Revista Philomatica

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Mais c'est beau!"

Hoje, mais uma vez, caí na armadilha das chamadas pomposas. Me explico: à época em que se comemorou o centenário de Machado de Assis, vi um exemplar da Bravo cuja capa estampava o escritor em uma foto de 1890 e, ao lado, o título da matéria: As obsessões de Machado de Assis. Nada mais decepcionante - artigo para lá de chinfrim. Anunciavam novos estudos que desvendavam os temas que atormentavam o maior escritor brasileiro. Acreditem, ali não havia nada além do que a crítica repete há anos. Hoje, novamente, caí no engodo da primeira página. O título? Rubem Fonseca sai da reclusão para promover livro de escritora-pupila. Pensei cá com meus botões: Puxa! Nem sabia que o homem estava recluso! Bem, de posse da Folha, vou eu à procura da Ilustrada e - não, não pode ser! Duas míseras e minúsculas coluninhas dizendo que Fonseca virara criança para promover sua escritora-pupila. Ao fim da leitura conclui que o jornalista se enganara, trocara criança por senil. Mas vamos aos fatos: a escritora-pupila trata-se da carioca Paula Parisot, famosa no mundo da moda como designer de bolsas e que agora investe na carreira literária. Para promover seu livro Gonzos e Parafusos (Ed. Leya), a escritora está há seis dias vivendo em um cubo de vidro montado dentro da Livraria da Vila. Ali, Parisot, performática, ensaia choro reproduzindo a clínica de repouso descrita em seu livro. Fonseca, nada criança, mas sim tentando se comunicar com uma criança, faz biquinho e diz: "Chora não, meu bem, chora não". (Eu, então, provo que Barthes estava certo ao tratar da morte do autor; me transformo em leitor-autor e, a partir da informação de que Fonseca pegou uma fatia de pão e tentou fazer sua pupila comer, já descrevo a cena: "Bilu-bilu, olha o aviãozinho. Tome (come) neném, tome, sinão neném não vai clescê! ). Próxima cena (esta descrita pelo autor da matéria): Fonseca, ao notar um fotógrafo tem a esperada reação da celebridade com a burra já cheia do vil metal: "Porra! Puta merda! Estragou meu dia". Reação oposta àquela que busca sua pupila. Puxa, deviam ter se falado, sei lá, combinado, ensaiado tudo antes! Afinal, uma reação dessas pode afugentar os fotógrafos e jornalistas e aí, como ficam as vendas? Enfim, o assunto era tão interessante, mas tão interessante que, num flash (Não me perguntem por que meu cérebro produziu tal sinapse!), me lembrei das histórias que li sobre a vinda de Anatole France ao Brasil. Curioso, naquela época (1909) com uma imprensa e meios muito mais modestos, não se faziam performances e, ainda assim, os leitores assediavam os escritores, ao menos, assim foi com Anatole France.
Anatole chegou em 17.5.1909 a bordo do navio Amazon. Estava a caminho de Buenos Aires e Montevidéu e só na volta deveria visitar o Brasil. O navio chegou à noitinha e o repórter do Correio da Manhã, Luís Fernando, na manhã seguinte já relatava sua malograda entrevista com o escritor. Na verdade, ao chegar a bordo já encontrara alguns membros da Academia Brasileira, entre os quais Filinto de Almeida, que tentavam se aproximar do escritor. O repórter interroga o comandante e descobre que o escritor está doente, porém, como bom jornalista, descobre o camarote onde ele estava e empurra ousadamente a porta. O repórter se apresenta e Anatole, gentil, diz: "Ah! Perdoai-me receber-vos assim... Mas uma súbita indisposição....". O escritor tem nas mãos o quarto volume de Grandeza e decadência de Roma, de Ferrero. Não dá qualquer declaração ao repórter. Diz apenas que sofria muito e em seguida, leva a mão esquerda à testa sorrindo e diz: "Vá-se embora". Como se vê, reação bem menos contundente que o nosso Fonseca. Mas, convenhamos, eram outros tempos!
Na manhã seguinte a mesma comissão de imortais que estivera a bordo convida Anatole a dar um passeio pelo Rio. Anatole aceita e depois é conduzido ao Hotel dos Estrangeiros, onde almoça e se encontra com Rui Barbosa, em seguida, conhece a Biblioteca Nacional e vê o raro exemplar da Bíblia de Gutenberg, jóia da instituição.
De regresso de Buenos Aires, a 22 de julho, aporta novamente no Rio e em 4 de agosto embarca para São Paulo. Em São Paulo, visita escolas, o Museu do Ipiranga, a Faculdade de Direito e instituições culturais. Em todos os lugares, nada de aparições performáticas. Seu Lys rouge e seu Thaïs já eram apreciados por todos.
Uma tarde, foi contemplar o panorama da cidade de um mirante em Higienópolis, num suave pôr-do-sol, quando acendiam as primeiras luzes. Mostrou-se encantado, deixando escapar: "Mais c'est beau!". Alfredo Pujol, que o acompanhava, teria lhe dito: "Como poderia achar bela a paisagem paulistana, depois do esplendor do Rio? Ao que o escritor respondera: "O Rio é grandioso, é bonito demais. Para o meu temperamento este é o tipo de paisagem que convém". Belos tempos aqueles em que não se precisava ficar recluso ou preso em um cubo para despertar o interesse do leitor. Talvez houvesse mais matéria, digo, mais contéudo, menos fotos, menos performances... Mas, enfim, bilu-bilu, é preciso nos atualizarmos!

Notas: Dados a partir de Brito Broca, A Vida Literária no Brasil 1900; caricatura Anatole France, de Lauro Ribeiro da Silva (Ribs), publicada no jornal A Tribuna, de Santos, na matéria Santos noutros Tempos, edição de 10 de maio de 1953 e caricatura de Anatole por Gustave Leroux.

domingo, 14 de março de 2010

Bibliotecas e o conhecimento democratizado

Há poucos dias comentei aqui sobre bibliotecas, inclusive citando a opinião de jovens que as consideram espaço destinado ao acúmulo de poeira. Concordei com a opinião, nem tanto pela poeira - apesar da alergia, mas principalmente porque não se esqueceram de mencionar a desorganização do acervo e o despreparo dos funcionários. Concordei, sobretudo, porque me lembrei das inúmeras visitas que fiz à bibliotecas públicas. Hoje, porém, li uma matéria no Estadão (de ontem) sobre a Biblioteca Pública de Nova York. Mas antes, leitor, se alguém lhe perguntasse qual a possível relação entre a crise financeira do ano passado e as bibliotecas, o que diria? Talvez que as bibliotecas sofreram com falta de verbas e por isso deixaram de ser reformadas ou restauradas? É possível, haja vista a Biblioteca Mário de Andrade, com sua reforma interminável, embora a crise por aqui não tenha passado de uma marolinha. Lá, nos Estados Unidos, pasmem, elas, ou melhor, ela, a Biblioteca Pública de Nova York, não só foi restaurada como também teve importante papel durante o desenrolar da crise.
Inacreditavelmente, a Biblioteca de Nova York recebeu mais visitantes que todas as outras atrações culturais e esportivas somadas ao longo do ano de 2009. Não que a recessão e o desemprego tenham transformado o nova-iorquino num admirador dos livros e amante das artes e da literatura, mas a Biblioteca tornou-se um porto seguro. Ali foi possível, em pleno inverno, enfrentar o desemprego no calor aconchegante de uma sala de leitura e, de quebra, economizar com a conta de aquecimento a óleo. Momento de crise e necessidade urgente: encontrar um trabalho. A atualização do curriculum? Podia ser feita com a ajuda de um funcionário da Biblioteca, treinado em escrever curriculuns e expert em informar quais áreas estavam contratando. Com os pais desempregados, vieram as crianças às bibliotecas e, como se sabe, é de pequenino que se torce o pepino. Enfim, a Biblioteca de Nova York adaptou programas para ajudar a população a enfrentar a crise.
Essa é uma parte da história da biblioteca. A outra deve-se a Pierre LeClerc, acadêmico especializado em literatura francesa e à frente da Biblioteca há dezesseis anos. LeClerc é uma das personagens centrais ligadas à transformação da Biblioteca. Ele esteve à frente de importantes decisões, de debates filosóficos, jurídicos e tecnológicos para a digitalização do acervo da Biblioteca. Segundo o artigo que leio, a galeria digital da Biblioteca é um sucesso. A quantidade de acessos é de cair o queixo: mais de 7 milhões de vezes por mês, sendo que os internautas podem baixar qualquer uma das 700 mil imagens de domínio público para fins não comerciais. Em associação com o Google, a biblioteca já disponibilizou mais de 300 mil livros em domínio público. E algo interessante: a Biblioteca faz empréstimos digitais. Ano passado "emprestou" mais livros que qualquer outra biblioteca americana, cerca de 350 mil títulos, para leitores de 220 países. O internauta usa um software para baixar o livro na íntegra e a obra desaparece no fim de três semanas. LeClerc admite o problema do copyright, mas salienta que esta questão é negociável e vai mais além, preocupa-se com um dilema que a cultura enfrentará daqui para frente: a preservação. Afinal, qual a tecnologia digital que se mostrará duradoura e economicamente viável para preservar o acervo já existente. E outra questão que ronda os países desenvovidos e, inclusive o Brasil: como preservar a informação produzida de forma digital? Não são questões para o futuro imediato, mas que se encaminham para o próximo milênio. Por fim, questiona LeClerc: "Vivemos num ambiente em que a informação já nasce digital. Então, como preservar esta cultura? Como é que uma pessoa que tenta escrever a história social e econômica do seu país ou do meu vai encontrar a informação?" Resignado diz: "O fato é que não temos solução para este problema." Com isso, LeClerc volta-se às bibliotecas e conclui: "Há cinco mil anos não inventam lugar melhor do que a biblioteca para democratizar o acesso ao conhecimento".
Nota: Site da Biblioteca Pública de Nova York: www.nypl.org.
Imagens: 1. Salão de leitura da Biblioteca, hoje chamado de Rose Reading Room, em homenagem ao casal de filantropos, Frederick e Sandra Rose, que bancaram sua restauração em em 1998; 2. Vista da Biblioteca a partir de cartão postal antigo.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Madame du Châtelet

