funcionários corruptos do Brasil sempre esperaram para poder dar, sem temores, plena vazão a seus instintos. Você faz da mentira e da demagogia seu principal veículo de comunicação com a massa. A propósito, o que é que você sente, todos os dias, ao olhar-se no espelho e lembrar-se do que diz nos palanques? Você sente orgulho em subestimar a inteligência da maioria e ver que vale a pena? Você mentiu quando disse haver recebido como herança maldita a política econômica de seu antecessor, a mesma política que você manteve integralmente e que fez a economia brasileira prosperar. Você mentiu ao dizer que não sabia do Mensalão. Mentiu quando disse que seu filho enriqueceu através do trabalho. Mentiu sobre os milhões que a Ong 13, de sua filha, recebeu sem prestar contas. Mentiu ao afastar Dirceu, Palocci, Gushiken e outros cumpanheros pegos em flagrante. Mente quando, para cada platéia, fala coisas diferentes, escolhidas sob medida para agradá-las. Mentiu, mente e mentirá em qualquer situação que lhe convenha. Por falar em Ongs, você comprou a esquerda festiva, aquela que odeia o trabalho e vive do trabalho de outros, dando-lhe bilhões de reais através de Ongs que nada fazem, a não ser refestelar-se em dinheiro público, viajar, acampar, discursar contra os exploradores do povo e desperdiçar os recursos que tanta falta fazem aos hospitais. Você não moveu uma palha, em seis anos de presidência, para modificar as leis odiosas que protegem criminosos de todos os tipos neste País sedento de Justiça e encharcado pelas lágrimas dos familiares de tantas vítimas. Jamais sua base no Congresso preocupou-se em fechar ao menos as mais gritantes brechas legais pelas quais os criminosos endinheirados conseguem sempre permanecer impunes, rindo-se de todos nós. Ao contrário, o Supremo, onde você tem grande influência, por haver indicado um bom número de Ministros, acaba de julgar que mesmo os condenados em segunda instância podem permanecer em liberdade, até que todas as apelações, recursos e embargos sejam julgados, o que, no Brasil, leva décadas. Isso significa, em poucas palavras, que os criminosos com dinheiro suficiente para pagar os famosos e caros criminalistas brasileiros podem dormir sossegados, porque jamais irão para a cadeia. Estivesse o Supremo julgando algo que interessasse a seu grupo ou a suas inclinações ideológicas, certamente você teria se empenhado de corpo e alma. Aliás, Lula, você nunca teve ideais, apenas ambições. Você jamais foi inspirado por qualquer anseio de Justiça. Todas as suas ações, ao longo da vida, foram motivadas por rancores, invejas, sede pessoal de poder e irrefreável necessidade de ser adorado e ter seu ego adulado. Seu desprezo por aquilo que as pessoas honradas consideram Justiça manifesta-se o tempo todo: quando você celeremente despachou para Cuba alguns pobres desertores que aqui buscavam a liberdade; quando você deu asilo a assassinos terroristas da esquerda radical; quando você se aliou à escória do Congresso, aquela mesma contra quem você vociferava no passado; quando concedeu aumentos nababescos a