Revista Philomatica

quinta-feira, 16 de março de 2017

Leitores e leituras: rito e reflexão

Em muitas civilizações o aprendizado da leitura constituía-se algo iniciático. Hoje, reformadores morais citam o exemplo de crianças que imitam a cicatriz de Harry Potter ou usam chapéu de bruxo para reproduzir o ritual de iniciação descrito no livro.
É certo que nos idos em que a introdução à leitura figurava-se ritualística, também isso não era lá uma prática unânime. Demônios e ocultismo sempre vieram à cena para dissimular algo que parte da sociedade, pretendendo-se eleita, sempre tentou restringir: a difusão da cultura e do conhecimento, magia que sempre se mostrou bem mais temerária e eficaz que as ditas poções.
Ao longo dos séculos, livros e autores foram queimados à revelia. Ainda podemos sentir o calor das chamas da grande fogueira da Praça Bebel, ouvir o crepitar das páginas e, em espírito, contemplar o tremeluzir das chamas. Nos dias atuais, mais urbanos, guilhotinam-se verbas destinadas à educação, às universidades, aos museus e afins. Hipócritas, hoje somos afeitos a bordões: ora é pátria educadora, ora é ordem e progresso...
Mas voltemos aos ritos iniciáticos. Conta-se, por exemplo, que na Idade Média, sempre que uma criança ia ser iniciada na leitura, submetiam-na a dois processos: obrigavam-na a lamber uma ardósia besuntada de mel, ou a comer ovos e bolos, sobre os quais versos haviam sido previamente escritos. Ao comê-los, acreditava-se que a criança incorporaria a escrita neles reproduzida.
Tornar-se um leitor é passar por um ritual de iniciação, é atravessar um limiar entre a infância e a idade adulta, entre a ignorância e a sabedoria – e por que não, a loucura? -, entre si e o outro que nos tornamos quando lemos. Sim, porque o livro não só é um objeto peculiar que pode ser incorporado, devorado, mas também um espaço que pode ser sobrevoado e no qual pode-se mesmo mergulhar. E sempre que nele mergulhamos, instauramos uma temporalidade singular. Explico-me:  separamo-nos do curso ordinário do tempo, do cronológico; o leitor passa a viver um tempo separado, dilatado. Não bastasse o ficcional da narrativa, ele é deslocado para uma duração relativa – e diversa – das coisas, onde a ideia de passado, presente e futuro é totalmente perturbada.
Não falo obviamente da leitura orientada para uma prática (receita de cozinha, por exemplo) ou informação (saber as últimas da politicalha), mas daquela leitura cuja essência é a mesma da conversão, ou seja, trata-se de uma experiência intensa, rica, durante a qual o leitor se vê modificado e não somente informado. Não por outra razão muitos falam em arte de ler.
Há uma infinidade de estudiosos que se debruçaram sobre essa arte no intuito de entendê-la mais a fundo. A maioria coloca você, leitor, como protagonista.
Dentre eles, destaco Antoine Compagnon com seu O Demônio da teoria. Em um capítulo dedicado ao leitor, Compagnon ressalta as posições antitéticas dedicadas ao leitor pelos estudos literários. Em certo trecho, aborda a ideia de a leitura se constituir por via dupla: trata-se de um ir e vir em que ora prevalece o repertório do leitor (Iser), ora seus valores e experiências são modificados e alterados exatamente em razão da leitura. Além, é claro, do fato de que, ao realizá-la, o leitor faz com que o texto literário perca sua incompletude (Ingarden).
Numa compreensão livre do texto do Compagnon, sem pretensão a qualquer aprofundamento crítico, chamo a atenção para o fato de essas ideias estarem ligadas à memória literária, à circulação das ideias enquanto mecanismos intertextuais.
Por mais que os estruturalistas tenham insistido no funcionamento neutro do texto e os formalistas clamado por sua imanência, ambos, afastando o intruso leitor empírico, não ressaltam o fato de que esse texto deixa lacunas, falhas e espaços que, sob a rigidez criteriosa de um leitor experimentado, são preenchidas. Ao preenchê-las, é sabido que a leitura caminha para frente, porém, carregada de indícios deixados ao longo do caminho por diferentes leitores, os quais, na condição de scriptors, fazem jus à capacidade de combinarem textos pré-existentes.
Não por outra razão Roland Barthes (1970: 15) afirma: “O ‘eu’ que se aproxima do texto já é em si uma pluralidade de outros textos, de códigos intermináveis, ou mais exatamente: perdidos (cuja origem se perdeu).”[1] 
Mas deixemos Barthes de lado e o clichê da morte do autor que se pode entrever a partir de suas palavras. A discussão proposta por Compagnon restringe-se ao leitor, contudo, este - como vimos - inelutavelmente chega ao texto contaminado.
E, só para ver o quanto você leitor é importante, caso você venha a se deparar com um Borges pela frente, verá que terá que enfrentar uma peleja que não só dá conta da referencialidade (as ligações da literatura com o real: a filosofia, a história, etc.), mas, sobretudo, da referência (o modo como a literatura retoma a si mesma e se reconta através das obras).
Diante disso, ignorá-lo, leitor, relativizá-lo face à imanência textual, parece-me, seria ignorar a memória literária. Mas isso é prosa para outra hora!



 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/





[1] BARTHES, Roland. S/Z. Paris: Éditions du Seuil, 1970.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Bob Dylan e o rock literário

Há tempos, mesmo nas horas mortas quando cismo com as ideias, convivo com o Bruxo de Cosme Velho. Talvez por essa razão tenha certo apreço pela arraia-miúda, a notícia de rodapé negligenciada pela maioria. Nesse instante em que a folha em branco se me impõe como horizonte diante dos olhos e as sinapses escorregam pela memória, lembro-me sempre dos grandes ídolos. Até hoje, confesso, ainda não havia vislumbrado Bob Dylan.
Mas, assim como são os livros que nos escolhem e não nós a eles, o mesmo ocorre com as notícias. Por isso, leitor, vou deixar os comentários que faria a seu respeito para a próxima semana e tratar daquelas notícias ditas superiores.
As últimas novas tratam da nobilitação de Bob Dylan. Sim, Bob Dylan foi agraciado com o Nobel de Literatura. Por aqui, fomos condescendentes, ouvi uns e outros delírios elevando ao reino da hipótese os nomes de Caetano Veloso e Chico Buarque. É possível que se mostrassem fortes concorrentes, mas nosso marketing ainda é restrito à nossa condição periférica.
Na França não se deu a mesma coisa. Pierre Assouline - biógrafo e romancista, recebedor do Goncourt e editor da Revista Lire – esbravejou e disse que a literatura pode ser tudo, menos Bob Dylan. “Dylan, um poeta?”, pergunta-se Assouline. Na melhor das hipóteses, afirma o acadêmico, um letrista, para, logo em seguida, exasperar-se face à comparação sistemática do músico a Rimbaud.
Mas o fato é que Dylan foi nobilizado. E, para a turma do contra, a Secretária Geral da Academia, Sara Danius, explicou a unanimidade que justificou a escolha dos acadêmicos suecos: “Dylan criou novas expressões poéticas na grande tradição da canção”, “Bob Dylan criou uma poesia para os ouvidos, que deve ser declamada” e argumentou: “se pensarmos nos gregos antigos, em Safo, Homero, eles também escreviam poesia para ser declamada, de preferência acompanhada com instrumentos”.  E assim atribuiu-se à guitarra de Dylan uma gênese helênica que remonta seguramente a Lesbos antiga.
Polêmicas à parte, especialistas afirmam que há tempos os americanos ressentiam a falta de um Nobel, afinal, o último veio com Toni Morrison, em 1993. É provável que tivessem em mente Philip Roth, Don DeLillo, Joyce Carol Oates, mas caiu-lhes no ego o Dylan...
Mas e Mr. Dylan? Afora as canções poéticas, escreveu algum livro? Sim, Bob escreveu Tarântula (1966), publicado por aqui em 1986, pela Brasiliense. E, mais recentemente, veio à luz Crônicas, Vol. I, sua autobiografia.
Talvez, assim como eu, você não tenha lido nem um dos dois livros, mas, em algum momento de sua breve existência tenha se deixado levar por Blowin’in the Wind ou The Times They are a-changin’, verdadeiros hinos antiguerra, em particular a do Vietnã, e dos movimentos civis da época, que muita gente por aqui dançou como boa música romântica, sobretudo Blowin’.
Mas não foi esse lado, digamos, pop, que comoveu os acadêmicos suecos: Sara Danius, ao anunciar o prêmio afirmou que Bob se inscreve numa tradição que remonta a William Blake, célebre poeta inglês, morto em 1827, e citou as canções Visions of Johanna e Chimes of Freedom.  
Mas e Mr. Dylan, o que acha disso tudo? Até agora, mistério. Apesar das várias investidas, Mr. Dylan manteve-se mudo, não retornou os contatos de Sara Danius, que, por sua vez, deu-se muito bem, pois emergiu do anonimato à condição de celebridade mundial.