Nesta semana, dia 8, comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. Embora com atraso, aqui vai minha sincera homenagem, a história de uma mulher brilhante para sua época - Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquise du Châtelet. Deixe de lado a pompa e a nobreza do nome. Era comumente conhecida por Émilie du Châtelet ou Madame du Châtelet. Nasceu em Paris, em 1706, e morreu jovem, em 1749. Porém, ficou conhecida por ser uma intelectual sensual, que amava os livros, os diamantes, a álgebra e a física. Em geral, é tratada pelos biógrafos ora como mathématicienne, ora como physicienne. Teve a sorte de viver em um ambiente liberal. Era bastante instruída e amava as ciências. Estudou matématica e traduziu os princípios de Newton, acrescentado a eles comentários de álgebra. Desde menina, teve contato com os poetas Jean-Baptiste Rousseau e Fontenelle, no salão de sua família, em Paris. Deve a seu pai uma educação que raramente era dada às meninas. Ele lhe ensinou latim, grego e alemão. Como o pai também mostrava talento para a música, ela aprendeu a tocar cravo, amar a dança e o teatro. Amava a vida e os prazeres que ela oferecia, por isso se deu ao luxo de cometer extravagâncias. Tinha certa queda por roupas, sapatos e jóias. Casou-se aos dezenove anos com o marquês Florent Claude du Chatelet (ou Chastellet), porém, seu marido a deixa viver livremente, talvez por ter se dado conta de suas próprias limitações e por ter reconhecido as capacidades intelectuais da mulher. Devido à carreira militar, o marido a vê raramente. Nada mais compreensível que tivesse vários amantes. Voltaire foi, sem dúvida, o mais influente, encorajando-a a aprofundar seus conhecimentos de física e matemática, para os quais, reconheceu, ela tinha habilidades especiais.
A essa época, a palavra cientista não existia, mas, efetivamente, Madame du Châtelet, foi uma das primeiras mulheres a manter documentação capaz de comprovar sua atividade e ser assim chamada. Isso não significa que não tenha havido, antes, mulheres com pendor para as ciências. Basta lembrar-se da trágica morte de Hipátia, na antiguidade.
Émilie du Châtelet estudou Leibniz e manteve contatos com Claurault, Maupertuis, König, Bernoulli, Euler, Réaumur e muitos outros, aos quais se pode creditar o surgimento das ciências exatas, termo ainda inexistente à época. Atuante, quando começou a tradução Principia Mathematica, de Newton, foi visitar Buffon. Conheceu Voltaire, em 1734, quando ele tinha caído em desgraça na corte e se ausentado de Paris para viver seu inferno astral em Cirey. A relação dos dois durará por quinze anos. Voltaire incentivou-a a traduzir Newton, ressaltando a importância da liberdade de pensar por si mesmo.
Ela entrou na vida de Voltaire em momento em que ele precisava de um porto seguro. A perseguição era um hábito na França desses dias. A justiça e seus ministros tinham decidido perseguir Voltaire. O arcebispo de Paris, Vintimille, "que amava apaixonadamente as mulheres e detestava os filósofos", se queixa com o responsável pela polícia de Paris de um certo Epître à Uranie, de autoria de Voltaire. Falava-se também de uma epopeia sobre a virgem d'Orléans, que era um escândalo sem igual. Voltaire foi ameaçado; se o poema viesse à tona, seria enterrado em uma masmorra. Para Voltaire era inconveniente ter vocação para o apostolado quando não tinha sequer a de mártir, já que desejava viver e pensar livremente e não habitar a Bastille. Madame du Châtelet lhe oferece abrigo em seu castelo de Cirey, perto da fronteira, a alguns passos da Lorraine, onde seria fácil conseguir refúgio em caso de perseguições. Ele, claro, aceita e aí passa quatorze anos em estreita intimidade com a dona da propriedade.
Foi uma longa ligação, porém, não menos tempestuosa. A agitação de Voltaire e o "temperamento de fogo" de Madame du Châtelet eram o combustível para faíscas frequentes e, quando havia hóspedes, recorriam ao inglês para se insultarem. Eram ativos e sem algum rancor. Cirey tornou-se um laboratório, um reduto da química. Voltaire e Madame du Châtelet se separavam todos os dias para fazer suas experiências ou para escrever. Eles concorrem entre si, sem que um não saiba sobre o outro, a um prémio dado pela Académie des Sciences sobre a natureza do fogo. Madame du Châtelet coloca tanto calor ao escrever seu estudo que, não raro, precisava se acalmar e mergulhar os longos braços em água fria. Ali, em Cirey, Voltaire escreveu os Éléments de la Philosophie de Newton e inúmeras outras obras. Matemáticos como Claurault e Maupertuis visitam os dois confrades. Admiram o ambiente simples e elegante do lugar, porém, a vida ali girava em torno do trabalho, das leituras, dos estudos e da ciência, capitaneados por Voltaire e pela não menos interessante e notável Madame du Châtelet.


Nota: Madame du Châtelet e Château de Cirey, litografia da época.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Je ne fay rien sans gayeté

Aqui estou eu a bater na mesma tecla. Quem conhece Mindlin, ao ler o título - pimba!, já matou a charada. Hoje não falo dele, mas da Brasiliana, a jóia que aprimorou ao longo dos anos, pacientemente. Me permitam bater nessa mesma tecla porque, longe de parecer repetitiva e enfadonha, ela rende muito. A empatia que temos por alguém, às vezes é obscura e não sabemos muito bem explicar o porquê. O fato é que vem, assim, do nada. Há casos, porém, em que as causas da empatia, a exemplo do que dizia Mindlin sobre os livros, é uma atração multiforme. Para um amante de livros, por exemplo, a coisa funciona da mesma maneira, ou seja, se o fulano também gosta de livros, isso já é razão suficiente para olhá-lo por outro viés, mesmo que você goste do azul e ele do amarelo, o que importa é que ambos apreciam os livros. O livro exerce uma sedução que vai muito além da leitura, embora seja este o ponto de partida. Compra-se livros também pelo prazer de tê-los à mão, pelo interesse em ter à disposição uma obra reconhecidamente de qualidade ou pela satisfação de possuir toda a obra de um autor de quem se gosta, e por aí vai. Mindlin, o fez por todas essas razões e também pelo gosto peculiar de poder garimpar uma primeira edição ou algo raro. É sabido que se deixava seduzir pelo livro enquanto objeto - objeto de arte, pois analisava e prezava as ilustrações, o papel, a qualidade do projeto gráfico, a encardenação etc. Tudo isso fez com que Mindlin formasse a Brasiliana, uma biblioteca enorme cujo nome dispensa explicações. Hoje, a Brasiliana passa por processo de digitalização e está à disposição de qualquer internauta, basta clicar http://www.brasiliana.usp.br/ . É um prazer navegar pelas páginas de livros raros e antigos. Ali é possível encontrar preciosidades e também livros anotados e ou autografados de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Machado de Assis. Um deleite!
Pensando nos livros, resolvi pequisar na rede o que pensam os internautas sobre bibliotecas. Descobri que nas instituições privadas, para atender os requisitos do MEC, não é incomum a compra de livros “por metro”. Li também que, em geral, vale a ideia de que excelentes bibliotecas contribuem para que o ensino superior consiga atingir excelência em investigação e docência. Esse é provavelmente o pensamento de alguém envolvido com livros e, talvez, universidades e escolas. Descobri ainda o que pensam os mais jovens (uma minoria, espero!): “Boa parte das bibliotecas são espaços onde sobram poeira, desorganização do acervo e servidores desestimulados". Estão errados? Certamente não. Basta visitar algumas das bibliotecas públicas. Digo isso porque me lembro das visistas que fiz à Biblioteca Kennedy, em Santo Amaro - experiência desanimadora. (E a Mário de Andrade, que vive eterna reforma?)
Porém, há internautas que afirmam ser a presença ubíqua do livro importante para sedimentar o hábito da leitura, algo em que acredito piamente. Só nos tornamos íntimos daquilo que podemos ver, tocar ou que está à nossa volta. O mundo moderno é ágil. O apelo audiovisual é quase irresistível, porém tudo é visto e experimentado muito ligeiramente, não se aprofunda. Uma vez morta a curiosidade, um outro clique, um segundo fugaz e, no momento seguinte a informação anterior já está na lixeira, não repousa no cérebro. A leitura, esta, requer um ritual próprio, exige concentração. Ainda que, às vezes, dispense o ambiente, é preciso se deixar cativar, tal qual aquela história do príncipe e a raposa. Exige tempo e o amanhã jamais será igual depois de uma centena de páginas lidas, viajadas, vividas e aprecidas.
Mas, divagações à parte, voltemos à Brasiliana. Ali, em meio a exemplares luxuriantes, há um espaço para comentários, que vêm de todas as partes do país. Um, em especial me chamou a atenção: "Sinto-me orgulhoso de ser brasileiro a cada vez que ouço falar de Mindlin. Esteja em paz". Parece clichê, mas acho que não, foi verdadeiro. Mindlin foi um herói para poucos, para privilegiados e interessados. Sobreviverá, ao contrário de tantos outros heróis momentâneos e midiáticos. Afinal, em vida, mirava-se em Montaigne e como ele afirmava: "Je ne fay rien sans gayeté". E faz o que gosta, perdura!