categorias de funcionários públicos já regiamente pagos, às custas dos impostos arrancados do couro de quem trabalha arduamente e ganha pouco; quando você aumentou abusivamente as despesas de custeio, sabendo que pouquíssimo da arrecadação sobraria para os investimentos de que tanto carece a população; quando você despreza o mérito e privilegia o compadrio e o populismo; e vai por aí.... Justiça, ora a Justiça, é o que você pensa... Você tem dividido a nação, jogando regiões contra regiões, classes contra classes e raças contra raças, para tirar proveito das desavenças que fomenta. Aliás, se você estivesse realmente interessado, como deveria, em dar aos pobres, negros e outros excluídos as mesmas oportunidades que têm os filhos dos ricos, teria se empenhado a fundo na melhoria da saúde e do ensino públicos. Mas você, no íntimo, despreza o ensino, a educação e a cultura, porque conseguiu tudo o que queria, mesmo sendo inculto e vulgar. Além disso, melhorar a educação toma um tempo enorme e dá muito trabalho, não é mesmo? E se há coisa que você e o Partido dos Trabalhadores definitivamente detestam é o trabalho: então, muito mais fácil é o atalho das cotas, mesmo que elas criem hostilidades entres as cores, que seus critérios sejam burlados o tempo todo e que filhos de negros milionários possam valer-se delas. A Imprensa faz-lhe pouca oposição porque você a calou, manipulando as verbas publicitárias, pressionando-a economicamente e perseguindo jornalistas. O que houve entre o BNDES e as redes de televisão? O que você mandou fazer a Arnaldo Jabor, a Boris Casoy, a Salete Lemos? Essa técnica de comprar ou perseguir é muito eficaz. Pablo Escobar usou-a com muito sucesso na Colômbia, quando dava a seus eventuais opositores as opções: "O plata, o plomo". Peça ao Marco Aurélio para traduzir. Ele fala bem o Espanhol. Você pode desdenhar tudo aquilo que aqui foi dito, como desdenha a todos que não o bajulem. Afinal, se você não é o maior estadista do planeta, se seu governo não é maravilhoso, como explicar tamanha popularidade? É fácil: políticos, sindicatos, imprensa, ONGs, movimentos sociais, funcionários públicos, miseráveis, você comprou com dinheiro, bolsas, cotas, cargos e medidas demagógicas. Muita gente que trabalha, mas desconhece o que se passa nas entranhas de seu governo, satisfez-se com o pouco mais de dinheiro que passou a ganhar, em consequência do modesto crescimento econômico que foi plantado anteriormente, mas que caiu em seu colo. Tudo, então, pode se resumir ao dinheiro e grande parte da população parece estar disposta a ignorar os princípios da honradez e da honestidade e a relevar as mentiras, a corrupção, os desperdícios, os abusos e as injustiças que marcam seu governo em troca do prato de lentilhas da melhoria econômica. É esse, em síntese, o triste retrato do Brasil de hoje... E, como se diz na França, "l'argent n'est tout que dans les siècles où les hommes ne sont rien". Você não entendeu, não é mesmo? Então pergunte à Marta. Ela adora Paris e há um bom tempo estamos sustentando seu gigolô franco-argentino...