Belas e poéticas canções, mas eu, caro leitor, quando me coloco a pensar, olho para a montanha, lembro-me do profeta, pergunto-me de onde virá o socorro e, logo depois, questiono não só a própria razão de existir da montanha, mas por quanto tempo ainda ela existirá? The answer, my friend, is blowin’ in the wind.  


Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

domingo, 12 de março de 2017

Sobre livros: dois dedos de prosa



Caríssimo leitor,

Você merece toda a deferência. Por isso, antes mesmo que me apresente, desculpo-me por tê-lo feito perder o foco. Digo isso de modo tão rebuscado, pincelado de um respeitoso arcaísmo, porque estou certo de que muito provavelmente estivera clicando aqui e ali, não à procura de garatujas literárias, mas sim à procura de índices econômicos, as últimas notícias do esporte – incensado que foi até há pouco pela mídia possuída de um nacionalismo quadrienal em busca de heróis e medalhas que justifiquem os milhões gastos - ou as novas de nossa política “torva e sanhuda”.
Perdoe-me. Leitor machadiano contumaz, há muito fui picado pela tal da ironia; falando de livros ou de jardins, sempre me ocorre querer ilustrar páginas e canteiros e quando dou por mim já fiz uso da arma dos “céticos e desabusados”, adentrei o barro humano e mudei o rumo da prosa.
Mas voltemos à vaca fria! Não sabe o porquê da expressão? Pois vá lá: para os franceses é revenons à nos moutons (voltemos aos nossos carneiros), cuja origem está na obra medieval, A Farsa do mestre Pathelin. O dito é usado sempre que se quer retornar ao assunto principal da conversa, interrompida por ruídos periféricos. Como a vaca entrou nessa, não me pergunte, só estou certo de que a curiosidade pode render uma boa conversa.
Voilà! Esclareço as pistas deixadas: pesquisador, estudo a presença francesa no Brasil, em especial na obra machadiana. Portanto, nas vezes em que encontrar um ou outro galicismo perdido por entre as frases, veja-o como simples força do hábito ou fruto de leituras quotidianas, jamais uma demonstração presunçosa de erudição que ofenda a “última Flor do Lácio”.
Pois bem, caro leitor, afora o que disse acima, sou afeito a contar histórias. Assim, pretendo que falemos de livros, personagens, narrativas, escritas, autores, leituras, etc. ... e leitores.
Não por outra razão, em nossa próxima conversa penso em tratar um pouco de você leitor. Afinal, o que fez de você um leitor? Aqui, em um exercício de autoplágio (um dia já disse isso em outro texto), pergunto: em que medida você foi movido pelo mais simples dos impulsos humanos, aquela curiosidade, aquela tendência obscura pela bisbilhotice? De fato, isso é o que menos importa. O certo é que nos apaixonamos por histórias inventadas, envolvemo-nos e, ainda que como espectadores, participamos, vibramos e choramos o destino de personagens que nunca existiram. E digo mais, chegamos mesmo a reescrever a vida dessas figuras nos instantes em que preenchemos os espaços e os silêncios que jazem nas entrelinhas à espera do leitor.
Ler é desejo e é prazer. Dito isto, sequer pretendo retomar Barthes com seu célebre O Prazer do texto, mas vale resgatar Bellenger quando afirma que o leitor mantém uma relação fetichista com o livro. Palavras, variações, organização, sentido, música, a beleza da frase e do pensamento são constitutivos desse fetiche. Tudo isso junto e misturado nos leva à leitura de um mundo que reúne Montaigne e Proust, Racine e Hugo, Lima Barreto e Stendhal, Machado e Voltaire. E por aí vai...
Por fim, despeço-me com um comentário de Jean-Paul Sartre:

"Comecei minha vida como hei de acabá-la,
sem dúvida: no meio dos livros."


Texto publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Espigas emprestadas

No ano de 1860, pelas mãos de Quintino Bocaiúva, Machado de Assis entrava para a imprensa. No liberal Diário do Rio de Janeiro, tecia seus “Comentários da Semana”, crônicas que ditavam a tendência do jornal, uma vez que ocasionalmente substituíam o editorial. Ali, tornou-se um crítico severo do governo. Não à toa, Lúcia Miguel-Pereira, autora da primeira biografia crítica do Bruxo de Cosme Velho, ao comentar tal período, chama-o de frondeur.

Em 1862, com a chegada dos liberais ao poder, Machado é “convidado” a deixar o jornal, afinal, a pedra virara vidraça, e, à época, não era hábito atirar nos próprios pés, como insistem em fazê-lo as facções políticas de nossos dias.

Em 1864, Machado volta assinando uma coluna chamada “Ao Acaso”, em que falava de tudo um pouco: teatro, literatura, quotidiano. Ainda que a política não fosse mais a pauta das crônicas, ao comentar um fato qualquer, conversa vai conversa vem, resvalava na dita cuja. Ao fazê-lo, de pronto, corrigia-se - uma espécie de autocensura -, e logo esclarecia seu leitor de que havia adentrado o terreno da política torva e sanhuda.

Mas o que Machado tem a ver com as espigas do título, senão o fato de que o tal “empréstimo” pode ser tão terrível quanto a petulância do mais cínico político que, diante do óbvio, nega-o enfaticamente? Explico-me: vivemos dias difíceis com a polarização das ideias, panelas fazendo-se zabumbas e a manteiga, cara, cedendo lugar à mortadela. Pois bem, as críticas são ácidas e cheias de autoritarismo, sobretudo quando vindas daqueles que bradam por tolerância... mas não entremos pela política torva e sanhuda. 