Nota: Ex Libris de Mindlin: Je ne fay rien sans gayeté (Eu não faço nada sem alegria).

sábado, 6 de março de 2010

A Expedição Langsdorff

Hoje vê-se o mundo das alturas. A tecnologia dos satélites nos permite explorar os confins do globo sem que precisemos abandonar nosso cantinho e o conforto que ele proporciona. Poderia esquadrinhar cada trecho deste imenso país, se quisesse, através da internet, ver imagens no Google e outras possibilidades tantas - como aquela ferramenta que permite ao usuário caminhar pelas ruas como se ali estivesse. Formidável! Mas não, enfrentei a chuva que caia pela manhã e fui ver a exposição Expedição Langsdorff, uma das mais importantes expedições científicas do século XIX, composta por desenhos e aquarelas de Johann Moritz Rugendas, Aimé-Adrien Taunay, Hercules Florence e mapas de Néster Rubtsov. Hoje, quando se apreende imagens por celulares ultra potentes e câmeras digitais não menos frágeis, é emocionante ver uma paisagem desenhada há quase dois séculos que, dado seu valor histórico e artístico, nos leva a pensar na emoção do artista ao desbravar a floresta e conhecer povoados quase que inexplorados. Sentiriam eles algo diferente? Ou o registro que faziam era puramente técnico? Questões e respostas à parte, o valor da exposição está em nos trazer aspectos da natureza e dos habitantes que compunham nosso território há cerca de dois séculos atrás, verdadeiro panorama de nossa flora e fauna. O Brasil, como se sabe, tornou-se objeto de desejo de pesquisadores europeus, logo depois que D. João VI abriu os portos às nações amigas, o que para muitos, ironicamente, dizer nações amigas equivale a dizer, de fato, Inglaterra. Mas isso é assunto para outra prosa. O fato é que o Brasil era um território inexplorado aos olhos da ciência, um paraíso repleto de uma diversidade ainda intocada. O barão de Langsdorff, integrante da expedição, fez exatamente o que outros tantos europeus fizeram: desbravou matas, colheu amostras e registrou conhecimento.
Com o apoio do governo russo, mais precisamente do Czar Alexandre I, Langsdorff deu início a sua expedição, em 1821. Com ele vieram pesquisadores de diversas áreas: botânicos, cartógrafos, zoólogos, etc. Fora a catalogação e anotações estritamente científicas realizadas pelos cientistas, havia o registro feito em desenhos e aquarelas realizadas por artistas como Rugendas, incumbido de retratar as paisagens, seus habitantes e seus costumes. O alemão, entretanto, se desentendeu com Langsdorff e partiu precocemente. Seu posto foi assumido por Aimé-Adrien Taunay, que se destacou pela aguda observação dos povos indígenas. Taunay, penso, também não aguentou o peculiar humor de Langsdorff e decidiu partir. Hercules Florence foi então contratado como segundo desenhista e produziu os registros de maior precisão e rigor científico.
Georg Heinrich von Langsdorff, e sua expedição, se embrenhou por 17 mil km do território nacional, quando o país ainda era praticamente uma gigantesca floresta, numa época conturbada, entre 1821 e 1829, quando D. João VI abandonou o Brasil e D. Pedro I, na condição de princípe regente, assumiu o país e proclamou a sua independência de Portugal. A exposição que conta a aventura da expedição Langsdorff é composta por 120 aquarelas e desenhos e 36 mapas que foram produzidos durante a viagem desses desbravadores que percorrem, em geral por rios, as províncias do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, de São Paulo, do Mato Grosso, do Amazonas e do Pará. No caminho, o território pouco explorado ofereceu perigos aos cerca de 40 integrantes da expedição. Taunay, filho do pintor Nicolas Antoine Taunay (da Missão Artística Francesa) e tio do influente Visconde de Taunay, em outubro de 1827, depois de se desentender com Langsdorff, deixa Cuiabá e parte rumo ao Rio Amazonas com um grupo liderado pelo botânico Ludwig Riedel. Poucos meses depois, Taunay, ansioso, tenta atravessar o Rio Guaporé sozinho, montado em um cavalo. O animal se desequilibra e cai na água. O artista é mordido por peixes e morre afogado. Nos últimos anos da expedição, o próprio Langsdorff contraiu uma doença desconhecida, que causava surtos passageiros, durante os quais ele perdia a noção de tempo e espaço. Diziam que tinha enlouquecido.
Langsdorff devia ser mesmo difícil, pois durante a viagem, quando Rugendas o deixou e retornou à Europa, levou consigo boa parte de sua produção, dizem, cerca de 500 gravuras. A outra parte do acervo da expedição foi encaminhada à Rússia, onde ficou perdida até 1930, quando foi encontrada nos porões do Museu do Jardim Botânico, em São Petersburgo. Hoje, os trabalhos pertencem ao Arquivo da Academia de Ciências da cidade e estão expostos pela primeira vez no Brasil. Entre as 120 peças reunidas na mostra Expedição Langsdorff estão obras inéditas como as aquarelas Sagui-de-cara-branca (1823), de Rugendas, Sebastiana, Filha da Mestiça Francisca de Sales e de um Branco (1927), de Taunay, e Mulher e Criança Manduruku, de Florence. Todas destoam do registro de paisagens ou cotidiano costumeiramente feito na época, apesar de elas também fazerem parte do acervo da exposição. Langsdorff escreveu sua aventura em diários, os quais foram publicados, em três volumes, pela FIOCRUZ.
Embora chovesse muito, me esqueci da chuva e, por uma hora e meia, cruzei rios, cascatas, vilarejos; vi pessoas, animais, pássaros, paisagens... e não foi das alturas!
Nota: Gravuras de Aimé-Adrien Taunay, junho de 1827, Palmeiras denominadas "buritis", desenhadas em Quilombo, distrito de Chapada; de Hercule Florence, onça aos seis meses e vista de Santarém, sobre o Tapajós, tomada do lado oeste, de agosto de 1828.

quarta-feira, 3 de março de 2010

José do Patrocínio: tribuno e visionário

Tudo bem que foi Santos Dumont o primeiro a decolar a bordo de um avião impulsionado por um motor a gasolina. Em 23.10.1906, o mineiro de Palmira, Minas Gerais, voou cerca de 60 metros a uma altura de dois a três metros com sua aeronave, o Oiseau de proie. Bem, isso foi na Europa, Campo de Bagatelle, Paris. Aqui no Rio, em condições muito mais difíceis, José do Patrocínio, também teve lá suas ideias mirabolantes e, longe de um nome pomposo, preferiu idealizar o Santa Cruz, um dirigível capaz de cruzar o Atlântico. Em A Conquista, de Coelho Neto, há trecho de uma palestra de Patrocínio, onde ele revela seu grande segredo: resolvera o problema da direção dos balões. Diante da incredulidade dos amigos, Patrocínio continua: "Tenho estudado a questão com empenho e posso exclamar: Eureka! Trabalho lentamente, porque aqui no Rio de Janeiro não há um fundidor que execute um molde perfeito. Dá-se-lhe um desenho e o bruto faz coisa inteiramente diversa. E a gente que se lembre de protestar. Vocês sorriem? Pois sim... Eu hei de rir lá de cima, quando, depois de meu banho frio e de um cálice de conhaque, sair daqui no meu balão, às seis da manhã, para almoçar às onze em Lisboa".
Você, leitor, pode estar se perguntando: mas José do Patrocínio, o admirável e eloquente tribuno negro, às voltas com um balão? Pois é. Aí vai a história que colhi com Brito Broca. Patrocínio foi um dos mais atuantes abolicionistas. Vivia sob o ardor do romantismo, portanto, suas ações eram muito mais ditadas pelo coração que pela razão; sendo assim, era temperamental, instintivo, sentimental e de índole boêmia e desregrada. Em 13 de maio de 1888, o povo delirava em torno dele, em efusão. Dizem, nunca alguém havia sido tão aclamado no Rio de Janeiro. Broca relembra que na noite de 13 de maio, enquanto os fogos espocavam, alguém lhe disse: "Que belo dia para morreres, Patrocínio!"
Acontece que, finda a luta, Patrocínio tornou-se um herói em disponibilidade. Precisava de algo ao qual pudesse dirigir sua luta; aderiu à República alegando que, de fato, nunca fora monarquista. Porém, dois anos depois, Floriano Peixoto o deporta, junto com outros insubordinados, para os confins da Amazônia. Regressa ao Rio doente; tenta se adaptar à situação vigente e então defende Prudente de Morais, a quem passa chamar de "o santo varão", por considerá-lo o restaurador da ordem civil. À época o romantismo estava em franco declínio, assim como a boemia; o jornalismo já demandava outras estratégias e se transformava, atendendo às solicitações do público. Patrocínio não encontra mais emprego e se deixa flanar pela boemia, ora nas mesas de café, ora atrás de um bom cálice de vermute ou ainda nas rodinhas de amigos. As dívidas, que nas épocas áureas eram pagas pelos amigos, agora, ido o herói, ficavam entregues ao próprio. O jornal que fundara, Cidade do Rio, e que tivera grande importância durante a campanha abolicionista, já não mais interessava ao público. Em 1900, o jornal estava instalado na Rua Sacramento, 8, centro do Rio. Logo depois, por falta de pagamento, começou a ser impresso em lugares diferentes, alternadamente, donde logo surgiu a piada: já não mais se tratava da Cidade do Rio, mas sim, da Cidade Errante. O jornal morre, finalmente, na Rua do Rosário. Mas o fato é que, ainda durante a campanha abolicionista, Patrocínio já dizia aos amigos que tinha a ideia de construir um dirigível, como ainda não se conhecia, e que seria a maior conquista do século XX. Voltava agora, na decadência, ao sonho de outrora, acreditando que o invento pudesse trazer de arrasto a aclamação popular e a alcunha de herói. Na solidão de Inhaúma, numa espécie de hangar, dedica-se inteiramente à construção da aeronave, que seria chamada de Santa Cruz. Ainda segundo Brito Broca, muitos foram os amigos que se interessaram pelo invento: Nilo Peçanha, Germano Hasslocher, Barbosa Lima e até o presidente Campos Sales foi ver de perto o esqueleto do aparelho. Como o tempo passou e Santa Cruz, o balão, não subiu, começaram as piadas pelas mesas de café. Patrocínio foi acusado de usar o pretexto da invenção para obter dinheiro, uma espécie de apoio, o que hoje curiosamente também chamamos de patrocínio. Anos de boemia e de uma vida desregrada trouxeram consigo a doença e, logo, dias de penúria. Enfermo e esquecido pelos amigos, só lhe restou como renda a colaboração semanal para A Notícia. Quando o estado de saúde é grave, é o filho, Patrocínio Filho, o Zeca, quem escreve e leva para o jornal dizendo que foi o pai quem ditara por estar impossibilitado de escrever. Não se sabe se o diretor d'A Notícia acreditava, o fato é que Zeca era uma exímio pasticheur e sabia muito bem imitar o estilo do pai. No dia em que partiu, entretanto, Patrocínio insistira em escrever o folhetim, porém, o papel escapou-lhe das mãos e foi obrigado a interromper - para morrer. Morto o herói, a carcaça do Santa Cruz foi vendida em leilão para o ferro-velho, depois que um engenheiro, encarregado pelo governo, atestou que o invento estava inacabado e não tinha qualquer valor. Bela história. Daria um belo filme.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Nem só de livros vive o homem