Gilberto Geraldo Garbi
Créditos: Texto citado: Gilberto Geraldo Garbi
Croquis: Congresso Nacional (1958), Brasília, autoria de Oscar Niemeyer, disponível Google Images.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Machado Pop Star!



Depois de haver desabrigado o bichano que dormia profundamente da grande almofada, o garoto, mal se instalara, ouviu os gritos da mãe: ___ Quantas vezes eu já disse que é para estudar no quarto e não na sala? ___ Mas mãe! A mãe, D. Tonica, professora de literatura e mãe de Francisco desde sempre, retrucou: ___ Não tem mais nem menos! Salvo pelo gongo, ou melhor, pela campainha, ele ali continuou, mais se resfetelando na grossa almofada que preocupado com a folha e o lápis que, à sua frente, meio que lhe indagavam pelo toque suave dos dedos. Esquecera completamente a bronca da mãe. Era sempre assim. Quando algum de seus alunos chegava, ela se transformava. Sua meiguice e delicadeza atingiam nível igual ou superior à sua inteligência. Conhecia tudo de literatura brasileira. Aos 10 anos, o pequeno Paco – era assim que o chamavam em homenagem ao avô espanhol, não entendia muito bem porque era tão importante para a aluna de sua mãe, que chegara há pouco, saber das intimidades de Bentinho e Capitu. Afinal, ia ser médica. À menção de Capitu lembrou-se de quando o avô dissera que a vizinha, dona Lucrécia, era mulher dissimulada, Capitu na vida, ouviu mesmo quando suspirou um coitado do seu Ernesto, tão jovem e corno! ___ Não diga isso na frente do menino homem!, dissera a mãe. Em princípio atento às explicações da mãe, aos poucos se sentiu sonolento e viu sua Capitu; loura como dona Lucrécia, seios grandes, olhos azuis... Não via mais nada, deixou-se levar e murmurou: Capitu... ____ Ei! Acorda moleque. Paco! Paco! Você não está me ouvindo? Venha cá, rápido! Vá até a banca de revistas do seu Manoel e me traga uma revista sobre o Machado de Assis. Ele sabe qual é; eu já havia reservado. Num sobressalto o menino ouviu a enxurrada de imperativos e em instantes já estava em direção a banca do seu Manoel, que numa liberdade não concedida sempre lhe beslicava as orelhas e exclamava: mas é a cara do avô, não há o que dizer! ___ O que queres? ___ Vim buscar a revista do Machado que minha mãe reservou. ___ Não separei meu jovem, estou só e com uma porção de coisas a fazer e, ainda por cima, adoentado. Ah! que saudades de quando era assim como tu, um pirralho... Bem, deixa pra lá! Vá lá, procure nos clássicos. ___ Mas minha mãe acabou de dizer que ele é moderno! ___ Ora, pois! Tão jovem e já sabe que para ser clássico há que ser antigo. Mas o que aposto que tua mãe não te disse é que hoje já estamos a ver clássicos modernos. Isto lhe digo já que, para mim, os clássicos são os mais procurados. Já ouviste de tua mãe que, para o momento, nosso maior clássico está para ser o senhor Coelho? ____ Não, esse nunca! ____ Pois vá lá, se Machado é moderno estará entre os clássicos. Minutos depois, Paco, mãos vazias, exclama: Não achei nada, seu Manoel! ____ Ah! Tu não sabes procurar! Não te disse que os clássicos são os mais procurados? Pois então, a revista de Machado está na seção dos populares, que para dar um ar de modernidade chamei de a seção dos pop stars. É fácil, vá lá! Vais encontrar o que mais se procura: Madonna, a mulher Melancia e também o teu Machado. Paco contorna o estreito corredor e dá de cara com a mulher Melancia, pernas em V, bumbum em riste, como a piscar para Machado que, sereno, plácido, olhos perdidos sob o pince-nez, parecia olhar para além da mulata (para Paco ele estava a apreciar) até a Madonna que também de pernas ao ar e em contorcionismo radical, provava a tese do seu Manoel. A mãe quando soube onde Paco encontrara os Cadernos Literários, que estampavam Machado na capa, não se conteve e exclamou: Ah, meu Deus! Ainda bem que ele já se foi. A aluna, kardecista e pró Capitu, disparou: eu penso é na Carolina, dona Tonica, que a essa hora pode até ter se reencarnado!
Créditos: Caricatura por Stegun do Fabricarica - Imagens Google.
Texto originalmente publicado em no Jornal A Lupa, em novembro de 2008.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Quando será?

O assunto é belicoso, mas não deveria ser. Por duas razões: primeira, quem afirmar a existência da oposição no atual cenário político está fadado a ledo engano; segunda, ainda hoje acredito piamente no ditado "Si hay gobierno, soy contra!".

