
Inacreditavelmente, a Biblioteca de Nova York recebeu mais visitantes que todas as outras atrações culturais e esportivas somadas ao longo do ano de 2009. Não que a recessão e o desemprego tenham transformado o nova-iorquino num admirador dos livros e amante das artes e da literatura, mas a Biblioteca tornou-se um porto seguro. Ali foi possível, em pleno inverno, enfrentar o desemprego no calor aconchegante de uma sala de leitura e, de quebra, economizar com a conta de aquecimento a óleo. Momento de crise e necessidade urgente: encontrar um trabalho. A atualização do curriculum? Podia ser feita com a ajuda de um funcionário da Biblioteca, treinado em escrever curriculuns e expert em informar quais áreas estavam contratando. Com os pais desempregados, vieram as crianças às bibliotecas e, como se sabe, é de pequenino que se torce o pepino. Enfim, a Biblioteca de Nova York adaptou programas para ajudar a população a enfrentar a crise.
Essa é uma parte da história da biblioteca. A outra deve-se a Pierre LeClerc, acadêmico especializado em literatura francesa e à frente da Biblioteca há dezesseis anos. LeClerc é uma das personagens centrais ligadas à transformação da Biblioteca. Ele esteve à frente de importantes decisões, de debates filosóficos, jurídicos e tecnológicos para a digitalização do acervo da Biblioteca. Segundo o artigo que leio, a galeria digital da Biblioteca é um sucesso. A quantidade de acessos é de cair o queixo: mais de 7 milhões de vezes por mês, sendo que os internautas podem baixar qualquer uma das 700 mil imagens
de domínio público para fins não comerciais. Em associação com o Google, a biblioteca já disponibilizou mais de 300 mil livros em domínio público. E algo interessante: a Biblioteca faz empréstimos digitais. Ano passado "emprestou" mais livros que qualquer outra biblioteca americana, cerca de 350 mil títulos, para leitores de 220 países. O internauta usa um software para baixar o livro na íntegra e a obra desaparece no fim de três semanas. LeClerc admite o problema do copyright, mas salienta que esta questão é negociável e vai mais além, preocupa-se com um dilema que a cultura enfrentará daqui para frente: a preservação. Afinal, qual a tecnologia digital que se mostrará duradoura e economicamente viável para preservar o acervo já existente. E outra questão que ronda os países desenvovidos e, inclusive o Brasil: como preservar a informação produzida de forma digital? Não são questões para o futuro imediato, mas que se encaminham para o próximo milênio. Por fim, questiona LeClerc: "Vivemos num ambiente em que a informação já nasce digital. Então, como preservar esta cultura? Como é que uma pessoa que tenta escrever a história social e econômica do seu país ou do meu vai encontrar a informação?" Resignado diz: "O fato é que não temos solução para este problema." Com isso, LeClerc volta-se às bibliotecas e conclui: "Há cinco mil anos não inventam lugar melhor do que a biblioteca para democratizar o acesso ao conhecimento".

Imagens: 1. Salão de leitura da Biblioteca, hoje chamado de Rose Reading Room, em homenagem ao casal de filantropos, Frederick e Sandra Rose, que bancaram sua restauração em em 1998; 2. Vista da Biblioteca a partir de cartão postal antigo.
Oi, Dirceu
ResponderExcluirExcelente o resumo que fez da matéria que saiu no Estadão. Também li e fiquei impressionada com o aumento de frequência da Biblioteca de Nova York que deve ser maravilhosa. É uma notícia alentadora para quem ama os livros. Você comentou o estado da biblioteca Mário de Andrade, não é de hoje que há problemas por lá, sem comentários.
Aliás, ao lado do artigo sobre a biblioteca, saiu uma entrevista com Umberto Eco sobre livros e internet. No mês que vem será lançado um livro dele com Jean-Claude Carrière: "Não Contem Com o Fim do Livro". Nada Mal.
abraços
Concordo com LeClerc quando diz que não há melhor lugar no mundo para democratizar o conhecimento do que em uma biblioteca! Sorte nossa de estarmos prestes a ter mais uma no campus da USP. Pena que nem todo mundo partilhe dos mesmos valores culturais...
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