Ao narrar a tentação de Cristo, no deserto, Mateus retoma o Mestre naquela fala que já foi tão versejada ao longo da circulação das ideias literárias: "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus". Hoje retomo Antonio Candido ao falar de José Mindlin: "Nem só de livros vive o homem", isso porque José Mindlin, bibliófilo inigualável, sempre ao contar suas aventuras para conseguir um exemplar raro, tinha uma história que vinha de arrasto. Tive a oportunidade de ver, há cerca de dois anos, esse dois mestres, juntos, em conferência na Universidade de São Paulo. Lá, Mindlin contou como conhecera Guimarães Rosa, em Paris. Lá também, relembrou a saga para conseguir a primeira edição de O Guarany, de José de Alencar. Mindlin, em seu livro Uma vida entre livros, Reencontros com o tempo, conta como começou a juntar livros e o fez não só por notar sua importância do ponto de vista físico, mas também pelo histórico, ou seja, a qualidade do exemplar, a importância da primeira edição, sua raridade e sua beleza. José Mindlin morreu hoje, aos 95 anos. Uma perda irreparável. Era leitor refinado. Dizia: "Desconfio dos livros de sucesso, e desses, em geral, só vou ler os que tiveram um tempo de decantação. Se os próprios escritores, especialmente os principiantes, pusessem o livro na gaveta, depois de escrito, por um ou dois anos, e depois disso vissem se o texto resistiu a uma releitura - é provável que a massa imensa de livros que se publicam no mundo se reduzisse substancialmente". Tinha afinidade por Montaigne, Proust e Guimarães Rosa. Dizia também que o coração batia mais forte quando, depois de anos de procura, encontrava um livro raro. Colecionou livros a vida inteira. O resultado? Uma das mais importantes bibliotecas privadas do país, que começou a formar aos 13 anos e, em 2006, doou os cerca de 45 mil volumes, entre coleções e folhetos, para a Brasiliana USP, no campus da universidade, em São Paulo. Não teve tempo de ver a biblioteca concluída. Foi-se Mindlin, mas ficaram seus livros e suas histórias. Em Uma vida entre livros, conta as aventuras para comprar O Guarany, primeira edição, de 1857. Tudo começa em 1960, no Rio, quando um grego oferece o exemplar por mil doláres. Nenhum colecionador se interessou em comprá-lo. Mindlin, quando soube, já não mais conseguiu falar com o tal grego, que tinha ido embora. Ficou por quase dez anos atrás do grego até que, um dia, o exemplar aparece no catálogo de um leilão na Inglaterra. Mindlin manda um telegrama para um amigo livreiro, pedindo que efetuasse a compra. Ansioso, pergunta ao amigo quanto ele achava que custaria o livro: "Umas vinte libras", responde o outro. No dia do leilão, Mindlin, que estava em Nova York, telefona ao livreiro para saber da compra. "Ah, não comprei, porque tinha falado a você em vinte libras, de modo que, quando chegou a sessenta, parei, pensando que você poderia ficar aborrecido." - "Bem, aborrecido estou agora", retruca Mindlin. Em 1977, em Paris, num leilão de livros raros, lá estava novamente o grego, que ora pediu muito mais pelo livro do que havia pedido há anos atrás, no Rio. De posse do livro, o bibliófilo volta para o Rio com o exemplar "no colo". Na ponte aérea Rio-São Paulo, ainda no avião, abre a pasta e constata que o livro não estava mais lá! Acredita que adormeceu, deixando o livro cair no vôo Paris-Rio. Ao chegar em casa, disse à Guita, sua mulher: "Sabe o que comprei em Paris? O Guarany", "Não diga!". "É, mas já perdi." Felizmente, Mindlin deixara suas informações na Air France que, três dias depois, lhe informou que o livro tinha fora achado - tinha ido para Buenos Aires, destino final do vôo. Vale a pena a leitura das aventuras bibliófilas de Mindlin. Mindlin partiu mas ficaram seus livros e suas histórias, afinal, nem só de pão vive o homem, mas também de bons livros e boas histórias.

Nota: Uma vida entre livros, Reencontros com o tempo, José Mindlin, EDUSP; Companhia das Letras, 1997.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

E Péricles, o que acharia disso?

Hoje, ouvi muito rapidamente que a Grécia está sob uma greve geral. Pra ser sincero, não prestei lá muita atenção aos problemas dos gregos. Talvez pela distância e por acreditar que, cedo ou tarde, às horas mortas, os deuses hão de se voltar a favor dos gregos e parar com suas brincadeiras de lá do alto do Olimpo. Soube, depois, que a greve que se arrasta fez com que Atenas andasse mais devagar e mais confusa nesta quarta-feira, razão de uma manifestação contra o plano de austeridade do Executivo de Papandreou. Soube ainda que o resultado prático mais visível da greve geral foi apenas acentuar o caos no trânsito da capital. Nada que um paulistano não esteja habituado e, diga-se, sem greve alguma. Na Grécia, o caos estendeu-se aos transportes públicos, serviços de saúde - só funcionaram os plantões de emergência, algumas lojas e agências bancárias que encerraram mais cedo seu expediente, além, é claro, aos aeroportos. Talvez o barômetro que fez com que a notícia se espalhasse mais rapidamente. Diz-se que o Governo grego tem sondagens que mostram que é apoiado, no momento, pela maioria da população. E a inexistência de uma adesão maciça à iniciativa de ontem, em Atenas, pareceu comprová-lo. Esse é um lado da moeda; do outro, os sindicatos, que anunciam uma adesão de mais de 90% dos trabalhadores à greve. Assunto chato, não? Vamos ao detalhe que me deixou curioso: a Acrópole está fechada para visitantes devido à greve. Não deu outra: como num flash vi Péricles se desdobrando para convencer os trabalhadores de que o corte das pedras era de suma importância. Trabalho árduo; o sindicato dos operários das pedreiras era o mais atuante e radical. O nome do presidente do tal sindicato, desconheço, assim como não faço ideia se, já naquela época, essas associações sobreviviam à custa da habitual graninha surrupiada do salário dos trabalhadores. Talvez não, talvez fossem subvencionadas por Címon, político rival de Péricles. Címon, era um homem grandioso que ganhou fama entre o povo ao usar o seu próprio dinheiro para ajudar os atenienses que precisavam de assistência. Talvez distribuisse bolsa família aos operários. Enfim, para contornar Címon, Péricles gastou dinheiro público para construir novos projetos, o que em tese, foi pior que Címon, pois o dinheiro era público, exatamente como se faz hoje em dia, aquém do Atlântico. Mas Péricles não perde seu mérito, já que foi o maior responsável por muitos dos projetos de construção em Atenas, entre os quais, as estruturas sobreviventes da Acrópole e também por ter encarregado o escultor ateniense Fídias, como o supervisor do programa de embelezamento da cidade. Ah, meu Deus! Já havia programas tipo belezura. Lembram-se disso? Ainda assim, louros para Péricles. A greve há de se acabar e as ruínas estarão de novo à mostra. E do belezura, o que ficou? Quem é paulistano sabe: poucas árvores que, pobres, a atual administração faz questão de ignorar. Se não é Deus para mandar a nossa chuva de todo dia...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Vida pregressa; juízos posteriores

Diz o dito popular que espelho não mente. Por culpa dele Branca de Neve embrenhou-se pela mata e refugiou-se junto dos anõeszinhos. Culpa dele também é o sobressalto que a gente leva ao remexer em fotos antigas. O espelho é traidor e enganoso. O reflexo diário dá a falsa impressão de eternidade, de que a imagem ali refletida é permanente e, se altera, a mudança é tão lenta e suave quão imperceptível. De fato, o que está em jogo é a roda do tempo, inabalável, constante e... imperdoável. Nada é perene. Mas deixando a imagem de lado, já experimentou você, leitor, folhear revistas antigas, ainda que sejam de quatro ou cinco anos atrás? É inacreditável a velocidade com que as coisas mudam. Hoje, me caiu nas mãos uma delas. Duas constatações: algumas coisas se alteram muito rapidamente, bem mais que outras, prova de que nem o tempo é imparcial. A lógica parece ser esta: aquelas que mais nos incomodam parecem persistir. Veja-se: em 2004, discutia-se o oportunismo de uma panelinha de políticos que pleiteavam a reeleição para a presidência do Senado e da Câmara. Lá continuam ainda, Sarney, Renan Calheiros e, acreditem, Collor, que fez há tempos sua rentrée na política nacional; falava-se também dos gorós homéricos do presidente, o "cara", enfim, uma história sobre uma reportagem publicada no New York Times que, nota-se, mobilizou a esquerda brasileira a ponto de querer expulsar o jornalista autor da matéria; comentava-se também as juras de amor de Deborah Secco a seu novo amor com direito à tatuagem no pé e tudo; mexicaravam ainda sobre Gisele Bündchen e Leonardo de Caprio. Como se vê o pessoal da política tem tutano bem mais resistente, já a tchurma das artes é volátil, move-se muito mais rápido, hoje tudo está diferente! A tatuagem acredito foi apagada e, no caso dos mexericos, são outros os protagonistas.