Me explico: a ausência da oposição. Ora, a oposição aparece vez ou outra quando um senador qualquer resolve mostrar a cara na imprensa, num franco ato de marketing pessoal (e também porque precisa explicar de alguma forma a fortuna mensal que embolsa por representatividade tão chinfrim). Esbraveja daqui, esbraveja dali, mas no fim das contas, não consegue reunir uns poucos gatos pingados de seu partido - a oposição - que façam valer sua retórica. Isso, encara-se como teoria. Na prática, ah! a prática. A prática seria estar em campo oposto, confrontar, discutir, tergiversar e, sobretudo, mostrar, agir, mudar. Mas, não... Lembram-se dos mensalões? No mensalão do PT houve muita gritaria. Pessoalmente, acho que o dinheiro foi mal divido, daí a intensidade dos rumores. Quanto ao mensalão do PSDB, em Minas, alguns magoados, retrucaram. Mas, convenhamos: e o escândalo do Senado, capitaneado pelo senhor feudal Sarney? Lá, todo mundo calou-se, afinal o telhado sob o qual todos se abrigam é de vidro e, diga-se, frágil. Enfim, apareceu o DEM, que baniu a letrinhas PFL, empunhando a espada da cidadania, da justiça, da ética e deu no que deu, espirrou panetone para todo lado. Primeira razão esclarecida: não há oposição. Vamos à segunda: "Si hay gobierno, soy contra!". Por hora, é o Sr. Lula, uma moeda: lado coroa, uma notável inteligência política; lado cara, uma estreitíssima cultura, enfim, cara apagada.


Você deve estar se perguntado o por quê de tudo isso? Ora, lembram-se de que ontem falei de e-mails? Pois é, acabo de ler um belicoso, porém, cômico e que nos pede um pouquinho mais de paciência. Ei-lo aí:


Quando?


No programa de sábado, na Globo News, a comentarista Cristiana Lobo disse : 'Lula confessou aos amigos que quer ser lembrado pelo seu 2º mandato como um grande estadista, tal como Getúlio Vargas.'


A ideia parece excelente mas, todos nós, queremos saber: Quando será o suicídio?


Em tempo: recebi o e-mail em 29.12.2009, portanto, o comentário deve ter sido em 26.12.2009, mais uma prova de que Machado de Assis estava pleno de razão quando afirmava em suas crônicas que os mortos governam os vivos. É 2009 invadindo 2010, é Getúlio, o Pai dos pobres I, a sedimentar a caminhada do Pai dos pobres II.

Dica: Para saber mais sobre o adágio citado por Machado: verifique crônicas da coluna A Semana, publicadas originalmente do jornal Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro. Veja crônicas de 18.6.1893, 5.11.1893, 11.3.1894 e 7.7.1895, que encontram-se publicadas pela Editora Jackson e Aguilar (Obra Completa).

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Encante-se!

Encante-se! Afinal, mais um ano começou e a primeira semana do novo ano já se avizinha do fim, amanhã já é quarta-feira. A quarta, como todo mundo sabe, é um divisor. Em geral, já se vislumbra o final de semana e possíveis planos para os dias de descanso: um cineminha, uma caminhada, um teatro, um bebedeira... Ufa! As férias nem bem começaram. Falo como quem trabalha arduamente, de segunda a domingo, feito funcionário de shopping center. Mas nem todo mundo é funcionário padrão. Vejam só Brasília: lá, dizem, as férias anuais são trimestrais. Para tudo (é "para" sem acento mesmo, resolveram simplificar depois que tanta gente não sabia a diferença de pára e para; acho que nivelaram por baixo, quero dizer por cima - acabei de mencionar Brasília que abriga o pai de todos e aí conversa vai, conversa vem, o resto fica para as entrelinhas): judiciário, executivo, legislativo. Só continuam os esquemas: meias pra cá, cuecas pra lá, panettones... é uma festa!


Festa também é a torcida do Corinthians! Mais de seis mil pessoas em plena segunda-feira!?! Pra receber o Roberto Carlos. E eu? Jesus Cristo eu estou aqui e vejo uma nuvem branca que vai passando... Não, não é branca. Me corrijo. É cinza, preta. Bem, não importa a cor e o resultado é o mesmo. Chove em São Paulo e chove no Brasil, mas mesmo assim é preciso encantar-se porque, afinal é ano novo.