Falemos das espigas.

Há cerca de quinze dias, um internauta, em uma página do ‘facebook” chamada “Aow mundão véio sem porteira”, publicou o seguinte comentário: “Pegando umas espigas emprestadas”, título para uma foto em que aparecia à beira da estrada colhendo milhos em uma plantação. Comentários e “likes” confirmavam o engraçado da situação, colocando-a na condição de molecagem, brincadeira de criança que sequer suspeita da existência de um troço chamado moral.

Um outro internauta, solitário, sedento de “likes”, não se fez de rogado: trabalhou a própria foto. Nela aparece com os braços cheios de espigas de milho, sobre as quais colocou os seguintes dizeres: “Admita: você já roubou milho verde na beira da estrada! (207 curtidas, 12 compartilhamentos, 74 comentários, 99,9% de apoio e kkkkks)

Ao ver os dois comentários, lembrei-me de um vídeo em que Mario Sérgio Cortella comenta ética e moral. Vamos lá: princípio ético, no caso, não pegar o que não me pertence; moral, a prática de uma ética, portanto, roubar ou não as maledettas espigas.  

Ocorre que muitos desses mesmos internautas, em ocasiões específicas, criticaram - e criticam – a falta de princípios e de moral da nossa cínica classe política. Nota-se que o dedo usado para apontar a nobreza “propineira” é o mesmo que surrupia as espigas. Estas, argumenta um internauta, têm custo irrelevante. Mas e o princípio? E a prática?

Por fim, em meio à política sanhuda e as espigas roubadas, achei mesmo que Diderot é quem tinha razão. O filósofo, ao especular sobre conceitos como o bem e o mal, demonstra que as ideias concernentes à moral eram relativas em conformidade à condição física e à percepção pelos sentidos. Trocando em miúdos: de fato, para alguns, roubo pode ser ou não ser roubo, só depende do valor das espigas – ou do acarajé -, afinal, hoje ele está nas manchetes do dia.

Veja:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=582015081962670&set=gm.1154855847865660&type=3&theater
DIDEROT. Lettre sur aveugles à l’usage de ceux qui voient ; Lettre sur les sourds et muets à l’usage de ceux qui entendent et qui parlent. Paris : GF Flammarion, 2000.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

As borboletas azuis, a leitura e a arte de colecionar memórias


Sobre quais alicerces se funda a leitura? De pronto, me vem à memória uma resposta: o desejo. É claro, esta é só uma das opções. Mas ela é tanto o resultado de uma observação quanto de uma intuição – ou emoção – vivida, e de intuições e emoções constrói-se a memória. Proust, il y avait déjà bien des années, ao mergulhar no chá as petites Madeleines foi tomado por um prazer delicioso a ponto de afirmar que havia cessado de se “sentir medíocre, contingente, mortal”. Da efusão do espírito às efusões de chá ou de tilleul, oferecidas pela Tia Léonie, foi só um lapso.

Você, leitor, hoje acostumado às honestidades contadas às desbragadas, tão reais quanto à ficção proustiana, muito provavelmente já se cansou dessa e outras historietas. Mas, para quem faz dos livros o garfo que leva o alimento à boca, não só o gosto, mas o cheiro e a visão podem fazê-lo voltar no tempo em átimos. E justamente por isso a leitura torna-se algo místico. Ler, então, tem a capacidade de fazê-lo clandestino, de abolir o mundo a sua volta e de deportá-lo para o interior da ficção, do imaginário. Ler, num sentido figurado, é fechar-se em si mesmo, é estabelecer uma ligação pelo tato, o olhar e a audição, porque, sim, as palavras ressoam, ecoam nos ouvidos, às vezes, por horas a fio, às vezes, anos. Aí você lê com o corpo e a leitura é uma ocasião para amar, porém, aos poucos o desejo desaparece e ler vira prazer (Barthes que o diga).

Ler, torna-se uma aventura intensa, plena de emoção; e emoções são suscetíveis a Madeleines, chás e borboletas. Borboletas? Sim, borboletas azuis! Confesso, há muito não tenho provado Madeleines, mas as borboletas têm sido presentes. Há dias, em Tiradentes, com a câmera à mão, na tentativa de registrar a paisagem rural, uma borboleta me flanava em torno. Vi naquilo presságio de boa sorte. O lepidóptero, misterioso, não se deixou registrar. Nas raras vezes em que pousou em uma folha ou outra, fechou-se em copas e o azul das asas tornou-se invisível. Era como se estivesse destinado à beleza post-mortem, no caso de algum colecionador expô-lo à apreciação.

Dias depois, contemplando as ruínas da Ermida do Guaibê, outra borboleta furtou-se à lente, movendo-se rapidamente e impedindo o foco que pudesse eternizar o azul. Observei-as e, num estalo, descobri que eram tão sinestésicas quanto as Madeleines. Ambas as borboletas me fizeram retroceder à adolescência, quando colecionava os “Grandes Sucessos” da Abril Cultural e deparei-me com John Fowles.

John Fowles, professor inglês, surge no cenário literário em 1963 com O Colecionador. A obra é densa – e tensa. Nela, Fowles, narra a história de Frederick Clegg, mórbido funcionário do Anexo da Câmara Municipal que, ridicularizado pelos colegas de trabalho, diariamente observa a bela Miranda, moradora de frente ao Anexo.

Nas primeiras dez páginas, o leitor tem à mão a gênese de Clegg, jovem introspectivo, abandonado pela mãe, órfão de pai, criado por sua tia Annie e seu tio Dick, de quem adquire o gosto de colecionar borboletas. Contudo, Clegg vê sua vida alterar-se repentinamente quando ganha uma quantia vultosa na loteria. Demite-se do trabalho, passa algum tempo satisfazendo os interesses da tia e da prima e, logo após patrocinar a viagem delas para a Austrália, começa a arquitetar seu plano: aprisionar Miranda.

A paciência e a acuidade apreendidas com a lepidopterologia, ajudam-no ao longo do projeto. A escrita cativante de Fowles faz com que o leitor adentre vagarosamente na consciência das personagens antagônicas: de um lado Clegg, frágil, introvertido e inseguro, que julga ser incapaz de ser aceito pelos outros - e sobretudo de atrair a atenção de qualquer mulher -, do outro, Miranda, a bela e inteligente estudante de arte, capciosa e segura, cujas ideias são revigoradas pela influência de G.P., artista que admira e com quem mantém contato.

O livro divide-se em quatro partes: na primeira delas, o monólogo de Clegg, suas impressões sobre si mesmo, sobre Miranda, o desenrolar de seu plano, o sequestro e o dia-a-dia com seu amor platônico; na segunda parte, Miranda escreve seu diário, onde relata suas impressões sobre Clegg e suas sucessivas e frustradas tentativas de fuga; na terceira, o desenlace da genial história arquitetada por Fowles e, por fim, a quarta parte, em que o leitor confirma a psicopatia de Clegg.

Em suma, uma bela história, plena de entrechos que confirmam a assertiva de parte da crítica em relação a Fowles, qual seja, a influência de Camus e Sartre em sua obra, além de considerá-lo uma ponte entre a literatura moderna e a pós-moderna.