Mas, creiam, o que me chamou mais a atenção foi um artigo que encontrei, de 2008, sobre o lançamento do livro Cartas a Favor da Escravidão (Hedra; 160 páginas, em edição organizada pelo historiador e jornalista Tâmis Parron), publicadas originalmente entre 1867 e 1868 como Novas Cartas Políticas, de autoria de José de Alencar. O objetivo central desses escritos - uma série de panfletos endereçados, na forma de cartas públicas, ao imperador Dom Pedro II, que vinha expressando simpatia pela causa abolicionista – era esse mesmo: defender o trabalho escravo, que só o Brasil, na América, ainda sustentava. O autor do artigo diz categoricamente que depois da leitura do livro, sobra pouco do autor cearense, além de afirmar que Alencar era um escritor quando muito medíocre e um ser humano abominável. Alencar, autor do projeto de construção de uma literatura nacional e consagrado como um dos principais autores do romantismo, principalmente pelos romances indianistas Iracema e O Guarani, embora mostrasse conhecido empenho escravista, penso, não pode ter sua literatura minimizada por razões únicas de sua infeliz opinião. Repito: pensamento escravista abominável sim, mas não a literatura, essa é esplêndida. Iracema perdurará como exemplo singular de obra romântica brasileira.

Afinal, quem já não deu suas pisadas na bola? Em se tratando de intelectuais, a história, aos poucos, encarrega-se de fazer uma faxina, seja ela moral ou ética. Convém lembrar que muitos, quando jovens, disseram tolices aos montes e adotaram ideologias que, tempos depois, revelaram-se besteiras homéricas. Muitos se arrependeram, outros persistiram até a velhice em seus equívocos. Machado de Assis, por exemplo, foi censor do Império quando estava no Conservatório Dramático e, diga-se, um crítico rigoroso e feroz. Jorge Amado. Ah, Jorge Amado, para quem não sabe, defendeu Hitler e Josef Stálin. Fez propaganda do nazismo nos anos de 1940; virou redator da página de cultura do Meio-Dia, jornal de propaganda nazista no Brasil. E mais: não só tentava arregimentar intelectuais para a causa nazista - tal qual Oswald de Andrade, como também escreveu um livrinho chamado O Mundo da Paz, inteirinho para adular Stálin. Graciliano Ramos afirmava que o futebol era uma moda passageira e que o esporte combinava com a personalidade "bronca" do brasileiro. Gilberto Freyre, em sua dissertação de mestrado apresentada na Universidade de Columbia, elogiou o esforço dos "cavalheiros da Ku Klux Klan americana" que à época já executava negros, chamando-os de "uma espécie de maçonaria guerreira", criada pelo sulistas contra a humilhação imposta pelos americanos do Norte. Gregório de Matos, longe da fama de escritor beatnik que tem hoje, sobretudo na Bahia, era um dedo-duro. Em 1989, o crítico literário João Adolfo Hansen, da USP, defendeu que essa fama do escritor diz mais sobre a Bahia de hoje que aquela de seus dias. No livro Sátira e o Engenho, o crítico mostra que o poeta odiava negros, pobres, índios e judeus - afinal, o que se esperava de um fidalgo português daquela época. Em seu poema Milagres do Brasil São, Gregório de Matos afirma que ser mulato é "ter sangue de carrapato." Ora, por que então condenar peremptoriamente Alencar? Dê uma chance ao gajo! E fim de prosa.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

P.S. - Se você não compreendeu teu corpo nem meu texto, rent a pig.*

Ao falar de Clarice, dias desses, lembrei-me de Hilda Hilst. Coincidência ou não, há um espetáculo em cartaz sobre a escritora. Ontem, ao ver o espetáculo Hilda Hilst, O Espírito da Coisa, no Teatro Bella, protagonizado pela atriz Rosaly Papadopol, minhas lembranças entraram em ebulição e, quando uma dessas lembranças literárias me vêm à mente, remexo em livros, releio trechos, enfim, faço um exercício de memória. Invariavelmente, me recordo dos porquês, isto é, se a compra foi casual e impulsiva - como comumente me acontece e, acredito, também a todos aqueles viciados em livros, lembro-me da livraria em que estava, com quem estava, talvez um presente e com uma dedicatória tão enigmática quanto os poemas de Hilda"- "... De ares e asas/ Não percebo nada./ Mas atravesso abismos e um vazio de avessos/ Para tocar a luz de teu começo." e etc, etc. Isso mais uma vez me ocorreu assim que peguei um dos Cadernos de Literatura Brasileira, editado pelo Instituto Moreira Salles e dedicado à Hilda Hilst. Durante o espetáculo minhas lembranças começaram a enredar os fios e a produzir tramas. Em determinado momento, a atriz volta-se para o público e dali brota Hilda. __ 50 anos! Escrevo há 50 anos e só agora eles me descobrem! Em outro trecho: ___ 41 livros, já escrevi 41 livros. Ninguém me lê, a crítica diz que o que escrevo é difícil de ser compreendido. "Não entendo por que vocês ficam tristes quando eu digo que abandonei meu trabalho".
Impossível não me lembrar de Stendhal e de Machado de Assis. É só ler o prólogo de Memórias póstumas de Brás Cubas. Lá, Machado relembra Stendhal por ter este confessado haver escrito um de seus livros para cem leitores. Machado, por outro lado, arrisca um público leitor de talvez cinco. Nota-se a angústia que perdura na alma do autor logo após vencida a barreira da página em branco (o mesmo dá-se com Hilda). Como o fio da trama percorre e liga Hilda a Machado, que por seu lado já havia enredado Stendhal? Fácil. Em literatura, existe um mecanismo chamado intertextualidade; embora carregado de diferentes sentidos e utilizado à exaustão até se tornar uma ideia ambígua do discurso literário, apresenta a vantagem de reagrupar manifestações de textos literários e verificar suas ligações e dependências recíprocas, de maneira a sinalizar a presença de um texto em outro texto. Metaforicamente definido por diálogo, trama, tecido, biblioteca, etc., essa manifestação, ao mesmo tempo em que concorre para a tessitura de um novo texto, marcando assim, a construção de sua própria originalidade, se inscreve na genealogia de entrelaçamentos e filiações que ao longo da história permitiu a literatura nutrir-se de si mesma, de sua história.
Enxertos que se mostram no texto referência, citação, alusão, pastiche, paródia, são práticas intertextuais comumente inscritas no repertório da prática literária, cujos traços se agrupam em torno da ideia de memória, a lembrança nostálgica referenciada que leva a literatura a sua própria retomada e com isso se articula, na transposição, com um novo sistema significante, o que resulta em sistema operatório que denuncia a co-presença entre dois ou mais textos. Com isso, tem-se uma trama cujos nós são feitos ora por Stendhal, ora por Machado, ora por Hilst, todos, temerosos da indiferença do público.
Hilda Hilst, acredito, ainda não é conhecida do grande público, permanece ao alcance de algumas categorias marginais de leitores - professores, amantes e estudantes de literatura. A escritora é comparada a Guimarães Rosa e considerada pela crítica especializada como uma das mais importantes vozes da língua portuguesa do século XX. Nascida em Jaú, iniciou na literatura em São Paulo, quando publicou o livro de poemas Presságio (Editora Revista dos Tribunais, São Paulo, 1950). Em 1965 mudou-se para Campinas, onde construiu a Casa do Sol, em terras da fazenda de sua mãe. Ali, Hilda dedica-se exclusivamente a trabalho literário, produzindo mais de 80% de sua obra. Dona de uma linguagem inovadora, escreveu poesia, teatro e ficção e ganhou os principais prêmios literários em todos os gêneros. A Casa do Sol, residência da escritora até sua morte, em 2004, hoje abriga o Instituto Hilda Hilst.
Título: * P.S. - Se você não compreendeu teu corpo nem meu texto, rent a pig. - Cascos & carícias: crônicas reunidas, 1998. - Hilda Hilst.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ouviu o batuque e colocou seu bloco na avenida