Ano novo e minha caixa de e-mails está repleta de messagens encorajadoras. Confesso: muitas acho uma babaquice; outras, poucas, raras, raríssimas, me comovem. Fico pensando em como o sujeito foi criativo, em quanto tempo gastou pensando naquela enormidade de palavras ajustadas para te fazer não esquecer justamente daquilo que ele se esqueceu durante todo o ano anterior. Às vezes os leio (os e-mails) pensando que estão me sacaneando. Por quê? Ora, lá pelas tantas aparecem frases como: Trabalhe com afinco; Lute! nada nos é dado de graça! Que povo chato! Eu sei que nada é de graça e nem era preciso me lembrar, pois, afinal, o porteiro já o fizera quando me entregou o boleto do condomínio (com aumento), o IPVA (com aumento), a multa de trânsito (corrigida) e etc, etc, etc.


Mas ainda assim gosto dos e-mails - mesmo que tenha que excluir muitos deles sem sequer abri-los. O último que abri me aconselhava: encante-se, nunca perca o prazer de encantar-se. Só isso valeu a pena toda a baboseira que li antes e que você certamente está lendo agora.


Por isso encante-se.

sábado, 22 de agosto de 2009

Amigos para sempre!


O título parece piegas, lembra aquelas músicas anos 60. Não, acho que não. Acho que lembra aquelas campanhas pelos pobres da África que apareceram nos anos 80, cujo intuito - acho, ia além de ajudar os menos favorecidos e descambava para uma esfera mais pessoal - o ego. Era um ajuntamento de 'celebridades' empenhadas não só com o próximo, mas principalmente em se mostrar. Afinal, we are the world. Puro marketing! Acabo de me lembrar que o título tem algo a ver com cantores de ópera em momento pop. Também marketing. Porém, os amigos dos quais falo são os livros, não respiram, não cantam, mas vão fundo à alma!

Por que falo deles? Em noites de insônia, após o terceiro ou quarto copo, eles acabam por bater à porta. Um olhar oblíquo para a estante, o braço que se estende e voilà, muitas histórias. A primeira, óbvia, aquela surgida de um autor qualquer, às vezes, gênios. As outras: a pessoa que o indicou quando foi comprado, as ligações que a partir daí foram estabelecidas, enfim, o momento que se vivia quando este precioso objeto lhe caiu às mãos. A rede é imensa e, de repente, um mundo se materializa de forma mágica em seu consciente. Detalhes há muito esquecidos vêm à tona, e paixões ganham fôlego...

Assim, as interligações reais e virtuais se entrelaçam e se estabelecem. Em literatura, muitos chamam a isso de memória literária, um livro que lembra outro e outro, que lembra outro... Uma circulação que não polui, só enriquece, só engrandece.

Acabo de ganhar livros. Um dia talvez me lembre desse momento... Quer coisa melhor? Pessoas de alto calibre: Machado de Assis, Caio Fernando de Abreu, Rouanet e tantos outros! Por que tantos ganhos de uma só vez? Porque livros também são descartados. Eis aí o grande bem dos livros. Sempre são úteis; se seu antigo dono ultrapassou a barreira do conhecimento que ele encerra e já internalizou aquilo que ele de bom grado um dia lhe trouxera, a outra será mister desvendá-lo.!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A vovozinha atriz.


Quem não se lembra da vovozinha do conto Chapeuzinho Vermelho de Charles Perrault que, muito doente, aguardava a cesta de petiscos (cá para mim, lá dentro tinha bolo de chocolate!) que lhe seria entrega pela Chapeuzinho? E Dona Benta, do Sítio do Picapau Amarelo de Lobato? Tanto uma quanto a outra - sobretudo Dona Benta, nos traz à memória aquelas vovozinhas meigas, carinhosas e cheias de histórias para contar. Quando se é criança, essas avós são também fantásticas: saem das páginas literárias e invadem nossa meninice. Nelas acreditamos e confiamos. A elas recorremos em busca de abrigo a cada investida de nossas mães. O colo delas sempre foi mais macio e os braços e abraços mais envolventes. Por que essa história de vovós? Pois bem, vejam só. Ainda ontem li uma história mirabolante que veio à tona na imprensa. Nada que você já não tenha visto. Mas, o mais interessante é que entre os envolvidos há uma vovó de 83 anos, uma tal Sra. Maria de Lourdes, residente da Vila Madalena. A matéria em questão foi publicada pela Vejinha e tinha como título Profissionais da esmola. Tratava-se de longa reportagem sobre pessoas que têm endereço fixo e não fazem parte do grupo chamado de miseráveis, mas que por uma razão qualquer decidiram pela mendicância como profissão.