Num desses entrechos, Miranda, reflete sobre os protótipos de classe e as diferenças, contrapondo-se a Clegg, a quem chama de Calibã (daí o calibanismo):


Por que razão devemos nós tolerar tão horrível calibanismo? Para que terão de ser martirizadas todas as pessoas criadoras e vitais, as verdadeiras boas pessoas, pelo fantoche universal?
Eu sou uma boa representante dessa situação.
Mártir. Estou fechada; não me posso desenvolver, crescer. Estou à mercê desse ressentimento, desta odiosa inveja dos Calibãs do mundo. Porque todos eles nos odeiam, odeiam-nos por sermos diferentes, por não sermos eles, por eles próprios não serem como nós. Perseguem-nos, abafam-nos, afastam-se de nós, troçam de nós, tentam não nos ver nem nos ouvir. Fazem todo o possível para evitar respeitar-nos e mesmo reconhecer a nossa existência. Admiram e até adoram os nossos maiores, depois de eles morrerem. Pagam milhares e milhares pelos Van Goghs e pelos Modiglianis que teriam desdenhado, quando eles ainda viviam. Nesses tempos, troçavam deles, chegavam a difamá-los.
Odeio-os.[1]



No meu caso, leitor, sequer precisei das Madeleines; bastaram-me as borboletas em voo e uma antiga capa de livro.




[1] FOWLES, John. O Colecionador. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Quotidiano

Segunda-feira de manhã, em Sampa.

7h00: abro a janela e, mais uma vez, imprimindo à espiadela matinal um caráter rotineiro, desvio o olhar à procura de um fragmento da Serra da Cantareira, essa estreita faixa verde no horizonte que ainda me é permitida contemplar por entre a grande muralha de concreto. Obra de uma multidão de arquitetos egocêntricos e benevolentes que, numa versão medieval estilizada, elevam-na cada vez mais ao céu; às vezes, suas altas torres me impedem de apreciar até mesmo as nuvens carregadas pelo vento, cujas formas díspares se transformam ao sabor da imaginação (hábito que não perdi) e, num átimo, levam-me de volta à infância.

Num movimento vertical, meu olhar se escorrega para o chão, hoje um asfalto duro e resistente à vida. Lá, na direção de minha janela, por onde dou asas aos pássaros brancos das nuvens, jaz um corpo estendido no chão. Não, ao pular do viaduto, não morrera na contramão como diz o poeta. Mas, ainda assim, atrapalha o trânsito. Impacientes, os motoristas descansam a mão em suas buzinas, porém, ao se aproximarem, silenciam-se, talvez num ato de contrição diante da finitude, penso. O sangue destaca-se no preto do asfalto e ironicamente traz certa umidade à seca da cidade, escorrendo para o lado e desenhando um mapa hidrográfico onde se vê um traço profuso e caudaloso partindo da cabeça, fazendo deste um grande rio que se desdobra em múltiplos afluentes, tal qual o Meschacebé de Chateaubriand.

Momentos depois colocam sobre o corpo um papel laminado e de cor prata, trazendo forçoso brilho à tragédia e destacando de modo involuntário o pequeno relevo em meio à avenida, agora atrativo aos transeuntes que, diferentes dos interioranos, não mais reservam pequenos sinais sagrados para essas ocasiões, mas, munidos de nova tecnologia fotografam, escolhem melhores ângulos e filtros e, muito provavelmente, publicam. O anônimo tem lá seus quinze minutos de fama. O que quer que a vida tenha lhe negado, persiste. Destituído de qualquer individualidade, torna-se simples pano de fundo para o ‘selfie’ de um passante mais despreocupado.


O corpo jaz estendido no chão até pouco antes das onze da manhã, quando uma van com três discretas letras em cor verde grafadas em minúsculo – iml – encerra o espetáculo, deixando sobre o asfalto apenas um rastro em vermelho que agora sim pode ser identificado por Michelin, Pirelli, Firestone, Goodyear... Retirados os cones e liberada a avenida, os veículos avançam multiplicando os rastros e proliferando as marcas. A cidade, qual uma esfinge, sequer move seus olhos diante da vida que se esvai. E a morte continua...

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"A fronteira porosa entre ficção e realidade"

A filosofia, sobretudo, há tempos tem-se debruçado sobre uma questão que intriga o pensamento humano: como delimitar a fronteira entre ficção e realidade? Lembro-me, por exemplo, de um relato em que Umberto Eco comentava sobre uma pesquisa realizada em Londres, na qual um quarto das pessoas entrevistadas acreditava que Churchill e Charles Dickens eram personagens imaginárias, ao passo que Robin Hood e Sherlock Holmes haviam de fato existido. Isto sem falar, é claro, na habilidade de todo grande artista em disfarçar a realidade; disfarce, aliás, que talvez dê início - e sentido -, à discussão. A arte da pintura, a fotografia e o cinema trazem hora ou outra a ilusão de realidade e a sensação de "realismo" apodera-se do apreciador e ou espectador, embora este saiba estar frente à ilusão. Como então "transmitir" o real se mesmo na realidade das imagens, às vezes, há muito de ficção? Tome-se um documentário: não raro nos deparamos com relatos "fabricados" em que a "história real" é subjugada à leituras várias, por exemplo, fazendo com que, por meio deste desvio, a realidade ganhe viés ficcional. 
Pensando nisso, resolvi reproduzir a criativa e deliciosa crônica de José Ribamar Bessa Freire, publicada em 24/8/2014, no Diário do Amazonas. "A fronteira porosa entre ficção e realidade", descaradamente roubei de Bessa Freire, que é real e existe - ao menos há um Lattes disponível na rede contando sua pregressa vida intelectual. Boa leitura!

Thiago de Mello existe?[1]