Este Carnaval se superou. As escolas são inúmeras, no Rio e em São Paulo. O ritual? Pode-se dizer que é o mesmo: mulatas, muitas mulatas, muitas mulatas loiras - feito Geisy (aquela do vestidinho vermelho), samba e muito batuque, mas muito batuque mesmo, no rádio, na televisão (Ah, meu Deus!) e na rua. Pra ser sincero, o menos ruidoso é o da rua. Aposto, leitor, que deduziu que não gosto de Carnaval. Errou. Acho a festa divertida, encantadora; só meu dou o direito de guardar certa distância, apreciar da janela, às vezes. Da janela vejo outra São Paulo, não aquela da Ponte Estaiada ou das grandes imagens panorâmicas veiculadas pela vênus platinada (dizia-se assim há uma década). Hoje, acreditem, o céu de São Paulo apareceu, na telinha, todo cheio de estrelas. Desliguei a TV e corri para a janela à procura de vaga-lume ou, quem sabe, uma panapaná? Que nada! Da minha janela vejo a praça. Da minha janela vejo a copa das árvores, algumas. Há uma clareira, claro, deixada pela queda de outras tantas árvores que já se foram, aos poucos, com as chuvas intermitentes. Também aos poucos chegam os garotos, em malta. Da minha janela vejo a cola ser irmamente dividida. Da minha janela vejo o crack ocupar o pão na hora da partilha. Da minha janela vejo as escadarias do Viaduto Nove de Julho e nelas as nádegas brancas, negras, pardas e o amarelo, o rosa, o vermelho e o azul das cuecas e calcinhas dos transeuntes que ali defecam emporcalhando o nariz de outros passantes que por ali transitam. Tudo civilizadamente. Da minha janela vejo o bando de garotos se espalhando entre os carros que aguardam no semáforo. Mudo de lugar. Vou para a varanda. Olho para a direita, dois carros de policiais, três deles conversam pacificamente, talvez contando as estripulias dos blocos na avenida; à esquerda, o bando se divide, enquanto alguns se posicionam na faixa de pedestres, abrem os braços e começam a ensaiar, digamos, um sambinha geral, os outros, sorrateiramente, se debruçam dentro dos carros dos motoristas desavisados que, incautos, deixaram-se levar pela alegria do Carnaval. Da minha varanda ouço um sinal de buzina. A polícia, inacreditavelmente, olha para o lado contrário, quem sabe imaginando o quê... Talvez o som tenha partido de um trio-elétrico... Pena que a gente está de farda, senão bem que podíamos nos divertir. Também, essa escala de serviço é de matar! Chega ano passado que trabalhei o Carnaval inteiro. E eu, cara? Fui escalado para plantão na Praia Grande. Você sabe, lá, agora, o bicho pega. A buzina insiste. Um dos policiais se curva para dentro da viatura; ao sair, matava a sede, bebia uma água deliciosamente! A buzina insiste. O grupo da faixa de pedestres continua a sambar. Dois minutos e tudo acaba. O bando desaparece. O farol abre. Confusão. A buzina persiste. Gritos. Os policiais continuam placidamente a conversa. Alguém atravessa a Santo Antônio correndo, gesticulando. Os policiais movimentam-se rapidamente, correm, atravessam a rua e, cinco passos à frente, veem o braço colorido pelo vermelho do sangue, imóvel e apoiado sobre a buzina. O barulho incomoda. O policial afasta o braço de sobre a buzina. Silêncio. Um grito chama por socorro. Nas trincheiras da alegria, alguém morria. Desvio o olhar, vejo as plantas na varanda e, inacreditavelmente, sobre o parapeito, um louva-deus que ouviu o batuque e colocou seu bloco na avenida. Saio e vou para a janela. Da minha janela vejo São Paulo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O índio colonial

"Este livro não quer ser um falso estudo acadêmico, [...], e sim uma provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos." Isto que você acaba de ler, leitor, está na contra capa de um pequeno livro, leve e agradável que me caiu nas mãos. Trata-se do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, do jornalista Leandro Narloch. De maneira irreverente, o autor discorre sobre temas centrais da nossa formação cultural, precisamente aqueles maquiados pela história oficial ou por historiadores militantes, que em determinado momento acharam por bem refazer o traço à sua moda. Não é preciso ir muito longe. Veja-se o noticiário atual. Quiçá daqui há cem ou duzentos anos o adjetivo guerreira que a máquina governamental tenta agora imprimir à imagem da candidata governista não perdurará? Para isso, basta repetir e repetir à exaustão. Já mencionei aqui o lema de Joseph Goebbels, ministro do Povo e da Propaganda de Adolf Hitler, de que uma mentira repetida várias vezes, torna-se uma verdade. Aí, quem sabe, o adjetivo guerrilheira, fruto do passado da candidata, não será mera curiosidade a ser escavada por um jornalista curioso feito Narloch? Mas voltemos ao livro. Ali, o autor provoca ao desenvolver temas como: Zumbi tinha escravos, A origem da feijoada é europeia, Aleijadinho é um personagem literário, Antes de entrar em guerra, O Paraguai era um país rural e burocrático... etc. Por aí tem-se uma ideia da afronta à mens sana da história oficial e do intelectual engajado. Com disse o autor: é pura provocação. Li o primeiro capítulo dedicado aos índios, no qual afirma-se que quem mais matou índios foram os próprios índios, colocando em cheque a ideia vendida de que foram os portugueses os algozes responsáveis pela extinção quase que total dos indígenas. Para isso o autor recorre a estudos recentes de historiadores e estudiosos que se deram ao trabalho de fuçar em Arquivos Históricos e de lá trouxeram dados que realmente dão o que pensar. Veja-se, por exemplo, o caso dos índios: segundo o autor, à época das bandeiras paulistas, a distinção entre bandeirantes paulistas e índios era difusa. Muitos daqueles que chamamos de bandeirantes eram mestiços de primeira geração, pois tinham mãe, tios e primos criados nas aldeias e pareciam mais índios que europeus. Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista, era filho de europeu com uma índia e sequer falava português, assim como quase todos naquela época, pois se comunicavam em tupi-guarani, a língua geral. Narloch cita ainda José de Anchieta que, já em 1565, percebeu que os tupinambás, tradicionais adversários dos colonos, repentinamente se mostraram dispostos a se aliarem aos portugueses. O motivo, segundo Anchieta, era "o desejo grande que têm de guerrear com seus inimigos tupis, que até agora foram nossos amigos, e há pouco se levantaram contra nós." Enfim, o que se pode destacar como dado mais interessante é o fato de que a história oficial afirma que os portugueses reduziram o número de nativos a 10% do original (de cerca de 3,5 milhões, em 1500, para 325 mil) e, ao afirmar isso, se esquecem do índio colonial, que os historiadores oficiais ignoram. Ao menos, jamais ouvi expressão similar de professores em minha época de escola. O índio colonial era aquele que abandonava a aldeia para se estabelecer junto dos portugueses, nas vilas. O índio colonial, personagem esquecido da história brasileira, tem símile exemplar na figura do índio Arariboia, cacique da tribo dos timiminós, que ajudaram os portugueses a expulsar os franceses e tupinambás do Rio de Janeiro. Vencida a guerra, muitos temiminós e tupiniquins foram batizados e adotaram sobrenome português. Arariboia virou, então, Martim Afonso de Souza (em homenagem ao primeiro colonizador do Brasil) e ganhou a sesmaria de Niterói, para onde transferiu sua tribo. Tempos depois, em 1644, Brás de Souza reivindicou ao Conselho Ultramarino o cargo de capitão-mor da aldeia de São Lourenço, valendo-se de seu principal argumento - o nome da família. O pedido foi aceito pelo Conselho pois era "descendente dos Souza que sempre exercitaram o dito cargo"; em 1796, é a vez de Manoel Jesus de Souza pleitear o posto de capitão-mor, e, o mesmo Conselho, autorga-lhe o cargo visto "sua descendência nobre." Passados cem anos, os descendentes de Arariboia já não se viam como índios, eram os Souza e faziam parte da sociedade brasileira. Hoje, muito provavelmente, continuem a se identificar da mesma maneira e sequer têm ideia de que um dia foram filhos de Arariboia. Bem, para encurtar a prosa, o Guia de Narloch rende boas horas de leitura.

Nota: Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, NARLOCH, Leandro; ilustrações Gilmar Fraga, São Paulo: Leya, 2009.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A política torva e sanhuda e a censura lulista

Machado de Assis, ainda jovem, no início de sua carreira jornalística, foi convidado por Quintino Bocaiúva a colaborar para o jornal Diário do Rio de Janeiro. Isso ocorreu lá pelos idos de 1861. No Diário, Machado gozava de relativa liberdade ao produzir os Comentários da Semana, a série de crônicas ali redigida e que, não raro, chegou a substituir o editorial do jornal. Nelas, Machado fala das novidades teatrais e literárias e, sobretudo, de política, assunto que vai absorver o essencial de sua atividade de jornalista a essa época. Acontece que a essa mesma época, houve a aproximação dos liberais e conservadores moderados, com a formação da Liga Progressista e, em maio de 1862, o governo é posto em minoria de um voto. Talvez por isso o Diário do Rio de Janeiro, jornal liberal, em manobra tática, tenha decidido moderar os ataques. O Machado corajoso, idealista, engajado e ativo "se mostrou desgostoso da política, da qual se afastou ou da qual foi afastado", conforme afirma seu biógrafo Jean-Michel Massa. Em crônica de 10.10.1864, Machado retorna ao Diário com uma nova série de crônicas - Ao Acaso, publicada entre os anos de 1864 e 1867. No entanto, nesse novo espaço reservado ao folhetim, onde o cronista fala de literatura e das artes em geral, é possível sentir sua autocensura quando, sem querer, resvala na política. Nessa crônica, por exemplo, é explícito: "Aí vou eu entrando pelo terreno da política tôrva e sanhuda. Ponto final ao acidente."

Ora, hoje, quase um século e meio depois, a tecnologia é enorme, mas acreditem, a censura, tal qual erva daninha, persiste. A liberdade de imprensa convém quando satisfaz a interesses próprios, caso contrário, recorre-se à justiça - que nesses casos não usa aquela venda nos olhos e por isso se mostra nada imparcial, para fazer calar uns e outros que incomodam. Falo da censura ao blog de Adriana Vandoni (http://www.prosaepolitica.com.br/). Ali, a jornalista teve sua opinião censurada pelo atual governo e o leitor pode ver a tarja com o nome do juiz que aplicou a sentença. Até aí, nada de novo, o Estadão também está sob censura desde o escândalo que brotou do feudo do Sr. Sarney e família. Vê-se que sanhuda, ou seja terrível, é também a censura - temível e milenar. Dias desses comentei aqui sobre a destruição de livros, outra forma de censura.