Devo confessar: dos marmanjos, não gostei nem um pouco. Achei-os uns safados! Oportunistas!Mas da vovozinha - ah! achei uma simpatia! Vira atriz, faz cara de coitada, mas tem bom gosto... veja-se: o repórter, abelhudo, deu-se ao trabalho de persegui-la ao supermercado - e deu a lista do que ela comprou:

1. Ração Whiskas para gatos - mais um indício de uma velhinha simpática: têm gatos, os quais devem ser tratados carinhosamente e, convenhamos, mais uma razão para que eu tenha simpatia por ela, já que tenho um apreço demasiado pelos felinos;

2. Azeite Gallo 5oo ml. - veja-se: é alguém que apesar da idade - ou exatamente por isso - insiste em selecionar produtos que ajudam a preservar sua saúde;

3. Chocolate garoto meio amargo - admitam! não é uma velhinha qualquer; afinal, diz-se que velhos, quando muito velhos, voltam a ser crianças. E crianças adoram doces. Ela, porém, prefere o chocolate meio amargo (eu também);

4. Leite Integral Elegê - aqui uma divergência, prefiro semi-desnatado, mas ela precisa de cálcio e daí? Muito provavelmente em sua época de menopausa não havia ainda os tais tratamentos de reposição hormonal...;

5. Queijo prato - nada mais saudável que um queijinho pela manhã;

6. Pão de forma Wickbold - ela me superou!, resisto ao marketing das marcas, compro as marcas do supermercados porque já li que uma vez transposto a embalagem, lá dentro é tudo mais ou menos a mesma coisa;

7. Linguiça Toscana Aurora - pô! só faltava! Implicar com a velhinha por causa da linguiça. Aos 83 anos pode-se dizer que colesterol é doença de jovens.

Safadagens à parte, ao final da reportagem, cheguei à conclusão de que o repórter havia implicado com a pobre velhinha. Precisava mesmo relacionar toda sua lista de compras? Expor, assim, seus hábitos a público tão amplo? Invadir sua privacidade? Pobre velhinha que nem Chapeuzinho tinha para carregar a cestinha!!!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Paulista não gosta de árvores!

O título, acintoso, pode parecer generalizador. Muitos provavelmente dirão amar as árvores, símbolos da onda verde que se espalha e se fortalece entre os mais diferentes estratos da sociedade contemporânea. Afinal, é carro flex, combustível limpo, plantio de árvores para compensar o gás carbônico emitido nas inúmeras atividades diárias, campanha para banir de vez as tais sacolinhas dos supermercados e por aí vai. No entanto, muitas dessas iniciativas ficam ao meio do caminho. Não precisa ir longe, as árvores, o símbolo mais flagrante do verde aos nossos olhos, figuram como um belo exemplo das iniciativas, diga-se, "pra inglês ver". Não quero, evidentemente, dizer que boas inciativas não sejam válidas. Quero, sim, afirmar que há um longo passo entre alardear pela imprensa o plantio de centenas de árvores e depois deixá-las perecer sob as intempéries do tempo.