O que é fato e o que é invenção? Há três anos, o escritor Milton Hatoum deu conferência magistral sobre a fronteira porosa entre ficção e realidade na abertura do V Encontro de Letras em Campos dos Goytacazes (RJ), cujo tema era territórios da memória. Tive a sorte de ouvi-lo, porque os organizadores também me convidaram para falar sobre a história da língua e sua relação com a identidade. Fomos juntos. No caminho, na estrada, relembramos fatos vividos desde 1981, quando nós dois, amazonenses, nos conhecemos - incrível! - em Paris, num jantar na casa do escritor peruano Julio Ramón Ribeyro.
Mas a história inacreditável que Milnton Hatoum narrou para um auditório lotado que se deslumbrou, essa eu não conhecia. Foi assim. Quando ele era professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em 1984, foi procurado pelo conhecido jornalista inglês, Bob Misleading, da BBC, que preparava reportagem sobre o cientista britânico Joseph Oversea, assassinado por um índio, em meados do século XIX, nos arredores de Manaus.
Milton conhecia muito bem relatos de vários naturalistas que viajaram pela Amazônia, mas nunca ouvira falar naquele nome:
___ Joseph Oversea? I don't know.
Bob explicou que o cientista era desconhecido porque era gay e viveu em plena era vitoriana. Por isso, foi censurado pelo puritanismo dominante e condenado ao anonimato. A rainha Vitória, nos 64 anos de seu reinado, manteve-o no ostracismo, apagou-o dos arquivos e até proibiu a publicação do seu livro, onde havia um desenho a bico de pena que retratava uma cachoeira em Manaus.
___ Quero localizar esta cachoeira, que é o túmulo do Oversea, morto em 1850, com uma flecha que lhe perfurou o coração, atirada por um indio Passé - disse Bob, exibindo para Milton a gravura dentro do livro. Acrescentou que a reportagem que preparava para a BBC era a forma de tornar conhecido o injustiçado cientista.
Não foi tarefa fácil. Hatoum conhece bem Manaus, mas a cidade mudou muito depois de século e meio de história. De lá pra cá, igarapés foram aterrados, rios morreram e viraram esgoto, ruas ocuparam o lugar da floresta, carros substituíram canoas. O escritor convidou o jornalista a percorrer os bairros em busca de cachoeiras. Passaram pela Cachoeirinha na terceira ponte, visitaram o Tarumã, o Mindu, as Pedreiras, observando tudo, até que na subida do bairro de São Jorge, se detiveram na Cachoeira Grande, que serviu ao primeiro sistema de captação de água de Manaus.
___ Foi aqui - gritou Hatoum, animado.
O jornalista Bob Misleading confirmou, depois de comparar a paisagem que via com a gravura antiga. Fez, então, ali mesmo, várias tomadas para a BBC: shotstakes and the devil at four. À noite, jantaram uma costela de tambaqui no Canto da Peixada. O gringo, que era chegado numa cachaça, emborcou dez caipirinhas. Chegou no hotel catando cavaco. No dia seguinte, voltou para Londres, Milton foi dar aulas na Universidade e os dois não se falaram mais.
Cinco anos depois, Milton Hatoum decidiu fazer uma biografia do naturalista assassinado. Entrou em contato com uma amiga que morava em Washington, pedindo que buscasse dados sobre Joseph Oversea na Biblioteca do Congresso, que tem TUDO o que foi publicado no planeta terra. No entanto, no acervo com 160 milhões de títulos, entre os quais 40 milhões de livros catalogados e 70 milhões de manuscritos em mais de 500 idiomas, nada havia sobre o mencionado cientista. Nem uma vírgula. A férrea censura vitoriana tinha sido eficaz. 
Intrigado, Hatoum viajou a Londres e procurou o jornalista no endereço da BBC, em Portland Place, mas Bob havia sido demitido. Uma secretária chamada Scarlett forneceu o telefone da Bloomberg TV, onde ele agora fazia uns bicos. Marcaram um encontro num pub em Portobello Road, no bairro Nothing Hill. Lá, numa taverna hash house, que é o nosso popular dirty foot, Milton falou de seu projeto literário e perguntou onde podia consultar documentos relativos a Oversea. A resposta foi uma gargalhada de Bob, que continuava cachaceiro e já estava na décima dose de dry gim:
___ Milton, eu não te falei? Joseph Oversea foi uma invenção minha, eu criei o personagem e a história.
___ Mas eu vi a cachoeira. E a imagem da cachoeira?
___ Ah, essa foi uma gravura que retirei do livro A narrative of travels of the Amazon and Tio Negro, do botânico Alfred Russel Wallace.
O auditório, hipnotizado, escutava Milton Hatoum, que discorreu sobre a ambiguidade entre o real e o ficcional sempre presente na literatura. Comentou que um texto ficcional não é um relato factual do que aconteceu, mas aquilo que poderia ter acontecido, que explode na consciência e na memória do escritor e toma forma de discurso. Concluiu sua conferência com frase de impacto:
___ Oversea não existia, mas passou a existir depois que Bob o inventou e existe agora para vocês, neste momento em que acabo de contar sua história.
O público aplaudiu efusivamente o conferencista, grato pelo sopro que deu vida a Oversea. Fiquei tão maravilhado, achei tão engenhosa a forma de expor a questão que saí repetindo a história em minhas aulas, nas rodas de conversa e nos mares da vida. Um mês depois, viajo a Brasília e encontro lá Thiago de Mello, para quem faço um resumo da conferência, ainda embriagado de entusiasmo. O poeta me ouve com um sorriso moleque e quando termino diz:
___ O Milton já tinha me contado. Mas ele não te falou que esse jornalista da BBC também não existe? Nunca existiu, nem o cientista, nem o jornalista. Ambos são personagens do Milton Hatoum, essa história nunca aconteceu, é tudo invenção do escritor.
Fiquei maravilhado ainda com esse final e o incorporei à narrativa que costumo fazer em sala de aula. Numa das vezes, uma aluna me perguntou:
___ Professor, e o Thiago de Mello? Ele existe mesmo?
Com o espírito do Milton Hatoum, respondi que se o Thiago de carne e osso existe, eu não sei e também não importa. Sei que ele é um personagem, uma invenção dos cabocos amazonenses e dos leitores espalhados pelo mundo, incluindo a própria aluna perguntadora, que conhecia de cor e salteado "Os Estatutos do Homem" traduzido para mais de 30 idiomas. Thiago de Mello existe porque é lido com prazer e, agora, aos 88 anos, surge como candidato a uma vaga na Academia Brasileira de Letras que nunca abrigou um amazonense e, portanto, não será inteiramente brasileira, enquanto uma de suas cadeiras não for ocupada por um caboco suburucu popa de lancha, bandeira azul.
P.S. - Como o tema se prestava para tal, preenchi com a imaginação as lacunas da memória sobre a conferência, que foi efetivamente dada em outubro de 2011, em Campos. Invoco o testemunho do próprio Milton e da professora de literatura brasileira da Universidade Federal Fluminense, Stefania Chiarelli, presente no carro na viagem para Campos e que também deu sua conferência sobre o seu livro Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum, publicado em 2007. O referido é verdade e dou fé.

[1] Esta crônica também está publicada no site oficial de Bessa: http://www.taquiprati.com.br
http://www.taquiprati.com.br
Imagens: Extraídas de: http://www.taquiprati.com.br

sábado, 23 de agosto de 2014

Non Plus: Revue académique dédie dossier au XVIIIème siècle français

Conçue par les élèves du programme d'Études Approfondis en Linguistique, Littérature et Traduction, du Département de Lettres Modernes, de la Faculté de Philosophie, Lettres et Sciences Humaines (FFLCH), de l'Université de São Paulo (USP), la revue Non Plus est une publication semestrielle, diffusée exclusivement en ligne, publiant des travaux d'enseignants et d'étudiants universitaires des disciplines associées à la littérature et aux sciences du langage concernant la langue et la culture française et / ou francophone. 
La revue accepte également la soumission de traductions de textes dans le domaine public concernant les champs couverts par la revue, des critiques de livres, thèses et mémoires (pour avis de thèses et mémoires, l'auteur aurait dû participé du jury de la soutenance); et même les rapports d'expérience en enseignement, à condition qu'ils soient placés dans une activité de recherche scientifique et dans le cadre de l'enseignement de la langue ou de la littérature française et /ou francophone.
En outre, pour ce sixième numéro nous aurons un dossier consacré au XVIIIème siècle français, raison pour laquelle nous invitons les enseignants et les étudiants (y compris ceux de licences, master et doctorat) à soumettre des articles portant sur une recherche en cours ou sur les résultats d'une recherche terminée. À noter que les projets de mémoire ou de thèse ne sont pas acceptés pour le dossier.
Articles et résumés doivent être envoyés à l'adresse http://www.revistasusp.usp.br/nonplus, jusqu'au 15 (inclus) septembre 2014 (Vous devez vous inscrire en tant qu'auteur sur le site). Un accusé de réception vous sera envoyé. Les personnes dont les articles seront acceptés pour la publication auront par la suite un délai (à être défini) pour en remettre une version avec les dernières modifications. La mise en ligne du 6e volume de la revue est prévue pour la fin de décembre 2014.
Nous profitons de cette occasion pour vous inviter à exploiter les numéros antérieurs sur http://www.revistas. usp.br/nonplus/issue/current et à apprécier notre page sur Facebook: https://www.facebook.com/nonplus.revista
Et, si vous avez des questions, n'hésitez pas à nous contacter, écrivez à nonplus@usp.br ou envoyez-nous un message sur notre page Facebook!
Au plaisir de vous lire!