Felizmente, hoje, essa censura sorrateira parece um tiro saído pela culatra que, quando não acerta o pé, vai direto para a cara mesmo. Explico-me, o texto censurado está pipocando na Internet, através de mailings. Por isso, resolvi reproduzi-lo abaixo. Ato solidário porque, afinal, também gosto de falar quando tenho vontade.

Veja abaixo o texto que foi censurado pelo governo Lula.
Publicado por Adriana Vandoni em 10 novembro, 2009.






Já tivemos presidentes para todos os gostos, ditatorial, democrático, neo-liberal e até presidente bossa nova.Mas nunca tivemos um vendedor de ilusão como o atual.
Também nunca tivemos uma propaganda à moda de Goebbels no Brasil como agora. O lema de Goebbels era uma mentira repetida várias vezes, até se tornar uma verdade.
O povo, no sentido coletivo, vive em um jardim de infância permanente.
Vejamos alguns dados vendidos pelo ilusionista.
O governo atual diz que pagou a divida externa, mas hoje, ela está em 230 bilhões de dólares.
Você sabia ou não quer saber?
A pergunta é: pagou? Quitou? Saldou? Não.
Mas uma mentira repetida várias vezes torna-se verdade.
Pagamos sim, ao FMI, 5 bilhões de dólares, o que portanto mostra apenas quão distante estamos do que é pregado para o povo.
Nossa dívida interna saltou de 650 bilhões de reais em 2003, para 1 trilhão e 600 bilhões de reais hoje, e a nossa arrecadação em 2003, ano da posse do ilusionista que foi de 340 bilhões, em 2008 foi de 1 trilhão e 24 bilhões de reais.
Este ano a arrecadação caiu 1% e, olhem bem, as despesas aumentaram 16, 5%.
Mas esses dados são empurrados para debaixo do tapete.
Enquanto isso os petralhas estão todos de bem com a vida, pois somente com nomeação já foram 108 mil, isso sem contar as 60 mil nomeações para cargos de comissão. É o aparelhamento do Estado. Enquanto isso os gastos com infra-esturutra subiram apenas 1%, já as despesas com os companheiros subiram para mais de 70%. Como um país pode crescer sem em infra-estrutura, sendo essa inclusive a parte que caberia ao governo? O PT vai muito bem, os companheiros estão todos muito bem situados, todos, portanto, estão for a da marolinha, mas nós outros estamos sentindo o peso do Estado petista ineficiente, predador e autoritário. Nas áreas cruciais em que se esperaria a mão forte e intervencionista do governo, ou seja, na saúde, educação e segurança, o que temos são desastres e mais desastres, mortandades. O governo Lula que fala tanto em cotas raciais para a educação, basta dizer que entre as 100 melhores universidades do mundo, o Brasil passa longe. Já os Estados Unidos (ETA capitalismo) possuem 20 universidades que estão entre as 100 melhores. O Brasil não aparece com nenhuma. São números.
O governo Lula também desfralda a bandeira da reforma agrária. O governo anterior fez mais pela reforma agrária que o PT, mas claro, esses números não interessam. Na verdade não deveriam interessar mesmo. Basta dizer que reforma agrária é mais falácia do que coisa concreta em beneficio da sociedade. Se querem saber, em todos os países onde houve reforma agrária, logo em seguida se tornaram países importadores de alimento. A ex-URSS, Cuba e China são exemplos claros do que estou afirmando.Mas continuamos com o discurso de reforma agrária. A URSS quando Stalin coletivizou a terra, passou a ser importadora de alimento e consequentemente a ser um dos responsáveis pelo aumento do preço do alimento no mundo. Entendam. Cuba antes da comunização com Fidel, produzia 12 milhões de toneladas de açúcar do mundo, hoje não produz nem 2 milhões. A Venezuela tão admirada por Lula produzia 4 mil kg de feijão por hectares, depois da reforma agrária praticada pelo coronel Hugo Chaves só produz 500 kg por hectares. Mas os socialistas não sabem nem querem saber dessas questões, o trabalho que dá para produzir, para gerar alimentos, isso porque eles tem a sociedade para lhes pagar o salário, as contas e as mordomias, além de dinheiro do contribuinte para colocar comida na sua mesa. Mas eles não sabem nem querem saber sobre o que é produzir, cultivar, plantar alimentos. Pois bem, os companheiros acreditam nos milagres da reforma agrária. Dizem que estão mudando o país. É para gargalhar. Agora incrível, e hoje está mais do que comprovado, que a diminuição dos impostos nos setores de eletrodomésticos fez o comércio e indústria neste setor produzir e vender mais. O aquecimento na venda de carros também surtiu efeito com a redução de impostos. O que fica definitivamente comprovado que imposto nesse país é um empecilho ao Progresso e ao desenvolvimento. Mas o discurso dos petistas é outro. Ou seja, uma mentira repetida várias vezes torna-se verdade.
É o ilusionismo de Lula.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A descoberta do mundo

Antes que você, leitor, diga qualquer coisa, adianto-lhe: o título é plágio. Trata-se do título do livro de crônicas de Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo, que me foi indicado por uma professora muito querida há cerca de dois meses. Esse é um fato. Hoje, ao sair para ir à universidade, aguardava para atravessar uma rua, quando presenciei diálogo que faz jus aquele ditado - as aparências enganam. Duas garotas comentavam o início das aulas. Uma delas, com uma braçada de livros, transpirava sob o sol forte, carinha de inteligente, protótipo de futura intelectual. Confesso: quase me prontifiquei para ajudá-la a carregar os livros. A outra, ignorava o sol por detrás de uns óculos enormes, estilo tela TV de plasma, mp4 ao pescoço, celular última geração nas mãos, calça cintura baixa, enfim, uma adolescente a quem os franceses classificariam de génération Y. Dedução clara: aquela que arfava sob o sol e o peso dos livros, só o fazia porque os tinha em alta conta. Ledo engano o meu quando a ouvi dizer que tinha uma porção de porcaria pra ler. E acreditem, entre as porcarias pude vislumbrar a capa do livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Confesso, doeu-me no coração, me resignei e disse pra mim mesmo em oração: as aparências enganam. Cabisbaixo, saí cantarolando: As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam - Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões, canção eternizada na voz sublime de Elis Regina. Esse foi o outro fato e, dito e feito, quando algo assim me acontece, logo que chego em casa vou fuçar em papéis e anotações para relembrar coisas, reler um poema, um trecho de um livro...
Achei dados sobre A Descoberta do Mundo, primeiro trabalho de crônicas de Clarice, na verdade, seu cahier de voyage ao longo da vida: paixões, histórias, entrevistas, filmes, enfim, tudo o que participou de alguma forma de sua existência. São 468 títulos de crônicas publicadas aos sábados no Jornal do Brasil — certos dias agrupam várias delas, pequenas — entre 1967 e 1973 e, curiosamente, muitas delas poderiam ser republicadas hoje sem que ninguém percebesse a passagem dos anos. Algumas reflexões são atuais e atemporais. O livro é dividido em dias, como se fosse um diário, mas sempre entre realidade e ficção. Esta última, no entanto, revela com fidelidade as incertezas que cercavam sua enigmática personalidade. A vida cotidiana e os acontecimentos no Brasil daquela época permeiam a narrativa. Em meio aos devaneios permanentes que foram marca pessoal da autora, surgem importantes nomes da cultura brasileira e latino-americana.

Clarice foi uma dessas escritoras singulares. Há pouco mais de meio século, os ditos países desenvolvidos, os centrais, sob uma modernidade em expansão, cuja indústria e descoberta tecnológicas atingiam níveis nunca anteriormente vistos, já experimentavam o cansaço de sua narrativa e de sua linguagem, truncadas, carentes de ideias e de força, enfim, padecendo com a ausência de jogos teóricos e narrativos que pudessem, talvez, levá-los mais além. O sangue novo viria então da América Latina, onde a literatura trazia um sopro maior. Entretanto, enquanto países como México e Colômbia respiravam novos ares, o Brasil, permanecia deitado em berço esplêndido, ou seja, mostrava-se impermeável a tudo o que não vinha de si mesmo e vivia em completa autofagia.

Até meados do século 20, o grande nome da literatura brasileira continuava sendo Machado de Assis, ainda nosso grande autor, o que inaugurou o romance psicológico em terras tupiniquins, através de uma narrativa incomum em que as dores da alma, pensamentos e sentimentos são contados de maneira inesperada. Pode-se afirmar, porém, que Clarice Lispector é filha direta e legítima de Machado de Assis e dona de obra misteriosa e ímpar. Li, meses atrás que o influente The New York Review of Books rendeu tributo a Clarice com um ensaio extenso de Lorrie Moore, a jovem deusa do minimalismo. O magnetismo de Clarice, segundo Moore, deve-se em parte aos franceses, sobretudo quando, nas universidades francesas, houve o apogeu dos estudos sobre a mulher. Hélène Cixous, que reuniu parte dos estudos sobre a obra da autora, recorda que, na França, a extraordinária abstração da prosa de Lispector fez com que a vissem como uma filósofa. Quando ela assistiu a um encontro de teóricos sobre sua obra, abandonou a sala na metade da homenagem, dizendo que não entendia uma só palavra do jargão. O fato é que Clarice, com sua escritura, rompia com todas as convenções da arte de narrar e arrancava de cada palavra um tremor secreto, enigmático.