Por que essa conversa? Porque passei pelas marginais do Tietê e lá, mais uma vez, há um exemplo de iniciativa que ficou pelo caminho. Há cerca de dois centenas de mudas foram plantadas à margem do rio (ou esgoto?). Sofreram com a estiagem e o vento, muitas pereceram. Agora, quando parte delas começam a ficar "mocinhas" foram abruptamente arrancadas. Junto das "árvores meninas" estão padecendo também as adultas. Diz-se que estão sendo replantadas. É esperar para ver. Diz-se que em torno das marginais haverá um cinturão verde. Também é esperar para ver. Por que tanto ceticismo? Já observaram como se dá o plantio de árvores nas cidades? Planta-se nos meses de inverno quando a umidade é baixa e a chuva é escassa. Esquecem que árvores precisam de água para se desenvolver. Gostaria muito de saber de um biólogo ou agronômo, sei lá, qual a lógica que impera nesses casos. O que sei é que meus vasos não sobrevivem sem água. No entanto, a prefeitura aparece, finca as mudas no chão e passam meses até que alguém volte para recolher os arbustos secos. Caso queiram conferir o que digo, passem pela Rua Maria Paula, esquina com a Santo Antônio e vejam os galhos secos que restaram entre os canteiros. Tenho um amigo que tem lá sua opinião: é pura estratégia. Planta-se neste inverno, gasta-se o dinheiro público na compra das mudas (que nesses casos são absurdamente mais caras que o preço de mercado) e, como elas não resistem ao tempo, no inverno próximo repete-se a operação. É dinheiro em caixa ou fora do caixa - depende do viés.

As árvores das marginais beiram a esse raciocínio. Afinal, uma licitação pública da envergadura daquela em que se propõe a aumentar as pistas das marginais, leva tempo; não acredito que seja algo que se idealize e tenha seu início em tão curto espaço de tempo. O cidadão, às vezes, espera décadas por uma escola, um posto médico; daí a comparação. Presumo que há dois anos já havia um projeto para o alargamento das pistas, assim, por que o plantio das árvores? E, ainda, se a intenção é um ar menos poluído, por que não priorizar o transporte público?

Ao ver o abate das árvores não pude deixar de me lembrar de Roger Bastide, arguto professor, sociólogo e antropólogo que, em seu livro Brésil Terre des Contrastes, ao traçar um panorama das capitais Rio e São Paulo, afirma: "Le Pauliste n'aime pas les arbres; il leur préfère les gazons verts, à l'anglaise, ou les massifs de fleurs." (O Paulista não gosta de árvores, ele prefere gramados verdes, à inglesa, ou montes de flores.)

Muito provavelmente Bastide viu uma São Paulo mais verde e mais florida. Se a visse hoje diria: "Le Pauliste déteste les arbres." (O Paulista detesta as árvores).


Dica: BASTIDE, Roger. Brésil Terre des Contrastes. Paris: Librarie Hachette, 1957. (Certamente deve haver tradução para o português, também pode-se encontrar o livro em sebos.)




quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Guerra midiática: que falta faz Voltaire!!!