Image: Une Soirée chez Madame Geoffrin par Gabriel Lemmonier. 

Non Plus: Revista dedica dossiê ao século XVIII francês

A Revista Non Plus, publicação eletrônica semestral dos alunos do programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês, do Departamento de Letras Modernas, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, abre inscrição de artigos para sua sexta edição.

Chamada para submissão de trabalhos: (Dossiê temático: Século XVIII francês)






Temos o prazer de convidá-los a submeter trabalhos para o número 6 da Revista Non Plus (ISSN: 2316-3976), publicação eletrônica semestral dos alunos do programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês, do Departamento de Letras Modernas, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP).
Serão aceitos para submissão artigos de temática livre e caráter teórico que contemplem os segmentos de Didática, Estudos Literários, Crítica Literária, Língua Francesa e Tradução, relativos à língua e cultura francesa e/ou francófona.
A Revista também aceita a submissão de traduções de textos em domínio público relativos às áreas abordadas pela revista; resenhas de livros, teses e dissertações (no caso de resenhas de teses e dissertações, o autor deve ter participado da banca de defesa ou qualificação); e ainda relatos de experiência didática, contanto que estejam inseridos em uma atividade de pesquisa científica e no contexto do ensino de língua ou literatura francesa e/ou francófona.
Neste número 6 teremos um dossiê dedicado ao SÉCULO XVIII FRANCÊS, com destaque para a literatura, cultura e experiências político-científicas que marcaram o século das Lumières. Para tanto, desde já convidamos alunos e professores a submeterem seus artigos.
No intuito de fomentar o diálogo entre as várias etapas da vida acadêmica, aceitamos a submissão de artigos de alunos de graduação, de pós-graduação, de professores e demais pesquisadores.
Os artigos deverão ser submetidos pelo site até 15 DE SETEMBRO, sempre através do endereço: http://www.revistas.usp.br/nonplus. (É necessário cadastrar-se como autor.) O número tem publicação prevista para dezembro de 2014.
Lembramos ainda que os autores devem observar as normas de publicação disponíveis no endereço: http://www.revistas.usp.br/nonplus/about
Contamos com a ajuda de todos na divulgação dessa chamada.
Aproveitamos para convidá-los a apreciar os números anteriores da revista, no endereço: http://www.revistas.usp.br/nonplus/issue/current. E a "curtir" nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/nonplus.revista
Quaisquer dúvidas, escrevam para nonplus@usp.br ou mandem-nos uma mensagem em nossa página no Facebook!

Não perca também a oportunidade de ler o número 4 da Non Plus, com um dossiê dedicado a Pascal Quignard no site http://revistas.usp.br/nonplus


Imagem: Une Soirée chez Madame Geoffrin par Gabriel Lemmonier. Extraída do Google Images.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

A perversão da leitura

Não é nenhum absurdo afirmar que o grupo de leitores continua bastante reduzido. Em minhas últimas garatujas, retomei certo articulista que afirmara ser de no máximo seis minutos o tempo dedicado à leitura no Brasil. E, embora as livrarias estejam apinhadas de pessoas (leitores?), não é claro que tenham contribuído para a melhora do índice. Bem, pergunta-me você leitor, qual índice? Sei lá, o índice que aponta a quantidade de almas que leem; afinal, talvez ainda acredite na sacralidade do livro, este objeto que encerra verdades que escapam aos homens. Também só me lembrei disso por causa das minhas leituras e, como o velho adágio afirma que quem conta um conto aumenta um ponto, escorreguei-me para o intertextual e, de repente, ouvi a fala de Jean-Claude Carrière saltar das páginas e me contar sobre um filme de Laurel e Hardy, suas personagens prediletas. Pois bem, segundo Carrière, Laurel afirma alguma coisa e Hardy, refuta-o, perguntando se tem certeza do que acabara de dizer. Laurel, crédulo, responde: "Tenho, li num livro."
O mesmo se deu comigo: acreditei no dito articulista e agora quando alguém me diz que passou quinze minutos com os olhos pregados em uma página qualquer, já olho para esse alguém com certa intimidade, correndo até mesmo o risco de ser mal interpretado! 
Mas não nos menosprezemos! Umberto eco, há pouco mais de cinco anos, afirmara que em se tratando de leitura, a Itália situava-se imediatamente antes de Gana. Eu acreditei! Acreditei porque li num livro e também porque acho que em Gana há poucas livrarias - e bibliotecas -, lugares onde os ingleses, por sua vez, preferem ir à busca de livros.
Na Itália - como aqui -, jornais e revistas esporadicamente usam o artifício de "presentear" seus leitores com livros (e ou CDs e filmes), talvez na tentativa de atribuir certa credibilidade a periódicos já há muito abandonados pela genuína e imparcial reflexão. As revistas e jornais teimam em imitar a TV ao confundir, ideologizar e relativar as sinapses de seus pobres leitores - e ou expectadores. No caso, tem-se articulista e leitor, ambos, pervertidos: o primeiro, no sentido de que se corrompe ao se deixar levar pelos interesses da política "parva e sanhuda", vendendo sua alma ao diabo e esquecendo-se de toda e qualquer imparcialidade; já o leitor, perverte-se porque ao dar crédito à letra impresa, desmoraliza-se, às vezes, por pura imprudência.
Mas não é essa a perversão que tinha em mente. Pensara na devassidão, na depravação e nos desvios de comportamento que nos levam para longe da realidade, do certo e do errado (se é que, de fato existem) e nos conduz a uma decadência moral e a um gozo tão excitante quanto o prazer que nos proporciona Iago, mesmo quando nos dá calafrios ou apequena o Satanás de Milton, ou ainda quando nos deparamos com as peripécias de Brás Cubas, o defunto-autor. Para os depravados, a lista é imensa: Proust, Cervantes, Dante, Montaigne, Voltaire, Machado de Assis...
Essa perversão só a leitura provoca...
A devassidão, porém, não é casual, mas dá-se também pela constância; algo como a ninfomania ou o priapismo, portanto, pervertido é aquele leitor que vive com seu livro na bolsa, abre-o tão logo - e milagrosamente - consiga um lugar no metrô para se sentar, ou ainda quando se encosta nos pontos à espera de um ônibus. No ônibus mesmo, impossível. Falo de São Paulo, claro, onde os ônibus não rodam, mas sim trotam, tornando proeza aos olhos aprisionar as palavras que saltam das páginas feito pipoca quando estoura na panela.
A perversão configura-se então naquele senhor que, nos anos 80, se sentava na estação de metrô Hôtel-de-Ville, colocava ao lado quatro ou cinco livros, esquecia-se dos transeuntes, perdendo-se intermitentemente em uma ou outra história à medida em que mudava de livro. Fazia isso por semanas a fio, interrompendo sua leitura diária apenas para almoçar e, às seis da tarde, quando terminava uma rotina semelhante à de qualquer operário. Segundo Carrière, de quem roubei o relato, este senhor lia de tudo: romances, história, ensaios. Vê-se, a partir disso, que o pervertido não tem lá muito critério. O que lhe cair nas mãos é proveito, ganho, algo libidinoso.
A libido, esta, é complexa! As taras, tal qual o gosto daquele senhor do metrô, são várias, prova de que nem todo mundo goza com as mesmas leituras. As razões são diversas: alguns, masturbam-se com Marx e se esquecem da estética pura e simples ao ler Shakespeare; outros, a exemplo dos surrealistas, são seletivos e criam listas (Breton) de quem se deve ou não ler: leiam Rimbaud, Hugo, Rabelais; não leiam Verlaine, Lamartine ou Montaigne, e por aí vai...
Há ainda os que não querem saber nem de uma coisa e nem de outra: deixam para a Escola dos Ressentidos a harmonia social e a luta de classes e a estética para 'as elite' e se enchafurdam nos ditos libertinos. Sade, o grande representante, soa profético! Isso sem falar nesses "livres qu'on ne lit que d'une main" (livros que se leem só com uma mão), deliciosa especialidade do século XVIII.
Como se vê, Dante é que tinha razão, quando, ao arrumar o Inferno, nos colocou no nível oito abaixo no oitavo círculo, bem pertinho de Satanás.