Lembrei-me de Hilda Hilst. Talvez porque, assim como Clarice, que não suportou a tal conferência dos franceses, Hilda, certa vez abandonou o teatro em dia de estreia, exatamente quando um de seus textos era encenado. Segundo o ator que me contou a história, Hilda achou tudo muito chato. Não suportou a ideia de ver o que via em cena e saiu dizendo que não era nada daquilo. Pobre garota dos livros, infelizmente diz ser chato aquilo que desconhece e sequer vai descobrir que Clarice é muito mais que aquilo que levava nos braços.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A burka francesa

Houve épocas ao longo da história em que as pessoas foram bem mais místicas. É bem provável que se debatessem por um pedacinho de osso que considerassem sagrado, isso porque acreditavam que talvez o dito ossinho tivesse sido parte da costela, sei lá, de um daqueles santos que vagavam a pregar pelo deserto. Ou quem sabe de Adão. Por que não? Brigava-se por objetos místicos e míticos - como o Santo Graal, por pedaços de terra e, sobretudo, pelo direito de que a sua crença prevalecesse sobre todas as outras. A verdade, a sua verdade, leitor, naquela época tinha poder de fogo. E fosse você alguém poderoso, sua verdade abrasava todas as demais. De fato, nem precisava ser tão poderoso, bastava influência. Tanto é que a primeira das cruzadas, que na verdade precedeu a Primeira Cruzada, ocorreu em 1096 e foi chamada de Cruzada Popular ou dos Mendigos. Foi um acontecimento extra-oficial e organizada por um tal de Pedro, o Eremita, homem de retórica, cujas pregações comoviam multidões e que conseguiu reunir não só guerreiros, mas também uma multidão de mulheres, velhos e crianças. O bando, composto por milhares, antes de chegar em condições sofríveis em Constantinopla, massacrou judeus pelo caminho, pilhou e destruiu. Detalhe: o objetivo não eram os judeus, mas sim os muçulmanos, a bem da verdade, o intuito era claro desde o início. Nada era dissimulado. Isso foi só o começo. Houve um total de quinze cuzadas, sempre com o mesmo intento: liberar Jerusalém dos muçulmanos e liberar, nesse caso, equivalia a exterminar quem ali estava. Matou-se muito muçulmano e pereceu milhares de cristãos. O contexto histórico era outro, não dá para condenar este ou aquele. Um dado, porém, era claro: não se ficava em cima do muro. Era, ou isto ou aquilo.
Séculos mais tarde começamos a ficar mais hipócritas. Machado de Assis em crônica de 26.02.1893, fala do embate entre "a cruz e a crescente que levaram[ou] atrás de si milhares e milhares de homens", ao comentar as felicitações que o sultão da Turquia enviara ao Papa, por ocasião de seu jubileu. Como diz o cronista, é "Alá cumprimentando o Senhor, Maomé a Cristo".
Hoje, a hipocrisia campeia, está a solta. Socialmente, somos obrigados a posar de politicamente corretos. Não gostamos, mas gostamos, porque, se afirmarmos o contrário, corremos o risco de sermos taxados de reacionários ou de qualquer outro adjetivo excludente e pejorativo. Às vezes, porém, as diferenças culturais tão queridas e exaltadas em países como a França, por exemplo, sofrem uma rasteira. Veja-se o que ocorreu esta semana. O primeiro-ministro da França, François Fillon, assinou um decreto negando a naturalização de um estrangeiro que obriga a mulher, que é francesa, a usar um véu semelhante a uma burka. De acordo com o premiê, já que obriga a mulher a vestir uma espécie de burka, o homem em questão "não merece a nacionalidade francesa". E mais: segundo o ministro da Imigração, Éric Besson (nascido no Marrocos, de origem libanesa), foi constatado que o tal sujeito "privava a mulher da liberdade de sair com o rosto descoberto e rejeitava os princípios de laicismo e da igualdade entre homens e mulheres". Para Fillon, que baixou o decreto, há uma lei que diz que qualquer um que não aceitar os princípios do laicismo e da igualdade entre homens e mulheres terá a aquisição da nacionalidade francesa negada. Enfim, vale a verdade francesa. Condenar a França que já teve a Marianne esculpida à semelhança de Brigitte Bardot? Jamais. O curioso e o que se pergunta é: como um país que produziu Bardot, Channel e tantas outras, consegue, ainda hoje, trazer à baila assunto tão exótico? Ou será que a identidade francesa já não é mais a mesma e está miscigenada a tal ponto que, depois das aventuras coloniais, as diferenças não são mais tão exotiques, mas surgem como ameaça? Uma amiga que esteve recentemente em Paris comentou sobre uns arredores da cidade que estão mais para o Largo da Concórdia, aquele, ali, bem coladinho à Vinte e Cinco de Março, que para seu símile, a Place de la Concorde, situada ao pé da Champs-Élysées.
E a Suiça proibiu, semanas atrás, construções com minaretes em seu solo neutro e, na França, uma comissão parlamentar encarregada de estudar a regulamentação do uso do burka, recomendou a proibição da peça no funcionalismo público e... Bem, é esperar pra ver onde isso vai dar.
Imagens: Place de la Concorde, Paris; Pedro o Eremita, montado num burro, mostra o caminho de Jerusalém aos cruzados (iluminura francesa de cerca de 1270)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Decifra-me ou devoro-te

Conta a mitologia grega que a deusa Hera enviou a Esfinge (monstro feminino a quem se atribuía cabeça de mulher, peito, patas e cabeça de dragão, mas também com asas feito ave de rapina) para atormentar os habitantes da cidade de Tebas. A Esfinge estabeleceu-se em uma montanha, a oeste, nos arredores da cidade. Dali, assolava os habitantes da região devorando os seres humanos que lhe passassem ao alcance. Antes, porém, formulava enigmas aos viajantes. Aquele que não conseguisse decifrá-los era devorado pelo monstro. Um dia, Édipo cruzou com a Esfinge, que lhe propôs o seguinte enigma: “Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois e à tarde tem três?" Édipo respondeu corretamente e a Esfinge ficou tão furiosa que lançou-se de um rochedo e matou-se.
Ora, nesses tempos idos e fantásticos, era necessário um herói para decifrar, muitas vezes, o óbvio. Hoje, o mundo a nossa volta, embora careça de heróis, deve ser decifrado por todos - sem exceção. A chave para o enigma está ao alcance - a leitura, basta dela se aproximar. Não é à toa que Paulo Freire disse que "a leitura do mundo precede a leitura da palavra". Ler o mundo é saber compreender os saberes que acumulamos ao longo da vida. Esses conhecimentos, intrínsecos em nós mesmos, são olhares, sensações, gostos, cheiros, toques, enfim, nossos símbolos, aquilo que de certa forma nos coloca em ligação com nosso espaço e com o outro com quem partilhamos essa nossa visão espacial. É através da leitura de nosso mundo que passamos à leitura da palavra. A leitura da palavra, só adquire significado e significância se vier apreendida em sua relação com a leitura do mundo.

Houve épocas em que a leitura funcionou como instrumento de discriminação. Explico-me: até o início do século XIX, no Brasil, a bem poucos era assegurado o direito à escrita, portanto, à leitura. Os livros eram escassos. Com isso, os poucos privilegiados flanavam sobre a grande massa iletrada. Há histórias e histórias. Ontem, vi a retransmissão de um documentário intitulado Trópico da Saudade, que narra a aventura de Claude Lévi-Strauss, na Amazônia, por volta dos anos 30. Em certo momento Lévi-Strauss, conta o contato que tivera com os índios da tribo dos Nambikwara. Ali dera a um índio um carnet onde o índio começou a traçar algumas paralelas. Dias depois, ao visitarem outro núcleo de indígenas, Lévi-Strauss, como de hábito, levou presentes. Aquele índio quis fazer a entrega e fingiu ler a relação dos presentes sinalizando o que era para quem, numa clara intenção de mostrar aos outros que ele já dominava um código comum ao do antropólogo, o que o colocava acima dos outros.

Lembrei-me, então, de histórias em que a leitura fez a diferença. Em 2008, fez sucesso no cinema, O Leitor (The Reader), de Stephen Daldry, baseado no romance alemão Der Vorleser, de 1995, de autoria de Bernhard Schlink. A história narra a ligação do advogado Michel Berg, nos idos de 1958, com uma mulher mais velha, Hanna Schmitz, até o momento em que ela desaparece repentinamente de sua vida, para ressurgir, anos mais tarde, no banco dos réus de um tribunal de guerra alemão. Hanna era acusada de ter trabalhado para a SS durante a Segunda Guerra Mundial e mais, ser a responsável pela morte de dezenas de judeus. Ela bem que podia livrar-se de tamanha acusação, não fosse o segredo que guardava para si e que considera pior que seu passado nazista, aliás, um segredo crucial para a decisão da corte, o fato de não saber ler. Tivesse ela assumido que as palavras ainda se lhes mostravam enigmas e teria tido pena mais leve.

Outro filme que gira em torno da leitura é o francês La Lectrice, de 1988, uma comédia dramática de Michel Deville. Aqui é Constance, uma jovem que adora ler e enquanto lê, imagina coisas. No filme, Constance está lendo La Lectrice (A Leitora), um romance que narra as aventuras de Marie, uma jovem que ama tanto a leitura que resolve fazer disso sua profissão. Marie, através de um anúncio nos classificados, se oferece como leitora profissional. Clientes aparecem aos montes: um empresário empreendedor, uma viúva de um general, um adolescente deficiente físico, uma menina sagaz... e por aí vai. A leitura, porém, não se revela uma profissão relaxante. As palavras se mostram fortes, adquirem sentidos inesperados - duplos, e estranho poder. Constance se identifica a tal ponto com a personagem do romance que mistura as estações, ou seja, confunde as coisas e se perturba. Fim da prosa: valem os filmes e acima de tudo, vale a leitura, a única maneira de decifrar enigmas.