Nos canais de imprensa - sites e blogs - trava-se uma guerra midiática entre a Record e a Globo, algo que em princípio não é da conta do cidadão, mas, infelizmente, passa a ser depois de sabermo que tais empresas ocupam a maior parte de seu tempo em alienar o gado marcado! Ms não é só ali que se aliena uns, outros e muitos. O manipulação está também no Senado! Ainda que muitos torçam para que Sarney e sua tchurma estejam a caminho do limbo, não há qualquer pista que indique a saída desses nobres senhores do Éden senatorial. 
E já que o léxico me trouxe o limbo e o Éden - e uma vez que a guerra é sobretudo terrena -, vale comentar o assunto. De fato, trata-se de comentário dos comentários. A torcida é enorme e vibrante. De um lado os recordistas, de outro os globistas, neologismos para simpatizantes que se esforçam a todo instante em se superar em seus pitacos. O blog de Lauro Jardim traz a seguinte machete: "A Record parte para a guerra contra a Globo - e não se trata de briga pela audiência". O texto traz nada menos que 704 comentários. O Portal Imprensa (UOL) também trata da guerra mediática com centenas de outros comentários, a maioria dos quais, nota-se, produzida por fiéis. 
Ora fiéis do bispo, ora fiéis da vênus platinada. Os ânimos, às vezes, esquentam: no Portal Imprensa, um tal Sr. Samuel, em um texto repleto de gerundismo, detona: "...cada um tem o direito de fazer o que bem entender com o seu dinheiro e seu eu quero dar na Igreja Universal eu dou e não me arrependo disso, também não importo em que está sendo usado, estou dando na obra de Deus e para a obra de Deus!" Confesso: em principio fiquei confuso em estabelecer uma relação entre a chamada obra de Deus e aqueles avantajados derrières a repetirem os movimentos de uma mola, do chão ao alto, entre chacoalhos e gemidos lascivos, olhos e bocas semiabertos numa conjunção em que, ao som do funk, os fiéis, digo, a platéia missionária não vislumbra outra coisa senão culs e mais culsO Sr. Samuel disse ainda que "para quem não sabe a rede Record é uma televisão utilizada para levar o Senhor Jesus as almas que estão perdidas". 
Aí fiquei perdidaço e, como não sou expert nessas técnicas de conversão mais avançadas, prefiro me retirar. Preferi acreditar (acredito mesmo?! Sei não, esse Sr....) na manchete dada pelo Lauro Jardim, isto é, de que a guerra não é pela audiência. E não por outra razão, lembrei-me de meu querido Voltaire que, já no século XVIII fazia uso do bordão écrasez l'infâme, para denunciar o fanatismo e a superstição disseminados e alimentados pela Igreja, cujo objetivo não era outro senão a manipulação da massa ignorante. 
Talvez resida aí a razão da guerra que, como disse Jardim, não é definitivamente pela audiência (mas é pela audiência Sr, Jardim - seja honesto!). Manipula-se sempre. Até mesmo porque a imprensa nunca foi e nunca será transparente e imparcial. Manipula-se também com a ajuda de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo. E qual a falta de Voltaire? Com certeza, do fuzil de dois tiros do filósofo sairiam palavras sábias para ambos os lados. Por fim, ouço Dona Mariana, personagem da novelinha das seis de Benedito Rui Barbosa, a dizer: Amém! Amém Voltaire!, penso eu.



quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Por que Revista Philomatica?


Certo, não sou dos últimos a explorar o domínio dos blogs. No entanto, pelo que ouvi ainda ontem, blog já é algo do passado. A onda agora é o Twitter. Quem era blogueiro, agora é twiteiro. Neologismos! Como acabo de chegar, surpreendi-me com a dificuldade em criar nomes. Há rótulos para tudo! Para blogs então, nem se fala! Pensei no Voltaire, meu objeto de pesquisa. Lá estava ele, há muito um habitué das páginas da web. Pensei em Machado de Assis. Este então, nem se fala! Vai ver sou muito previsível. Depois pensei na Revista da Sociedade PhilomaticaExclui a tal da sociedade, afinal, hoje, elas são algo problemático. As sociedades em Brasília... É só mirar o Senado e vem à cabeça as associações, sociedades, quadrilhas, seja lá o que for e, arrepios!!!. Bem, fiquei só com a Revista Philomatica.
E aqui vale algumas informações: a Revista da Sociedade Philomatica é ainda hoje uma das mais citadas em nossa historiografia literária. Foi fundada por professores e alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, na São Paulo de 1833. O periódico, editado pelos acadêmicos, circulou de junho a dezembro de 1833 e não rendeu mais que seis exemplares. Se a quantidade foi comedida, as idéias e a qualidade do que ali foi colocado é de um valor histórico monumental. Tanto é que mereceu até uma edição fac-simíle em 1977. 

Sugestão de leitura: PASSOS, Gilberto Pinheiro. A miragem gálica – Presença da França na Revista da Sociedade Filomática. São Paulo: Instituto de Cooperação Interinstitucional – Inter/Coordenação de Aperfeiçoamento de pessoal de Nível Superior – CAPES, 1991.


Enfim, aqui há de se falar muito de literatura.
Para aqueles que gostam... até a próxima.