Imagem: RESTIF DE LA BRETONNE, Nicolas Edme. Histoire de Madame Parangon. GIRARD, Daniel (Illustrateur), extraída do site: hhttp://www.librairie-curiosa.com/2013_12_01_archive.html?zx=da4ac2f6eecfbe53    

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A "simplificação" d'O Alienista e a "mão forte" do David de Michelangelo

Algumas polêmicas como La querelle des anciens et des modernes e controvérsias como La querelle sur la poésie La querelle sur Racine foram objeto de inúmeros debates e injetaram ânimo às discussões. Há casos - como o problème Molyneux -, em que uma simples indagação respondeu por centenas de páginas escritas, respingando, mais de um século depois - via Diderot -, no Brasil oitocentista, quando Machado de Assis colocou lenha na fogueira que Paula Brito armara nas páginas d'A Marmota (1858), naquilo que se tornaria conhecido como Polêmica dos cegos.
Hoje, vivemos tempos em que tudo deve ser mais palatável, as palavras devem ser ruminadas por aquele que escreve e depois regurgitadas de forma bem simplesinha para que o leitor possa "captar a mensagem". Mas, pergunto, devemos nos pautar por essa regra, sempre? Não há aí um certo nivelamento por baixo? Alguns acreditam que assim é que deve ser, afinal vivemos em "um país em que metade da população não leu uma só página de livro nos últimos três meses e a média de tempo dedicado à leitura por dia é seis minutos", retomando Danilo Venticinque, articulista da Revista Época, em artigo que menciona uma crítica brasileira reclamona que intermitentemente ressurge das catacumbas com seus purismos[1], mas não trata da diferença entre adaptação e simplificação.
Bem, mas por que tudo isto? Porque neste final de semana[2] estive presente em um debate sobre a simplificação dos clássicos, onde se tentou, mais uma vez, emergir a polêmica de sob a poeira. Ali, numa conversa interessantíssima com as professoras Guaraciaba Micheletti e Helena Gomes, os presentes souberam que a adaptação contempla - e funciona - , sobretudo, através da transposição entre gêneros  - e como forma de suporte -, casos em que uma releitura para o cinema e a televisão leva a repensar o clássico e, quiçá, desperta a curiosidade, captando, assim, novos leitores, ao passo que a "simplificação" se insere no que chamamos mutilação [3]
Dada a quantidade de pessoas - e opiniões -, notou-se claramente que nem de longe o assunto está fadado a submergir sob a poeira, ao contrário do que postulam os partidários da Escola do Ressentimento[4]
Afora o tema tratado, chamou-me a atenção o fato de que o público presente hora ou outra trazia à tona a escola. Por um instante, a educação foi relacionada à leitura ou à falta dela, tornando-se ela mesma objeto de uma polêmica cuja agitação afasta todo o pó, tornando-se perene em razão das dificuldades vividas por professores e alunos frente à indiferença do poder público. 
Por fim, também veio à luz o abaixo-assinado em que leitores e críticos pediam a não dilapidação do conto machadiano, quando se ressaltou que um outro articulista o vira como um ato conservador, portanto, veículo contrário à liberdade de expressão. 
Embora a ocasião não permitisse alongar a prosa para o campo das questões ditas libertárias, ficou claro que parte da intelligensia, distante da interpretação estética, preocupação mais individual que de sociedade, prefere interpretar a mutilação da escrita machadiana sob o cunho da crítica social. 
Escritores influenciam outros escritores e, sobretudo, leitores. E, retomando Bloom, se o "eu indivídual é o único método e todo o padrão para a apreensão do valor estético" (2010: 37), ainda que esse "eu individual" só se defina contra a sociedade, como o leitor apreciará a fina ironia machadiana em O Alienista se, num processo de ablação, os funcionários de Patrícia Secco, encarregaram-se, principalmente, da mutilação da escrita. Considerando-se que  "não existem sinônimos perfeitos"- como afirmou a Profa. Micheletti - , o problema se complica.  
Por fim, como rubriquei o tal abaixo-assinado, voltei para casa questionando meu lado conservador, contrário à liberdade de expressão, essa prostituta que, a exemplo da democracia, cada um usa como e quando quer... De estalo, depois de um solavanco no metrô, lembrei-me do David de Michelangelo.
Ora, tome-se obra-prima da escultura renascentista: a cabeça do David é muito maior do que deveria ser, a mão direita também é muito maior que a esquerda, os pés, ao contrário, são muito pequenos em relação ao resto do corpo e os olhos, afirmam alguns especialistas, são olhos de míope! Mas tudo isso se encaixa muito bem na questão da proporcionalidade, algo que contribuiu para a genialidade estética de Michelangelo e ninguém, ao menos que eu saiba, tentou "consertar" o David para facilitar a compreensão dos leigos em arte. 
Agora, deixem-se levar por uma mera suposição: considerem um escultor que se achando genial decida arrumar a cabeça, a mão e os pés de Michelangelo. Poderia? Concordariam todos; protestariam alguns? Os opositores, estes, estariam obstruindo a liberdade de expressão? 
No final das contas, parece-me que a estupidez da Sra. Secco, com a benção da Lei Rouanet e do MinC, contribuiu para o engrandecimento de Machado, isto porque, malgrado as intervenções, o Alienista (o de Machado!) que lemos hoje está muito mais rico depois das diversas leituras e interpretaçoes que agora se incrustam ao conto. 
Como se pode observar, uma boa polêmica dificilmente se mantém sob a poeira. E, uma vez que se mutilou Machado com a ajuda do contribuinte (sim! dinheiro público!), por que este não pode esbravejar? Pedir silêncio, ah, isso já é demais!!!

