Revista Philomatica

quarta-feira, 3 de março de 2010

José do Patrocínio: tribuno e visionário

Tudo bem que foi Santos Dumont o primeiro a decolar a bordo de um avião impulsionado por um motor a gasolina. Em 23.10.1906, o mineiro de Palmira, Minas Gerais, voou cerca de 60 metros a uma altura de dois a três metros com sua aeronave, o Oiseau de proie. Bem, isso foi na Europa, Campo de Bagatelle, Paris. Aqui no Rio, em condições muito mais difíceis, José do Patrocínio, também teve lá suas ideias mirabolantes e, longe de um nome pomposo, preferiu idealizar o Santa Cruz, um dirigível capaz de cruzar o Atlântico. Em A Conquista, de Coelho Neto, há trecho de uma palestra de Patrocínio, onde ele revela seu grande segredo: resolvera o problema da direção dos balões. Diante da incredulidade dos amigos, Patrocínio continua: "Tenho estudado a questão com empenho e posso exclamar: Eureka! Trabalho lentamente, porque aqui no Rio de Janeiro não há um fundidor que execute um molde perfeito. Dá-se-lhe um desenho e o bruto faz coisa inteiramente diversa. E a gente que se lembre de protestar. Vocês sorriem? Pois sim... Eu hei de rir lá de cima, quando, depois de meu banho frio e de um cálice de conhaque, sair daqui no meu balão, às seis da manhã, para almoçar às onze em Lisboa".
Você, leitor, pode estar se perguntando: mas José do Patrocínio, o admirável e eloquente tribuno negro, às voltas com um balão? Pois é. Aí vai a história que colhi com Brito Broca. Patrocínio foi um dos mais atuantes abolicionistas. Vivia sob o ardor do romantismo, portanto, suas ações eram muito mais ditadas pelo coração que pela razão; sendo assim, era temperamental, instintivo, sentimental e de índole boêmia e desregrada. Em 13 de maio de 1888, o povo delirava em torno dele, em efusão. Dizem, nunca alguém havia sido tão aclamado no Rio de Janeiro. Broca relembra que na noite de 13 de maio, enquanto os fogos espocavam, alguém lhe disse: "Que belo dia para morreres, Patrocínio!"
Acontece que, finda a luta, Patrocínio tornou-se um herói em disponibilidade. Precisava de algo ao qual pudesse dirigir sua luta; aderiu à República alegando que, de fato, nunca fora monarquista. Porém, dois anos depois, Floriano Peixoto o deporta, junto com outros insubordinados, para os confins da Amazônia. Regressa ao Rio doente; tenta se adaptar à situação vigente e então defende Prudente de Morais, a quem passa chamar de "o santo varão", por considerá-lo o restaurador da ordem civil. À época o romantismo estava em franco declínio, assim como a boemia; o jornalismo já demandava outras estratégias e se transformava, atendendo às solicitações do público. Patrocínio não encontra mais emprego e se deixa flanar pela boemia, ora nas mesas de café, ora atrás de um bom cálice de vermute ou ainda nas rodinhas de amigos. As dívidas, que nas épocas áureas eram pagas pelos amigos, agora, ido o herói, ficavam entregues ao próprio. O jornal que fundara, Cidade do Rio, e que tivera grande importância durante a campanha abolicionista, já não mais interessava ao público. Em 1900, o jornal estava instalado na Rua Sacramento, 8, centro do Rio. Logo depois, por falta de pagamento, começou a ser impresso em lugares diferentes, alternadamente, donde logo surgiu a piada: já não mais se tratava da Cidade do Rio, mas sim, da Cidade Errante. O jornal morre, finalmente, na Rua do Rosário. Mas o fato é que, ainda durante a campanha abolicionista, Patrocínio já dizia aos amigos que tinha a ideia de construir um dirigível, como ainda não se conhecia, e que seria a maior conquista do século XX. Voltava agora, na decadência, ao sonho de outrora, acreditando que o invento pudesse trazer de arrasto a aclamação popular e a alcunha de herói. Na solidão de Inhaúma, numa espécie de hangar, dedica-se inteiramente à construção da aeronave, que seria chamada de Santa Cruz. Ainda segundo Brito Broca, muitos foram os amigos que se interessaram pelo invento: Nilo Peçanha, Germano Hasslocher, Barbosa Lima e até o presidente Campos Sales foi ver de perto o esqueleto do aparelho. Como o tempo passou e Santa Cruz, o balão, não subiu, começaram as piadas pelas mesas de café. Patrocínio foi acusado de usar o pretexto da invenção para obter dinheiro, uma espécie de apoio, o que hoje curiosamente também chamamos de patrocínio. Anos de boemia e de uma vida desregrada trouxeram consigo a doença e, logo, dias de penúria. Enfermo e esquecido pelos amigos, só lhe restou como renda a colaboração semanal para A Notícia. Quando o estado de saúde é grave, é o filho, Patrocínio Filho, o Zeca, quem escreve e leva para o jornal dizendo que foi o pai quem ditara por estar impossibilitado de escrever. Não se sabe se o diretor d'A Notícia acreditava, o fato é que Zeca era uma exímio pasticheur e sabia muito bem imitar o estilo do pai. No dia em que partiu, entretanto, Patrocínio insistira em escrever o folhetim, porém, o papel escapou-lhe das mãos e foi obrigado a interromper - para morrer. Morto o herói, a carcaça do Santa Cruz foi vendida em leilão para o ferro-velho, depois que um engenheiro, encarregado pelo governo, atestou que o invento estava inacabado e não tinha qualquer valor. Bela história. Daria um belo filme.

Um comentário:

  1. Li "A vida literária no Brasil" do Brito Broca há muitos anos. Não me lembrava dessa curiosa faceta de sua vida. Imagino as piadas com o "Santa Cruz" !

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