[1] http://opiniocia.blogspot.com.br/2014/05/machado-de-assis-e-choradeira-dos.html.
[2] O debate fez parte do evento "Livros em pauta" e teve como mediador Bruno Anselmi Matangrano.
[3] CARRIÈRE, Jean-Claude; ECO, Umberto. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record,  2010, 51. 
[4] Veja Harold Bloom em O Canône ocidental (Rio de Janeiro: Objetiva, 2010).

Imagens: 1. O Alienista - adaptação em quadrinhos de Fábio Moon e Gabriel Bá, Editora Agir; 2. Mão de David - ambas extraídas do Google Images. 


sábado, 18 de junho de 2011

25 anos sem Jorge Luis Borges


A morte em Genebra, há 25 anos, do escritor argentino Jorge Luis Borges provavelmente privou a literatura hispano-americana de seu mais célebre ícone. Sua popularidade e ascendência contavam então com poucos rivais. Curiosamente, o tempo jogou a seu favor. E hoje, quando se reedita na Espanha boa parte de seus livros, sua obra continua sendo um farol que ilumina as novas gerações. Sua maneira de escrever, tanto como sua maneira de ler, sua audácia na hora de apagar as fronteiras entre os gêneros, de fazer poemas-ensaios, contos-poemas ou ensaios-contos, de definitivamente passar por alto a dicotomia ficção-não ficção, o transformaram em um profeta do devir da literatura moderna.
Borges morreu em 14.6.1986, aos 86 anos. Não foi uma casualidade ir a Genebra para morrer, cidade com a qual tinha laços desde a infância. Borges não quis voltar a Buenos Aires diante do temor de que sua agonia se transformasse em um espetáculo nacional. A ideia o aterrorizou de tal maneira que quando soube que estava com câncer, durante uma viagem pela Itália, pediu por favor a sua mulher, María Kodama, que não dissesse nada e que voassem para a cidade suíça. Ali, comunicou sua intenção de ficar até o final. No
entanto, sua reta final não foi a de homem resignado. Durante os meses que passou esperando a morte, dedicou-se a estudar árabe.
Borges foi um escritor enormemente midiático, provavelmente um dos primeiros a se transformar em celebridade literária, mas sua fama nunca foi correspondida em número de leitores. "Essa era uma sensação que ele já tinha e que infelizmente foi corroborada depois de sua morte", afirma Kodama. Entre as estratégias comerciais para atrair leitores está a compra há um ano pela Random House Mondadori dos direitos dos 54 livros de sua obra. Sempre editado na Espanha pelas casas Emecé e Alianza, Borges passou assim, em bloco, para outras mãos, depois de uma negociação capitaneada por seu agente, Andy Wylie El Chacal. "Também temos os direitos digitais, e isso em Borges será muito importante", indica um diretor da Random House, que nega que Borges não seja lido: "Se vende muito, sobretudo duas ou três obras suas".
Enquanto na Argentina se optou por lançar as obras completas e a edição de bolso, na Espanha, por enquanto, foram editados os contos completos e a poesia completa (ambas pela Lumen) e, na Delbosillo, Historia Universal de la infamia, Ficciones, El Aleph, El libro de arena, Historia de la eternidad e, em um só volume, Inquisiciones e Otras inquisiciones. No outono se somarão Miscelánea e, em um estojo de três volumes, Textos recobrados.
Paralelamente, outras editoras aderiram a essa onda de reedições. A Nórdica com Kafka Borges, uma edição ilustrada tipograficamente que inclui vários relatos de Borges para os quais Kodama deu os direitos e, na Alfaguara, Cuentos memorables según Jorge Luis Borges, uma antologia inspirada em uma entrevista do escritor.
Mas a voz de Borges vai além do próprio Borges. Escritor de escritores, só entre as novidad
es dos últimos tempos se encontra Help a él (Periférica), essa sequência de El Aleph do recém-falecido Roberto Fogwill, escritor que poderia se apresentar como a nêmese do próprio Borges, ou El hacedor de Borges. Remake, de Agustín Fernández Mallo (Alfaguara). Para o líder da chamada Geração Nocilla, Borges é "o grau zero da literatura". "Nele se concentra toda a literatura anterior, lançando uma nova literatura que chega aos nossos dias. Tem vida. Por seu caráter poliédrico, sugestivo. Pode ser estudado a partir das matemáticas, da astrologia, da semiótica. Li El hacedor com 18 anos e me abriu um mundo desconhecido."
"Foi muito útil para nós o modo como resistiu ao estereótipo sobre que tipo de escritor era", afirma Ricardo Piglia. "Era muito latino-americano e muito pouco latino-americano ao mesmo tempo. Borges contista, Borges poeta, Borges leitor? É a mesma coisa, embora o dividamos para nos entendermos. Avançou em algo que mistura ficção e autobiografia, isso que hoje se encontra em Magris ou Sebald ou em muitos outros, e que ele fez nos anos 40." É o que Alberto Manguel denomina AdB e DdB. "Existe a literatura Antes de Borges e a literatura Depois de Borges. Borges criou sua obra na medida em que a ia lendo, e ia lendo na medida em que criava sua obra. Deu poder ao leitor, o poder de decidir o
que é que estamos lendo."
Sabe-se pouco da intimidade de Borges e menos ainda da de seus últimos dias. A viúva, María Kodama, aproveitou nestes dias sua presença na Casa da América para revelar a uma legião de fiéis leitores borgianos alguns detalhes pouco conhecidos da estrofe final de seu marido. "Para Borges a intimidade era sagrada, ele se autodenominava um cavalheiro do século 19. E foi esse pudor que o levou a querer morrer em Genebra. Não queria ver sua agonia empapelando sua cidade [Buenos Aires]", relatou Kodama.
Como prova de seu insaciável e legendário apetite intelectual, Kodama lembrou que o escritor "passou os últimos dias estudando árabe". "Ele queria que continuássemos nossos estudos de japonês, mas não encontrei nenhum professor a domicílio. Buscando o japonês, vi o anúncio de um egípcio de Alexandria que ensinava árabe. Borges se animou com a ideia. Eu lhe telefonei logo, sem reparar que eram 11 horas da noite, que na Suíça são como 4 da madrugada no resto do mundo, e lhe dei todo tipo de explicação porque não podia ter um não como resposta. Eu estava desesperada. Marquei encontro no fim de semana no hotel. Quando abri a porta e ele viu Borges, começou a chorar. "Por que não me disse?", perguntou entre soluços. "Li toda a obra de Borges em egípcio." Eu não lhe disse nada porque queria que fosse o destino que decidisse, não queria lhe dizer que as aulas eram para Borges, preferia que pensasse que eu era só uma mulher louca. Aquele professor lhe dedicou horas belíssimas nos últimos dias de Borges, desenhando em sua mão as preciosas letras do alfabeto árabe. Tomamos chá, conversamos. Passamos divinamente."
Borges morreu em 14 de junho, há 25 anos. E agora sabemos que entre todos os saberes que se extinguiram com ele contava-se também um incipiente conhecimento de árabe.
A partir de Borges se agranda después de Borges, de Elsa Fernández-Santos, El País.com
Imagens: Caricatura e foto disponíveis no Google Images.